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4 cadetes mortos em Mafra

por António Tavares, em 28.04.17

4 cadetes mortos em Mafra

Apresentei-me em Mafra num dos primeiros dias de Abril de 1971. Nunca tinha visto edifício tão imponente. Fui integrado numa companhia de instrução de cadetes, futuros oficiais milicianos. Cerca de 120 cadetes, repartidos por 4 pelotões. E havia mais 4 companhias. Ao todo eramos cerca de 500 instruendos. Comandante de Companhia: Capitão Ferro. Do quadro. Durão!. Os comandantes dos pelotões eram Alferes do quadro, saídos da formação da Academia Militar uns meses antes. Era a segunda incorporação do ano. Havia 4 ao longo do ano: Janeiro, Abril, Julho e Outubro.

Estranhei ser um dos mais novos. Porque a maioria havia pedido adiamento para tirar cursos superiores: havia advogados, médicos, contabilistas, etc. Havia mesmo cadetes que usavam lentes tão grossas que quando os óculos lhe caíam durante a instrução, paravam. Não viam nada. Mas naquele tempo ninguém se safava da tropa.

Pensei para mim que talvez fosse melhor ser esforçado e cumprir o melhor possível. Em qualquer prova era sempre o primeiro. Apenas bloqueei no salto para o galho. Ao princípio conseguia. A dada altura bloqueei mesmo. Era o salto duma plataforma alta para um tronco colocado de pé em frente e muito perto. Quase que se tocava com a mão no galho. Mas aquele pequeno salto no vazio aterrorizava muita gente. Nunca mais fui capaz.

De especial lembro-me das longas caminhadas até à serra de Montejunto, até à Foz do Lizandro, até Torres Vedras. Algumas de noite. Por vezes os agricultores vinham reclamar que tinham destruído uma cultura de morangos ou um pomar de peras. Normalmente o quartel pagava para evitar quezílias.

Certa vez fomos de camião e deixados perto da Cadaval. Tínhamos um percurso de 3 dias traçado no mapa até um certo campo de futebol onde estariam os mesmos camiões para nos levar de volta. Circulava pela mesma zona um oficial de jeep que teríamos que evitar a todo o custo. Em teoria era o inimigo a quem não nos podíamos mostrar. Se ele nos visse disparava e nós teríamos que ripostar.

Na primeira noite ainda dormimos no campo. Na segunda noite passamos por um palheiro e o alferes disse:

- Todos lá para dentro. Vamos dormir aqui na palha e se ouvirem barulhos de noite ninguém responde.

O jeep passou diversas vezes à frente do palheiro. Fez vários disparos mas ninguém reagiu. Nessa noite dormimos num “hotel”.

Numaquinta-feira (penso que entre Maio e Junho de 1971) estava previsto treino de tiro. Estava a chover e não dava para isso. O capitão ordenou aos alferes para levarem os cadetes a fazer aplicação militar na tapada. Aí vamos nós. Botas de lona a correr, pagar 10, rebolar e dar cambalhotas à chuva.

- Em fila indiana… toca a passar para o lado de lá!

O que ia na frente desapareceu nas águas. O segundo também. O terceiro e o quarto foram em seu auxílio e também desapareceram. O alferes atirou-se à água e só não ficou lá porque o agarrámos. Ficaram 4 cadetes enterrados no lodo da lagoa que fica do lado direito da picada que segue do portão da tapada para o paiol.

Tenho pesquisado na net informação sobre este incidente. Já está muito esquecido. Na altura foi bastante camuflado. Há quem diga que foram 2, outros dizem que foram 3. Até há quem diga que havia uma corda.

O que aconteceu foi que o alferes tinha atravessado a pequena lagoa nos exercícios finais da sua formação na Academia Militar. E na altura como não chovia o nível da água era baixo. Desta vez chovia a potes e a lagoa transbordava. Só foram retirados no domingo, depois de os bombeiros esvaziarem a lagoa. Estavam enterrados debaixo de mais de 1 metro de lodo.

Nesse dia fez-se levantamento de rancho. Ninguém almoçou e ninguém jantou. Não saímos das casernas. Todos a pensar numa resposta adequada. Foi decidido que no dia seguinte (sexta-feira) formássemos na parada, todos fardados e prontos para sair, com a boina metida no passador da casaca, em sinal de luto.

Os dirigentes tiveram o bom senso de abrir as portas e deixar o pessoal sair para o de fim-de-semana. Sem passaportes nem nada. Pensaram que segunda-feira regressariam mais calmos.

E é que regressaram. Pelo menos a maioria regressou. Alguns quantos desertaram. Houve até quem levasse com eles a G3. E até quem passasse a enviá-la, peça a peça, de Paris para o quartel de Mafra.

Para além deste incidente lembro-me do soldado a quem uma bala tracejante da metralhadora acoplada ao canhão-sem-recuo lhe entrou pelo sovaco e saiu pela face. É claro que morreu. Tinha-mos ido fazer disparos para a carreira de tiro. A metralhadora serve para disparar previamente uma bala tracejante que vai indicar se o canhão está bem apontado, caso ela acerte no alvo. Ninguém se lembrou de verificar se tinha ficado alguma bala na câmara. E enquanto um soldado limpava com o escovilhão o cano do canhão, outro carregou, sem querer, no gatilho da metralhadora.

Há ainda o caso do cadete que ficou cego dum olho. Ia-mos em marcha em duas filas de arma aperreada, naqueles terrenos sem vegetação ao lado da estrada entre Mafra e a Carapinheira. A fila de um lado apontava as G3 para um lado e a outra fila apontava-as para o outro. Lá muito ao fundo num local mais elevado o alferes ia fazendo tiro de bala real para o espaço entre as e filas. Uma das balas estilhaça um seixo e um dos estilhaços esvazia-lhe um olho.

A última semana da recruta (finais de Junho) foi passada num acampamento num eucaliptal, para lá de Torres Vedras. Depois viemos a pé até Mafra. Todos sujos e rotos, no último dia só queríamos chegar ao quartel para tomarmos banho. Tivemos que esperar largas horas na zona da Paz, porque estava a chegar uma alta patente militar brasileira que vinha para nos ver desfilar na parada em frente ao quartel. Todos sujos e rotos…

E só depois do desfie é que pudemos tomar banho e ir comer alguma coisa.

Cadete em Mafra.jpg

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publicado às 07:53



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