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A escola de Cardigos

por António Tavares, em 10.02.17

A escola de Cardigos

A escola que todos nós frequentámos ficava na Vila de Cardigos. Tinha apenas 2 salas de aula. Uma para rapazes e outra para raparigas. As raparigas sempre tiveram um professor. Eu sempre tive uma professora, e sempre a mesma, de primeira à quarta classe. Nunca percebi porque é que era assim. Achava estranho, pronto.

Na sala estávamos alinhados em fila consoante a classe. Uma para cada classe. A professora punha os da primeira a fazer desenhos, os da segunda a faze uma cópia, os da terceira a ler algum texto enquanto os da quarta classe faziam um ditado. Em cada fila vinham para a frente os mal comportados. se insistissem a portar-se mal iam para o fundo da sala de pé contra a parede ou de joelhos no chão. Os bons ficavam no fim de cada fila.

Não havia aquecimento. Já eu andava na quarta classe quando foi encomendado ao meu pai a construção de uma lareira com chaminé em cada sala de aulas. O meu pai abriu um buraco no soalho com alçapão para guardar a lenha lá debaixo. Era nossa incumbência, sempre que regressávamos do recreio trazer paus e pinhas apanhados nos pinhais em frente da escola. Porque esses pinhais também eram os nossos recreios. E eu como mais arisco de todos é que subia aos pinheiros para derrubar as pinhas cá para baixo.

Cada sala de aula tinha uma régua. É verdade. Quando alguém se portava mal apanha umas severas reguadas. Nós bem puxávamos a mão para ver se a professora se aleijava. Às vezes conseguia-mos. Por vezes as réguas de desapareciam. Lá voltava a professora no domingo a dizer ao meu pai: ò ti Zé Maria, faça-me lá mais uma régua que a outra já desapareceu. Até que um dia a professora lembrou-se de descer lá abaixo para ver se havia lenha e deparou-se com meia dúzia de réguas escondidas debaixo do soalho. Assim ficou com uma reserva para uns tempos.

A escola tinha um átrio de entrada comum. Nesse átrio existiam cabides de madeira na parede, de cada um dos lados. Era onde pendurávamos as sacas de serapilheira nos dias de chuva. Desse átrio foi desenhado no recreio em frente um risco que, partindo do átrio, se dirigia até aos pinhais em frente e seguia por eles abaixo. Por esse risco corriam depois as águas da chuva. Foram-no alargando até ser um autêntico regato que era proibido ultrapassar. Rapazes de um lado, raparigas no outro. Não havia misturas de brincadeiras. Nem de casas de banho que não eram nem menos nem mais que as moitas que ficavam pelos pinhais abaixo. E o papel higiénico eram as pedras. Ou algum pedaço de jornal que aparecesse perdido.

Não havia água canalizada. A fonte no largo de Cardigos era abastecida por uma nascente numa mina no alto do vergancinho, para lá do casalinho. A água vinha num cano de ferro até junto da escola. Porque a escola ficava no ponto mais alto, foi construído um depósito em cimento mesmo ao lado da escola. Daí a água seguia por gravidade para o chafariz da praça. Nesse depósito foi instalada uma torneira onde os miúdos iam beber. Para as raparigas não havia problema. O depósito ficava no lado delas. Agora os rapazes tinham que esperar em grupo à porta da escola para irem acompanhados com a professora para beber água. Fazia um copo com os dedos e bebia-se diretamente da bica.

Brincadeiras não havia. As raparigas faziam rodas ou coisas parecidas. Os rapazes não queriam trazer brincadeiras ou porque não os deixavam ou porque se as trouxessem todos queriam as mesmas brincadeiras e lá vinham as guerras. De vez em quando lá aparecia um arco ou uma bola. O jogo da bola era o mais frequente. Havia sempre 2 que, por consenso eram os melhores jogadores. Um era do Benfica e outro de Sporting. Depois sorteava-se quem era o primeiro a escolher outro jogador. E a escolha ia continuando alternadamente. Normalmente todos tinham um nome copiado dos relatos de futebol. Eu era o Perídes. Estava na moda no Sporting. Foi aí que comecei a ser sportinguista.

A nossa professora namorava um rapaz que estava no Força Aérea em Tancos. Quando se começava a ouvir o barulho do motor de um avião todos nós tínhamos ordem de saída para o recreio. E lá vinha a avioneta a passar ao lado da torre da igreja. Em voo rasante sobra a escola eram largadas as cartas de namoro. Para nós era uma alegria correr pelos pinhais à procura das cartas. Dava meia volta e lá voltava direito a Tancos. Como a igreja de Cardigos ficava numa zona também alta e a torre era muito alta, estávamos sempre à espera de ver a avioneta a bater na torre da igreja.

A avioneta sumia-se mesmo por trás da torre da igreja. Mas claro que era só ilusão de ótica.

Cardigos saida da missa.jpg

 Saida da missa da igreja de Cardigos. Ao fundo a nova igreja em construção.

Cardigos visto do Casalinho.jpg

A Vila deCardigos vista do Casalinha.

A seta vermelha assinala a torre da igreja antiga (hoje centro de dia da miserecórdia). A seta preta assinala a torre da igreja nova

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publicado às 12:00



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