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Aerogramas especiais

por António Tavares, em 22.01.17

Aerogramas especiais

Uma das minhas incumbências como Oficial da CCS/QG de Nampula era imprimir as ordens de serviço para o dia seguinte.

Havia um soldado encarregue de datilografar sobre stencil de cera as ordens que lhe eram entregues.

No fim do dia o stencil era colocado na máquina rotativa manual. Colocava-se tinta nos tinteiros e vai de dar à manivela.

Com a minha mania de estar sempre a imaginar fazer coisas novas pensei aproveitar a aquela tecnologia para imprimir aerogramas especiais para distribuir pelos soldados.

Com uma caneta especial de ponta de aço desenhava sobre o stencil de cera bordaduras alusivas a dias festivos como Natal e Páscoa. A caneta não fazia mais que rasgar a cera nas zonas por onde passava. Era o mesmo que faziam as teclas da máquina de escrever. Rasgavam a cera. Depois, na rotativa, a tinta passava por essas ranhuras para os aerogramas colocados no alimentador.

Desta maneira cumpri melhor a minha missão de dar apoio aos meus soldados e de lhes proporcionar mais algumas alegrias.

 

CCS/QG: Companhia de Comando e Serviços do Quartel General. Era a companhia que prestava todos os serviços de apoio ao Quartel General

Aerograma1.jpg

 Estes foram desenhados por mim

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publicado às 16:26

Aerograma para Maria Clara

por António Tavares, em 22.01.17

Aerograma para a Maria Clara

Acabaste de nascer há poucas horas. Sei que a tua vinda a este mundo não foi um mar de rosas. Mas já venceste a tua primeira batalha. És uma lutadora. Sei que vais vencer.

Estou aqui à tua espera porque temos muitas brincadeiras para fazermos juntos. Tenho muitas histórias para te contar.

Daqui a alguns anos quando leres estas linhas vais perceber que o teu avô também foi um lutador. A minha vida também não foi um mar de rosas.

Vou só contar-te agora um episódio das muitas histórias que tenho para te contar. Claro que não me lembro do que aconteceu. Mas vou cantar-te tal como a ouvi contar dezenas de vezes ao meu pai, quando nos juntávamos e ele já tinha bebido um ou dois copitos.

Nasci numa família numerosa na aldeia de Casalinho, freguesia de Cardigos. Era o quarto filho de uma família que chegou a ter 11.

Quando tinha 3 a 4 anos já havia outros mais pequenos. Eu deixei de ser o centro das atenções.

Sempre fui muito rebelde. Possivelmente aquilo a que chamam hoje hiperactivo.

O teu bisavô José Maria era mestre-de-obras. Saía todos os dias com a lancheira às costas para andar a pé 7 quilómetros para ir trabalhar nas obras em Vales. Porque era uma terra de ricos recém regressados do Congo Belga que se tornara independente. Vinham cheios de dinheiro e todos queriam fazer obras.

Nós ficávamos sozinhos em casa com a nossa mãe, onde havia pouca coisa para nos entretermos.

Eu adorava deambular pelos campos e subir às árvores.

Parece que um dia estando sozinho subi a uma oliveira. Em baixo estavam vários troncos de pinheiro ainda com restos de ramos cortados. Caí desamparado em cima dos troncos e espetei um desses ramos na cabeça. Levantei-me a cambalear e corri para a aldeia. A primeira pessoa que encontrei foi a  ti Joaquina sentada na soleira da porta. Atirei-me ensanguentado para o colo dela e desmaiei.

Chamaram o meu pai. Levaram-me de táxi ao médico a Cardigos. Ele viu-me e disse de imediato: é preciso levá-lo para o hospital em Abrantes.

No hospital levaram-me para o piso de cima. O meu pai ficou no piso de baixo e aí se manteve durante 8 dias enquanto eu lutava entre a vida e a morte.

Ao fim de 8 dias, como não havia evolução do meu estado, os médicos desceram para avisar o meu pai que me iam operar. O meu pai disse várias vezes que não queria que eu fosse operado, que me iam matar. Mas os médicos não quiseram ouvir e foram-se preparar.

O meu pai esgueirou-se escadas acima para me olhar para mim mais uma vez.

Quando se chegou à porta do quarto eu estava sentado na cama e disse-lhe: pai, a mãe não está aqui.

O meu pai nem me disse nada. Correu escadas abaixo e disse para o médico: senhor doutor, já não é preciso nada. O meu filho já fala e eu vou levá-lo já.

Embrulhou-me num cobertor, chamou um táxi e aí vamos nós de volta ao Casalinho.

Até hoje.

Parece que a minha madrinha já tinha encomendado a urna e estava a fazer os panos da mortalha.

Como vês também venci esta batalha e muitas mais que quero contar-te. A tua avó Fernanda também venceu algumas batalhas, que um dia te contarei.

Sei que os teus avós da Rapoula também têm muitas histórias. A tua mãe vai contar-tas um dia.

Força.

Estamos todos à tua espera.

Casalinho.jpg

O mais longe que vai a minha memória. A minha mãe e os seus pais há mais de 100 anos. Os primeiros 4 filhos (eu de caracóis). Na eira a descamisar o milho: a mãe no meio, a avó e o avô maternos á direita e o rebanho espalhado.

 Familia anos 60 em Cardigos.jpg

 Familia algures nos anos 60 em Cardigos

Familia na Casa da Praia.jpg

Familia na Casa da Praia anos 80

 

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publicado às 13:11

Mueda

por António Tavares, em 19.01.17

MUEDA

Naquele sábado qualquer do mês Abril de 1972, estava o sol quase a desaparecer na vermelhidão do horizonte por cima do planalto, quando o camião em que seguia o pelotão que eu comandava, trepava ruidosamente as últimas centenas de metros da íngreme picada poeirenta,  esburacada e rasgada pelas águas da chuva, que separavam o inferno dos últimos 5 dias de picada entre Porto Amélia e o purgatório que iria ser a nossa breve estada de 2 dias em Mueda. Porque o céu, esse estaria reservado lá muito mais para diante.

No último morro à direita esperava-nos um soldado cuja farda camuflada se confundia com o ocre da terra e que rodava apressadamente a manivela da máquina de filmar feita de cartão e encimada  com a sigla RTP. Era assim que os checas eram recebidos em Mueda.

A coluna de mais de 70 camiões estendia-se por várias dezenas de quilómetros e duraria todo o dia e parte da noite, para passar a curva das bananeiras, transpor o estreito desfiladeiro do fundo do vale e vencer a íngreme subida até ao planalto.

E chamava-se das bananeiras, ou da morte, a tristemente célebre curva. Bananeiras, porque todo o vale, da picada para baixo, era mais largo e estava cheio de bananeiras. De vez em quando vinha um camião de Mueda buscar bananas, sempre escoltado por um grupo de proteção. E antes havia que bombardear toda a zona para saber se estava limpa. É que esse desfiladeiro, mesmo nas barbas dos soldados no alto do morro era uma das principais vias de reabastecimento dos turras, mais a sul.

Muitas vezes esses bombardeamentos do vale incluíam não apenas obuses, canhões e murteiros, mas por vezes também os Fiats e dos velhos T6 da 2ª Guerra Mundial. Acontecia era que as velhas bombas dos T6 muitas vezes não rebentavam e serviam para os próprios turrras enterrarem nas picadas por baixo das minas anticarro.

Sabem meus filhos, naquele dia, para se poder transpor a curva das bananeiras teve que vir de Mueda um grupo de engenharia abrir uma nova picada mais ao lado da curva. O buraco na picada, mais fundo do que um soldado de pé e com o braço esticado, fora feito pelo rebentamento de uma dessas bombas, fez desaparecer uma Berliet, mandou para o céu que nos prometiam os 30 homens que levava em cima e não permitia a passagem dos camiões de reabastecimento.

Mas esse grupo de engenharia tinha também outra missão. É que a ponte sobre o desfiladeiro era derrubada logo no dia imediato a ser reconstruida. Os turras passavam, colocavam os petardos de trotil e aí vai mais outra ponte. A única solução possível foi fazer 2 morros de cimento armado, um de cada lado do desfiladeiro e de cada vez que era necessário transpô-lo o grupo de engenharia trazia 2 potentes barras de ferro, assentava-as sobre o desfiladeiro e depois era preciso acertar com as rodas dos camiões nas 2 barras de ferro. Nem que fosse apenas para vir buscar as bananas ou encher os autotanques de água para levar para o alto do planalto.

Toda a nossa companhia, a CART qualquer coisa, seguia em 4 camiões, um pelotão de trinta homens em cada um. Tinha aquele código por ser uma Companhia de Artilharia.

De facto formamos a companhia em Torres Novas no velho quartel GACA 2. Aí sim havia peças de artilharia contra aeronaves que ainda manuseamos algumas vezes. As peças que levávamos connosco eram apenas as, já na altura, velhas e pesadas (mas fiáveis) G3, ainda hoje usadas.

Mas estava eu aqui me lembrando que embora fossemos uma Companhia de Artilharia não passávamos de Infantes e formávamos, isso sim, uma Companhia de Infantaria. As peças de artilharia, esperava eu deviam estar lá mais para o norte, em Mocímbua do Rovuma, nosso destino final. As aeronaves contra quem iríamos lutar, que viram da Tanzânia, do outro lado do rio Rovuma, essas nunca soube se vieram ou não.

Estou aqui a divagar mas voltando à nossa chegada a Mueda ...

Os camiões foram distribuídos pelos edifícios de destino. A maioria ficaria em Mueda por trazerem todo o tipo de utilidades e mantimentos para a Intendência local: munições, tijolos, cimento, batatas, óleo, gasóleo ... eu seu lá que mais. Uns poucos levariam os mesmos mantimentos e utilidades (a nossa companhia incluída), umas centenas de quilómetros lá mais para cima, para junto da fronteira. Esses ficaram numa outra zona vedada com arame farpado. Os soldados foram alojados nas casernas que lhe estavam destinadas já a noite ia avançada. Uns deitaram-se e adormeceram de imediato. Outros ainda abriram uma ração de combate para comer qualquer coisa antes.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

Após dias de caminho

Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato

Olhei e vi palmeiras

Macacos e bananeiras

Entendi, estava no mato

Eram cerca de 23 horas e 30 minutos quando me sentei na enxerga vazia de qualquer peça de roupa, num quarto com apenas uma prateleira, em que a porta não fechava, que me havia sido atribuída.

Pensei... há 5 dias que não como. Estou cheio de fome. Vou arrumar as minhas coisas nesta prateleira e vou até à Messe de Oficiais comer qualquer coisa.

Arrumei os sacos com roupa, um par de botas, os livros que trazia, alguns cadernos para tentar escrever qualquer coisa. Não havia água para me lavar. Vestido como estava lá me dirigi à Messe de Oficiais.

Sento-me ao balcão do bar e pergunto ao soldado de serviço:

- O que há que se coma?

- A esta hora sr Alferes? A esta hora não há nada.

- Nem fiambre, ou chouriço para fazer uma sandes?

- Não sr Alferes. Acabou tudo. A esta hora só pão.

- Então dá aí um pão e uma bazuca.

Na primeira trincadela que dei no pão senti algo a ranger nos dentes, tirei com a mão e pareceu-me ser um grão de areia. Na segunda trincadela pareceu-me sentir uma coisa mais mole e de gosto duvidoso. Tirei com a mão e já era só metade de um inseto qualquer.

Acabei por comer o pão esfarelando-o com a mão para retirar tudo aquilo que normalmente não entra na composição de pão, coisas que nunca soube o que eram. Valeu-me a cerveja que até estava fresca.

É que eu estava mesmo com fome. Durante os 5 dias de picada de Porto Amélia a Mueda apenas tínhamos direito a abrir uma ração de combate por dia. Mas da ração de combate eu apenas conseguia beber a água e os sumos. Felizmente ia trocando as latas de conserva com os meus soldados e eles davam-me os sumos.

Sempre que os camiões paravam eu embrenhava-me pela mata à procura de mandioca. Havia descoberto que as raízes novas da mandioca eram saborosas, suculentas e até alimentavam.

Já noite fora, tonto, ouvindo o vazio à minha volta, cambaleio até chegar ao quarto. Empurro a porta entreaberta e calçado e vestido como estava, caio na enxerga. De olhos fechados. Mas não consegui dormir. Doí-me a cabeça, estou tonto, abro os olhos e viro a cara para a janela de onde vem uma luz trémula proveniente da iluminação da pista de aterragem ali mesmo ao lado.

Mesmo essa luz me ofusca. Penso: Vou dormir. Amanhã será outro dia.

Viro a cara para o lado e antes de fechar os olhos apenas vejo as mesmas 4 paredes, a porta aberta, a mesma prateleira vazia... Vazia? Isso mesmo. Tinham-me levado tudo. Tinha ficado apenas com o que trazia vestido. Mesmo aqueles cadernos onde queria escrever nem eu sabia o quê. Incapaz de esboçar qualquer reação fiquei ali parado, com a porta aberta, olhos fitos na prateleira vazia a pensar: um dia hei-de escrever esta história. E adormeci ....

 

Notas:

Porto Amélia: Atual Cidade de Pemba. A cidade grande mais ao Norte de Moçambique junto ao mar.

Checas: Soldados acabados de chegar

Turras: Nome que dávamos aos terroristas

G3:       Arma que equipava todo o exército português, fabricada em Portugal sob patente alemã

Berliet: Camião militar de tração a todas as rodas, de origem Francesa, vulgarmente utilizado em todas as campanhas da Guerra Colonal em África

CART: Companhia de Artilharia. Qualquer coisa porque já não me lembro do seu código numérico. Todas as companhias eram numeradas sequencialmente

GACA 2: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2 em Torres Novas. Atual Escola de Formação da Polícia

Bazuca: Cerveja grande de litro e meio

 

Fiats.jpg

Os bombardeiros Fiat fotografados por mim no aeroporto de Nampula que era a sua base operacional para as incursões pelo Norte de Moçambique

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publicado às 10:29

Primeiro aerograma

por António Tavares, em 18.01.17

Aerograma

Aerogramas eram aquelas folhas A4 recortadas e prontas a serem escritas. Em cores pastel suave, normalmente amarelo ou então verde ou azul. Bastava dobrar em forma de envelope, lamber a cola, colar e endereçar.

Depois era só meter na caixa do correio mais próxima, que passado mais ou menos tempo chegariam ao destino.

Foram criadas pelo Movimento Nacional Feminino para facilitar a comunicação entre os militares da guerra colonial e os seus familiares. Eram distribuídos gratuitamente, podendo ser utilizados de cá para lá, mas era sobretudo em África que os nossos rapazes sentiam a sua verdadeira importância.

Não era necessário escrever o endereço do militar a que se destinava. Bastava indicar o nome e o seu número do SPM. Cada destacamento militar tinha um número com 4 dígitos que identificava a sua localização exata. Os Serviços Postais Militares lá se encarregavam de fazer chegar o aerograma ao destino.

A chegada do correio aos mais recônditos lugares da África Portuguesa era normalmente altura de grande sobressalto. Todos esperavam ansiosos que os seus nomes fossem chamados. E os momentos seguintes eram sempre ou de muita alegria para uns ou de grande tristeza e desânimo para outros.

Tudo servia para incentivar os contactos com os nossos militares. Nas terras do interior de Portugal pedia-se às raparigas para serem Madrinhas de Guerra e escreverem aos rapazes da terra. Alguns militares já levavam de cá uma lista de madrinhas para se corresponderem. Outros punham anúncios na Crónica Feminina ou nos jornais.

Por vezes o pedaço de papel menor que uma folha A4 (e só de um lado) era muito pouco para escrever todas as saudades, todas as alegrias, tristezas e medos sentidos. Então escrevia-se com letra fina para conseguir escrever mais e prolongavam-se as palavras pelas margens, por fora e por dentro. Todos os cantinhos eram utilizados.

Vou aproveitar os meus momentos de bonança para vos ir escrevendo aerogramas com as minhas recordações, antes que se apaguem da minha memória. Vou escrevendo aos poucos, à medida que as lembranças me forem chegando. O problema é que elas são muitas, misturam-se no tempo e no espaço, entrelaçam-se umas nas outras, confundem-se e confundem-me. Mas se no fim de tudo sobrar uma lembrança, uma recordação, um afeto, já terá valido a pena. Não é possível esquecer. Eu não quero que nem vocês nem ninguém se esqueça. Eu vi! Eu estive lá!

Assim, meus filhos e netos, podem um dia relembrar a vida do vosso avô. E se acharem que ela tem alguma coisa para vos ensinar aproveitem.

É este o livro que vos vou deixando aos poucos.

O livro da minha vida…

Aerograma.jpg

Cartas e aerogramas aos molhos

 

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publicado às 20:17


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