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Primeiro aerograma

por António Tavares, em 18.01.17

Aerograma

Aerogramas eram aquelas folhas A4 recortadas e prontas a serem escritas. Em cores pastel suave, normalmente amarelo ou então verde ou azul. Bastava dobrar em forma de envelope, lamber a cola, colar e endereçar.

Depois era só meter na caixa do correio mais próxima, que passado mais ou menos tempo chegariam ao destino.

Foram criadas pelo Movimento Nacional Feminino para facilitar a comunicação entre os militares da guerra colonial e os seus familiares. Eram distribuídos gratuitamente, podendo ser utilizados de cá para lá, mas era sobretudo em África que os nossos rapazes sentiam a sua verdadeira importância.

Não era necessário escrever o endereço do militar a que se destinava. Bastava indicar o nome e o seu número do SPM. Cada destacamento militar tinha um número com 4 dígitos que identificava a sua localização exata. Os Serviços Postais Militares lá se encarregavam de fazer chegar o aerograma ao destino.

A chegada do correio aos mais recônditos lugares da África Portuguesa era normalmente altura de grande sobressalto. Todos esperavam ansiosos que os seus nomes fossem chamados. E os momentos seguintes eram sempre ou de muita alegria para uns ou de grande tristeza e desânimo para outros.

Tudo servia para incentivar os contactos com os nossos militares. Nas terras do interior de Portugal pedia-se às raparigas para serem Madrinhas de Guerra e escreverem aos rapazes da terra. Alguns militares já levavam de cá uma lista de madrinhas para se corresponderem. Outros punham anúncios na Crónica Feminina ou nos jornais.

Por vezes o pedaço de papel menor que uma folha A4 (e só de um lado) era muito pouco para escrever todas as saudades, todas as alegrias, tristezas e medos sentidos. Então escrevia-se com letra fina para conseguir escrever mais e prolongavam-se as palavras pelas margens, por fora e por dentro. Todos os cantinhos eram utilizados.

Vou aproveitar os meus momentos de bonança para vos ir escrevendo aerogramas com as minhas recordações, antes que se apaguem da minha memória. Vou escrevendo aos poucos, à medida que as lembranças me forem chegando. O problema é que elas são muitas, misturam-se no tempo e no espaço, entrelaçam-se umas nas outras, confundem-se e confundem-me. Mas se no fim de tudo sobrar uma lembrança, uma recordação, um afeto, já terá valido a pena. Não é possível esquecer. Eu não quero que nem vocês nem ninguém se esqueça. Eu vi! Eu estive lá!

Assim, meus filhos e netos, podem um dia relembrar a vida do vosso avô. E se acharem que ela tem alguma coisa para vos ensinar aproveitem.

É este o livro que vos vou deixando aos poucos.

O livro da minha vida…

Aerograma.jpg

Cartas e aerogramas aos molhos

 

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publicado às 20:17



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