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Louvor

por António Tavares, em 28.07.17

LOUVOR

E apareceu mesmo.

Aqui está o louvor que recebi, pelos bons serviços prestados à nação. Publicado na Ordem de Serviço nº 265 de 13NOV73 do QG/RMM, página 2252 do Diário Oficial, no ponto III - JUSTIÇA E DISCIPLINA.

"Louvo o Sr. Alf. Milº. 09019771, ANTÓNIO GONÇALVES TAVARES, porque, prestando serviço na Companhia de Comando e Serviços do Quartel General, há cerca de dezasseis meses consecutivos, sempre tem demonstrado boas qualidades de trabalho, muita dedicação e zelo nos serviços que lhe têm sido cometidos.

Oficial compenetrado da sua missão e dando mostras da melhor boa vontade e espírito de bem cumprir, cedo se revelou como elemento de real valor nos quadros da sua Unidade, accioando com perfeita regularidade e prontidão, todas as tarefas a seu cargo, mormente as relacionadas com os serviços inerentes à Secção de Movimento Auto, de que tem sido encarregado patenteando, em todas as ocasiões, uma cuidada e permanente preocupação em colaborar honestamente na resolução rápida dos inúmeros problemas postos à considerção do Comando.

Pelo que se referiu e ainda pelas suas qualidades de lealdade e franqueza com que sempre vem alvitrando novas formas e sugestões para uma melhor solução dos serviços da Unidade, é o Sr Alf. TAVARES digno da estima dos seus superiores que o consideram digno de ser distinguido com este público louvor".

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publicado às 10:35

Jantar com lacraus e o regresso

por António Tavares, em 24.07.17

Jantar com lacraus

e o regresso

Estava em Nampula um amigo meu, Tenente, que tinha uma carrinha Volkswagen variant vermelha. Demos muitos passeios nela. Eu arranjava a gasolina em jerricans militares e aí íamos nós.

Até António Enes (hoje Angoche), 300 quilómetros abaixo de Nampula. Havia lá um aquartelamento de retaguarda. Não era zona de guerra. Boas praias. De vez quando eramos convidados para uma festa. Caçavam um javali. Espetavam-no no espeto. Brasas por baixo. Arranjava-se um mainato para ir dando à manivela e ir barrando com molho especial. Nós era só espetar o garfo, cortar e comer. E beber cervejas. Fizemos isto várias vezes.

Íamos até à Praia das Chocas. Esta praia fica alguns quilómetros acima da Ilha de Moçambique, seguindo a linha da costa. Por estrada são bem mais de 100. Há que fazer um percurso pelo interior do continente para atravessar braços de mar, pântanos e zonas de salinas, passando pelo  Lumbo e pelo Mossuril. Esta praia Ganhou fama quando a Ilha de Moçambique era a capital e o principal polo comercial. Era a praia de férias de todos os comerciantes da zona. Desde Nampula eram perto de 300 quilómetros.

Quilómetros de praia de areia branca e águas límpidas de cor azul opala. Grandes moradias. Morava numa delas um alemão que, dizia-se, seria refugiado nazi. Tinha por companhia apenas uma cobra gigante. Caçava e criava coelhos para lhe dar. Era a certeza que nunca seria assaltado. A cobra, dizia quem a viu, tinha a cabeça na cozinha, percorria os corredores e saía pela porta para o quintal.

Parece que o sujeito vivia do comércio internacional de conchas. Percorria as praias três dias para cima, três dias para baixo, a apanhar conchas. Depois vendi-as aos seus correspondentes do mundo inteiro.

Teria sido em tempos engenheiro ou arquitecto. Parece que toda a gente que construía casa ali lhe pedia conselhos. Ele conhecia as marés e os ventos. Sabia qual a melhor localização e orientação da casa, no sentido de tirar o melhor partido das condições locais.

Fomos passar um fim-de-semana alongado à praia de Lunga. 200 quilómetros abaixo de Nampula. 100 quilómetros abaixo da Ilha de Moçambique. Logo depois do Monapo, já em plena picada, cheirou a queimado debaixo do banco de trás da carrinha VW variant. Parámos rápido e saímos. Já havia fogo debaixo do banco. A bateria estava a fazer curto-circuito e pegou fogo aos inúmeros papéis que que havia pelo chão. Conseguimos arrancar os bancos e apagar o fogo.

Após a reinstalação de todos os componentes reparamos que a bateria se tinha descarregado e o pneu suplente estava vazio. Voltar para trás. Qual quê! Seguir em frente. Mesmo para o meio da selva, para uma zona onde não havia luz, telefone, rádio…

Felizmente aqui era uma descida e foi fácil. Bastou ir andando engatado, o motor pegou e aí vamos nós.

Embrenhamo-nos numa zona mato e selva. 100 quilómetros em redor da praia de Lunga quase não mora ninguém. As picadas são de areia. Moram leões.

Ao aproximarmo-nos de um regato os bambus de um lado e de outro faziam um túnel, pelo qual tínhamos de passar. Os macacos pequenos, dependurados das canas eram às dezenas. Passamos muito devagar para que o carro não se fosse abaixo.

Finalmente a praia. Linda. Uma concha quase perfeita, que ligava ao mar por um canal estreito que tinha palmeiras de cada lado. Areia branca impecável. Águas límpidas. Alguém construíra uma cabana de colmo em plena areia. Os primeiros arbustos junto da areia tinham umas bagas de aspecto delicioso.

- Podem-se comer. Sabem a maçã. Por isso se chamam maçanicas.

Passaram a fazer parte da nossa dieta. Foi necessário ir apanhar lenha para fazer uma fogueira na praia. Para preparar a comida, para nos aquecermos da friagem da noite e sobretudo para afugentar os leões. Ouviam-se os seus uivos ao longe. E eles têm medo do fogo. Dormimos por ali. Uns dentro da cabana, outros em volta da fogueira enrolados em cobertores. De noite quem acordasse e visse o lume em baixo, tinha que acrescentar mais paus.

No domingo fomos ter com uma família que tinha assentado arraiais num conto da praia, há já muitos anos. Vivia da pesca e das hortas. Negociava com quem aparecesse. Porque não havendo ninguém por perto a localidade tinha posto de régulo e andavam sempre gentios por ali. Tinham um coberto com mesas e bancos que funcionava por vezes como restaurante. Possuíam um gerador.

Prepararam-nos um coelho à caçadora. Uma delícia em plena selva.

O pior foi preparar para regressar. O carro estava numa picada de areia, sem bateria e sem pneu suplente. Os 6 manos lá o empurraram para uma zona mais favorável e viemos embora.

Nos domingos de manhã toda a gente em Nampula passava pela feira de artesanato em pleno adro da Sé. Subia-se à torre, tiram-se fotos e observavam-se os trabalhos, sobretudo de pau-preto. Muitas bancas e uma variedade de trabalhos que me faziam passar horas a pensar como seria possível esculpir, moldar, fazer trabalhos de torno tão bonitos, deixar umas peças encaixadas noutras num abraço tão perfeito. E isto sem grandes ferramentas, numa madeira tão dura. E trabalhos de prata (ou imitação): pulseiras, argolas, cordões. E missangas? Muitas. E chifres de animais? Muitos. E conchas. Ainda por lá andei a comprar algumas coisas para meter no caixote que trouxe de regresso.

No meu último dia de anos em África foi jantar com um grupo de amigos a um restaurante bem afastado da cidade, em plena estrada para Nacala. A particularidade é que ele tinha várias cabanas espalhadas pela selva em redor. Redondas, uma mesa no meio, bancos corridos redondos em volta da mesa. Os tectos eram de colmo. A meio um candeeiro grande. Cada cabana permitia albergar uma dúzia de manos à volta dum petisco qualquer. O nosso voltou a ser coelho à caçador.

A meio da refeição alguém disse:

- Olhem para o tecto!

O tecto era de colmo e não sei se atraídos para luz, se pela frescura do local, nele passeavam vários lacraus de vários tamanhos. Grandes e pequenos. Alguns mesmo bem grandes. Os mais espantadiços levantaram-se e foram chamar o proprietário.

- Não tenham medo. Fazem parte da casa. Andam sempre por aí e também não saem dali. Se não se meterem com eles não fazem mal nenhum a ninguém

Certo é que muito boa gente passou o tempo foi a olhar para o chão.

- Os de cima não fazem mal. Mas se vem algum pelo chão?

No final de 1973 já se aproximava o fim da minha comissão. Comuniquei ao comandante da companhia a minha ansiedade em pensar substitui-me. O mesmo que Mafra me quis dar uma porrada por causa dos distúrbios motivados pela morte dos 4 cadetes. O mesmo que ficou admirado de me ver ali na cidade, sabendo que eu tinha ido para atirador e devia estar em zona de guerra. Disse-me que isso logo se via, mas que tinha gostado do meu trabalho ali. Que me ia passar um louvor na passagem à disponibilidade. Podia ser-me fosse útil na minha futura vida de civil. Descobri depois que era da praxe: todos os militares que passavam à disponibilidade recebiam louvores. A menos que tivessem cadastro. E passou. Quase meia página, publicado na Ordem de Serviço. Guardei uma cópia até há pouco tempo. Queria incluí-lo nestas minhas memórias. Nas limpezas que faço de vez em quando estive com ele na mão. Com medo de o perder guardei-o tão bem que não sei onde o pus. Se o encontrar, ainda o hei-de incluir aqui.

Quando se dá o 25 de Abril eu tinha viagem de regresso marcada para uns dias depois. Fiquei lixado: viagem adiada. Depois de muita pressão sobre o pessoal dos transportes lá marcaram a data do meu regresso para o dia 25 de Maio de 1974.

Chegou finalmente o dia em que ia partir de Nampula rumo a Lisboa. Tinha despachado tudo no caixote. Fiquei só com uma mala de mão. Já não veio ninguém para me substituir. Tinha começado a debandada. O sargento assumiu o lugar de fazer a liquidação dos serviços da secção de viaturas do QG. O meu condutor foi-me levar de jeep ao Aeroporto. Despediu-se com lágrimas:

- Leve-me consigo! Gostei muito se si.

Avião da DETA até à cidade da Beira. Fiquei alojado por uns dias num hotel com 15 andares. Nas deambulações que fiz pela cidade acabei de me encontrar com o pessoal da minha companhia inicial que já estava há algum tempo sediada na Beira, à espera pelo voo de regresso. Aconteceram algumas morte e muitos feridos. Quiseram dizer-me nomes. Já não me lembrava deles, mas não mostraram ressentimentos por os ter “abandonado” logo no início.

- É a vida…

Acabei por embarcar ainda primeiro que eles.

Passei horas desesperado na varanda do aeroporto da Beira esperando ver chegar o Boing 707 branco da Força Aérea. 7 horas até Luanda. Paragem logística no aeroporto para beber as primeiras sagres em 2 anos. Mais 12 horas até Lisboa. Grande parte da viagem feita de noite sobre o mar ao longo da costa a ver as luzes das cidades. Será Dakar? Será…

Chegada prevista para Lisboa às 3 da madrugada.

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 Carrinha VW variant do meu amigo na picada para a Praia das Chocas e descanso no Mossuril.

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Praia de Lunga: canoas rumo ao infinito...

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Praia de Lunga: nascer do sol por de trás da cabana.

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Paria de Lunga: durmir na praia.

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Nampula: Feira de artesanato vista da torre da Sé. à direirta a Sé.

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Nampula: feira de artesanato.

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Nampula: Feira de artesanato - Obras de pau preto

 

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Cidade da Beira: nunca tinha visto prédios tão altos.

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Aeroporto da Beira: ei-lo a chegar, o Boing 707 branco que me ia levar a Lisboa...

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publicado às 12:05

Roubaram a minha filha

por António Tavares, em 19.07.17

Roubaram a minha filha

A Fernanda fazia parte da meia dúzia (menos…) das raparigas que se mantiveram até ao fim da minha comissão militar, como minhas correspondentes. Era de longe aquela com quem mais me correspondia e mais desabafava. Já quase nos correspondíamos como namorados.

Até que algures ali pelo início de Janeiro de 1974 deixei de receber cartas dela. Todos os dias lhe escrevia e nada de respostas. E logo agora que acabara de comprar um conjunto de caneta e esferográfica para lhe enviar pelos anos, com o nome dela gravado e tudo. Parece que o mundo todo se estava a desmoronar.

Até que passado algum tempo lá veio uma carta. Abri-a a medo. Temia a resposta. Afinal os meus medos eram infundados. Ela tinha sido atropelada na Av. da Liberdade quando regressava da faculdade, tinha partido uma perna e estava em casa à espera de ser operada.

De um receio passei para outro: do medo de me ter esquecido, mudei para o medo de que algo pudesse correr mal com ela…

O resto do tempo, Janeiro a Maio, passei-o com muita ansiedade.

Assim que regressei a Lisboa telefonei-lhe e combinamos um encontro em casa dela, para o primeiro domingo que foi possível. Saí do comboio no Rossio e comprei-lhe um ramo de rosas vermelhas. Subi a pé a Rua dos Cavaleiros até ao número 5 da Rua de Santa Marinha, 4º andar esquerdo.

Fui recebido em festa. A Dona Palmira esmerara-se a limpar a casa e a preparar uma refeição ligeira.

A Fernanda tinha sido operada. Tinham-lhe colocado uma barra de metal no interior do fémur partido, com um pedaço de fora na anca, para mais tarde ser puxado e retirado. Aos poucos já se levantava e sentava. Mas estava renitente em descer as escadas, mesmo apoiada nas bengalas.

Como trabalhava no Campo das Cebolas e saía às 18 horas, passava quase sempre pela Rua de Santa Marinha. Fazia-lhe companhia, acabava por ficar até ao jantar e só depois seguia para Queluz de comboio. Aos domingos lá vinha eu depois do almoço com um ramo de rosas vermelhas comprado no Rossio. Aos poucos passei a vir almoçar todos os domingos.

A Olga (uma amiga da Fernanda – acabou por vir a ser a madrinha do Bruno) tinha uma filha pequena (Alice) e um Mini. Começamos a levar a Fernanda a dar uns passeios de carro. Depois eu comprei um Fiat 128. Agora já podia levar a Fernanda a passear. Ao princípio a Olga ia connosco. Os pais dela tinham mais confiança e ela sempre ajudava a descer as escadas e nos passeios a pé.

Certo dia diz-me a D Palmira:

- Você foi um anjo que nos apareceu. Cheguei a pensar que ela não ia sair mais de casa.

O sr Gervásio gostava de conhecer a minha família. Lá fomos num domingo até Cardigos conhecer o sr José Maria e a D Delfina. Já todos os meus irmãos se encontravam em Lisboa, pelo que só foram conhecer os meus pais. No regresso a Lisboa fizemos um desvio pelo Gavião onde fomos conhecer o Padre Alberto (superior do seminário local). Ele era um dos dois padres do Casalinho e tinha mantido uma certa simpatia comigo, sempre que ia lá de férias. O irmão (padre Serafim) era pároco em Tolosa (Alentejo).

Os pais da Fernanda tinham-lhe comprado um andar em Odivelas. Passou a ser também um dos nossos passeios de Domingo, ir até Odivelas.

Os pais da Fernanda eram feirantes e faziam feiras em 2 domingos por mês. Nesses domingos em que eles iam para a feira ficava lá em casa a tia Hortense, para tomar conta da Fernanda e nos fazer o lanche. Nos outros domingos íamos os quatro dar uma volta: Mafra, Ericeira e voltávamos por Odivelas. Primeiro na carrinha Austin do sr Gervásio, depois no meu Fiat 128.

Quando acontecia ser feriado em dias de feira nós metíamo-nos nos transportes e íamos ter com eles. Fomos algumas vezes ter a Odivelas à feira do sr Roubado, à segunda-feira. Voltávamos todos no Austin mini. Juntamente com as madeiras da bancada (no tejadilho) e com os artigos da venda na parte de trás.

Nessa altura estava a ser construída a Calçada de Carriche no local por onde ela passa hoje. A descer ia-se pela estrada do desvio, mas a subir era por aquela azinhaga velhinha que em parte ainda lá está. Na altura toda aquela subida nova era (e foi muito tempo) ainda de terra batida. O sr Gervásio acelerava a fundo cá em baixo para subir, mas, na maioria das vezes, o mini parava a meio. Não aguentava. Saíamos os três (eu a Fernanda e a mãe) e tínhamos que empurrar até ao cimo da ladeira.

Mais tarde, já casados, o sr Gervásio trocou o Austin por uma carrinha Ford Cortina. Mesmo assim íamos muitas vezes ter com eles à feira da Malveira (no nosso carro), ou à feira da Brandoa, aos domingos no regresso da Ericeira.

Certo dia, vindo eles da feira da Malveira à quinta-feira, foram ter connosco à casa de Odivelas. Jantaram e porque estavam cansados ficaram lá a dormir. O carro carregado ficou estacionado mesmo à porta. Hora a hora a D Palmira levantava-se para ver se estava tudo bem. E esteve até às 5 horas da manhã. Nessa altura foi à janela e viu o carro assaltado e as botas da venda espalhadas pelo chão.

Levantamo-nos a correr e fomos participar à esquadra da polícia.

Depois eles vieram para Lisboa e foram ter com um sujeito quem, mesmo deficiente e em cadeira de rodas, parece que chefiava um gang e costumava parar numa tasca do Largo Rodrigo de Freitas, perto da casa deles. Diz-lhe ele:

 - Botas? Em Odivelas? Já sei, foi o Zé Luis da Brandoa. Deixe estar que amanhã falo com ele.

E falou e ainda conseguiu trazer alguns pares de botas.

- Olhe sr Gervásio, foi o que ainda consegui. O resto já ele tinha vendido.

Passado uns meses o sr Gervásio foi chamado a esquadra de Odivelas para ser informado que o ladrão não tinha aparecido e que iam arquivar o processo.

- Deixem lá, não faz mal. Já consegui recuperar o que foi possível.

Embalado deixei-me levar pelas recordações. Vamos voltar à narrativa onde íamos…

Aos poucos fui ficando íntimo da família Cardoso. Ofereci um anel de noivado à Fernanda e pedia-a em casamento. Fui aceite. Combinamos o casamento para Agosto de 1976. Assim os passeios de Domingo passaram a servir para visitar a casa de Odivelas e ir combinando a compra das mobílias. O Sr Gervásio comprara a casa pagou toda a mobília.

Aconteceu que o escritório do despachante entrou em autogestão. Estávamos em pleno PREC (período revolucionário em curso) pós 25 de Abril. Tinha sido eleita uma comissão de trabalhadores. O Manel Lopes, Chefe do Grupo Desportivo, foi o eleito. Foi nomeada uma Comissão de Gestão. O meu primo Manel de Moura apoiou-nos. Como era o braço direito do patrão, foi nomeado para a gerência. Já havia antes distribuição de lucros pelos empregados, segundo os critérios que o patrão entendia. Sempre os recebi. Mas nós exigimos acesso às contas e distribuição de lucros igual para todos. Quando, anos mais tarde, tudo isto reverteu, os mais envolvidos nisto tudo foram os mais prejudicados. Eu e o Manel Lopes incluído. Nunca mais recebi lucros e o patrão nunca mais perdoou ao seu braço direito (o meu primo Manel de Moura) a sua traição.

Chegados a Março havia que marcar as férias. Todos queriam os melhores meses. Não ouve consenso. Decisão da comissão de gestão: as férias são gozadas obrigatoriamente entre os meses de Maio a Outubro (segundo a lei) e escolhidas por sorteio.

Tínhamos decidido casar em Agosto e para espanto de tordos cai-me em sorteio o mês de Maio para férias.

Já no ano seguinte (1977) foi decidido anular o sorteio e fazer uma escala para cada um escolher, mediante alguns critérios. Os primeiros a escolher foram os que tinham ido de férias em Maio e Outubro, depois os que foram em Junho e Setembro. Por fim os de Agosto. Nesse ano é claro que eu escolhi Agosto. Naqueles tempos havia a tradição de se gozar um mês seguido de férias.

Mas voltando atrás. Diz o sr Gervásio:

- Não faz mal. Casam em Maio.

Marcamos casamento para o início do mês.

Igreja dos Jerónimos, Copo de água no restaurante Cozinha Velha do palácio de Queluz. Estava tudo combinado quando me deu o badagaio, 15 dias antes da boda, que me levou a ser operado ao apêndice, já com a infecção a passar a peritonite. Foi necessário negociar o adiamento para o dia 18 de Maio. Conseguiu-se. Mesmo acabado de sair do hospital de ser operado, lá casámos.

Eu não assisti. Mas conta-se que a saída da Fernanda de casa dos pais fez furor. À porta do nº 5 da Rua da Santa Marinha um Rolls Royce dos anos 20 descapotável. No átrio da escada jarrões azuis com plantas. O trânsito cortado. Todas as janelas tinham curiosos à espreita.

Dizia depois o primo Vicente do Milharado, sobrinho do Sr Gervásio:

- A Fernandinha podia ter arranjado um carro mais bonito… foi arranjar um carro tão velho…

Eu fui levado no meu Fiat 128 pelo Carlos (marido da minha irmã Helena – meus padrinhos) de Queluz aos Jerónimos. Entrei pela passadeira vermelha até ao altar. Quem casou depois de nós ainda beneficiou: pagámos a passadeira vermelha, as flores e a música. Eles entraram a seguir.

Depois da cerimónia lá fomos para almoçar. Os convidados seguiram nos seus carros. Nós atrás no Rolls Royce. Quando chegamos a Queluz já havia pessoas a querer voltar atrás à nosso procura. É que o velho Rolls Royce viu-se negro para subir os Cabos Ávila.

Almoço fino. Uns camarões à não sei quê, um pato com qualquer coisa. Tudo contado e medido. O sr Gervásio tinha entregado um cheque assinado ao sr Vidal para no fim pagar a conta. Quando vieram os whiskies o sr Gervásio reparou que os empregados os estavam a racionar para não exceder as garrafas combinadas. Chamou um empregado e disse:

- Coloque aqui várias garrafas. No fim pagam-se as que se beberem.

Acabado o repasto e as fotografias, a tia Alice e o Cabral, juntamente com outras pessoas, foram comer sandes para uma tasca que havia em frente.

- Esta comida não é para nós!

Nós não esperamos pelo fim da festa. Mudamos de roupa e fugimos para a casa de Odivelas.

Parece que a D Palmira fez algum banzé:

- Roubaram a minha filha!

Tudo acabou em bem.

No dia seguinte rumámos ao Algarve. Sem nada marcado. Assentámos arraial em Faro e por lá andámos cerca de 10 dias. Até o dinheiro acabar. Não havia multibanco na altura.

No regresso almoçámos em Castro Verde. Pedimos bifes. Acho que pouco mais havia. Mas ao fim de 45 minutos de espera fomos obrigados a chamar o empregado. Que fizesse a conta ao que já tínhamos comido… que não podíamos esperar mais…

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Era linda ... a minha namorada!

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 Os primeiros passeios com a Olga e com a bengala!

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Na casa de Odivelas. O Bruno ao cola da mãe.

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Na casa de Odivelas. O presépio que tinha um rio a correr e uma azenha.

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O pai da noiva a pegar-lhe para a levar ao altar. O medo de sair do Rolls Royce era tanto que até o motorista estava atento.

Depois já casados.

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Enfim... já casados.

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Lua de mel no Algarve. Uma selfie tirada nos jardins do Hotel Penina.

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Lua de mel no Algarve. Cheirar rosas e acácias na serra de Monchique.

Presunto grelhado.jpg

Lua de mel no Algarve. Aqui comia-se presunto grelhado e bebia-se Schweppes Maracujá. E fumava-se SG Gigante.

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