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Avô bigodes na Feira da Ladra

por António Tavares, em 14.11.17

Maria Clara, olha o teu avô bigodes

na Feira da Ladra no dia de São Martinho de 2017

Caricatura de Aniceto Carmona

Avô Bigodes1.jpg

 

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publicado às 19:34

Até fazíamos vinho...

por António Tavares, em 31.10.17

Até fazíamos vinho…

Os primeiros anos, depois de ter a casa construída, foram de muito trabalho. Mas vínhamos de lá cansados e contentes.

Pintar gradeamentos, construir muros e passeios, construir o churrasco e o forno e o telheiro, construir a piscina, plantar árvores e relva e as sebes, apanhar as ervas do meio da relva, cortar a relva … Plantámos duas fiadas de videiras que faziam uma latada, no caminho para a garagem. Logo nos primeiros anos deram tantas uvas que me propus fazer vinho. E fiz. Comprámos um barril na feira da ladra e enchemo-lo. E bebeu-se

No ano seguinte arranjámos a garagem. Chão de mosaicos, construímos a adega e a arrecadação.

Compramos 4 barris porque a ideia na altura era percorrer as adegas da zona para escolher os melhores vinhos e engarrafá-los. A garrafeira leva cerca de 500 garrafas. O mais que lá teve foram 15 ou 20 garrafas. Depois bebi-as todas…

O pai da Fernanda sugeriu que fossemos comprar uvas para esmagar e encher os barris. E enchemos. Mas fazer vinho requer muitos cuidados e atenção. Apodreceu e foi todo para o lixo.

Como a latada de videiras fazia muito lixo cortei-as todas. Plantei depois apenas meia dúzia de uvas de mesa e não as deixo crescer muito.

Quando foi inaugurado o Continente na Amadora passámos a ter mais um motivo de recreação: fazer as compras no primeiro dia de férias. Como as férias duravam um mês inteiro tínhamos que encher 2 carrinhos. Comprávamos um presunto inteiro. Por vezes nem cabia tudo no porta-bagagens do Fiat. Na viagem para a Ericeira almoçávamos no Curral dos Caprinos. Era um dia de festa…

A nossa ideia, ao planear a Casa da Praia, era construir uma casa baixa e larga. Para esse efeito teve que se aproveitar a largura máxima possível, que o terreno permitisse. Depois teve ser esticada para trás.

Cedo a Fernanda começou a dizer que não gostava por ser baixa demais. Que parecia uma barraca.

Nas tardes solarengas juntávamo-nos com outros vizinhos no restaurante o Pinhal (hoje desactivado). O dr Miguel, o António e a D Fernanda, o Manel, a Gabriela… conversa puxa conversa. Eramos todos visitas das casas uns dos outros. Quando vinham a nossa casa perguntava a todos:

- Acha a nossa casa feia? A minha mulher acha que é muito baixa e que as outras são mais bonitas…

Eu então sempre achei que a nossa era a mais bonita de todas. Por uma razão simples: era nossa!

Certo dia fomos com os meus sogros levar a chave à mulher-a-dias, a D Isaura (que ainda hoje nos limpa a casa. À porta dela diz a minha sogra:

- Esta é que é uma casa bonita. É alta. Tem uma varada grande no primeiro andar.

Não tardou que a Fernanda fizesse a cabeça ao pai para financiar a construção do primeiro andar. Mais uma sala com bar, lareira e mesa de snooker, uma varanda, casa de banho e mais 3 quartos. E mais 10 mil contos.

Na altura havia por ali muita rapaziada nova. Brincavam todos uns com os outros. Todos gostavam de vir para nossa casa porque tinha piscina. Era a única. Acabavam de almoçar e entravam com a toalha às costas. Parecia uma piscina pública.

Começámos a aborrecer-nos com isso e passamos a fechar o portão à chave. Passaram a entrar apenas quando nós queríamos.

À noite os rapazes gostavam de brincar na rua. Nós não gostávamos muito que o Bruno andasse na rua à noite. Não estávamos descansados em casa. Então mandávamo-los todos para a nossa garagem, que era grande. Mesmo assim, para podermos descansar, tínhamos que correr com eles já pela noite fora, tal era o barulho que lá faziam.

Um dos lotes em frente à nossa casa ainda estava em mato. Para os miúdos brincarem abri um caminho pelo meio do mato e lá mais acima construi-lhes uma cabana com restos de madeiras das muitas obras da zona. Fiz um telhado com canas e mato. Era um local de brincadeiras.

Um dia, tinha o Tiago poucos anos, estava eu preparando o churrasco e a Fernanda os acompanhamentos do almoço. Perguntou-me:

- Sabes do Tiago?

- Não. Mas está aqui o triciclo. Não deve estar longe.

Procurámos. Chamámos. E nada. Corremos a rua toda a chamar por ele e ele não respondia. Estava escondido na cabana do mato.

- Não ouvias a mãe a chamar?

- Ouvia, mas não quis responder…

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A Casa da Praia vista do lado de trás. O Torpes sempre a espreitar-me!

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A Casa da Praia vista da frente.

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Ao fundo o mar (à direita) e a serra de Sintra (à esquerda).

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Pormenor do meu jardim.

 

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publicado às 09:16

Novo aerograma para a minha neta

por António Tavares, em 09.10.17

Novo aerograma para a minha neta

Maria Clara. Hoje, a poucos dias de completares 9 meses, foste pela primeira vez à escola. Era para teres começado já na semana passada, mas apanhaste uma virose que depois pegaste aos teus pais. Mas tu és valente. Com 39,5 de febre comias e rias-te para nós. Os teus pais, com menos, caíram à cama.

Ficaste pouco tempo. Parece que ainda passaste pelo sono. Mas quando os teus pais chegaram para ver como estavas, já a educadora estava para lhes ligar para dizer que tu não te calavas. Não faz mal. É só o primeiro dia. Mas tens que te habituar porque eles só têm uma semana para te ajudar na ambientação.

Tens que crescer depressa. Não faz sentido ser o teu pai a carregar a tua mochila. Tens que ser tu. E eu estou ansioso para que te reboles comigo no chão a brincar. Riste-me muito para mim. Puxas-me os bigodes, queres arrancar-me os olhos e tentas tirar-me o boné da cabeça.

Tenho muitas histórias para te contar. Vamos ser grandes amigos: tu e o avô bigodes…

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Olha só o quarto das bonecas que a avó tem na Casa da Praia para tu brincares!

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publicado às 21:37

O ninho das formigas e o tanque para lavar o cu

por António Tavares, em 09.10.17

O ninho das formigas e o tanque para lavar o cu

Arranjei todo o jardim e a horta. Deixámos em terra a zona para fazer a piscina. Era onde o Bruno brincava com os seus carrinhos miniatura. Sempre gostou muito de carros. Fazia uma estrada. Uma pista. Um parque de estacionamento. Depois levava-os, um a um, a percorrer aqueles caminhos todos. No fim ficava todo sujo. Não fazia mal.

O padrinho do Bruno construiu-lhe uma garagem em contraplacado. Portão de entrada, com dois pisos e rampa de acesso. Era um delírio. Deu para arrumar os carros todos.

- Oh pai… os carros não enchem a garagem. Tens que comprar mais.

E comprámos.

A dada altura decidimos construir a piscina. Pedimos orçamentos e pediam-nos 2 e 3 mil contos. Decidimos fazê-la nós próprios.

Contratamos o sr Festas da Achada e ele arranjou mais uns 2 ou três amigos. Nós íamos na sexta-feira e no sábado, mal o sol raiava lá começávamos nós a ouvir o carro de mão a chiar, estrada fora. Traziam enxadas e pás para escavar e o carro de mão para acarretar a terra. Foi tudo escavado à mão e a terra atirada para o caminho de trás. Felizmente como a terra era boa houve logo quem a quisesse e a levasse em tractores. Evitou-se termos de nos desfazer dela.

O ti Festas e os amigos gostavam de ter uma pinga para ir bebendo ao longo do dia. Comprávamos-lhes um garrafão de 5 litros numa adega do Sobreiro. Dava para o dia todo. Iam intercalando com água. Certa vez trouxemos um garrafão de um vinho melhor.

- Não pode trazer mais deste vinho. Com este nós vamo-nos abaixo mais depressa…

Aberto o buraco arranjámos um pedreiro que fazer as infra-estruturas em cimento e os muros e as escadas de acesso. Comprámos as máquinas em Lisboa. Contratámos com o canalizador Carlos Batalha da Achada para montar as máquinas. Comprámos em Sintra as pedras para o rebordo exterior e para o deck. Montar as pedras exteriores foi trabalho meu.

Faltava arranjar quem revestisse a piscina com os azulejos comprados por nós. Indicaram-nos o Maximino de Caeiros. Que era um rapaz jeitoso. Que só trabalhava em azulejos. Pedimos-lhe orçamento.

- Não posso dizer ao certo. Depende do trabalho que der. Mas deve ficar à volta de 27 contos.

Mandamos fazer. Quando lá chegamos andava a trabalhar com ele o padrinho, o tio, mais um amigo … diz a Fernanda:

- Não me digas que depois temos que pagar a estes todos…

Bem dito, bem feito. Ainda antes de acabar (faltava betumar os azulejos) pediu que lhe pagássemos.

- Sabe… também tenho que pagar a quem me veio ajudar!

Começou por pedir mais de 40 contos. E o trabalho por acabar. Demos-lhes 30 contos e dissemos que se fosse embora. Que não aparecesse mais. Acabei eu por betumar os azulejos, conforme fui capaz (mal). Daí em diante vinha de mota pôr-se à nossa porta à espera que lhe pagássemos.

Sem o saber o meu sogro, com medo que nos acontecesse algo de mal, foi a casa dele e pagou-lhe o que ele queria. Viemos a saber mais tarde que ele era exactamente um calão. Vivia de biscates e não fazia nada de jeito. Esteve emigrado e veio-se embora. Esteve como caseiro numa quinta em São Lourenço e correram com ele.

Trabalhamos muito naquele pedaço de terra que é nosso. Daí lhe ter tanto amor. Tenho lá enterradas muitas gotas de suor, algumas gotas de sangue a algumas lágrimas. Transportava as pedras e o cimento dentro de dois baldes presos com cordas a um pau que colocava nos ombros. Cheguei a tê-los feridos. Vínhamos de lá cansados, mas felizes.

O Sr Sequeira (vizinho de frente) dizia muitas vezes:

- Olhe que isto é um campo de férias! Não é um campo de concentração.

A Fernanda é bora rapariga. Sempre gostou da Casa da Praia. Mas sempre gostou mais de comprar tapetes de arraiolos e bibelots. Até nas casas de banho e nas paredes instalou arraiolos. Já sobre o jardim e a horta e a piscina tinha outra opinião. Chamava-lhes o ninho das formigas. E a piscina o tanque de lavar o cu. Nunca consegui que lá metesse um pé.

Mas eu até achava piada aos tapetes de arraiolos. Colaborava mesmo no desenho de alguns. Fazia-os em folhas de Excel. Temos lá na parede uma reprodução de um que faz parte de um museu (não me lembro qual) e que é tido como um dos mais antigos, para lá da idade média. Foi descoberto numas ruinas quaisquer, em muito mau estado. Foi recuperado e nós vimos a sua fotografia num jornal qualquer, num tamanho que não deveria ter mais de 5 x 5 cm.

Ampliei-o várias vezes através de fotocópias. Desenhei-lhe em cima uma malha de quadrados e depois compu-lo, ponto por ponto, numa folha Excel. Até as cores conseguimos manter.

Disse muitas vezes à Fernanda:

- Estás a construir um museu. Não uma casa de campo…

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É esta a reprodução do tapete de Arraiolos medieval. Foi encontrado em muito mau estado e foi restaurado. É tido como o mais antigo Arraiolos conhecido. Vimos a sua reprodução numa revista numa foto de 5x5 cm. Redesenhei-o à mão numa folha excel. Fizemos a sua reprodução.

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A adega dos monges. Tapete de Arraiolos pendurado na parede.

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 A caça ao javali. Outro tapete de Arraiolos na parede.

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publicado às 12:02

Ardeu-nos a cozinha - tinha a casa um ano

por António Tavares, em 09.10.17

Ardeu-nos a cozinha – tinha a casa um ano

Construímos a Casa da Praia nos anos 1980 e 1981. Todos os fins-de-semana íamos ver o andamento das obras. Tinha o Bruno 3 anos. Levávamos um coelho guisado e um fogareiro. Acampávamos num pinhal qualquer, fazíamos arroz de coelho e era para nós uma festa. A maior parte das vezes estragada porque as obras não avançavam, ou se avançavam lá vinha mais uma arrelia por causa de uma coisa mal feita ou outra exigência do construtor. Íamos à sua procura. Dizia que não podia ter só uma obra em andamento. Que tinha que ir fazendo várias ao mesmo tempo.

Depois de muitas zangas lá inauguramos a casa no verão de 1982. Não tínhamos mobílias. Só colchões para dormir no chão.

Passamos a ir todas as sextas-feiras à noite. Tínhamos 2 dias inteiros para trabalhar. Sempre que havia um feriado era mais um fim-de-semana prolongado. O pai da Fernanda foi comprando os gradeamentos. Eu ia-os pintando. Uma camada de primários e depois duas de tinta. Eu ia também fazendo os muros de suporte das terras e as escadas. E fiz os passeios todos em pedra que fomos comprar a Sintra.

Passávamos pela Venda do Pinheiro e levávamos o porta-bagagens do Fiat cheio de tijolos burro. Para eu ir fazendo o churrasco e o forno. Depois fiz o telheiro do churrasco.

Para fazer os passeios à volta da casa escavei primeiro uma vala funda. Revesti o fundo com brita e depois com cimento. Barrei com alcatrão toda a parede que ia ficar tapada bem como o fundo da vala. Coloquei um tubo de plástico no fundo da vala e furei-o todo. Tapei com mais brita e depois com terra por cima. Só depois construi o passeio.

Tinha verificado que em muitas casas da zona, os passeios abatiam, pouco tempo depois de serem feitos. Os nossos ainda lá estão, tal e qual como foram feitos, há quase 45 anos.

Enquanto íamos construindo a casa passeávamos pela zona a ver outras moradias em construção para tirar ideias. Foi numa delas que vimos os barrotes de ulmeiro a revestir o tecto da sala. Era a casa do secretário do presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Até candeeiros e bancos de jardim tinha levado para lá. Tinha feito a lareira com pedras de cantaria retiradas de uma demolição em Lisboa.

Mas também tivemos pessoas e virem ver a nossa obra e tirarem ideias para as suas. Como um comerciante do Sobreiro que nos pediu o contacto para comprar uma cozinha igual.

Mandamos vir de Sintra um camião de terra de jardim que andei depois a transportar em carro-de-mão e a espalhar por todo o terreno, antes de plantar a relva.

Tinha algum jeito (que aprendera com o meu pai) para trabalhos de pedreiro, mas não era capaz de rebocar paredes. Depois de terminar os muros e o churrasco teve que o pai da Fernanda levar lá um pedreiro de Lisboa (num fim-de-semana alargado) para os rebocar todos. Nós pintámo-los depois.

Arranjámos um calceteiro para fazer o empedrado da rampa da garagem.

No verão de 1985 estávamos a passar o fim-de-semana na Casa da Praia com os pais da Fernanda quando o nosso vizinho da frente fez entrar no seu quintal uma máquina de fazer furos para obter água. Ao fim de algumas horas jorrava água por todo o lado. Diz o meu sogro:

- Também podíamos fazer um furo aqui.

Fomos falar com o homem.

- Amanhã é feriado. Se quiseram trago para aqui a máquina e faço-o em pouco tempo.

No dia seguinte tivemos que vir a Lisboa buscar o dinheiro para lhes pagar, enquanto ele furava. No fim do dia jorrava água por todo o lado. 50 metros de furo pelo chão abaixo. Ainda hoje lá está, deitando água eficientemente.

Um ano depois de inaugurar a casa, ainda o churrasco não estava terminado, recebemos um sobrinho do meu sogro para almoçar connosco. O Vicente da Roussada trouxe frangos e eu assei-os entre dois tijolos à porta da garagem. Estávamos a comê-los na garagem quando ouvimos o quadro eléctrico a rebentar. Fomos ver. Toda a cozinha estava tomada pelas chamas. Tínhamos deixado ao lume a frigideira a fritar a última dose de batatas.

Peguei na mangueira e pela varanda comecei a apagar o fogo. Quando chegaram os bombeiros já quase o fogo estava dominado. Fizeram apenas o rescaldo. Felizmente tínhamos seguro que pagou tudo.

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publicado às 10:12

Conto do vigário

por António Tavares, em 25.09.17

Conto do vigário

Sempre soube muito bem onde punha os pés. Nos meus primeiros anos de vida em Lisboa nunca me furtei a ter toda a espécie de gente por companhia. Mas sempre fui capaz de escolher aqueles com quem queria manter uma relação de amizade.

O mesmo sobre as solicitações que me apareceram. Também não tinha muito tempo para lhes dar atenção. Tinha um objectivo: estudar. Fui tentado por duas vezes com o célebre conto do vigário. E das duas vezes reagi com a maior das calmas.

Uma vez (em 1968), vinha eu de Santa Apolónia para o Campo das cebolas com um bornal militar, comprado na Feira da Ladra, ao ombro e cheio de papéis aduaneiros, quando passa por mim um sujeito a correr e deixa cair, mesmo na minha frente, um embrulho. Parei e comecei a chamá-lo.

- Hei, olhe, olhe …

Estranhei que, estando ele ainda tão perto de mim, não me ouvisse e continuasse a correr. Olhei em volta e não vi ninguém.

Quando me abaixo e me preparo para apanhar o embrulho surge, não sei de onde, outro sujeito que o apanha primeiro que eu e me diz:

- Hi! Olhe! Já viu? Tanto dinheiro! Um maço de notas.

E começa a esfolhear como quem esfolheia um baralho de cartas.

- Já percebi. Podes ficar com ele.

Deve ter-me confundido com algum campónio acabado de chegar de comboio.

Seguiu o seu caminho atrás do outro. Eu segui-o à socapa sem que ele me visse. Passado algum tempo já vinham os dois de volta e à conversa, para tentarem outro papalvo.

Anos mais tarde, para aí em 1974, vinha eu de jantar em casa da Fernanda e descia a Calçada dos Cavaleiros para apanhar o comboio no Rossio para Queluz. Era já noite e reparo em algo que brilhava por entre as pedras da calçada.

Ao tentar baixar-me para apanhar o objecto que luzia alguém se antecipou a mim, vindo também não sei de onde e o apanhou primeiro que eu.

- Olhe… um anel de outo! Deve valer uma fortuna!

- Está bem. Pode ficar com ele.

E segui o meu caminho.

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publicado às 11:36

Quem somos. Em www.promagala.pt

por António Tavares, em 11.09.17

Quem somos

(do site www.promagala.pt)

A Promagala é herdeira da ancestral tradição de venda de artigos militares na Feira da Ladra em Lisboa.

Velha de séculos, a Feira da Ladra sempre foi conhecida pela venda de toda a espécie de bugigangas, quinquilharias, velharias e artigos militares.

O ponto alto da venda de artigos militares aconteceu durante a guerra colonial, devido ao elevado número de efectivos das forças armadas.

Era na Feira da Ladra que os soldados vinham vender os restos de fardamentos que lhes tinham sobrado após a passagem à disponibilidade e era também lá que procuravam uma ou outra peça, mesmo velha, que lhes faltava para efectuar o espólio.

Era também na Feira da Ladra que acabavam por ser vendidos muitos dos velhos artigos de fardamento vendidos nos leilões do exército, após serem reciclados e reaproveitados, tornando-se úteis para os operários e para os trabalhadores agrícolas.

As calças e os casacos eram cosidos por diversas mulheres em diversos becos e vielas de Alfama e São Vicente de Fora. Nos mesmos becos e vielas alguns operários remendavam as velhas botas com meias solas elaboradas de velhos pneus e estas partiam depois, ensacadas, de comboio, para terem uso em diversas regiões do país.

À zona da Feira da Ladra veio parar, nos longínquos anos 50 do século 20, o Sr Gervásio, sapateiro, oriundo da Roussada, Milharado, Mafra.

Aqui arranjou emprego num sapateiro com banca na entrada do prédio nº 5 da Rua de Santa Marinha. Com a reforma do patrão tomou a seu cargo a respectiva banca. Nessa banca começou a remendar as primeiras botas da tropa.

Como as vendas iam crescendo foram sendo admitidos como empregados outros sapateiros, chegando a ser mais de 20, ocupando armazéns desde o Beco do Maldonado ao Beco dos Lóios.

Na Rua de Santa Marinha acabou o Sr Gervásio por conhecer a D Palmira, oriunda da Coelhosa, Alvares, Góis, perto da Pampilhosa da Serra, zona de onde é originária a maioria da população desta zona de Lisboa e resolvem constituir família.

A D Palmira acaba por ir vender roupa usada para a Feira da Ladra, juntamente com outros familiares. Daí a vender roupa da tropa foi um passo.

Surgem entretanto problemas e o Sr Gervásio não encontra no mercado material para trabalhar. Chega a criar modelos de calçado próprios mas a sua produção e escoamento para o mercado vão sendo cada vez mais difíceis.

As dificuldades aumentam com o 25 de Abil de 1974. Os empregados vão sendo reduzidos até que se vai embora o último e o Sr Gervásio e a D Palmira acabam por ir vender fardamento e botas militares para as Feiras à volta de Lisboa: Malveira, Odivelas, Brandoa e claro, na Feira da Ladra.

Com o tempo as feiras fora de Lisboa são deixadas e ficam apenas com a venda na Feira da Ladra.

Entretanto em 1952 nascia a única filha deste simpático e trabalhador casal a Fernandinha.

Por caprichos do destino a Fernanda vem a corresponder-se com o António entretanto em serviço militar em Moçambique.

O António é Alferes Miliciano, oriundo de Cardigos, Mação. Depois da quarta classe ingressa no seminário em Coimbra, passa por Fátima até que em 1968 abandona os padres e ruma a Lisboa.

Finda a guerra colonial o António regressa ao seu emprego de Despachante na Alfândega de Lisboa. Casam em 1975. O Bruno nasce em 1977 e o Tiago em 1985.

O António percorre sucessivamente empregos nos TLP, na PT e na Marconi.

Coincide em 2000 o facto de a Marconi ser integrada na PT e o Sr Gervásio se sentir cansado para continuar com a venda na sua banca da Feira da Ladra.

O António pede a reforma antecipada na Marconi e vai acompanhar a esposa na venda de artigos militares na Feira da Ladra.

Aos poucos alargam o negócio para a venda de Botas e Fardamentos para actividades específicas: Empresas de Segurança, Desportos de Aventura, Caça, etc.

Em 2006 passam o negócio a empresa e nasce a Promagala, Lda, tendo como sócios os 4 membros da família.

Em 2007 abrem a sua primeira loja em Lisboa.

No final de 2007 criam a sua própria página na internet.

Eis-nos ............

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publicado às 15:52

Não quero ser vegeral

por António Tavares, em 11.09.17

Não quero ser vegetal

Depois de casado sempre vivi em comunhão com os meus sogros. Sem eles não teria nada do que que hoje tenho. Habituado a um certo nível de vida, cedo percebi que não o poderia manter sem a ajuda deles.

Quando o Bruno era pequeno fizemos imensos passeios no Fiat ou no Ford Cortina. Íamos com frequência a uma quinta nas Cardosas (Arruda dos Vinhos) cujo caseiro era cliente deles. A quinta era muito antiga, tinha pertencido ao Intendente Pina Manique. Ninguém lá morava. Tinha capela e tudo. O caseiro era o guardião. Varejava a fruta para alimentar as cabras. Trazíamos sempre o porta-bagagens cheio de peros e maçãs. Porque diziam que os cornos dão sorte, ele cortou os 2 cornos a um borrego e deu-nos. Ainda hoje nos acompanham.

Mesmo quando morávamos em Odivelas, passávamos muito tempo juntos. No natal fazíamos um presépio grande com fonte, cascata de água e moinho. Mesmo em cima de alcatifa. O Bruno não ligava muito, nem às prendes. Depois de as desembrulhar todas ia buscar 2 tampas de tachos da cozinha e aparecia ao pé nós a bater com elas.

Naquele tempo era usual ter as casas alcatifadas e as paredes revestidas a papel. E papel de veludo. Bom para acumular pó. O Bruno sofria de bronquite. Tomou vacinas semanais importadas de Barcelona até aos 13 anos. Quando era pequeno e já dormia no quarto dele, levantei-me muitas noites mal o ouvia começar a tossir, para pegar nele. Chegados ao átrio era certo e sabido que ia vomitar tudo em cima da alcatifa. Lavei muitas vezes a alcatifa à 1 ou 2 da manhã. A solução acabou por ser eu dormir sentado com ele ao colo para ele encostar a cabeça no meu ombro. E depois eu ia trabalhar e depois eu ia para a faculdade e depois eu ia fazer reuniões de trabalho com os colegas da faculdade e depois a Fernanda não queria que eu fosse para casa deles (preferia fazer o almoço em nossa casa para todos). Eles também se chateavam de vir sempre para nossa casa…

A Fernanda vinha com o Bruno na carreira à quarta-feira para almoçarmos todos em Lisboa em casa dos avós. Depois passamos mesmo a dormir lá em casa. Quando terminámos a Casa da Praia começamos a quase não ir a Odivelas. Estávamos de semana em casa dos pais da Fernanda e ao fim de semana íamos para a Ericeira.

Entretanto nasceu o Tiago. Não tínhamos condições de morar mais em casa os meus sogros. O meu sogro decidiu vender a casa de Odivelas e comprou uma (velhinha) na Rua da Graça. Ainda hoje o Tiago lá vive com a Diana.

Para poder manter o nível de vida que levávamos fui sempre dizendo à Fernanda que me queria reformar cedo. Podíamos dar continuidade ao negócio dos avós e ficávamos com algum tempo mais para aproveitar a Casa da Paria.

Eles vendiam fardamentos e artigos militares em feiras. Por fim apenas na feira da Ladra. A partir de certa altura a saúde deles já não permitia que fizessem a feira, sozinhos. Eu ia (já lá vão muitos anos quando isto começou) às terças e aos sábados, às cinco horas da manhã, ajudar a montar a barraca e depois ao fim do dia ia ajudar a levantar. Depois a Fernanda passou a ir ajudar a fazer a venda aos sábados. Depois passamos nós a ir para a feira apenas os dois.

Ficámos com o armazém que o meu sogro tinha no Beco dos Lóios, que eu tentei “transformar” em loja e onde eu estava nos dias em que não havia Feira da Ladra. Mas como o sítio é muito escondido, cedo percebi que não servia para o efeito. Decidimos então abrir a Loja Promagala na Rua da Verónica. E quando a senhoria do armazém quis aumentar muito a renda, entregámo-lo.

Acompanhei a vida dos meus sogros muito de perto. Foram muito mais que pais, para mim. O meu sogro tinha uma religiosidade muito própria. Não frequentava a igreja mas acreditava que algo nos governava. Quando a Fernanda partiu a perna ofereceu o peso dela em trigo à N. Srª do Socorro (Enxara dos Cavaleiros, perto da terra dele: Milharado). Ainda lá fui com ele entregar o saco de trigo.

Acreditava no além e não queria, por nada ir para debaixo da terra. Construiu no cemitério do Milharado um jazigo para a família. Oito assoalhadas. Queria garantir lugar para todos até aos netos e suas companheiras. Está lá ele e sua esposa.

Depois de ele falecer a D Palmira veio viver para nossa casa. Como era relativamente saudável e trabalhadora, ainda nos foi muito útil antes da doença a deitar abaixo. Levantava-se noite. Um dia partiu a cabeça ao cair da cama. Fomos obrigados a dormir (eu e a Fernanda) aos bocados num cadeirão ao lado dela, para a segurar. Teve uma embolia pulmonar. Esteve internada na CUF quase 15 dias entre a vida e a morte. Durou mais uns 10 anos.

Eu ia para a loja. Aos sábados e terças-feiras ia para a Feira da Ladra. Por fim já não conseguimos ninguém que ficasse em casa com ela. Eu tinha que estar em casa de manhã, ao meio dia e à noite, para a levantar, sentar na cadeira e ajudar a Fernanda na higiene e na alimentação. Nos últimos cinco anos esteve como um vegetal. Sem falar e sem qualquer reacção.

Entretanto, fui um dia buscar o Torpes a casa dele, como de costume, para passar a tarde connosco na loja. Deu-me um esticão, caí pelas escadas abaixo, parti um pulso e úmero em 3 sítios. Fui operado na CUF. Puseram-me ferros pelo braço abaixo e 8 parafusos. Fiquei com os movimentos do braço reduzidos. Estive mais de 3 meses sem ir para a Feira da Ladra. O fiscal insistia que ou eu ia ou desistia. Os outros feirantes reclamavam.

Fiz contas e desisti.

A Fernanda bem ralhou comigo. Que podia continuar a fazer a feira. Mas como, se eu tinha que ir a casa ao almoço para levantar a avó e ajudar? Que na feira é que se ganhava dinheiro!

Passados 2 ou 3 meses de eu desistir da Feira da Ladra a avó chegou ao fim dos seus dias. Aguentou até aos 100 anos, 1 mês e 1 dia. E no dia em que faleceu ainda tomou o pequeno-almoço. Lá está, a ocupar o seu espaço, ao lado do Sr Gervásio no jazigo do cemitério do Milharado.

Pois eu espero não dar trabalho a ninguém. Fica aqui escrito: não quer viver vegetal. Se estivar ligado a uma máquina quero que a desliguem. Quero ser cremado. Quero que as minhas cinzas voem com o vento… se possível por cima do mar da Ericeira.

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Torpes Freud

É este o malandro do cão, açoreano de uma figa, que me puxou por umas escadas abaixo e me partiu um braço em 4 pedaços...

Mas está desculpado.

 

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publicado às 15:44

Não… tu és inegociável

por António Tavares, em 08.09.17

Não… tu és inegociável

Como não era político nem tinha padrinhos, sempre tentei que valorizassem o meu trabalho e me reconhecessem mérito por isso. Como era meu propósito não me demorar muito em cada emprego, sempre que me convidavam (e eu gostava do que ia fazer) mudava. Com isso era de facto reconhecido, mas quando se tratava de nomeações para cargos de decisão… nada.

Entrei para a Marconi, era esta uma empresa das mais bem cotadas no mercado. Ganhava 18 ordenados por ano. Recebia todos os prémios. Tinha a empresa participações em cabos submarinos e satélites pelo mundo inteiro. Tinha na altura cerca 3.200 empregados. Quando me reformei, já com a Marconi integrada na PT, tinha apenas 220 empregados.

Por vezes quando mudava de local de trabalho a Fernanda aparecia com o Bruno e o Tiago a esperar-me, no segundo ou terceiro dia, à porta do trabalho. Ela pensava que eu não percebia. Era para dizer às minhas colegas: tenham juízo, ele é casado e tem 2 filhos. Mas nunca me preocupei. Eu até gostava de ver os meus filhos, lindos e bem vestidos, vir esperar o pai à saída do emprego.

Trabalhava em Organização na Marconi e ao lado trabalhava em informática um engenheiro electrotécnico com formação em gestão. Ele estava a desenvolver uma aplicação em Lotus 123 para a Direcção de Pessoal fazer os orçamentos dos custos com pessoal. Como ele também tinha formação em gestão (e amigos) começou a ser convidado para acompanhar a administração em viagens de negócios pelo mundo. Como a compra da Vivo no Brasil. Para onde acabou de ir trabalhar. Como ninguém sabia trabalhar com o Lotus 123 lá fiquei eu a gerir e ampliar essa aplicação de gestão de pessoal. Quando dou por mim quem geria essa informação, na Direcção de Pessoal era a doutora que fora preterida na minha entrada para a empresa. Eu entrei porque fiquei em primeiro. Ela entrou depois para a Direcção de Pessoal porque arranjou lá contactos. Trabalhava lá pelo menos uma irmã dela. Fiquei a fazer a manutenção dessa aplicação até ao fim dos meus dias na empresa. Ela fazia a “manutenção” da informação. E isso é que dá dividendos.

Trabalhava na altura no controlo de gestão um doutor também com nome sonante e que também queria altos voos. Desenvolveu uma aplicação em DBase III para o controlo de gestão. A directora veio ter comigo perguntando se não queria ocupar o lugar dele, porque ele ia sair. Disse que sim e fui. Mantive até ao fim da empresa esta aplicação. Alterei-a, ampliei-a, desenvolvi mesmo outras funcionalidades. A directora dizia mesmo: era disto que eu estava à espera e a precisar.

Sempre fui muito organizado e arrumado. Nunca tinha papéis em cima da secretária. O que era para tratar, tratava. O que era para arrumar, arrumava. Mesmo a informação nos meus PC´s esteve sempre também tão arrumada que os PC´s nunca se enchiam de “lixo”. Havia pessoas (como a directora) que trocavam de PC´s todos os anos. Os meus duravam 3 ou 4 anos. Por fim não permiti que me trocassem o PC. Porque os novos já não corriam programas em MS.DOS como o DBIII. Ainda tentei transferir os programas para outras bases de dados como o DBIV ou Acess. Mas nunca tive apoio.

Entretanto o lugar da minha chefia direta ficou vago. Tentei junto da directora que me promovesse. Até gostava de mim. Até tinha elogiado o meu trabalho. Qual quê! Quem veio ocupar o cargo vindo directamente de fora foi o marido da doutora para quem fazia os orçamentos de pessoal. Politiquices e amizades.

Na secção de Contabilidade Analítica trabalhava outro doutor que sonhava com voos tão altos que chegou mesmo a Secretário de Estado. Na altura desenvolveu um interface entre a contabilidade geral e analítica. Mas para ele era pouco. Quem ficou a manter (e a desenvolver) a aplicação? Eu.

Como tinha isenção de horário trabalhava muitas vezes até tarde. A Fernanda afinava. Tinha que ser. Cheguei a vir de férias e mesmo com febre ir, no fim–de-semana, correr as rotinas do controlo de gestão. Uma vez estive com gripe em casa e a secretária da directora trouxe-me a casa os dados da contabilidade para eu correr as rotinas no meu PC de casa. E voltou depois para levar os resultados.

Nesta altura estavam-se já a negociar as rescisões amigáveis, tendentes à redução de pessoal, para a integração na PT. Havia quem recebesse 40 mil contos para se vir embora. Eu pus logo o dedo no ar. Também me quero ir embora.

- Não. Tu és inegociável. Precisamos cá de ti.

Conjuntamente com o administrador da área de pessoal e a minha directora, desenvolvi uma aplicação em Excel para analisar, empregado e empregado, quanto custaria à empresa manter cada um até à idade da reforma. Servia para negociar as indemnizações. Eu, por exemplo, custaria à empresa 150 mil contos até me reformar.

- A mim basta que me dêem só 100 mil contos, que me vou já embora …

Tive que ficar até ao fim.

Certa noite, tinha, sentados a meu lado, a directora e o administrador de pessoal. A Fernanda, com o jantar na mesa (e os pais dela em casa para jantar), ligava-me vezes sem conta.

- Mais meia hora…

Eles queriam avançar com a análise dos valores a pagar pelas rescisões dos empregados. Insistia que ficasse mais um pouco. A dada altura levantei-me e disse:

- Continuem vocês. Eu vou-me embora.

Nunca mais recebi prémios de avaliação.

Eu fazia pressão para sair da Marconi reformado, por várias razões: tinha 52 anos, 32 anos de descontos e a Marconi tinha uma Caixa de Previdência própria. Para além da reforma calculada pelas regras oficiais, davam um adicional de mais 30%, garantido até ao fim da vida.

Para além disso, tive conhecimento de colegas que já tinham seguido para a PT e nem cadeira tinham para se sentar. Eu não queria isso.

Já a Marconi tinha acabado quando fiz barulho e me levaram ao médico da Caixa de Previdência. Fiz um RX à coluna e diz-me ele:

- Você tem aqui já razões suficientes para se reformar.

Reformei-me e ainda me deram algum dinheiro como compensação.

Com a integração da Marconi na PT também as caixas de previdência das várias empresas de grupo PT foram integradas. Mais tarde com a crise de 2011/2014 o estado precisava de dinheiro e integrou todas estas caixas na Previdência Social. Passei a ser reformado pago pelo estado. Deixei, até hoje, (2017) de ter aumentos. Sofri mesmo os cortes impostos a todas as reformas que passavam dos valores mínimos.

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publicado às 15:25

A Casa da Praia

por António Tavares, em 04.09.17

A Casa da Praia

Casámos em Maio de 1975. Era para ser em Agosto mas, uma vez em pleno PREC, foi imposto no escritório que as férias fossem escolhidas por sorteio e entre Maio e Outubro, a mim calhou-me Maio. Não faz mal. Disse o Sr Gervásio (pai da Fernanda). Casam em Maio. Lua-de-mel no Algarve.

A Fernanda trazia por dentro do fémur que partira em Janeiro de 1974 um ferro que tinha sido colocado com cerca de 1 cm de fora para poder ser retirado facilmente. Isso fazia com que muitas vezes um pequeno gesto impensado fizesse um hematoma enorme que obrigava a sucessivas aplicações de hirudoid. Cedo manifestou intenção de engravidar porque queria ter um filho cedo. Opus-me enquanto não retirasse o ferro. Foi a única maneira de a convencer. Tirou-o na CUF.

E assim apareceu o Bruno…

No ano seguinte (197) foi abolida, no escritório, a regra das férias por sorteio. Passou a ser por escolha. Quem escolheu primeiro foram aqueles a quem, no ano anterior, tinha calhado Maio e Outubro. Escolhi Agosto. E como a Ericeira era o nosso destino normal de fim-de-semana, lá fomos nós alugar uma casa na Achada para todo o mês de Agosto.

Não havia televisão, nem mesmo rádio. Só formigas. A Fernanda estava grávida e antes de entrar em casa eu tinha que ir varrer as formigas. Senão era vómito pela certa.

Ia-mos à praia todos os dias. Bastava chegar ao início da rampa e lá vinham os vómitos.

A 200 metros (no Sobreiro) tinha a família Machado e a Maria Ilda uma casa alugada para férias e fins-de-semana. O Manuel Machado fora empregado do meu sogro e acabaram por criar uma empatia entre as famílias que se manteve até à morte dele e se mantém ainda hoje com a relação de amizade entre a sua filha Dr Manuela (médica) e a Fernanda. Nesse mês de Agosto ele ficou lá sozinho no Sobreiro e todos os dias aparecia à porta de casa à hora combinada com a toalha às costas para ir connosco para a praia.

Frequentávamos as festas e romarias locais e aos fins-de-semana lá aparecia o Sr Gervásio e a D Palmira, no seu Ford Cortina.

O Bruno nasceu em 1977. Nesse ano e dois seguintes passamos a alugar casa (normalmente em Setembro) já dentro da vila da Ericeira.

Em 1979 foi resolvido, em tribunal, o diferendo entre o Sr Gervásio e a seguradora que representava a condutora que atropelara a Fernanda em Janeiro de 1974. A condutora não se deu como culpada, mas o tribunal obrigou a seguradora a pagar 500 contos.

Estávamos de férias na Ericeira. Tínhamos alugado a casa do pregoeiro da lota do peixe. Ele tinha-nos prometido que se quiséssemos peixe fresco bastava pedir-lhe de véspera. Ainda chegamos a ir à lota arrematar uma “teca” de salmonetes. Uns muito grandes, outros muito pequenos. A falta de familiaridade com a técnica de leilão levou-nos a ficar com eles por um preço muito superior ao que estavam à venda no dia seguinte na praça.

Nesse ano, com os 500 contos na mão, lembramo-nos de vir a Lisboa trocar de carro. Os avós ficaram com o Bruno na Ericeira. Tinha saído na altura um novo modelo Ford Cortina e vínhamos para comprar um. Não havia a cor que queríamos. Deixamos um encomendado. Ainda bem que nunca chegamos a comprá-lo, porque o carro teve tão pouco sucesso que desapareceu das ruas em menos de 5 anos.

Fomos então comprar um carro para o Bruno à Quermesse de Paris, nos Restauradores. A pedais. Verde, com luzes e buzina. Foi um sucesso. O Bruno percorria o Largo do Jogo da Bola na Ericeira a apitar. Todos os garotos queriam ver, mexer, andar… Habituou-se tão bem a ele que, já na casa de Odivelas, ele saía da varanda de trás e ia até à varanda da frente, pela cozinha, átrio e sala, sem tocar num móvel. Foi aí que aprendeu a conduzir.

Mas como não trouxemos um carro novo o senhor meu sogro disse-nos:

- Se desistirem de trocar de carro e quiserem fazer uma casa, eu ofereço-vos o terreno.

Dito e feito. Fomos procurar um terreno. No que restou das férias e nos meses seguintes percorremos todos os caminhos e becos à procura da melhor localização, perto da Ericeira. Eu dizia para a Fernanda:

- Compramos um pinhal apenas para termos um espaço nosso para jogar à bola com o Bruno. Pomos rede à volta e um dia se pudermos fazemos uma casa de madeira…

- Assim não, tem que ser um terreno legalizado e urbanizado. Sei lá se depois a câmara autoriza algum construção.

Assim dizia o meu sogro.

Acabamos por comprar o lote onde temos ainda a Casa da Praia. A 200$00 o metro quadrado, 500 metros. 100 contos oferecidos pelo avô Gervásio. Metemo-nos a construir a casa com os 500 contos recebidos do seguro.

Mandei vir de França livros de plantas de casas. Comecei eu a desenhar uma. Como não podia assinar projectos levei os meus planos a um desenhador oficial que os entregou na Câmara e os fez aprovar.

Passo seguinte: encontrar um construtor. As regras eram estas: para fazer a casa e os muros em volta o construtor dava toda a mão-de-obra e todo o material, areia, cimento, ferro, madeiras, tintas, etc. Nós dávamos todos os acabamentos, loiças, azulejos, etc.

Tivemos orçamentos de até 3.500 contos.

Escolhemos o sr Carlos que nos foi indicado pelo desenhador. 1.500 contos. Estava em início de carreira de construtor, nós quisemos aproveitar. Mesmo com um caderno de encargos redigido ao pormenor, aceite e assinado, correu muita coisa mal.

Começou porque nos planos estava que a garagem deveria ficar enterrada a toda a dimensão da casa.

Veio dizer que o solo era demasiado duro para a máquina que ele tinha. Que precisava de alugar uma de rastos e isso era muito mais caro.

- Alugue lá essa máquina que nós pagamos a diferença.

Disse o meu sogro.

O desenhador era também o responsável, perante a Câmara, pela fiscalização da obra. Certa vez liga-nos o construtor:

- Olhe que esteve cá o desenhador/fiscal que esteve a ver o ferro que eu pus nas vigas e não aceitou. Em contei com verguinhas de 11 e ele exige de 15, que parece que é o que está nos planos. Mas eu não contei com isso.

- Coloque que nós pagamos a diferença…

Para evitar a humidade no chão da garagem tinha escrito no caderno de encargos que chão deveria ser rebaixado cerca de meio metro e feito um enrocamento com pedras e gravilha por cima. Como não podia fiscalizar as obras durante a semana, o meu sogro metia-se no carro e aparecia lá frequentemente. Descobriu que para encher o chão estava a meter na betoneira, 2 pás de terra 1 pá de areia e outra de cimento. Por isso é que, antes de colocarmos os mosaicos, cada vez que varríamos a garagem se levantava uma nuvem dó.

Tínhamos acordado que o terreno, que era inclinado, deveria ser nivelado o mais possível. Para isso o muro de trás deveria ser levantado até à altura necessária para conter as terras. Quando dei pelo muro já feito obriguei-o a subi-lo mais um bocado. Que não estava nos planos, dele, que já estava alto o suficiente.

- Suba que nós pagamos…

Compramos materiais de acabamento de primeira categoria. Azulejos estilo século XVII feitos à mão na Fábrica de Sant’ana. Custou cada um 150 escudos, no tempo em que um azulejo de construção custava 11 escudos.

- Que porcaria de azulejos que compraram. Cada um de seu tamanho. São muito irregulares. Dão muito mais trabalho…

Dissemos-lhe que os azulejos da casa banho da garagem não podiam ser molhados antes de serem colocados. Chegamos lá um dia e eles tinham o vidrado todo estalado. Tinham sido imersos em água.

- Olhe, estes eu não lhe trago outros e você vai tirá-los e vai à procura de outros iguais…

Pegou numa picareta e pôs-se a parti-los todos…

Entrámos na sala e verificamos que metade tinha a tijoleira bem posta. A outra metade estava aos altos e baixos.

- Há … sabe … aquela parte foi posta pelo meu empregado, esta parte foi posta pelo meu padrinho…

- Não quero saber. Eu posso trazer mais tijoleiras, mas você vai arrancar esta parte toda e vai colocar de novo.

Depois disto tudo e depois de receber o combinado ainda queria ir medir o muro de trás porque estava mais alto que o previsto. Que não tinha ganhado nada com aquela obra. Que mal tirara para o ordenado. Queria mais dinheiro.

- Eu vou ter com o seu sogro à feira da Malveira…

- Então vá…

Ficámos por aqui.

Nome para a casa? Vamos chamar-lhe Casa da Praia. Porque, estando em Lisboa e se alguém perguntar: onde vamos este fim-de-semana? O mais certo será dizer: vamos à Casa da Praia! Não sei porquê, mas este nome nunca entrou no nosso léxico. Dizemos sempre: vamos à Cabeça Alta!

Casa da Praia 1.jpg

A Casa da Praia em construção

Casa da Praia 2.jpg

A Casa da Praia terminada. E o Cortina do Sr Gervásio. Faltam ainda os gradeamentos de trás. Através do portão vê-se, à esquerda, o muro para suster as terras que eu estava construindo e em frente as escadas para subir para a frente da casa, também ainda em construção.

Casa da Praia 3.jpg

 A Casa da Paria hoje.

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