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Prti a cabeça a um aluno

por António Tavares, em 16.08.17

Parti a cabeça a um aluno

O facto de passar os primeiros meses nos TLP sem chefia, fez com que respondesse aos mini concursos para professor de liceu. E como na altura ainda havia falta de professores, acabei por ser colocado a dar aulas em Lisboa, durante 3 ou 4 anos. Primeiro dei aulas mesmo de dia (ao fim da tarde), depois só aceitei horários nocturnos (suplementares). Dei aulas na Escola Luís de Camões, Liceu D Leonor, escola Nuno Gonçalves, Escola Luísa de Gusmão. Só quando fui colocado num horário totalmente de dia, na escola Manuel da Maia em campo de Ourique é que desisti.

Na escola Nuno Gonçalves apanhei uma turma de repetentes que, de tantas faltas dadas durante o dia, foram passados para a tarde/noite (horário supletivo). Eram oriundos dos bairros de barracas das traseiras da escola: Alto da Eira.

Um dos ditos alunos vinha para a aula de matemática com os braços cruzados.

- Para onde é que vens?

Inquiri.

- Para a aula de matemática…

- E caderno e livros?

- Não é preciso.

- Assim não entras.

Participei dele várias vezes. Até que foi castigado e suspenso da escola.

Certo dia, cerca das 11 da noite, numa noite de verão, dava aulas numa sala do rés-do-chão, com as janelas abertas. O dito cujo entra-me pela janela saltando para o meio da sala e apresentando-se em frente a mim com fato branco de judo, cinturão e matracas enfiados nele.

- Preciso de falar consigo…

Com a calma que só se consegue nestas situações disse-lhe que sim senhor… podíamos falar, mas que seria melhor falar lá fora, longe dos restantes alunos. E enquanto falava com ele fui-me deslocando para a porta. Apercebi-me que o aluno que estava na cadeira mais perto da porta era seu compincha e tinha chegado a carteira para a frente para trancar a porta.

Sem pensar em nada meto a mão por baixo da carteira, levanto-a, atiro-a para cima do compincha e abro a porta. Ao ver a porta aberta o dito cujo volta a saltar pela janela. Saí da sala de aula, vou à secretaria e por telefone ligo para a esquadra. Que a escola tinha sido assaltada… que era preciso vir um piquete. E veio… e levaram-no. Do resto não me lembro mais.

Só sei que uns dias mais tarde ao acabar as aulas perto da meia-noite, tinha os 4 pneus do Fiat furados. E na rua em frente um grupo de rapazes ria às gargalhadas. E desse grupo sobressaía o dito cujo…

Doutra vez na escola Luísa de Gusmão apanhei outro sorna mas brincalhão. Não estudava nem deixava estudar. Cada vez que me virava para a frente punha-se a fazer negaças e distraía toda a turma. Pu-lo na rua vezes sem conta. Depois ia para o recreio fazer as mesmas negaças junto da janela que estava aberta e também ficava no rés-do-chão.

Um certo dia coloquei a régua de madeira debaixo do braço, junto do corpo e fui-me chegando para a janela enquanto a aula ia decorrendo. E quando me apercebi que ele estava atrás de mim, sem me virar fiz um arco com a mão e com a régua de tal modo que lhe acertei mesmo na testa. Partiu a testa e foi mesmo receber assistência médica.

Mas ficou meu amigo. Mais tarde encontrei-o a trabalhar numa mercearia da rua Andrade e quando me viu agarrou-se a mim e fez uma festa:

- Olha o doutor…

E quando certo dia fui concorrente do 1-2-3 da RTP, apresentado pelo Carlos Cruz, ele estava presente porque fazia parte do público arregimentado para bater palmas. Mais uma vez me fez uma grande festa e arregimentou mesmo uma claque para me apoiar.

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publicado às 16:24

Finalmente Dr

por António Tavares, em 16.08.17

Finalmente Dr

No verão de 1974 (pós 25 de Abril) o governo decidiu que as faculdades não iriam ter primeiros anos nesse ano. Foi aqui que se gerou uma confusão com toda uma geração que nesse ano devia entrar nas faculdades. Foi resolvida com a criação do ano propedêutico, mais tarde 12º ano.

Mas os ex-militares sempre gozaram de um estatuto especial porque, para os compensar da ida à guerra, podiam tirar cursos com currículos abreviados. Em Outubro desse ano juntamo-nos no ISE (hoje ISEG) e exigimos ter aulas nesse ano. Criou-se uma comissão, combinamos com os professores que foi possível. Criou-se um currículo só para nós e apresentámos a proposta. Não foi aceite.

Insistimos no ano seguinte 1975/1976. Já havia primeiros anos, mas nós, ex-militares conseguimos mesmo uma turma e um currículo especial para nós. De Outubro a Março fizemos 2 anos (1º e 2º) e de Março a Julho fizemos o 3º ano. Ou seja o curso de 5 anos foi tirado por nós em 3 anos. E não havia ainda Bolonha….

Foi durante a minha licenciatura que a secretária dos patrões se incompatibilizou comigo. A princípio gostava muito de mim e tratava-me quase como filho. Quando comecei a estudar no ISE metia por vezes baixa na altura dos examos para estudar. Mas ia às aulas que começavam pelas 19 horas. Ela saía do escritório pelas 18 horas e deslocava-se para casa em Campo de Ourique. Cruzávamo-nos muitas vezes nos nossos carros no mesmo percurso. Fez-me a vida negra a partir daí: queixas ao patrão, que estava de baixa mas ia para a faculdade, participações à Segurança Social, etc. Nunca mais me pode ver.

A última discussão do último trabalho da última cadeira do último ano feita, já nós estávamos de férias na Ericeira, numa manhã de um domingo de Agosto, em plena esplanada do Jardim das Estrela, a olhar para os patos e a beber uma imperial…

Média de 13 valores. Nem Bom nem Mau… assim, assim…

Em 1982, acabada a licenciatura, comecei a procurar nova profissão. Até porque com a adesão primeiro à EFTA, depois à CEE, começaram a ser eliminadas as barreiras alfandegárias e previa-se que a profissão de despachante tenderia a desaparecer com o tempo. Não desapareceu mas veio mais tarde a ser muitíssimo reduzida.

Eu e um grupo de despachantes licenciados criamos um grupo de pressão para sermos integrados na própria Alfândega. Nunca dei muita importância a esta solução que veio mesmo a acontecer mais tarde, porque o que queria era mudar para outra área.

Comecei a responder a anúncios na área da gestão, informática, sistemas, etc…

Qual não foi o meu espanto quando numa entrevista para uma empresa de sistemas de informação sou recebido por uma das filhas do patrão Despachante Oficial. Ela conheceu-me e eu conheci-a. Afinal aquela empresa também era de um dos meus patrões.

Dois dias depois o sr Visconde chamou-me. Cristão, opus dei, benfeitor de igrejas e de hotéis de padres em Fátima… Que era indesejado ali no escritório, que estava a dar a morada e o telefone do escritório como se fossem meus para eu receber contactos…

- Se tem algum motivo para me despedir, despeça-me…

O nosso sindicato tinha negociado um ACT que previa o pagamento de 6 meses de ordenado por cada ano de trabalho. E já eram 13.

- Não te despeço porque não tenho motivos para isso. Mão não gosto de ti aqui. Arranja emprego e vai-te embora…

Felizmente, logo em Setembro de 1982, acabei chamado para os TLP. Trabalhar em Organização e Métodos.

Apresentei ao patrão uma carta reivindicativa onde dizia que só ficava se me pagasse isto e isto e mais aquilo. Que era o que ia ganhar num novo emprego que conseguira. Mentira! Fui ao sindicato e informei-me daquilo que teria direito em caso de me ir embora. Levei uma carta do advogado do sindicato e entreguei-a no escritório. Pagaram-me rigorosamente o que a carta dizia. Exigi uma carta de recomendação onde fossem explicadas as minhas capacidades profissionais.

Antes de me ir embora o patrão chamou-me, deu-me a dita carta de recomendação e pediu-me para assinar um acordo em eu e ele acordávamos numa saída por mútuo acordo. Acedi. Afinal já não valia a pena fazer mais guerras. Já não me lembro do conteúdo da carta de recomendação. Mas sei que foi feita em termos elogiosos.

Entrei para os serviços de organização dos TLP em Outubro de 1982. À experiência por 6 meses. Eu o Fernando Carvalho e a Clementina (mais tarde professora no ISCTE e responsável pelos mestrados). Entramos numa altura do boom das comunicações, num período de profundas transformações, Marconi, CTT, TLP. Fusão, não fusão. Gestão comum, gestão separada…. Empresas todas na área da gestão pública. Entram novos gestores mas não saem os antigos. Compra-se um prédio para ficarem todos nas prateleiras, com secretárias e tudo…

Nesta confusão passaram-se 10 meses, nós estávamos num prédio velho da Rua das Pretas. Sem chefia. Sem nenhuma orientação. Íamos ter com os responsáveis da Rua Andrade Corvo e só nos diziam:

- Deixem-se lá estar. Alguém irá ter convosco…

E assim passaram os 6 meses e nós entramos definitivamente para os TLP.

Quando finalmente assentou uma estrutura na empresa e tivemos um director, fomos fazer um curso de 10 meses de Organização e Métodos. Curso com interesse mas que nunca conseguimos aplicar. As guerrilhas internas nunca permitiram. Estava responsável pelo estudo das secretarias administrativas das centrais telefónicas. Fiz muitas análises e propostas de solução. Foram poucas as que foram implementadas.

E quando um dia acompanhei o nosso director numa visita ao departamento de engenharia dos TLP disse-lhe, orgulhoso:

- Aqui está o meu primeiro trabalho de organização nesta casa: a reorganização deste espaço para criar um gabinete para a secretária…

 Nem me deixou acabar e à frente de toda a gente (umas 20 ou 30 pessoas), com uma mão na anca e a outra a apontar em arco para toda a sala por cima das pessoas disse em voz grossa:

- Pois o meu primeiro trabalho em organização nesta casa foi mudar o mobiliário todo desta gente. Quando cheguei tinham secretárias de madeira do tempo dos ingleses. Eu comprei secretárias metálicas modernas e funcionais para toda a gente…

Toma e embrulha! Tive que me reduzir à minha insignificância…

Este director era muito conhecido pelo seu ar de galã (de que se dizia que tinha muito proveito) e de peito levantado. Sempre bem relacionado mas distante dos seus subordinados. Quando, passados 2 anos, mudei para outra área de trabalho dentro dos TLP convidei todo o pessoal da área de Organização e Métodos para uma sardinhada na nossa Casa da Paria na Ericeira. Ele também foi. Coisa que espantou toda a gente, porque normalmente ele não alinhava neste tipo de iniciativas. E até levou a esposa. E os filhos. E até segurou na mangueira para se lavarem os pratos. Dizia a esposa para a Fernanda:

- Oh… é só isso que ele sabe fazer, pegar na mangueira…

Involuntariamente ainda lhe pregamos uma partida sem querer. O carpinteiro tinha-nos entregue a mesa e os bancos da adega na véspera. Como eram de pinho quisemos passa-los todos com bondex. Não sei porquê no banco na ponta onde ele se sentou (à chefe) o bondex não secou. E quando se levantou ficou com os calções brancos do ténis manchados de bondex no rabo.

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publicado às 15:26

O regresso

por António Tavares, em 16.08.17

O regresso

A minha partida para África não foi da maneira mais comumente publicitada: de barco, milhares de familiares no cais acenando com lenços brancos… não. Saímos de Torres Novas em camiões directamente para o aeroporto militar de Figo Maduro (Portela). Ninguém a despedir-se de nós. Num fim de tarde de Abril de 1972. Num dos 2 Boing 707 brancos da Força Aérea.

Como em Moçambique me separei da minha companhia, acabei por vir de regresso naquilo que se chamava “rendição individual”. Como vinha sozinho (não integrado em nenhuma companhia) o exército não providenciava o meu transporte para além do aeroporto de Lisboa.

Sabendo disso escrevi para os meus irmãos em Queluz avisando da minha chegada. 25 de Maio de 1974. Esperava que me viessem buscar.

Tal como na partida, não havia barco nem familiares no cais acenando. Aterramos na Portela pelas 3 horas da manhã. Ao fim de 2 anos de ausência ninguém me esperava. Vi-me sozinho, com uma mala de mão em pleno aeroporto militar de Figo Maduro. Sem uma única moeda no bolso. Solução? Peguei um táxi e disse ao motorista que acabava de chegar de Moçambique, não tinha dinheiro, que me levasse a Queluz, que algum dos meus irmãos teria dinheiro para lhe pagar. Assim foi.

Recebido sem euforia. Como se fosse um estranho.

Os dias seguintes foram passados a tratar das burocracias: apresentação no quartel de Adidos na Ajuda para receber a carta de passagem à disponibilidade e ida aos serviços financeiros do exército levantar os tais cento e tal contos do sargento. Depositei-os na conta dele no Totta e retive os meus 10%. Foi este o primeiro dinheiro que tive depois de 3 anos de tropa como oficial miliciano, posto este que muito me custou a conseguir, ajudado apenas por quem não me era nada, eram apenas meus amigos.

E ir ter com a Fernanda…

Apresentei-me uns dias depois no escritório do despachante. Podia ter gozado um mês de férias mas não quis. Para quê ir de férias? Disse que precisava de trabalhar já, porque não tinha dinheiro. Concordaram em que começasse de imediato, pois até começava a haver mais movimento no cais com a previsão de chegada dos retornados. E até me deram um ordenado a mais (relativo ao mês de férias que não gozei). Os mesmos 5 contos por mês que já ganhava dois anos antes, antes de ir para a tropa.

Os tempos seguintes foram vividos na euforia do pós 25 de Abril. As barricadas, o PREC, os SUV (Soldados Unidos Vencerão), da reforma agrária, das nacionalizações. De vez em quando aviões e helicópteros no ar. O sr despachante tinha arranjado uma sala para o seu tio trabalhar. Havia sido saneado do SNI (Secretariado Nacional de Informação = propaganda). Numa certa segunda-feira fomos surpreendidos pela entrada dos fuzileiros. Vieram prendê-lo.

Trabalhavam no escritório mais de 80 pessoas. Fez-se uma RGT (reunião geral de trabalhadores), foi eleita uma CT (comissão de trabalhadores), o Manel Lopes ficou como presidente, foi eleita uma Comissão de Gestão, conseguimos que o primo Manel de Moura ficasse do nosso lado. Ele era o mais antigo, amigo e braço direito do patrão, seu comparsa na Opus Dei e nos Cursos de Cristandade.

Os familiares diretos do patrão (filhas e genros) fugiram para o Canadá. Dizia-se que levavam nos caixotes que despachámos no cais, as baixelas e as pratas.

Quando, passados os tempos do PREC, tudo voltou ao normal, o patrão não mais perdoou ao primo Manel de Moura a traição de se ter posto do nosso lado.

Passamos a controlar as contas. Havia muito dinheiro disponível. Foi decidido fazer-se todos os anos a distribuição de lucros igualitária (igual para todos), foi decidido um aumento extraordinário de ordenado. Eu passei de 5.000$00 para 12.500$00. E com retroactivos desde o dia do meu regresso. O suficiente para comprar o meu primeiro carro, um Fiat 128. E a pronto. Logo no dia a seguir a ter recebido o dinheiro, entrei no stand da Fiat na Rua de Santa Marta (mesmo ao lado da pensão onde morava) e comprei o único quer estava disponível: verde.

Já na altura o seguro era obrigatório. Não tinha dinheiro para ele. Escrevi uma carta à minha mãe a contar que precisava de pagar o seguro do carro, para que me mandasse algum do que tinham recebido do meu ordenado durante 2 anos.

Mandou qualquer coisa que nem para metade do seguro chegava. Que tinha sido gasto com este e com aquele e com aquela (meus irmãos). Que mandava o que podia. Ainda hoje eles não percebem que estiveram a gastar durante 2 anos parte do meu ordenado. Sempre pensaram lá em casa que aquele dinheiro era uma compensação do Estado por eu estar na guerra.

Quem me ajudou a pagar o resto do seguro foi o meu futuro sogro (Sr Gervásio Cardoso) a pedido da minha namorada, Fernanda.

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publicado às 15:01

Louvor

por António Tavares, em 28.07.17

LOUVOR

E apareceu mesmo.

Aqui está o louvor que recebi, pelos bons serviços prestados à nação. Publicado na Ordem de Serviço nº 265 de 13NOV73 do QG/RMM, página 2252 do Diário Oficial, no ponto III - JUSTIÇA E DISCIPLINA.

"Louvo o Sr. Alf. Milº. 09019771, ANTÓNIO GONÇALVES TAVARES, porque, prestando serviço na Companhia de Comando e Serviços do Quartel General, há cerca de dezasseis meses consecutivos, sempre tem demonstrado boas qualidades de trabalho, muita dedicação e zelo nos serviços que lhe têm sido cometidos.

Oficial compenetrado da sua missão e dando mostras da melhor boa vontade e espírito de bem cumprir, cedo se revelou como elemento de real valor nos quadros da sua Unidade, accioando com perfeita regularidade e prontidão, todas as tarefas a seu cargo, mormente as relacionadas com os serviços inerentes à Secção de Movimento Auto, de que tem sido encarregado patenteando, em todas as ocasiões, uma cuidada e permanente preocupação em colaborar honestamente na resolução rápida dos inúmeros problemas postos à considerção do Comando.

Pelo que se referiu e ainda pelas suas qualidades de lealdade e franqueza com que sempre vem alvitrando novas formas e sugestões para uma melhor solução dos serviços da Unidade, é o Sr Alf. TAVARES digno da estima dos seus superiores que o consideram digno de ser distinguido com este público louvor".

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publicado às 10:35

Jantar com lacraus e o regresso

por António Tavares, em 24.07.17

Jantar com lacraus

e o regresso

Estava em Nampula um amigo meu, Tenente, que tinha uma carrinha Volkswagen variant vermelha. Demos muitos passeios nela. Eu arranjava a gasolina em jerricans militares e aí íamos nós.

Até António Enes (hoje Angoche), 300 quilómetros abaixo de Nampula. Havia lá um aquartelamento de retaguarda. Não era zona de guerra. Boas praias. De vez quando eramos convidados para uma festa. Caçavam um javali. Espetavam-no no espeto. Brasas por baixo. Arranjava-se um mainato para ir dando à manivela e ir barrando com molho especial. Nós era só espetar o garfo, cortar e comer. E beber cervejas. Fizemos isto várias vezes.

Íamos até à Praia das Chocas. Esta praia fica alguns quilómetros acima da Ilha de Moçambique, seguindo a linha da costa. Por estrada são bem mais de 100. Há que fazer um percurso pelo interior do continente para atravessar braços de mar, pântanos e zonas de salinas, passando pelo  Lumbo e pelo Mossuril. Esta praia Ganhou fama quando a Ilha de Moçambique era a capital e o principal polo comercial. Era a praia de férias de todos os comerciantes da zona. Desde Nampula eram perto de 300 quilómetros.

Quilómetros de praia de areia branca e águas límpidas de cor azul opala. Grandes moradias. Morava numa delas um alemão que, dizia-se, seria refugiado nazi. Tinha por companhia apenas uma cobra gigante. Caçava e criava coelhos para lhe dar. Era a certeza que nunca seria assaltado. A cobra, dizia quem a viu, tinha a cabeça na cozinha, percorria os corredores e saía pela porta para o quintal.

Parece que o sujeito vivia do comércio internacional de conchas. Percorria as praias três dias para cima, três dias para baixo, a apanhar conchas. Depois vendi-as aos seus correspondentes do mundo inteiro.

Teria sido em tempos engenheiro ou arquitecto. Parece que toda a gente que construía casa ali lhe pedia conselhos. Ele conhecia as marés e os ventos. Sabia qual a melhor localização e orientação da casa, no sentido de tirar o melhor partido das condições locais.

Fomos passar um fim-de-semana alongado à praia de Lunga. 200 quilómetros abaixo de Nampula. 100 quilómetros abaixo da Ilha de Moçambique. Logo depois do Monapo, já em plena picada, cheirou a queimado debaixo do banco de trás da carrinha VW variant. Parámos rápido e saímos. Já havia fogo debaixo do banco. A bateria estava a fazer curto-circuito e pegou fogo aos inúmeros papéis que que havia pelo chão. Conseguimos arrancar os bancos e apagar o fogo.

Após a reinstalação de todos os componentes reparamos que a bateria se tinha descarregado e o pneu suplente estava vazio. Voltar para trás. Qual quê! Seguir em frente. Mesmo para o meio da selva, para uma zona onde não havia luz, telefone, rádio…

Felizmente aqui era uma descida e foi fácil. Bastou ir andando engatado, o motor pegou e aí vamos nós.

Embrenhamo-nos numa zona mato e selva. 100 quilómetros em redor da praia de Lunga quase não mora ninguém. As picadas são de areia. Moram leões.

Ao aproximarmo-nos de um regato os bambus de um lado e de outro faziam um túnel, pelo qual tínhamos de passar. Os macacos pequenos, dependurados das canas eram às dezenas. Passamos muito devagar para que o carro não se fosse abaixo.

Finalmente a praia. Linda. Uma concha quase perfeita, que ligava ao mar por um canal estreito que tinha palmeiras de cada lado. Areia branca impecável. Águas límpidas. Alguém construíra uma cabana de colmo em plena areia. Os primeiros arbustos junto da areia tinham umas bagas de aspecto delicioso.

- Podem-se comer. Sabem a maçã. Por isso se chamam maçanicas.

Passaram a fazer parte da nossa dieta. Foi necessário ir apanhar lenha para fazer uma fogueira na praia. Para preparar a comida, para nos aquecermos da friagem da noite e sobretudo para afugentar os leões. Ouviam-se os seus uivos ao longe. E eles têm medo do fogo. Dormimos por ali. Uns dentro da cabana, outros em volta da fogueira enrolados em cobertores. De noite quem acordasse e visse o lume em baixo, tinha que acrescentar mais paus.

No domingo fomos ter com uma família que tinha assentado arraiais num conto da praia, há já muitos anos. Vivia da pesca e das hortas. Negociava com quem aparecesse. Porque não havendo ninguém por perto a localidade tinha posto de régulo e andavam sempre gentios por ali. Tinham um coberto com mesas e bancos que funcionava por vezes como restaurante. Possuíam um gerador.

Prepararam-nos um coelho à caçadora. Uma delícia em plena selva.

O pior foi preparar para regressar. O carro estava numa picada de areia, sem bateria e sem pneu suplente. Os 6 manos lá o empurraram para uma zona mais favorável e viemos embora.

Nos domingos de manhã toda a gente em Nampula passava pela feira de artesanato em pleno adro da Sé. Subia-se à torre, tiram-se fotos e observavam-se os trabalhos, sobretudo de pau-preto. Muitas bancas e uma variedade de trabalhos que me faziam passar horas a pensar como seria possível esculpir, moldar, fazer trabalhos de torno tão bonitos, deixar umas peças encaixadas noutras num abraço tão perfeito. E isto sem grandes ferramentas, numa madeira tão dura. E trabalhos de prata (ou imitação): pulseiras, argolas, cordões. E missangas? Muitas. E chifres de animais? Muitos. E conchas. Ainda por lá andei a comprar algumas coisas para meter no caixote que trouxe de regresso.

No meu último dia de anos em África foi jantar com um grupo de amigos a um restaurante bem afastado da cidade, em plena estrada para Nacala. A particularidade é que ele tinha várias cabanas espalhadas pela selva em redor. Redondas, uma mesa no meio, bancos corridos redondos em volta da mesa. Os tectos eram de colmo. A meio um candeeiro grande. Cada cabana permitia albergar uma dúzia de manos à volta dum petisco qualquer. O nosso voltou a ser coelho à caçador.

A meio da refeição alguém disse:

- Olhem para o tecto!

O tecto era de colmo e não sei se atraídos para luz, se pela frescura do local, nele passeavam vários lacraus de vários tamanhos. Grandes e pequenos. Alguns mesmo bem grandes. Os mais espantadiços levantaram-se e foram chamar o proprietário.

- Não tenham medo. Fazem parte da casa. Andam sempre por aí e também não saem dali. Se não se meterem com eles não fazem mal nenhum a ninguém

Certo é que muito boa gente passou o tempo foi a olhar para o chão.

- Os de cima não fazem mal. Mas se vem algum pelo chão?

No final de 1973 já se aproximava o fim da minha comissão. Comuniquei ao comandante da companhia a minha ansiedade em pensar substitui-me. O mesmo que Mafra me quis dar uma porrada por causa dos distúrbios motivados pela morte dos 4 cadetes. O mesmo que ficou admirado de me ver ali na cidade, sabendo que eu tinha ido para atirador e devia estar em zona de guerra. Disse-me que isso logo se via, mas que tinha gostado do meu trabalho ali. Que me ia passar um louvor na passagem à disponibilidade. Podia ser-me fosse útil na minha futura vida de civil. Descobri depois que era da praxe: todos os militares que passavam à disponibilidade recebiam louvores. A menos que tivessem cadastro. E passou. Quase meia página, publicado na Ordem de Serviço. Guardei uma cópia até há pouco tempo. Queria incluí-lo nestas minhas memórias. Nas limpezas que faço de vez em quando estive com ele na mão. Com medo de o perder guardei-o tão bem que não sei onde o pus. Se o encontrar, ainda o hei-de incluir aqui.

Quando se dá o 25 de Abril eu tinha viagem de regresso marcada para uns dias depois. Fiquei lixado: viagem adiada. Depois de muita pressão sobre o pessoal dos transportes lá marcaram a data do meu regresso para o dia 25 de Maio de 1974.

Chegou finalmente o dia em que ia partir de Nampula rumo a Lisboa. Tinha despachado tudo no caixote. Fiquei só com uma mala de mão. Já não veio ninguém para me substituir. Tinha começado a debandada. O sargento assumiu o lugar de fazer a liquidação dos serviços da secção de viaturas do QG. O meu condutor foi-me levar de jeep ao Aeroporto. Despediu-se com lágrimas:

- Leve-me consigo! Gostei muito se si.

Avião da DETA até à cidade da Beira. Fiquei alojado por uns dias num hotel com 15 andares. Nas deambulações que fiz pela cidade acabei de me encontrar com o pessoal da minha companhia inicial que já estava há algum tempo sediada na Beira, à espera pelo voo de regresso. Aconteceram algumas morte e muitos feridos. Quiseram dizer-me nomes. Já não me lembrava deles, mas não mostraram ressentimentos por os ter “abandonado” logo no início.

- É a vida…

Acabei por embarcar ainda primeiro que eles.

Passei horas desesperado na varanda do aeroporto da Beira esperando ver chegar o Boing 707 branco da Força Aérea. 7 horas até Luanda. Paragem logística no aeroporto para beber as primeiras sagres em 2 anos. Mais 12 horas até Lisboa. Grande parte da viagem feita de noite sobre o mar ao longo da costa a ver as luzes das cidades. Será Dakar? Será…

Chegada prevista para Lisboa às 3 da madrugada.

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 Carrinha VW variant do meu amigo na picada para a Praia das Chocas e descanso no Mossuril.

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Praia de Lunga: canoas rumo ao infinito...

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Praia de Lunga: nascer do sol por de trás da cabana.

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Paria de Lunga: durmir na praia.

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Nampula: Feira de artesanato vista da torre da Sé. à direirta a Sé.

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Nampula: feira de artesanato.

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Nampula: Feira de artesanato - Obras de pau preto

 

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Cidade da Beira: nunca tinha visto prédios tão altos.

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Aeroporto da Beira: ei-lo a chegar, o Boing 707 branco que me ia levar a Lisboa...

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publicado às 12:05

Roubaram a minha filha

por António Tavares, em 19.07.17

Roubaram a minha filha

A Fernanda fazia parte da meia dúzia (menos…) das raparigas que se mantiveram até ao fim da minha comissão militar, como minhas correspondentes. Era de longe aquela com quem mais me correspondia e mais desabafava. Já quase nos correspondíamos como namorados.

Até que algures ali pelo início de Janeiro de 1974 deixei de receber cartas dela. Todos os dias lhe escrevia e nada de respostas. E logo agora que acabara de comprar um conjunto de caneta e esferográfica para lhe enviar pelos anos, com o nome dela gravado e tudo. Parece que o mundo todo se estava a desmoronar.

Até que passado algum tempo lá veio uma carta. Abri-a a medo. Temia a resposta. Afinal os meus medos eram infundados. Ela tinha sido atropelada na Av. da Liberdade quando regressava da faculdade, tinha partido uma perna e estava em casa à espera de ser operada.

De um receio passei para outro: do medo de me ter esquecido, mudei para o medo de que algo pudesse correr mal com ela…

O resto do tempo, Janeiro a Maio, passei-o com muita ansiedade.

Assim que regressei a Lisboa telefonei-lhe e combinamos um encontro em casa dela, para o primeiro domingo que foi possível. Saí do comboio no Rossio e comprei-lhe um ramo de rosas vermelhas. Subi a pé a Rua dos Cavaleiros até ao número 5 da Rua de Santa Marinha, 4º andar esquerdo.

Fui recebido em festa. A Dona Palmira esmerara-se a limpar a casa e a preparar uma refeição ligeira.

A Fernanda tinha sido operada. Tinham-lhe colocado uma barra de metal no interior do fémur partido, com um pedaço de fora na anca, para mais tarde ser puxado e retirado. Aos poucos já se levantava e sentava. Mas estava renitente em descer as escadas, mesmo apoiada nas bengalas.

Como trabalhava no Campo das Cebolas e saía às 18 horas, passava quase sempre pela Rua de Santa Marinha. Fazia-lhe companhia, acabava por ficar até ao jantar e só depois seguia para Queluz de comboio. Aos domingos lá vinha eu depois do almoço com um ramo de rosas vermelhas comprado no Rossio. Aos poucos passei a vir almoçar todos os domingos.

A Olga (uma amiga da Fernanda – acabou por vir a ser a madrinha do Bruno) tinha uma filha pequena (Alice) e um Mini. Começamos a levar a Fernanda a dar uns passeios de carro. Depois eu comprei um Fiat 128. Agora já podia levar a Fernanda a passear. Ao princípio a Olga ia connosco. Os pais dela tinham mais confiança e ela sempre ajudava a descer as escadas e nos passeios a pé.

Certo dia diz-me a D Palmira:

- Você foi um anjo que nos apareceu. Cheguei a pensar que ela não ia sair mais de casa.

O sr Gervásio gostava de conhecer a minha família. Lá fomos num domingo até Cardigos conhecer o sr José Maria e a D Delfina. Já todos os meus irmãos se encontravam em Lisboa, pelo que só foram conhecer os meus pais. No regresso a Lisboa fizemos um desvio pelo Gavião onde fomos conhecer o Padre Alberto (superior do seminário local). Ele era um dos dois padres do Casalinho e tinha mantido uma certa simpatia comigo, sempre que ia lá de férias. O irmão (padre Serafim) era pároco em Tolosa (Alentejo).

Os pais da Fernanda tinham-lhe comprado um andar em Odivelas. Passou a ser também um dos nossos passeios de Domingo, ir até Odivelas.

Os pais da Fernanda eram feirantes e faziam feiras em 2 domingos por mês. Nesses domingos em que eles iam para a feira ficava lá em casa a tia Hortense, para tomar conta da Fernanda e nos fazer o lanche. Nos outros domingos íamos os quatro dar uma volta: Mafra, Ericeira e voltávamos por Odivelas. Primeiro na carrinha Austin do sr Gervásio, depois no meu Fiat 128.

Quando acontecia ser feriado em dias de feira nós metíamo-nos nos transportes e íamos ter com eles. Fomos algumas vezes ter a Odivelas à feira do sr Roubado, à segunda-feira. Voltávamos todos no Austin mini. Juntamente com as madeiras da bancada (no tejadilho) e com os artigos da venda na parte de trás.

Nessa altura estava a ser construída a Calçada de Carriche no local por onde ela passa hoje. A descer ia-se pela estrada do desvio, mas a subir era por aquela azinhaga velhinha que em parte ainda lá está. Na altura toda aquela subida nova era (e foi muito tempo) ainda de terra batida. O sr Gervásio acelerava a fundo cá em baixo para subir, mas, na maioria das vezes, o mini parava a meio. Não aguentava. Saíamos os três (eu a Fernanda e a mãe) e tínhamos que empurrar até ao cimo da ladeira.

Mais tarde, já casados, o sr Gervásio trocou o Austin por uma carrinha Ford Cortina. Mesmo assim íamos muitas vezes ter com eles à feira da Malveira (no nosso carro), ou à feira da Brandoa, aos domingos no regresso da Ericeira.

Certo dia, vindo eles da feira da Malveira à quinta-feira, foram ter connosco à casa de Odivelas. Jantaram e porque estavam cansados ficaram lá a dormir. O carro carregado ficou estacionado mesmo à porta. Hora a hora a D Palmira levantava-se para ver se estava tudo bem. E esteve até às 5 horas da manhã. Nessa altura foi à janela e viu o carro assaltado e as botas da venda espalhadas pelo chão.

Levantamo-nos a correr e fomos participar à esquadra da polícia.

Depois eles vieram para Lisboa e foram ter com um sujeito quem, mesmo deficiente e em cadeira de rodas, parece que chefiava um gang e costumava parar numa tasca do Largo Rodrigo de Freitas, perto da casa deles. Diz-lhe ele:

 - Botas? Em Odivelas? Já sei, foi o Zé Luis da Brandoa. Deixe estar que amanhã falo com ele.

E falou e ainda conseguiu trazer alguns pares de botas.

- Olhe sr Gervásio, foi o que ainda consegui. O resto já ele tinha vendido.

Passado uns meses o sr Gervásio foi chamado a esquadra de Odivelas para ser informado que o ladrão não tinha aparecido e que iam arquivar o processo.

- Deixem lá, não faz mal. Já consegui recuperar o que foi possível.

Embalado deixei-me levar pelas recordações. Vamos voltar à narrativa onde íamos…

Aos poucos fui ficando íntimo da família Cardoso. Ofereci um anel de noivado à Fernanda e pedia-a em casamento. Fui aceite. Combinamos o casamento para Agosto de 1976. Assim os passeios de Domingo passaram a servir para visitar a casa de Odivelas e ir combinando a compra das mobílias. O Sr Gervásio comprara a casa pagou toda a mobília.

Aconteceu que o escritório do despachante entrou em autogestão. Estávamos em pleno PREC (período revolucionário em curso) pós 25 de Abril. Tinha sido eleita uma comissão de trabalhadores. O Manel Lopes, Chefe do Grupo Desportivo, foi o eleito. Foi nomeada uma Comissão de Gestão. O meu primo Manel de Moura apoiou-nos. Como era o braço direito do patrão, foi nomeado para a gerência. Já havia antes distribuição de lucros pelos empregados, segundo os critérios que o patrão entendia. Sempre os recebi. Mas nós exigimos acesso às contas e distribuição de lucros igual para todos. Quando, anos mais tarde, tudo isto reverteu, os mais envolvidos nisto tudo foram os mais prejudicados. Eu e o Manel Lopes incluído. Nunca mais recebi lucros e o patrão nunca mais perdoou ao seu braço direito (o meu primo Manel de Moura) a sua traição.

Chegados a Março havia que marcar as férias. Todos queriam os melhores meses. Não ouve consenso. Decisão da comissão de gestão: as férias são gozadas obrigatoriamente entre os meses de Maio a Outubro (segundo a lei) e escolhidas por sorteio.

Tínhamos decidido casar em Agosto e para espanto de tordos cai-me em sorteio o mês de Maio para férias.

Já no ano seguinte (1977) foi decidido anular o sorteio e fazer uma escala para cada um escolher, mediante alguns critérios. Os primeiros a escolher foram os que tinham ido de férias em Maio e Outubro, depois os que foram em Junho e Setembro. Por fim os de Agosto. Nesse ano é claro que eu escolhi Agosto. Naqueles tempos havia a tradição de se gozar um mês seguido de férias.

Mas voltando atrás. Diz o sr Gervásio:

- Não faz mal. Casam em Maio.

Marcamos casamento para o início do mês.

Igreja dos Jerónimos, Copo de água no restaurante Cozinha Velha do palácio de Queluz. Estava tudo combinado quando me deu o badagaio, 15 dias antes da boda, que me levou a ser operado ao apêndice, já com a infecção a passar a peritonite. Foi necessário negociar o adiamento para o dia 18 de Maio. Conseguiu-se. Mesmo acabado de sair do hospital de ser operado, lá casámos.

Eu não assisti. Mas conta-se que a saída da Fernanda de casa dos pais fez furor. À porta do nº 5 da Rua da Santa Marinha um Rolls Royce dos anos 20 descapotável. No átrio da escada jarrões azuis com plantas. O trânsito cortado. Todas as janelas tinham curiosos à espreita.

Dizia depois o primo Vicente do Milharado, sobrinho do Sr Gervásio:

- A Fernandinha podia ter arranjado um carro mais bonito… foi arranjar um carro tão velho…

Eu fui levado no meu Fiat 128 pelo Carlos (marido da minha irmã Helena – meus padrinhos) de Queluz aos Jerónimos. Entrei pela passadeira vermelha até ao altar. Quem casou depois de nós ainda beneficiou: pagámos a passadeira vermelha, as flores e a música. Eles entraram a seguir.

Depois da cerimónia lá fomos para almoçar. Os convidados seguiram nos seus carros. Nós atrás no Rolls Royce. Quando chegamos a Queluz já havia pessoas a querer voltar atrás à nosso procura. É que o velho Rolls Royce viu-se negro para subir os Cabos Ávila.

Almoço fino. Uns camarões à não sei quê, um pato com qualquer coisa. Tudo contado e medido. O sr Gervásio tinha entregado um cheque assinado ao sr Vidal para no fim pagar a conta. Quando vieram os whiskies o sr Gervásio reparou que os empregados os estavam a racionar para não exceder as garrafas combinadas. Chamou um empregado e disse:

- Coloque aqui várias garrafas. No fim pagam-se as que se beberem.

Acabado o repasto e as fotografias, a tia Alice e o Cabral, juntamente com outras pessoas, foram comer sandes para uma tasca que havia em frente.

- Esta comida não é para nós!

Nós não esperamos pelo fim da festa. Mudamos de roupa e fugimos para a casa de Odivelas.

Parece que a D Palmira fez algum banzé:

- Roubaram a minha filha!

Tudo acabou em bem.

No dia seguinte rumámos ao Algarve. Sem nada marcado. Assentámos arraial em Faro e por lá andámos cerca de 10 dias. Até o dinheiro acabar. Não havia multibanco na altura.

No regresso almoçámos em Castro Verde. Pedimos bifes. Acho que pouco mais havia. Mas ao fim de 45 minutos de espera fomos obrigados a chamar o empregado. Que fizesse a conta ao que já tínhamos comido… que não podíamos esperar mais…

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Era linda ... a minha namorada!

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 Os primeiros passeios com a Olga e com a bengala!

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Na casa de Odivelas. O Bruno ao cola da mãe.

Odivelas2.jpg

Na casa de Odivelas. O presépio que tinha um rio a correr e uma azenha.

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O pai da noiva a pegar-lhe para a levar ao altar. O medo de sair do Rolls Royce era tanto que até o motorista estava atento.

Depois já casados.

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Enfim... já casados.

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Lua de mel no Algarve. Uma selfie tirada nos jardins do Hotel Penina.

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Lua de mel no Algarve. Cheirar rosas e acácias na serra de Monchique.

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Lua de mel no Algarve. Aqui comia-se presunto grelhado e bebia-se Schweppes Maracujá. E fumava-se SG Gigante.

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publicado às 12:41

Ilha de Moçambique

por António Tavares, em 22.06.17

Ilha de Moçambique

Os meses em Nampula foram passando, numa rotina previsível.

De vez em quando apareciam cromos como um certo general que, chegado ao aeroporto de Nampula, me liga a pedir um mercedes para o trazer para a cidade. Que, como era general, tinha direito a um mercedes.

- Mas, ó sr. General, não tenho aqui nenhum Mercedes disponível. Quando muito posso ver se há algum Volkswagen…

- Desenrasque-se!

Passado algum tempo (não muito) aparece-me à porta do meu gabinete.

- Então… já arranjou o Mercedes?

Tinha pedido boleia a um militar que passara de jeep no aeroporto. Recusou um Volkswagen para pedir depois boleia de jeep.

Mercedes não havia. Mandei-o falar com as chefias superiores…

Mas tirando isso tudo correu lindamente. Mesmo correndo alguns riscos…

Aos domingos metia-me sozinho no jeep e ia almoçar a Nacala, ou à Ilha de Moçambique. 200 quilómetros para cada lado. E o jeep não dava mais de 90 km por hora. Nas retas a perder de vista puxava o botão do acelerador automático e era só segurar o volante. Era preciso era estar atento aos macacos, não fosse algum atravessar-se à frente. Enxameavam as margens da estrada. Sem autorização de ninguém. E era preciso levar uns jerricans de gasolina suplentes. Por vezes ficava de sábado para domingo. Se era em Nacala ia pedir para dormir na base aérea, sede dos paraquedistas. Se fosse na ilha de Moçambique ia dormir no Lumbo, no antigo quartel dos comandos, entretanto deslocados para Montepuez.

A ilha de Moçambique foi durante algumas centenas de anos a capital de Moçambique. Hoje está muito devastada, mesmo sendo património da humanidade.

Os portugueses estabeleceram-se aqui porque a ilha tinha boas condições de habitabilidade. Ficava numa baía calma, com bons acessos e assim ficavam protegidos dos povos do continente que eram tidos como canibais. E foi com esses povos do continente que se começaram a estabelecer os laços comerciais. Levavam-lhes panos e deles traziam ouro.

Aos poucos os portugueses foram pacificando esses povos e foram-se estabelecendo no continente (Lumbo). E daqui foram construindo as primeiras estradas África dentro, até à zona de Nampula e Niassa. Mais parte era daqui que partia o caminho-de-ferro até Vila Cabral (Niassa). Foi construído um pontão de madeira, mar dentro. Os vagões chegavam e descarregavam diretamente para os navios ancorados ao lado.

Foi aqui no Lumbo que se estabeleceram os primeiros quartéis.

No tempo de maior dinamismo a Ilha de Moçambique tinha uma vida bastante cosmopolita. Atestada pela quantidade de palácios e mesquitas. Tinha mesmo um palácio do Aga Khan.

A ilha é estreita. Tem cerca de 3 quilómetros de comprimento. Na ponta sul existe um ilhéu que funcionou como prisão. Na ponta norte a fortaleza. Famosa pelas suas cantarias de pedras brancas de calcário, trazidas da metrópole para fazerem de lastro nas naus que, iam para lá vazias e vinham de lá cheias das mais variadas riquezas. Era atrás desta fortaleza que eu dava 50$00 a um pretito para ir pelas rochas buscar uma lagosta ao mar. E às vezes trazia uma que pesava perto de 2 quilos.

A primeira grande queda de valor da Ilha de Moçambique foi com a passagem da Capital para a Cidade de Lourenço Marques, situada no extremo sul do país, nos inícios do século XX. Mais ligada aos ingleses da África do Sul, acabou por ter um desenvolvimento comercial mais acelerado.

A segunda (e definitiva) queda de valor da Ilha de Moçambique foi motivada pela guerra colonial. O porto foi mudado para Nacala, mais a Norte, que ficava numa baía profunda e ainda mais abrigada. Tinha melhores condições de navegabilidade. A estrada e o caminho-de-ferro foram desviados, no Monapo, para Nacala. Os quartéis foram todos para Nampula. Os comandos foram para Montepuez.

Os Macuas desta zona eram na altura um povo pacato e acessível. As mulheres andavam permanentemente com a cara pintada com uma maquilhagem branca.

Nem mesmo a construção da ponte de 3 quilómetros a ligar a ilha ao continente, projetada por Edgar Cardoso nos anos 60, conseguiu salvar a ilha. A ponte tem uma única faixa de rodagem. De 100 em 100 metros tem uma reentrância, uma vez para um lado, outra vez para o outro, para permitir as ultrapassagens. Nas imagens que vejo hoje do Google Earth reparo que quem passa nesta ponte paga agora portagem.

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O ilhéu prisão da Ilha de Moçambique

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A igreja do Lumbo, o edifício da Alfândega e o pontão cais

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Vasco da Gama na Ilha de Moçambique, em frente aos edifícios do governo

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Bairro macua da Ilha de Moçambique

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Entrada da fortaleza da Ilha de Moçambique

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Ponte de Edgar Cardoso

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Uma das mesquitas

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publicado às 16:05

O uísque que era álcool e tintura de iodo

por António Tavares, em 07.06.17

O uísque que era álcool e tintura de iodo

Morava em Nampula num bairro maioritariamente habitado por indianos. Ismaelitas. Pessoas calmas, ligados ao comércio. A maioria das suas casas era de telhado de zinco. Mesmo tendo dinheiro nunca foram pessoas de grande ostentação.

O prédio era alugado pelo exército para albergar oficiais milicianos. 4 flats (apartamentos) com 3 quartos cada. Em cada quarto dormiam 2 alferes. Um jardim na frente com papaias. Bastava ir à janela do 1º andar para colher papaias. Nas traseiras havia um quintal com 4 garagens. Era aí que os mainatos (pretos que tomavam conta da roupa e da limpeza do apartamento) lavavam a nossa roupa.

A água da torneira era tão barrenta que estávamos muitas vezes à espera que chovesse para irmos tomar banho na rua debaixo da bica que caía do terraço. O telhado do prédio era um terraço. E normalmente a época das chuvas coincidia com a altura de mais calor. Lá vínhamos nós de calções, sabão e toalha na mão, lavarmo-nos à chuva na bica que caía do terraço.

Era nestes apartamentos que nos reuníamos para as nossas “festas privadas”. Ver um filme “caliente” em super 8. Havia quem tivesse a máquina e quem arranjasse clandestinamente um filme vindo da África do Sul ou da Rodésia. Comer sardinhas ou castanhas. Nas alturas próprias sempre lá chegavam. Ou mesmo para ouvir o cancioneiro do Niassa.

O exército importava uísque para vender nos meios militares a preços isentos de impostos. Os oficiais tinham direito a comprar uma garrafa de uísque novo por mês. Para os uísques especiais (velhos ou de malte) havia lista de espera. Eu consegui, ao fim de muito tempo comprar uma garrafa de Old Parr. Trouxe-a e guardei-a muitos anos. Quando nasceu o Bruno fiz uma promessa de só a abrir quando ele casasse.

Como quem casou primeiro foi o Tiago, levei-a para os Açores para abrir na véspera do casamento dele. Não foi oportuno, na altura. Voltou a garrafa para Lisboa. Quando o Bruno casou lá foi a garrafa para a Guarda. E abriu-se, finalmente, ao fim de 40 anos. Não prestava. Tinha perdido toda a força. Era água mal cheirosa. Talvez por estar já mal rolhada.

O meu colega de quarto (alferes Oliveira de V. F de Xira) veio-se embora mais cedo. Devido ao clima quente e húmido eram frequentes as micoses nas virilhas. Os enfermeiros preparavam-nos uma mistura de álcool e tintura de iodo para esfregarmos. O Oliveira tinha uma garrafa com essa mistela na mesa-de-cabeceira.

Quando algum alferes se vinha embora era usual dar ao mainato que tratava das suas roupas, aquilo que já não prestava, nem queriam trazer. Isso aconteceu com o Oliveira. O seu mainato veio receber as coisas que ele não queria trazer e diz-lhe:

- Sr alferes, posso ficar com o resto do uísque?

- Qual uísque?

- Aquele daquela garrafa!

- Mas aquilo não é uísque. É remédio.

- Não faz mal. Fico com ele na mesma. Sabe, eu de vez em quando bebia um gole pequenino…

- Por isso é que eu via o líquido a desaparecer…

E levou mesmo a garrafa com o resto do álcool e da tintura de iodo…

O clima em Nampula era extraordinariamente quente e húmido. As árvores de fruto (bananas e laranjas) davam frutos 2 vezes por ano. Nós fazíamos muitas saladas, sobretudo de tomate. Deitávamos os restos para o quintal. Passados 3 semanas já podíamos colher novos tomates.

O governo tinha um programa que financiava os militares que quisessem fixar-se na zona, após passarem à disponibilidade. Cedia terrenos a custo quase zero. Financiava a compra de máquinas agrícolas.

Era muito conceituado o algodão produzido naquele zona porque a apanha era manual. Assim não se partiam as fibras. Ao contrário da apanha mecanizada praticada em produções largamente extensivas, como o Egito e os EUA.

Era muito comentado o caso do Furriel que aproveitou essas benesses. Arroteou um terreno imenso. Endividou-se. Plantou algodão. A primeira colheita foi ao fim de 2 anos. Na terceira colheita pagou todas as dívidas e veio-se embora com um bom pé-de-meia.

A riqueza de Moçambique não se ficava pela agricultura fácil. Era famoso o chá do Gurué e as minas de carvão a céu aberto de Moatize. Bem como o gás natural de Inhambane e Cabo Delgado. E o parque natural da Gorongosa? E a Ilha de Moçambique? E o turismo? Quirimbas (Ibo) e Bazaruto?

Por isto tudo me faz muita confusão ver hoje imagens frequentes de Moçambique com seca, fome e tanta pobreza. Eu vi um país rico.

Portugal nunca soube tirar partido das riquezas das colónias. Sempre fomos uns mãos rotas. Fomos donos do mundo. Passaram-nos pelas mãos fortunas imensas que deixámos fugir por entre os dedos para a Flandres e para Inglaterra. Ficamos com as pedras dos conventos, mosteiros, igrejas e palácios (Mafra!!!), muitos dos quais hoje em ruínas e que nem sequer temos dinheiro para mandar reconstruir.

Por isso se alugam esses edifícios históricos para os mais variados fins, com o intuito de se arrecadar algum dinheiro que ajude a sua manutenção. Como aconteceu recentemente com o Convento de Cristo em Tomar. Mil pessoas (incluindo figurantes) para rodar um filme. Cortam-se as árvores do claustro. O canteiro das árvores (que antes tinha flores) enche-se de predas brancas roladas. Acende-se uma fogueira no meio do claustro com 20 metros de altura. Para isso carregam-se para lá 20 botijas de gás das grandes. O calor foi tal que pedras com 300 anos partiram. Telhas saltaram e partiram-se.

- Mas estavam lá os bombeiros de prevenção.

- Quantos?

- 2

- E tinham material de prevenção?

- Não. Estavam só eles. Se fosse preciso mandavam vir.

- E se as 20 botijas explodissem?

Possivelmente o claustro iria pelos ares.

Sempre fomos um país de extremos. Aquando do eclodir da guerrilha em Moçambique (1961) fomos capazes de levar 3 ou 4 lanchas da Marinha para o Lago Niassa. Este é um lago enorme (um autêntico mar) que limita a fronteira norte/oeste de Moçambique. Foram carregadas em vagões do caminho-de-ferro em Nacala. A viagem obrigou a desmatamentos e alargamentos. Os últimos quilómetros foram feitos em cima de camiões preparados para o efeito. Foram abertas largas picadas. Foram construídas pontes. Mas ao fim de 2 anos as lanchas chegaram ao lago Niassa para cumprir a sua missão.

O tio dos meus pais era dono de extensas plantações, salinas, fábricas de pão, fábricas de óleo de amendoim e de castanhas de cajú. Até era respeitado pelos seus empregados. Construiu mesmo para eles um bairro ao lado das fábricas de Monapo. Aquando da independência do país foi contactado por funcionários do novo governo.

- Sabe, agora isto é tudo do estado. Não temos nada contra si. O pessoal até parece que gosta de si. Queremos fazer-lhe uma proposta: você fica cá a gerir as fábricas e passa a receber um ordenado do estado.

Ainda tentou e ficou uns meses. Mas a confusão instalada levou a abandonar tudo de vez…

Casa indianos.jpg

Casa de indianos

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O andar onde morava: vista para a frente e para trás

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Aqui dormi perto de dois anos

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Em dia de São Martinho

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publicado às 17:05

25 de Abril

por António Tavares, em 07.06.17

25 de Abril

Tinha viagem de regresso à metrópole num dos últimos dias de Abril de 1974. No dia 25 ao chegar, pelas 10H00 ao quartel diz-me o Sargento:

- Ó sr Alferes, parece que em Lisboa já está o Spínola no poder.

Não percebi o que ele quis dizer, tão alheado estava das questões políticas. Só me queria mesmo vir embora.

- Parece que houve por lá uma revolução…

Sem entender nada, voltei à messe de oficiais. Estavam a reunir-se todos os milicianos. Queriam perceber o que se passava. Ligou-se um rádio para ouvir a Emissora Nacional. Rapidamente chegaram os oficiais de ligação com o movimento em Lisboa. E só então se perceberam alguns sinais da véspera, como por exemplo o facto de o General Diogo Neto (oficial da força aérea, de ligação local ao MFA) ter dormido no aeroporto, com pistola na cintura e com um helicóptero abastecido e preparado, na pista, para arrancar. Depois de dadas instruções locais ele foi dos primeiros a partir de avião para Lisboa.

Como disse atrás, um dos motivos que despoletou o 25 de Abril, foi a “guerrilha” entre oficiais do quadro e oficiais milicianos. Os primeiros julgavam-se “donos” do exército e encaravam mal o facto dos segundos atingirem postos elevados, em menos tempo. Embora nunca passassem de major. Os da Academia ainda podiam aspirar a chegar a general, tal como parodiava, com um certo sentido de humor fino, o Cancioneiro do Niassa:

Ser miliciano foi meu sonho

Mas não foi esse o meu fado

Deus deu-me outra fantasia

A de entrar para a Academia

E ser Oficial do Quadro.

Abandonei os civis

Ai deixei a honestidade

Passei a ser calaceiro

Sabujo do mundo inteiro

Deixei de falar verdade.

Hei-de ir p’ro Estado-Maior

Cagar postas de pescada

Dedicar-me àquele estudo

Eles é que sabem tudo

Os outros não sabem nada.

Não chorem pelo meu fado

E de mil não digam mal

Se eu aldrabar um bocado

Se eu aldrabar um bocado

Ainda chego a general…

 

Passada a fase de euforia pós 25 de Abril, cada um puxava para o seu aldo. Cada um se queria vir embora o mais cedo possível. Tratei da transferência do dinheiro do sargento, para ficar com os 10% em Lisboa. Fui encomendar um caixote grande para trazer todos os meus pertences. Enchi-o de tudo o que pude. Ainda fui comprar louças e roupas chinesas e artesanato de pau-preto e despachei-o nos serviços de transportes para Lisboa.

Fui tratar da viagem via aérea. Consegui viagem para o dia 25 de Maio. Escrevi para os meus irmãos em Queluz a avisar da minha chegada.

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publicado às 15:18

As esposas dos Srs Oficiais

por António Tavares, em 05.06.17

As esposas dos Srs Oficiais

O meu chofer vinha buscar-me a casa de jeep. Andava 100 metros e parava na porta da messe de oficiais (no praça da parte de cima) para eu tomar o pequeno-almoço. Depois dava-mos a volta ao largo e entravamos no quartel, do outro lado da praça.

Certo dia, acabava eu de tomar o pequeno-almoço no bar da messe, pergunto ao militar:

- Quanto é?

- Está pago, sr Alferes, pode ir.

Olhei em volta, espantado. Não vi ninguém conhecido.

Isto repetiu-se durante alguns dias. Até que a minha curiosidade me fez voltar ao bar mais tarde.

- Quem é que me tem pago o pequeno-almoço?

Perguntei ao militar.

- É a esposa do nosso Major Martins que normalmente se senta naquela mesa.

Apontou para um canto da sala. No dia seguinte lá estava ela. Pagou o meu pequeno-almoço e sorriu para mim. Passamos a tomar o pequeno-almoço juntos na mesma. O que ela queria de mim? Apenas me pediu que lhe desse a chave do carro do marido.

O Major Martins era também da segurança, ligado à Pide. Passava meses percorrendo os aquartelamentos de Moçambique de uma ponta à outra. Vinha por vezes à metrópole trazer relatórios e levar instruções. Como conhecia bem a sua esposa, deixava-me o seu Fiat 125 com o pretexto de lhe fazer uma revisão. A razão no entanto era que eu o guardasse e não deixasse a esposa mexer nele.

As esposas dos nossos oficiais superiores tinham por hábito fazer reuniões “secretas” em casa de umas ou de outras. Algumas vezes bem longe da cidade e dos olhares mais indiscretos. E por vezes não havia carros disponíveis. Sempre era mais um.

Vários oficiais faziam o mesmo e deixavam o seu carro comigo. Aproveitava e dava eu uma volta com eles.

Tinha aprendido a conduzir com o militar, condutor do meu jeep. Ia com ele dar passeios pelos bairros de palhotas à volta da cidade. Mal saímos da cidade eu tomava o lugar dele. Ele ia-me indicando como fazer.

Certa vez parei entre e palhotas porque o condutor me disse:

- Ó sr Alferes, olhe que aí não passa.

- Passa, passa…

Disse eu. Passou mas arrastou o telhado de uma das palhotas e o telhado arrastou uma das paredes. Ainda tive tempo de ver um velhote deitado na enxerga. E fugimos dali.

O exame de condução foi feito no Serviço de Transportes do exército, por um colega Alferes que havia feito a recruta comigo em Mafra. Saímos por um portão do quartel e entramos pelo outro.

- Podes ir embora. Estás aprovado.

Mas gostei de fazer o que faziam a todos os militares que tiravam a carta: testes psicológicos e psicotécnicos para analisar o grau de resposta às diversas reacções sensoriais. Tudo nos conformes.

Mas voltando à messe e às senhoras esposas dos oficiais.

A antiga messe dos oficiais tinha na frente um hall grande onde havia um conjunto de cadeiras de verga tipo colonial. Era nessas cadeiras que se viam essas senhoras a apanhar sol. E foram inspiradoras para os cantadores do Cancioneiro do Niassa:

Em frente ao Neutel de Abreu

A quem roubaram a espada

Existe a Gorongosa

Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos

E de outros animais

Costumam apelidá-los

De senhores oficiais

Numas cadeiras de verga

Expostas num grande hall

Lá estão as vacas malhadas

Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos

Que trabalham no quartel

Mal percebem coitadinhos

Qu’ali há putas a granel

Quando cheguei a Nampula a messe de oficiais estava a ser ampliada. Foi construída a nova sala de jantar e um salão de jogos.

A comida não era boa nem má. Era assim… assim… Ao café tínhamos chá gelado muito agradável. Ao almoço e ao jantar havia pescadas fritas congeladas em cada 3 de 4 refeições. Fiquei tão farto de pescadas de rabo na boca, que ainda hoje não sou capaz de comer tal peixe.

O salão de jogos era onde nos entretinha-mos mais. Não havia televisão. Jogávamos king. O jogo começava na sexta-feira à noite e prolongava-se por sábado todo o dia e até ao fim da noite de domingo. Mesmo a 1 centavo o ponto, chegava-mos a domingo à noite com mais de 20 contos em cima da mesa.

A maior parte dos frequentadores deste salão de jogos eram os oficiais milicianos, alguns com as suas famílias. Os oficiais superiores tinham o seu retiro no Hotel Portugal. Nem um nem outro eram espaços convidativos para as senhoras esposas dos oficiais superiores jogarem a sua canasta e beberem o seu chá. Então pediam a reserva do salão de jogos, um fim-de-semana em cada mês, apenas para elas. Era o nosso pior fim-de-semana…

Do grupo destas senhoras faziam parte as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Aquelas eram esposas de altas patentes em Lisboa, que deambulavam pelos aquartelamentos fazendo a sua “psico”. Eu recebia regularmente chamadas telefónicas delas. Ouvi-as calado. No fim dizia que estava tudo bem. Que não precisava de anda. Já só as queria ver caladas.

- Sr Alferes, então como está? Fala a Teresa Supico Pinto do MNF. A sua saúde? Precisa de alguma coisa? Se precisar de alguma coisa pode contar connosco. Estamos cá para vos animar e ajudar a passar o tempo. Blá… blá…

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