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Pensar o futuro aos 10 anos

por António Tavares, em 04.02.17

Pensar o futuro aos 10 anos

Em criança era muito impulsivo, irrequieto, fazia muitas coisas sem pensar, dei muitas dores de cabeça aos meus pais. Também por isso sofri as consequências.

Aos poucos comecei a pensar que tinha que ter mais calma e medir melhor as consequências dos meus atos.

Tenho a noção perfeita de começar a ter consciência do que queria e como o queria durante a escola primária. Sei bem que foi a vida que me ensinou. Comecei cedo a ver à distância e a medir os passos para lá chegar.

Lembro-me bem que foi durante a quarta classe que comecei a pensar: e agora?

O Manuel tinha saído da escola e trabalhava na fábrica das velas a fazer velas de cera todo o dia. Ao mesmo tempo fazia de sacristão na igreja de Cardigos. Não era o que eu queria.

A Helena e a Lúcia tinham também acabado a quarta classe e como não tinham ocupação foram para a Telescola.

A Telescola era ministrada pela televisão. Havia um posto na sacristia da igreja de Cardigos, onde uma professora credenciada apoiava os alunos que queriam estudar, 2 ou 3 tardes por semana. Assim podiam fazer mais 2 anos de estudo: a quinta e sexta classe (1º ciclo).

Também não era isso que eu queria. Pensava muito sobre o futuro nas longas caminhadas entre o casalinho e a escola em Cardigos. Por vezes sentava-me na beira no caminho e dizia para mim: quero sair daqui. Tinha 10 anos.

Cardigos sempre foi um berço de muitos padres e de muitas atividades ligadas à igreja. No próprio Casalinho havia 2 padres, filhas da Ti Joaquina (ao colo de quem caí desmaiado depois de cair da oliveira): o Padre António que estava no seminário do Gavião e o Padre Serafim que estava numa paróquia em Tolosa (Alentejo). Havia aldeias como a Chaveira e Chaveirinha onde havia vários padres colocados em Seminários de Missionários.

Mas eu só mais tarde me apercebi dessa realidade. Nos meus 10 anos apenas conhecia o Casalinho e os seus 2 padres (que apenas lá estavam nas férias) e Cardigos com o seu pároco.

Certo dia entrou na sala de aula um padre que veio conversar com os alunos da quarta classe sobre o seu futuro e sobre o que queriam ser mais tarde. Ouvi-o com atenção sem perceber nada do que dizia. Não sabia o que eram seminários, missões, missionários, etc. mas cativou-me a sua conversa.

E quando ele perguntou: Quem quer ir para o Seminário? Eu pus-me logo de pé com o dedo no ar e respondi: quero eu! Fosse lá o que fosse o seminário. Fosse lá onde fosse. Penso que fui o único que respondeu assim. Pelo menos não me lembro de mais nenhum seguir comigo.

O Padre Norberto falou depois comigo pessoalmente. A professora também. Nunca mais me tiraram isso da cabeça. Falaram depois com o meu pai e num domingo na Vila a professora disse-lhe à minha frente:

- Como o seu filho quer continuar a estudar é melhor ele repetir a quarta classe. Ele se for a exame passa, mas assim sempre vai melhor preparado.

Já fui lixado, pensei eu. Agora tenho que ficar mais um ano aqui. Eu que me queria ir já embora. E nem sabia que ir para o seminário era ir para estudar. Mas não dei parte de fraco. Mantive a minha decisão. Eles trataram de tudo.

O exame da quarta classe foi na escola do concelho em Mação. Íamos todos na carreia da manhã, cada um acompanhado de um familiar (eu fui com o meu pai). Levavamos o almoço num saco. Os exames escritos eram de manhã. Os pais ficavam no jardim em frente. Depois da prova escrita almoçava-se nos bancos do jardim enquanto se esperava pelos resultados que eram afixados numa vitrina na porta de escola. Uns reprovavam logo (era vê-los a chorar e os pais a ralhar), outros ficavam logo apurados (era ver a alegria daquela gente, miúdos de 10 anos e familiares). Outros iam à oral, na parte da tarde. Foi o que me aconteceu a mim. O certo é que era realmente um dia de festa.

Acabada a escola foi tratar dos papéis para ingressar no seminário. Essa tarefa pertenceu ao Padre de Cardigos. Era necessário eu fazer um requerimento em papel azul selado de 25 linhas escrito pela minha mão.

Hoje já ninguém sabe o que isso é, mas antigamente era neste papel que se faziam todas as petições oficiais. E era caro. Sei que o meu pai teve que comprar várias folhas destas porque inutilizei muitas. Lembro-me, como se fosse hoje. Estava na sacristia e o padre ia-me ditando o que devia escrever. De tão nervoso que estava errava sempre na mesma palavra. “… eu desejo …”. Escrevia sempre “… eu dejeso …”. Como não se podia rasurar, toca a inutilizar e começar tudo de novo noutra folha azul de papel selado. Foram várias.

Quando chegava a altura o padre dizia: vá… com calma… atenção que a terceira letra é um j… j… Ao fim de várias tentativas lá seguiu o requerimento em que eu pedia que desejava entrar para o seminário.

Combinada a data de embarque lá foi o Manel levar-nos na carroça da mula cerca de 15 quilómetros, para lá dos Vales para apanhar a carreira de Proença-a-Nova para Coimbra. Como não sabíamos os horários perdemos a ligação em Coimbra. Tivemos que dormir uma noite numa pensão e apanhar a carreira no dia seguinte para Vila Nova de Poiares. Mais uma vez nos enganámos e ficamos no cruzamento da Estrada das Beiras com a Nacional nº 2. Dali até Poiares ainda foram alguns 5 ou 6 quilómetros a pé.

A Quinta das Camélias ia ser a minha casa nos próximos 2 anos.

Poiares.jpg

Vila Nova de Poiares - Quinta das Camélias - o que escrevi no verso

Poiares1.jpg

 Formação no pátio. O grupo de cá era do primeiro ano. o grupo mais afastado era do 2º ano

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publicado às 09:38



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