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Ilha de Moçambique

por António Tavares, em 22.06.17

Ilha de Moçambique

Os meses em Nampula foram passando, numa rotina previsível.

De vez em quando apareciam cromos como um certo general que, chegado ao aeroporto de Nampula, me liga a pedir um mercedes para o trazer para a cidade. Que, como era general, tinha direito a um mercedes.

- Mas, ó sr. General, não tenho aqui nenhum Mercedes disponível. Quando muito posso ver se há algum Volkswagen…

- Desenrasque-se!

Passado algum tempo (não muito) aparece-me à porta do meu gabinete.

- Então… já arranjou o Mercedes?

Tinha pedido boleia a um militar que passara de jeep no aeroporto. Recusou um Volkswagen para pedir depois boleia de jeep.

Mercedes não havia. Mandei-o falar com as chefias superiores…

Mas tirando isso tudo correu lindamente. Mesmo correndo alguns riscos…

Aos domingos metia-me sozinho no jeep e ia almoçar a Nacala, ou à Ilha de Moçambique. 200 quilómetros para cada lado. E o jeep não dava mais de 90 km por hora. Nas retas a perder de vista puxava o botão do acelerador automático e era só segurar o volante. Era preciso era estar atento aos macacos, não fosse algum atravessar-se à frente. Enxameavam as margens da estrada. Sem autorização de ninguém. E era preciso levar uns jerricans de gasolina suplentes. Por vezes ficava de sábado para domingo. Se era em Nacala ia pedir para dormir na base aérea, sede dos paraquedistas. Se fosse na ilha de Moçambique ia dormir no Lumbo, no antigo quartel dos comandos, entretanto deslocados para Montepuez.

A ilha de Moçambique foi durante algumas centenas de anos a capital de Moçambique. Hoje está muito devastada, mesmo sendo património da humanidade.

Os portugueses estabeleceram-se aqui porque a ilha tinha boas condições de habitabilidade. Ficava numa baía calma, com bons acessos e assim ficavam protegidos dos povos do continente que eram tidos como canibais. E foi com esses povos do continente que se começaram a estabelecer os laços comerciais. Levavam-lhes panos e deles traziam ouro.

Aos poucos os portugueses foram pacificando esses povos e foram-se estabelecendo no continente (Lumbo). E daqui foram construindo as primeiras estradas África dentro, até à zona de Nampula e Niassa. Mais parte era daqui que partia o caminho-de-ferro até Vila Cabral (Niassa). Foi construído um pontão de madeira, mar dentro. Os vagões chegavam e descarregavam diretamente para os navios ancorados ao lado.

Foi aqui no Lumbo que se estabeleceram os primeiros quartéis.

No tempo de maior dinamismo a Ilha de Moçambique tinha uma vida bastante cosmopolita. Atestada pela quantidade de palácios e mesquitas. Tinha mesmo um palácio do Aga Khan.

A ilha é estreita. Tem cerca de 3 quilómetros de comprimento. Na ponta sul existe um ilhéu que funcionou como prisão. Na ponta norte a fortaleza. Famosa pelas suas cantarias de pedras brancas de calcário, trazidas da metrópole para fazerem de lastro nas naus que, iam para lá vazias e vinham de lá cheias das mais variadas riquezas. Era atrás desta fortaleza que eu dava 50$00 a um pretito para ir pelas rochas buscar uma lagosta ao mar. E às vezes trazia uma que pesava perto de 2 quilos.

A primeira grande queda de valor da Ilha de Moçambique foi com a passagem da Capital para a Cidade de Lourenço Marques, situada no extremo sul do país, nos inícios do século XX. Mais ligada aos ingleses da África do Sul, acabou por ter um desenvolvimento comercial mais acelerado.

A segunda (e definitiva) queda de valor da Ilha de Moçambique foi motivada pela guerra colonial. O porto foi mudado para Nacala, mais a Norte, que ficava numa baía profunda e ainda mais abrigada. Tinha melhores condições de navegabilidade. A estrada e o caminho-de-ferro foram desviados, no Monapo, para Nacala. Os quartéis foram todos para Nampula. Os comandos foram para Montepuez.

Os Macuas desta zona eram na altura um povo pacato e acessível. As mulheres andavam permanentemente com a cara pintada com uma maquilhagem branca.

Nem mesmo a construção da ponte de 3 quilómetros a ligar a ilha ao continente, projetada por Edgar Cardoso nos anos 60, conseguiu salvar a ilha. A ponte tem uma única faixa de rodagem. De 100 em 100 metros tem uma reentrância, uma vez para um lado, outra vez para o outro, para permitir as ultrapassagens. Nas imagens que vejo hoje do Google Earth reparo que quem passa nesta ponte paga agora portagem.

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O ilhéu prisão da Ilha de Moçambique

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A igreja do Lumbo, o edifício da Alfândega e o pontão cais

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Vasco da Gama na Ilha de Moçambique, em frente aos edifícios do governo

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Bairro macua da Ilha de Moçambique

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Entrada da fortaleza da Ilha de Moçambique

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Ponte de Edgar Cardoso

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Uma das mesquitas

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publicado às 16:05

O uísque que era álcool e tintura de iodo

por António Tavares, em 07.06.17

O uísque que era álcool e tintura de iodo

Morava em Nampula num bairro maioritariamente habitado por indianos. Ismaelitas. Pessoas calmas, ligados ao comércio. A maioria das suas casas era de telhado de zinco. Mesmo tendo dinheiro nunca foram pessoas de grande ostentação.

O prédio era alugado pelo exército para albergar oficiais milicianos. 4 flats (apartamentos) com 3 quartos cada. Em cada quarto dormiam 2 alferes. Um jardim na frente com papaias. Bastava ir à janela do 1º andar para colher papaias. Nas traseiras havia um quintal com 4 garagens. Era aí que os mainatos (pretos que tomavam conta da roupa e da limpeza do apartamento) lavavam a nossa roupa.

A água da torneira era tão barrenta que estávamos muitas vezes à espera que chovesse para irmos tomar banho na rua debaixo da bica que caía do terraço. O telhado do prédio era um terraço. E normalmente a época das chuvas coincidia com a altura de mais calor. Lá vínhamos nós de calções, sabão e toalha na mão, lavarmo-nos à chuva na bica que caía do terraço.

Era nestes apartamentos que nos reuníamos para as nossas “festas privadas”. Ver um filme “caliente” em super 8. Havia quem tivesse a máquina e quem arranjasse clandestinamente um filme vindo da África do Sul ou da Rodésia. Comer sardinhas ou castanhas. Nas alturas próprias sempre lá chegavam. Ou mesmo para ouvir o cancioneiro do Niassa.

O exército importava uísque para vender nos meios militares a preços isentos de impostos. Os oficiais tinham direito a comprar uma garrafa de uísque novo por mês. Para os uísques especiais (velhos ou de malte) havia lista de espera. Eu consegui, ao fim de muito tempo comprar uma garrafa de Old Parr. Trouxe-a e guardei-a muitos anos. Quando nasceu o Bruno fiz uma promessa de só a abrir quando ele casasse.

Como quem casou primeiro foi o Tiago, levei-a para os Açores para abrir na véspera do casamento dele. Não foi oportuno, na altura. Voltou a garrafa para Lisboa. Quando o Bruno casou lá foi a garrafa para a Guarda. E abriu-se, finalmente, ao fim de 40 anos. Não prestava. Tinha perdido toda a força. Era água mal cheirosa. Talvez por estar já mal rolhada.

O meu colega de quarto (alferes Oliveira de V. F de Xira) veio-se embora mais cedo. Devido ao clima quente e húmido eram frequentes as micoses nas virilhas. Os enfermeiros preparavam-nos uma mistura de álcool e tintura de iodo para esfregarmos. O Oliveira tinha uma garrafa com essa mistela na mesa-de-cabeceira.

Quando algum alferes se vinha embora era usual dar ao mainato que tratava das suas roupas, aquilo que já não prestava, nem queriam trazer. Isso aconteceu com o Oliveira. O seu mainato veio receber as coisas que ele não queria trazer e diz-lhe:

- Sr alferes, posso ficar com o resto do uísque?

- Qual uísque?

- Aquele daquela garrafa!

- Mas aquilo não é uísque. É remédio.

- Não faz mal. Fico com ele na mesma. Sabe, eu de vez em quando bebia um gole pequenino…

- Por isso é que eu via o líquido a desaparecer…

E levou mesmo a garrafa com o resto do álcool e da tintura de iodo…

O clima em Nampula era extraordinariamente quente e húmido. As árvores de fruto (bananas e laranjas) davam frutos 2 vezes por ano. Nós fazíamos muitas saladas, sobretudo de tomate. Deitávamos os restos para o quintal. Passados 3 semanas já podíamos colher novos tomates.

O governo tinha um programa que financiava os militares que quisessem fixar-se na zona, após passarem à disponibilidade. Cedia terrenos a custo quase zero. Financiava a compra de máquinas agrícolas.

Era muito conceituado o algodão produzido naquele zona porque a apanha era manual. Assim não se partiam as fibras. Ao contrário da apanha mecanizada praticada em produções largamente extensivas, como o Egito e os EUA.

Era muito comentado o caso do Furriel que aproveitou essas benesses. Arroteou um terreno imenso. Endividou-se. Plantou algodão. A primeira colheita foi ao fim de 2 anos. Na terceira colheita pagou todas as dívidas e veio-se embora com um bom pé-de-meia.

A riqueza de Moçambique não se ficava pela agricultura fácil. Era famoso o chá do Gurué e as minas de carvão a céu aberto de Moatize. Bem como o gás natural de Inhambane e Cabo Delgado. E o parque natural da Gorongosa? E a Ilha de Moçambique? E o turismo? Quirimbas (Ibo) e Bazaruto?

Por isto tudo me faz muita confusão ver hoje imagens frequentes de Moçambique com seca, fome e tanta pobreza. Eu vi um país rico.

Portugal nunca soube tirar partido das riquezas das colónias. Sempre fomos uns mãos rotas. Fomos donos do mundo. Passaram-nos pelas mãos fortunas imensas que deixámos fugir por entre os dedos para a Flandres e para Inglaterra. Ficamos com as pedras dos conventos, mosteiros, igrejas e palácios (Mafra!!!), muitos dos quais hoje em ruínas e que nem sequer temos dinheiro para mandar reconstruir.

Por isso se alugam esses edifícios históricos para os mais variados fins, com o intuito de se arrecadar algum dinheiro que ajude a sua manutenção. Como aconteceu recentemente com o Convento de Cristo em Tomar. Mil pessoas (incluindo figurantes) para rodar um filme. Cortam-se as árvores do claustro. O canteiro das árvores (que antes tinha flores) enche-se de predas brancas roladas. Acende-se uma fogueira no meio do claustro com 20 metros de altura. Para isso carregam-se para lá 20 botijas de gás das grandes. O calor foi tal que pedras com 300 anos partiram. Telhas saltaram e partiram-se.

- Mas estavam lá os bombeiros de prevenção.

- Quantos?

- 2

- E tinham material de prevenção?

- Não. Estavam só eles. Se fosse preciso mandavam vir.

- E se as 20 botijas explodissem?

Possivelmente o claustro iria pelos ares.

Sempre fomos um país de extremos. Aquando do eclodir da guerrilha em Moçambique (1961) fomos capazes de levar 3 ou 4 lanchas da Marinha para o Lago Niassa. Este é um lago enorme (um autêntico mar) que limita a fronteira norte/oeste de Moçambique. Foram carregadas em vagões do caminho-de-ferro em Nacala. A viagem obrigou a desmatamentos e alargamentos. Os últimos quilómetros foram feitos em cima de camiões preparados para o efeito. Foram abertas largas picadas. Foram construídas pontes. Mas ao fim de 2 anos as lanchas chegaram ao lago Niassa para cumprir a sua missão.

O tio dos meus pais era dono de extensas plantações, salinas, fábricas de pão, fábricas de óleo de amendoim e de castanhas de cajú. Até era respeitado pelos seus empregados. Construiu mesmo para eles um bairro ao lado das fábricas de Monapo. Aquando da independência do país foi contactado por funcionários do novo governo.

- Sabe, agora isto é tudo do estado. Não temos nada contra si. O pessoal até parece que gosta de si. Queremos fazer-lhe uma proposta: você fica cá a gerir as fábricas e passa a receber um ordenado do estado.

Ainda tentou e ficou uns meses. Mas a confusão instalada levou a abandonar tudo de vez…

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Casa de indianos

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O andar onde morava: vista para a frente e para trás

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Aqui dormi perto de dois anos

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Em dia de São Martinho

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publicado às 17:05

25 de Abril

por António Tavares, em 07.06.17

25 de Abril

Tinha viagem de regresso à metrópole num dos últimos dias de Abril de 1974. No dia 25 ao chegar, pelas 10H00 ao quartel diz-me o Sargento:

- Ó sr Alferes, parece que em Lisboa já está o Spínola no poder.

Não percebi o que ele quis dizer, tão alheado estava das questões políticas. Só me queria mesmo vir embora.

- Parece que houve por lá uma revolução…

Sem entender nada, voltei à messe de oficiais. Estavam a reunir-se todos os milicianos. Queriam perceber o que se passava. Ligou-se um rádio para ouvir a Emissora Nacional. Rapidamente chegaram os oficiais de ligação com o movimento em Lisboa. E só então se perceberam alguns sinais da véspera, como por exemplo o facto de o General Diogo Neto (oficial da força aérea, de ligação local ao MFA) ter dormido no aeroporto, com pistola na cintura e com um helicóptero abastecido e preparado, na pista, para arrancar. Depois de dadas instruções locais ele foi dos primeiros a partir de avião para Lisboa.

Como disse atrás, um dos motivos que despoletou o 25 de Abril, foi a “guerrilha” entre oficiais do quadro e oficiais milicianos. Os primeiros julgavam-se “donos” do exército e encaravam mal o facto dos segundos atingirem postos elevados, em menos tempo. Embora nunca passassem de major. Os da Academia ainda podiam aspirar a chegar a general, tal como parodiava, com um certo sentido de humor fino, o Cancioneiro do Niassa:

Ser miliciano foi meu sonho

Mas não foi esse o meu fado

Deus deu-me outra fantasia

A de entrar para a Academia

E ser Oficial do Quadro.

Abandonei os civis

Ai deixei a honestidade

Passei a ser calaceiro

Sabujo do mundo inteiro

Deixei de falar verdade.

Hei-de ir p’ro Estado-Maior

Cagar postas de pescada

Dedicar-me àquele estudo

Eles é que sabem tudo

Os outros não sabem nada.

Não chorem pelo meu fado

E de mil não digam mal

Se eu aldrabar um bocado

Se eu aldrabar um bocado

Ainda chego a general…

 

Passada a fase de euforia pós 25 de Abril, cada um puxava para o seu aldo. Cada um se queria vir embora o mais cedo possível. Tratei da transferência do dinheiro do sargento, para ficar com os 10% em Lisboa. Fui encomendar um caixote grande para trazer todos os meus pertences. Enchi-o de tudo o que pude. Ainda fui comprar louças e roupas chinesas e artesanato de pau-preto e despachei-o nos serviços de transportes para Lisboa.

Fui tratar da viagem via aérea. Consegui viagem para o dia 25 de Maio. Escrevi para os meus irmãos em Queluz a avisar da minha chegada.

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publicado às 15:18

As esposas dos Srs Oficiais

por António Tavares, em 05.06.17

As esposas dos Srs Oficiais

O meu chofer vinha buscar-me a casa de jeep. Andava 100 metros e parava na porta da messe de oficiais (no praça da parte de cima) para eu tomar o pequeno-almoço. Depois dava-mos a volta ao largo e entravamos no quartel, do outro lado da praça.

Certo dia, acabava eu de tomar o pequeno-almoço no bar da messe, pergunto ao militar:

- Quanto é?

- Está pago, sr Alferes, pode ir.

Olhei em volta, espantado. Não vi ninguém conhecido.

Isto repetiu-se durante alguns dias. Até que a minha curiosidade me fez voltar ao bar mais tarde.

- Quem é que me tem pago o pequeno-almoço?

Perguntei ao militar.

- É a esposa do nosso Major Martins que normalmente se senta naquela mesa.

Apontou para um canto da sala. No dia seguinte lá estava ela. Pagou o meu pequeno-almoço e sorriu para mim. Passamos a tomar o pequeno-almoço juntos na mesma. O que ela queria de mim? Apenas me pediu que lhe desse a chave do carro do marido.

O Major Martins era também da segurança, ligado à Pide. Passava meses percorrendo os aquartelamentos de Moçambique de uma ponta à outra. Vinha por vezes à metrópole trazer relatórios e levar instruções. Como conhecia bem a sua esposa, deixava-me o seu Fiat 125 com o pretexto de lhe fazer uma revisão. A razão no entanto era que eu o guardasse e não deixasse a esposa mexer nele.

As esposas dos nossos oficiais superiores tinham por hábito fazer reuniões “secretas” em casa de umas ou de outras. Algumas vezes bem longe da cidade e dos olhares mais indiscretos. E por vezes não havia carros disponíveis. Sempre era mais um.

Vários oficiais faziam o mesmo e deixavam o seu carro comigo. Aproveitava e dava eu uma volta com eles.

Tinha aprendido a conduzir com o militar, condutor do meu jeep. Ia com ele dar passeios pelos bairros de palhotas à volta da cidade. Mal saímos da cidade eu tomava o lugar dele. Ele ia-me indicando como fazer.

Certa vez parei entre e palhotas porque o condutor me disse:

- Ó sr Alferes, olhe que aí não passa.

- Passa, passa…

Disse eu. Passou mas arrastou o telhado de uma das palhotas e o telhado arrastou uma das paredes. Ainda tive tempo de ver um velhote deitado na enxerga. E fugimos dali.

O exame de condução foi feito no Serviço de Transportes do exército, por um colega Alferes que havia feito a recruta comigo em Mafra. Saímos por um portão do quartel e entramos pelo outro.

- Podes ir embora. Estás aprovado.

Mas gostei de fazer o que faziam a todos os militares que tiravam a carta: testes psicológicos e psicotécnicos para analisar o grau de resposta às diversas reacções sensoriais. Tudo nos conformes.

Mas voltando à messe e às senhoras esposas dos oficiais.

A antiga messe dos oficiais tinha na frente um hall grande onde havia um conjunto de cadeiras de verga tipo colonial. Era nessas cadeiras que se viam essas senhoras a apanhar sol. E foram inspiradoras para os cantadores do Cancioneiro do Niassa:

Em frente ao Neutel de Abreu

A quem roubaram a espada

Existe a Gorongosa

Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos

E de outros animais

Costumam apelidá-los

De senhores oficiais

Numas cadeiras de verga

Expostas num grande hall

Lá estão as vacas malhadas

Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos

Que trabalham no quartel

Mal percebem coitadinhos

Qu’ali há putas a granel

Quando cheguei a Nampula a messe de oficiais estava a ser ampliada. Foi construída a nova sala de jantar e um salão de jogos.

A comida não era boa nem má. Era assim… assim… Ao café tínhamos chá gelado muito agradável. Ao almoço e ao jantar havia pescadas fritas congeladas em cada 3 de 4 refeições. Fiquei tão farto de pescadas de rabo na boca, que ainda hoje não sou capaz de comer tal peixe.

O salão de jogos era onde nos entretinha-mos mais. Não havia televisão. Jogávamos king. O jogo começava na sexta-feira à noite e prolongava-se por sábado todo o dia e até ao fim da noite de domingo. Mesmo a 1 centavo o ponto, chegava-mos a domingo à noite com mais de 20 contos em cima da mesa.

A maior parte dos frequentadores deste salão de jogos eram os oficiais milicianos, alguns com as suas famílias. Os oficiais superiores tinham o seu retiro no Hotel Portugal. Nem um nem outro eram espaços convidativos para as senhoras esposas dos oficiais superiores jogarem a sua canasta e beberem o seu chá. Então pediam a reserva do salão de jogos, um fim-de-semana em cada mês, apenas para elas. Era o nosso pior fim-de-semana…

Do grupo destas senhoras faziam parte as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Aquelas eram esposas de altas patentes em Lisboa, que deambulavam pelos aquartelamentos fazendo a sua “psico”. Eu recebia regularmente chamadas telefónicas delas. Ouvi-as calado. No fim dizia que estava tudo bem. Que não precisava de anda. Já só as queria ver caladas.

- Sr Alferes, então como está? Fala a Teresa Supico Pinto do MNF. A sua saúde? Precisa de alguma coisa? Se precisar de alguma coisa pode contar connosco. Estamos cá para vos animar e ajudar a passar o tempo. Blá… blá…

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publicado às 11:46

Exploração e Roubo

por António Tavares, em 18.05.17

Exploração e roubo

A minha chegada a Nampula coincidiu ainda com algum rescaldo da célebre operação Nó Górdio. Todo o planalto dos Macondes em Cabo Delgado fora varrido a napalm, um explosivo que já havia sido banido pelas convenções internacionais. Contava-se entre nós que no briefing final os generais apenas lamentavam o material perdido. Porque os homens… a gente pede e eles mandam mais…

Existia em Nampula o BMM Batalhão de Manutenção de Material. Alguns hectares de ferro velho, camiões e unimogues estampados e minados. Todas as viaturas acidentadas, em guerra ou não vinham aqui parar. Mesmo as civis abrangidas pelo seguro de estar ao serviço do exército. Estavam para reparar se tal fosse possível, ou para tirar peças para outras.

Trabalhavam aqui muitos militares, a maioria mecânicos. E também muitos civis, incluindo negros. Estes eram admitidos a ganhar 4 contos de réis. Mas o capitão que tratava dos contratos quando os recebia dizia-lhes:

- Tu vens para ganhar 4 contos. Mas de início, como ainda não tens experiência, recebes só 2 contos. Depois, com o tempo, se fores aprendendo bem e te comportares bem, ganhas experiência a passas a receber mais.

E os coitados dos negros assinavam ou punham o dedo em recibos de 4 contos e só levavam 2.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

E o senhor Brigadeiro

Vive muito consolado

Até comprou uma balança

Para pesar o dinheiro

Que rouba ao pobre soldado

Quando será Deus do Céu

Que um dia haverá verba

Para a gente comer pão

E os chicos erva erva

Para a gente comer pão

E os chicos merda merda

(reprodução de memória)

Todos os oficiais superiores residiam com as famílias em moradias que ficavam mesmo ao lado da messe, em frente ao quartel-general. Assumiam a moradia como sendo sua. Sempre que um deles se vinha embora embrulhava loiças, candeeiros e até carpetes e cortinados. Quando alguém encarregue de conferir, à posteriori, o material à carga fazia o relatório das faltas. E vinha o despacho superior:

- Abata-se por estar incapaz.

- Ao sr alferes Tavares para proceder à destruição.

E lá fazia eu um auto: no dia tal às tantas horas, na minha presença foram destruídos estes e estes bens por se encontrarem na situação de incapazes para o serviço.

O quartel-general havia sido transferido de Lourenço Marques para Nampula pouco depois do início da guerra, alguns anos antes de eu chegar a Nampula. No porto de Nacala um tal caixote caiu ao mar e nunca foi resgatado. O material nele contido foi dado com o perdido.

Passados aqueles anos todos, sempre que se dava por falta de algum artefacto de que se desconhecia o destino, alguém dizia: vinha no caixote que caiu ao mar. E alguém escrevia: proceda-se ao abate…

O conjunto João Paulo foi convidado para fazer uma tournée pelos aquartelamentos militares de Moçambique. A sua exigência (além do pagamento): ter disponíveis à chegada os instrumentos musicais cuja lista entregaram. Incluía bateria, guitarras eléctricas, teclados, etc. Acabaram a tournée e vieram embora. Quando alguém se apercebeu: cadê os instrumentos? Tinham sido encaixotados e embarcados para Lisboa.

Despacho: proceda-se ao abate por incapacidade…

Mesmo nos meios civis havia verdadeira exploração da condição humana. Alguns machambeiros, mesmo familiares, empregavam negros nas suas explorações a quem pagavam um ordenado mas em géneros. Podiam levantar na loja da cidade o arroz, o óleo, os panos e tudo aquilo que precisassem. Eles não tinham condições de verificar se o que levavam era o que era registado e ao valor correto. Ao dia 10 ou 15 já ouviam: acabou, o teu ordenado acabou.

Era assim a loja na cidade de um patrício que fornecia o exército com víveres e frescos. Tinha no pátio em frente um Simca 1100 a cair de podre. Os pneus já estavam todos sem ar. Tinha comprado um mercedes e nunca mais pegara no Simca. Eu tinha tirado a carta de condução e tive a ousadia de lho pedir emprestado para dar umas voltas. Nunca. Sempre recusou.

No quintal das traseiras da loja amontoavam-se cachos de bananas algumas já podres. No quarteirão de baixo ficava o hospital civil onde o Abílio havia sido internado após um acidente de mota. Ele nunca o foi visitar. Eu pedi-lhe umas bananas para levar ao Abílio:

- Leva destas que são mais baratas porque já estão um pouco maduras. São xx escudos!

Em 1973 foi construído o edifício do cinema militar. Mesmo ao lado do ringue onde jogávamos futebol de cinco às quintas-feiras. A plateia era para os soldados: pagavam 12$50. O balcão era para os Sargentos: pagavam 5$00. O balcão superior era para os oficiais: tinham entrada privativa e não pagavam nada.

Também tive algumas dificuldades com alguns negros que trabalhavam na oficina. Na altura dos cajueiros ninguém os fazia vir trabalhar. Apanhavam os cajus, esmagavam as frutas para uma bacia e uns dias depois aquilo fermentava. Era a sua cerveja. Bebiam e passavam os dias deitados bêbados debaixo dos enormes cajueiros. E havia por lá muitos.

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publicado às 11:53

A doença negra

por António Tavares, em 16.05.17

A doença negra

Estava eu um dia em Nampula como oficial de dia ao Quartel-General quando fui acometido por umas dores abdominais tão fortes que, para não desmaiar, os soldados carregam-me no jeep e levaram-me para as urgências do Hospital Militar.

Estava de médico de serviço o capitão médico mais conhecido em Nampula. De formação era Otorrinolaringologista. Mas na tropa era pau para toda a colher. A sua barriga devia ter à vontade 2 metros de perímetro. Fumava e bebia que nem um odre. Tinha por hábito trazer uma garrafa de whisky sempre que estava de médico de dia. E muitas vezes a meio do dia mandava um dos soldados de serviço ir a sua casa buscar outra.

Já podem imaginar a minha resposta quando ele, depois de me carregar na barriga, diz:

- É apendicite aguda. Levem-no já para a sala de operações.

- Nem pense nisso. Vou-me já embora.

Tentei levantar-me mas não consegui.

- Pronto, não quer, não quer… Ponham-no a soro para lhe dar a injeção.

Isto acontecia-me com alguma regularidade. Davam-me uma injeção de buscopan. Dormitava um pouco e passava.

Já depois de vir para Lisboa isto acontecia com regularidade. Fui várias vezes a vários médicos e nunca me diagnosticaram nada. Fiz análise a tudo o que era possível. E nada.

Antes de casar o meu futuro sogro pediu-me que fosse a um médico que tinha consultório no prédio onde ele morava. Fui. Não me disse nada de especial.

Mais tarde esse médico foi falar com o meu futuro sogro sua à oficina que ficava na cave do mesmo prédio.

- Sabe senhor Gervásio. O seu futuro genro tem uma doença complicada. Chama-se doença negra. Ele não nasceu ao pé de um rio? Olhe que ele vai ter que levar regularmente transfusões de sangue.

- Só me faltava mais esta! Diz o senhor Gervásio. Sei lá se ele nasceu ao pé de um rio. Eu já lá estive e não vi lá rio nenhum. Tenho a filha ainda a recuperar de um atropelamento que lhe partiu a perna e a fez estar um ano de cama e que ainda tem a cavilha de metal no fémur e agora isto.

Tinha-mos marcado casamento para o dia 11 de Maio de 1975. Quinze dias antes fomos (mais uma vez) almoçar ao Redondel a Vila Franca de Xira. Eu e a Fernanda. No caminho já ia mal disposto. Não comi nada ao almoço. Apenas consegui beber uns goles de Água das Pedras. Consegui guiar lentamente. Quando me vinham as dores fortes tinha que parar o carro.

As dores não eram muito localizadas. Sempre me pareceram no estômago. Por vezes eram tão fortes que quase desmaiava.

De Vila Franca demos a volta (que fazíamos com frequência) por Alverca e subindo a serra por Bucelas. Consegui levar o carro parando amiúde. Debaixo de uma figueira a meio da serra, junto ao rio em Bucelas.

Lá me arrastei até chegar à porta do banco do Hospital de Santa Maria. Parei o Fiat. A Fernanda veio abrir-me a porta para me tentar amparar até entrar no banco. Caí redondo no chão. Vieram-me buscar de maca.

Só me lembro de me terem feito uma picada num dedo e ouvir dizer: é apendicite aguda. Tem que ser operado já.

Aqui não fui capaz de reagir como em Nampula.

A Fernanda deu a morada de casa dela. Era morada da zona do Hospital dos Capuchos. Alguém me levou para lá. Fui operado nesse dia. Disse-me depois o médico que assim que espetou o bisturi o pûs soltou quase até ao teto. Estava já quase a fazer uma peritonite.

Não me lembro de alguma vez ter bebido leite. Não consigo. Mas nos dias seguintes a Fernanda trazia-o e achava graça. Eu bebia-o. Tal era a samarra que tinha na língua.

E nos dias seguintes tive febres tão altas que os médicos começaram a fazer análise com medo que fosse algo parecido com tifo. Não era. Tudo passou.

Felizmente ainda conseguimos adiar o casamento uma semana, para o dia 18 de Maio de 1975. Mas ainda ia bastante combalido.

Aguentei estas dores pelo menos durante 2 anos. Afinal o capitão médico gordo tinha razão. Eu é que tive medo. E quanto a doença negra … estamos conversados.

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 O nosso FIAT 128 em Maio de 1975 (lua de mel no Algarve) frente à pedreira de SIENITO (um tipo de granito único no mundo) em Monchique.

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publicado às 20:25

5 dias no inferno

por António Tavares, em 16.05.17

5 dias no inferno

A etapa entre Porto Amélia a Mueda foi a minha única experiência de guerra. Foram cinco dias no inferno.

Até Montepuez foi uma simples coluna militar, com vários camiões. Picada boa.

Montepuez era a última povoação grande antes da zona de Guerra de cabo Delgado. Era a cidade sede do Regimento de Comandos. Largas avenidas com casas térreas. Muitos comerciantes portugueses e indianos. Aqui nos juntamos à coluna de reabastecimento que vinha de Nampula. Ao todo mais de 70 camiões. A maioria deles civis. Tudo o que era necessário lá em cima ia de camião. Alimentos, armas, material de construção, etc.

Como o exército não tinha camiões suficientes, fazia contratos com camionistas civis que viviam da ida (2 vezes por mês, mais ao menos) a Mueda. Carregavam tudo. Tinham pago seguro de vida e da viatura. Se a mesma fosse minada ou acidentada, ou era reparada nas oficias do BMM - Batalhão de Manutenção de Material, ou recebiam uma nova igual. Um achado: havia militares (incluído generais) que tinham por sua conta uma verdadeira frota de camiões.

Como a nossa companhia não tinha experiência de guerra, toda a coluna era protegida por um pelotão de 30 homens, comandado por um alferes. Era a este que estavam incumbidas todas as operações de protecção e segurança, da coluna de viaturas. De mais de 7 quilómetros, entre a primeira e a última.

Saindo de Montepuez embrenhamo-nos na zona de guerra. Esta começava oficialmente na zona dos morros, uns 100 quilómetros acima. Uma zona de picada estreita entre 2 morros enormes. O comandante da minha companhia seguia, com um grupo de militares, na viatura atrás da nossa. Passada a curva dos morros deixei de ver a sua viatura. De repente ouço rajadas e rajadas de tiros. Pensei:

- Foram emboscados e estão a ser atacados, lá atrás.

Dei ordem ao pessoal que ia comigo para saltar da viatura, para se protegerem debaixo da mesma e esperar. Sempre preocupado com as minas.

Mais à frente o pelotão de segurança saltou das viaturas, meteu-se mato fora para tentar cercar o inimigo atrás dos morros.

Passado algum tempo parou o tiroteio. Vejo a viatura do capitão a vir em nossa direcção e ele mesmo a acenar com a mão: podem seguir.

Acagaçado com os morros, ele tinha dado ordem aos seus soldados para esvaziar cada um, um carregador de G3 sobre os morros. Sem nada combinado com o pessoal da segurança que ia mais à frente. Com possibilidade de serem apanhados pelo seu fogo cruzado.

O alferes que comandava a segurança chamou-lhe depois a atenção:

- Quando chegar a Mueda vou participar de si…

Um dos soldados que seguia na minha viatura era casado e levava aliança no dedo. Ao saltar da viatura a aliança ficou presa nalguma peça metálica e descarnou-lhe o dedo quase até à ponta. Foi até Mueda com o dedo entrapado.

Numa das viaturas seguia uma escavadora de lagartas. Nunca se sabia quando é que as chuvas abriam valas na picada. E aconteceu mesmo. Algures ali para Nairoto foi preciso abrir outra picada mais ao lado, para a coluna passar.

Sobre o ri Mesalo a ponte era de madeira, com perto de uma centena de metros. Foi decidido passar ali uma das noites. Havia água para nos lavarmos, o espaço era amplo e seguro. Para evitar ataques de crocodilos tinham sido espetados troncos, em fiada, uns metros acima e outros uns metros abaixo da ponte. Foi o primeiro mergulho em águas correntes, mesmo barrentas.

Na coluna seguiam 3 camiões militares novos, marca mercedes 4x4, enormes, tamanho que eu nunca vira. Iam os 3 seguidos. Um deles ficou em cima da ponte e os outros 2 na rampa a descer para a ponte. Sem ninguém saber porquê (estariam mal travados?) um deles deslizou e levou os outros 2 de rojo. Dois deles ficaram com o radiador roto. Solução: mandar vir por helicóptero 2 radiadores novos. Não havia. Era um modelo novo e não havia peças sobresselentes.

Nova solução: esvaziar 2 bidons de gasóleo para dentro dos depósitos das viaturas. Colocar cada um dos bidons vazios em cima de cada uma das viaturas avariadas. Desfazer sabão e com ele bloquear as zonas rotas dos radiadores. Ligar uma mangueira de cada bidão a cada radiador avariado. Sempre que o nível de água fosse baixo era necessário encontrar mais água para encher os dois bidons.

A tropa manda desenrascar. E assim lá chegamos, famintos, 5 dias depois a Mueda. Depois de passar a célebre curva das bananeiras. Pelo caminho ficaram vários postos com presença de militares, como Nairoto, Chaca ou Nacatar.

Eu não conseguia comer as rações de combate. Só bebia os sumos. As latas de conserva dava-as aos rapazes. Sempre que o camião parava eu saltava e ia arrancar raízes de mandioca. Descascava-as e roía-as.

Diz o cancioneiro do Niassa (de memória):

Que culpa tem o soldado

De ter raiva à sua sorte

Se chega um filho da puta

Que o mete numa farda

E o manda para a morte

Ou:

Se há um jovem que tomba outro se levanta

Se há um jovem que chora há outro que canta

Anda ver meu amigo os que riem do perigo

Frente à morte na luta pela vida

Picada para Mueda.jpg

Descida do Nairoto para o rio Mesalo. Imagem tirada da NET

 

Nampula.jpg

 Numa avenida de Nampula. Uma berliet carregada a aguradar a próxima viagem a Mueda.

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publicado às 16:31

Abílio

por António Tavares, em 09.05.17

Abílio

O Abílio sempre teve uma vida muito atribulada. Lembro-me de, no Casalinho, ter espetado um tronco de esteva numa canela. Tinha 4 ou 5 anos. Foi tratado como a mãe foi capaz. Com ajuda do farmacêutico e do médico em Cardigos. Ficou com uma lasca junto ao osso. Gangrenou e chegava mesmo a ver-se o osso. Felizmente dessa curou-se.

O nosso familiar (tio rico), era dono de vários negócios na zona de Nampula/Nacala. Salinas, padarias, descasque de caju, óleo de amendoim, etc. Vinha de férias alguns meses por ano. Ligava para o C. Santos em Lisboa para que tivesse no cais de Alcântara um mercedes no dia e hora que chegasse no paquete Funchal. Passeava 2 meses pela Europa fora e embarcava de volta, deixando o mercedes no cais.

Consta que um dia chegou até Telavive. Gostou e comprou um prédio de rendimento.

Noutra vez encomendou 2 mercedes para África. Um para ele e outro para a esposa. A esposa não tinha carta nem nunca a tirou. Os vidros partiram-se, os pneus furaram-se, as galinhas andavam lá dentro.

A sua casa foi desenhada em Lisboa e os mármores foram de cá já cortados, prontos a serem colocados.

Um dia em que cá estiveram disseram para a minha mãe:

- Como o seu filho não vai poder vir passar as férias cá à metrópole, pode passar as férias lá connosco.

Os seus 2 filhos tinham um andar alugado em Nampula para estudarem no Liceu. Tinha cada um o seu mercedes. No fim-de-semana iam para Nacala. Encontrei-os algumas vezes. Falavam em eu poder ir lá passar uns dias. Nunca concretizaram o pedido.

Uma vez perdi a vergonha. Meti-me no jeep e apareci lá. Ficaram admirados. Almocei com eles no salão de mármore, mas para dormir levaram-me para a cave, para dormir num sofá velho, cheio de teias de aranha, na companhia dos ratos. Deviam ter os 17 quartos da mansão ocupados!

Mas voltando aio Abílio…

Eles disseram à minha mãe que o podiam levar para lá. Que o criavam e que ele os podia ajudar. E foi.

Estava eu no despachante, em Lisboa, quando o Abílio foi atropelado em Santa Apolónia, enquanto esperava pelo embarque no paquete. Foi ao hospital e embarcou com gesso no braço. Acabou por ficar como criado deles, para todo o serviço, nas padarias de Nacala.

Quando eu estava em Nampula fui uma vez visitá-lo. Dormia num anexo destinado aos criados. Passei essa noite lá com ele. Mas pensei para mim: isto não é vida para ele.

Uns tempos mais tarde ligam-me de Nacala para a Messe de Oficiais em Nampula a dizer que o Abílio tinha tido um acidente de mota e precisava de ir para Hospital.

- Mandem-no de ambulância para o hospital de Nampula!

E mandaram. Passadas algumas horas ligam-me do hospital de Nampula a dizer que o meu irmão tinha chegado e que, para ele dar entrada, era necessário um depósito de 60 contos. Era fim-de-semana. Eu não tinha o dinheiro. Mas vali-me dos meus amigos (dos verdadeiros que sempre encontrei) e o dinheiro apareceu e o Abílio foi tratado.

Foi aí que o nosso familiar e vizinho do Casalinho, a viver em Nampula, que produzia e vendia bananas, que tinha o armazém cheio delas a apodrecer, me vendia as bananas já meio podres, ao preço que vendia ao público. Mesmo sabendo que eram para o Abílio que estava no hospital ao fundo da rua. Onde ele nunca fez uma visita. Sempre esperei que ele dissesse: leva lá esse cacho de bananas. Não é nada. Mas nunca disse.

Aí tomei uma decisão e comuniquei-a ao Abílio: vou-te mandar de volta para os pais.

Comprei passagens aéreas e no dia marcado lá estava o Abílio no aeroporto de Nampula, para embarcar para Lisboa. Azar. Diz o oficial da PIDE no aeroporto:

- Não pode embarcar. Como é menor precisa da autorização dos pais.

- Mas com os pais vai ele ter!

- Pois é mas leis são leis.

Pela primeira vez o meu tio me ajudou. Meti-me no jeep e fui-lhe pedir, por favor, que intercedesse a nosso favor. Sabia das suas ligações ao poder local. Levei-o ao aeroporto e lá convenceu o oficial da PIDE a deixá-lo embarcar.

O Abílio veio de Moçambique com a mesma quarta classe que levou de cá. Depois de regressar empregou-se no Ministério da Educação, tirou o Liceu, licenciou-se em gestão, foi inspector das Finanças. Tem um bom grupo de amigos. Fazem caminhadas e corridas. Passeia. Corre. Tem uma boa casa em Queluz (acabou por comprar a casa que alugáramos em 1970), com 5 assoalhadas. Sê feliz meu irmão!

Abílio, falo aqui de ti porque gosto muito de ti e a tua vida de resistente inspira-me. A vida tem-nos separado, mas nunca te esqueço. Desculpa se o que aqui escrevi não condiz a 100% com a realidade. Mas a esta distância alguma coisa pode não ter sido bem recordada.

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publicado às 15:02

Partida para Moçambique

por António Tavares, em 06.05.17

Partida para Moçambique

Durante a especialidade em Mafra, preparei-me para fazer a admissão ao ISE. Em Julho de 1971 pedi licença para ir fazer os exames a Lisboa. Fui e fui admitido. Mas já era tarde de mais. Já não podia pedir adiamento de incorporação.

Pedi ao Mário que me arranjasse os livros pelos quais a Ana estudava (andava no ISE) para eu ir lendo em Moçambique. Arranjou-me o Pereira de Moura (era a bíblia) mais alguns livros e algumas sebentas. Foram todos roubados em Mueda.

Havia em Torres Novas um alferes que devia pesar perto de 150 quilos. Pensa-se que foi o seu peso que evitou que fosse mobilizado para o ultramar. Tinha um Fiat 600 e um gosto especial por petiscos. Quem ia com ele tinha que ocupar os bancos de trás do Fiat. A frente era só para ele.

Íamos com frequência beber uns copos a uma taberna nas Terras Negras. Com a sua bonomia era uma pessoa muito bem-disposta. Dizia que tinha por hábito fechar os olhos quando guiava a direito e que os abria sempre antes da próxima curva.

Certo dia, vínhamos das Terras Negras, abriu os olhos tarde de mais e só parámos dentro de um campo de couves. Os quatro conseguimos por o Fiat na estrada. O pior foi quando chegamos à cidade e quisemos ir meter gasolina. Saímos todos para nos limpar e quando fomos embora deixamos a bomba de gasolina cheia de terra. É que tinha chovido e, quer nós quer o Fiat, pingávamos lama por todo o lado. O homem da bomba de gasolina ainda lá deve estar a fazer barulho, neste momento…

Finda a instrução, em Março de 1972, deu-se início à preparação para embarcar para Moçambique. Todos em tronco nu, sentados num banco corrido, uma perna para cada lado, passava o enfermeiro com uma seringa enorme e dava uma espetadela em cada um. Era a chamada dose cavalar.

Era autorizado aos militares deixar cá, na metrópole, cerca de 60% do ordenado. Ia ganhar cerca de 10.000$00. Decidi deixar cá 6.500$00. Informei-me sobre que companhia de seguros fazia seguros de vida de militares que iam para o ultramar, que cobrissem o risco de morte. Só havia uma: a francesa La National Vie. Contratei um seguro, já não me lembro de que valor. O beneficiário, em caso da minha morte era o meu pai. Paguei a primeira anuidade e avisei a minha irmã Helena (era a mais velha) que tinha dado o nome dela para ficar a receber todos os meses os meus 6 contos e quinhentos e pedi-lhe para os depositar na minha conta no banco. E ela pagaria desse valor as restantes anuidades do meu seguro de vida.

Não sei como nem porquê o meu pai veio a saber que tinha dado o nome dela para ficar a receber o dinheiro. A helena disse-me que o pai não tinha ficado nada contente. Mais uma vez não me disse nada a mim. Mas para evitar confusões troquei o nome dela pelo do meu pai. Mas disse à Lena que lhe mandaria todos os anos o valor necessário para pagar a anuidade dos seguros. E mandei sempre.

Quando escrevia à mãe dizia-lhe:

- Ó mãe, olhe que o dinheiro que vocês aí recebem é do meu ordenado. Guardem-me algum para eu reiniciar a minha vida quando aí chegar.

A mãe respondia que sim. O certo é que quando cá cheguei nem um tostão tinham guardado. Quando regressei para o despachante, em pleno período PREC, entramos em autogestão. Recebi, passados uns meses uma autopromoção com retroactivos que me permitiram comprar, a pronto, um Fiat 128. Mas não tinha dinheiro para o seguro, já na altura obrigatório. Pedi à minha mãe que ao menos me ajudasse a pagar o seguro. Afinal tinham recebido 6 contos e quinhentos do meu ordenado durante 2 anos.

A mãe respondeu que o dinheiro tido ajudado este e aquele… (disse-me os nomes!), que não tinha o que lhe pedia, mas mandava o possível.

Sabes Lúcia… lembras-te de quando ias ter comigo à Marconi, ao pé da Feira Popular, a pedir que também tinha que contribuir para comprar uma televisão para os pais no Casalinho e eu dizia que não podia? Não te quis dizer, na altura, que já tinha ajudado a todos vocês o suficiente, com o meu ordenado, durante dois anos. Afinal eu fui, de todos, o que mais ajudou os pais e não só. Eu sei que o pai pensava que o dinheiro que recebia era um subsídio do estado por ter um filho na tropa. Mas não era. Era o meu ordenado. E eu disse-lhes, por carta, muitas vezes. E muito me custou, com a ajuda de pessoas que não me eram nada, conseguir ir para a tropa como oficial a ganhar mais de 10 contos por mês… em 1971…

Voltando a Torres Novas…

Comprei a revista Crónica Feminina. Publiquei um anúncio: “Alferes miliciano deseja corresponder-se com raparigas …. SPM XXXX”. Era usual os militares colocarem estes anúncios em revistas femininas, para terem amigas com quem se corresponder. Eu tinha pedido às minhas namoradas platónicas para se corresponderem comigo. Da Graça não consegui nada. A Nônô ainda me escreveu algumas vezes.

Devido às peripécias da minha chegada a Moçambique (Beira, Porto Amélia, Mueda, Hospital), só 2 ou 3 meses depois recebi as primeiras cartas. E a primeira entrega (ainda no hospital) foi um saco bem recheado de cartas. Algumas até do Brasil: Vitória, Piauí.

Não podia responder a todas. Fiz uma selecção: melhores palavras, melhores letras, melhores localizações, etc. Mesmo assim ainda respondi a algumas durante algum tempo. Depois foi a selecção natural. A cativação pelos diálogos escritos e a assiduidade. Ficou a Fernandinha (sempre lhe chamei assim), a mãe dos meus filhos e minha companheira à 42 anos.

Voltando novamente a Torres Novas…

Na véspera de embarcar para Moçambique fui ao Quartel do Entroncamento buscar um soldado que estava preso (nunca soube porquê) e que tinha sido castigado com a mobilização forçada. Partimos no dia seguinte em camiões para o aeroporto militar de Lisboa.

Fomos das primeiras companhias a embarcar nos 2 novos Boing 707 brancos da Força Aérea e não nos velhos Paquetes Vera Cruz e Funchal. Cada avião levava uma companhia inteira, mais de 300 homens.

Dos 4 Alferes que faziam parte da nossa companhia, um não compareceu ao embarque. Tinha dado baixa ao Hospital Militar Central de Lisboa. Nunca mais o vi.

Eram 10 horas da manhã. 12 horas depois estávamos no aeroporto de Luanda. Já era noite, saímos e senti, pela primeira vez, o bafo do calor de África. Umas horas depois embarcamos de novo com destino à Beira.

Depois de uns dias de descanso, de ter sido levado pela 2oposição” e pela “contra-espionagem” a fazer o tirocínio pelos bares da cidade, de ouvir e cantar o cancioneiro do Niassa várias vezes, aí vamos nós de avião (agora da DETA, companhia moçambicana) rumo a Porto Amélia.

A partir daqui iríamos embrenharmo-nos na guerra…

T Novas 3.jpg

 Eu, os meus Furriéis e os meus cabos.

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publicado às 15:42

Últimas lembranças de Cardigos

por António Tavares, em 03.05.17

Últimas lembranças de Cardigos

Nunca tivemos luz nem água canalizada no Casalinho. Quando no verão de 1965 o padre do Seminário veio visitar-me, além de convencer o meu pai a arranjar um quarto só para mim falou em arranjar uma casa de banho. Mas como?

Tinha-mos uma horta no cimo da aldeia, a que chamávamos quintal. Fazíamos culturas de inverno e de sequeiro e árvores de fruto. O meu pai tinha trabalhado a fazer mais fundo o poço do Sr. João Nunes, ali perto, que embora pouca, tinha alguma água. O meu pai convenceu-se a fazer também um poço no nosso quintal, um pouco mais acima. Andámos a fazer de vedor com uma vergôntea verde. Andamos a seguir velhas crenças nalguns tipos de plantas que indiciariam veios de água subterrânea, como fiadas de troviscos. E fizemos o poço.

Cavámos e furamos alguns metros (bastantes). Arrancamos rochas. Trazíamos para cima numa picota. Havia humidade. Água é que nada. O pai desistiu. E como os poços tinham que ser protegidos para evitar acidentes, o pai entendeu atulhá-lo novamente.

Lembrou-se depois que tínhamos um poço no Covão da Pouchana, na encosta de lá do Vergancinho. Estava num ponto mais alto que o quintal. Uns bons 2 quilómetros ou mais de distância. Construiu um tanque em tijolo e cimento. Comprou rolos de mangueira de plástico preto, estendeu-os pelos campos fora, pelo meio do mato. Ferrou a mangueira dentro do poço. Passamos a ter água no quintal, para a horta. Já podíamos cultivar hortaliças no verão, regadas com água a correr pelos próprios meios.

Só que o vale do Vergancinho é muito fundo. Na parte mais baixa a mangueira rebentava com frequência, quer pelo peso da água, quer pelo aquecimento no verão. Tinha que ser constantemente reparada.

A minha avó já tinha falecido e o meu pai pensou então em fazer uma casa de banho no quartito que era o dela. E fez. Ligou mais umas centenas de metros do tanque no quintal atá casa, passando por cima dos muros dos quintais dos vizinhos. A fossa era nas traseiras da casa, num terreno que era do meu padrinho, o Ti Virgílio. Ele tinha autorizado.

Já eu dormia sozinho naquilo que se chamava sala, quando uma noite tive um pesadelo que nunca esqueci. Fazia parte da doutrina dos padres falar do apocalipse, do fim do mundo, da altura de nos irmos juntar todos com Deus, etc. Não tinha sono. O tempo não passava e durante toda a noite fui assoberbado pelos pensamentos mais absurdos. Não ouvia nada. Barrulho nenhum. Só pensava: será que acabou o mundo e eu fiquei sozinho? Tinha 11 anos. Com os nervos até me borrei todo.

Nas férias de verão o meu padrinho perguntava se eu queria ganhar algum dinheiro. Disse que sim. Passei a ser eu a moer-lhe o milho. Ele tinha uma eira onde o juntava a secar. Depois de seco levava-o para dentro da casa da eira e eu, com a moeira, ia-o malhando. Isto demorava uns 2 ou 3 dias. Recebia 20$00 cada dia. Guardava o dinheiro para mim.

O meu pai foi dizer à minha mãe que não achava bem eu ter dinheiro. Se o queria ganhar tinha que o entregar a ele. Ele é que o geria. A mim nunca me disse directamente. Depois a minha mãe veio dizer-me. Passei a dar-lho a ele sempre que o recebia. Mas o gosto de moer o milho já não era o mesmo. Depois o Ti Virgílio comprou uma debulhadora de milho a motor. Só tinha que atirar, com a pá, as maçarocas de milho lá para dentro. Já era mais fácil.

O dinheiro sempre foi pouco. O pouco que havia vinha do trabalho do pai. Que não era regular, porque era necessário também fazer os trabalhos em casa e as sementeiras nas hortas. Também se vendiam os cabritos que houvesse, uns tempos antes do Natal.

Circulavam regularmente por aquelas aldeias pessoas com os mais variados fins: amoladores que punham garfos em vasos e pratos partidos e arranjavam chapéus-de-chuva, latoeiros que faziam, reparavam e vendiam vasilhas e instrumentos de lata, como funis e baldes e bilhas, sapateiros, vendedores disto e daquilo, compradores de peles de coelho e de cabritos, ciganos, etc.

O meu pai evitava servir-se daquela gente, sempre que possível. Ele remenda os sapatos, tão bem como se fosse sapateiro. Remendava os baldes, os alguidares e as tigelas de barro. Punha ele os gatos.

Como o Mário era mais novo que eu, mas mais forte, calçava mais ou menos o mesmo que eu, nos meus 10 anos. Então o pai comprou um para de botas novas para nós, os dois, usarmos ao domingo. Quem se levantasse primeiro é que as calçava. O outro tinha que ir com as botas velhas.

A minha mãe tinha problemas de saúde. Depois de ter tantos filhos tinha-lhe descaído o útero. Queixava-se ao médico em Cardigos (quando ele lá vinha). Aconselharam-na a ir ao Hospital a Abrantes para ser vista. O meu pai andava a juntar dinheiro para a levar lá fazer uns exames. Já tinha 500$00 de lado.

Certo dia passa pelo Casalinho um cigano a vender peças de tecido. A mãe ficou entusiasmada. Tinha alguns filhos a precisar de calças. Com os quinhentos escudos comprou um corte de tecido para calças. À noite ouviu o bom e o bonito do pai.

- Nunca mais te levo ao hospital.

E não levou. Mandou fazer calças para todos os filhos mais velhos. O problema é que depois parecíamos membros de uma fanfarra, todos com calças castanhas às riscas.

E alguns não gostavam.

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publicado às 19:52


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