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5 dias no inferno

por António Tavares, em 16.05.17

5 dias no inferno

A etapa entre Porto Amélia a Mueda foi a minha única experiência de guerra. Foram cinco dias no inferno.

Até Montepuez foi uma simples coluna militar, com vários camiões. Picada boa.

Montepuez era a última povoação grande antes da zona de Guerra de cabo Delgado. Era a cidade sede do Regimento de Comandos. Largas avenidas com casas térreas. Muitos comerciantes portugueses e indianos. Aqui nos juntamos à coluna de reabastecimento que vinha de Nampula. Ao todo mais de 70 camiões. A maioria deles civis. Tudo o que era necessário lá em cima ia de camião. Alimentos, armas, material de construção, etc.

Como o exército não tinha camiões suficientes, fazia contratos com camionistas civis que viviam da ida (2 vezes por mês, mais ao menos) a Mueda. Carregavam tudo. Tinham pago seguro de vida e da viatura. Se a mesma fosse minada ou acidentada, ou era reparada nas oficias do BMM - Batalhão de Manutenção de Material, ou recebiam uma nova igual. Um achado: havia militares (incluído generais) que tinham por sua conta uma verdadeira frota de camiões.

Como a nossa companhia não tinha experiência de guerra, toda a coluna era protegida por um pelotão de 30 homens, comandado por um alferes. Era a este que estavam incumbidas todas as operações de protecção e segurança, da coluna de viaturas. De mais de 7 quilómetros, entre a primeira e a última.

Saindo de Montepuez embrenhamo-nos na zona de guerra. Esta começava oficialmente na zona dos morros, uns 100 quilómetros acima. Uma zona de picada estreita entre 2 morros enormes. O comandante da minha companhia seguia, com um grupo de militares, na viatura atrás da nossa. Passada a curva dos morros deixei de ver a sua viatura. De repente ouço rajadas e rajadas de tiros. Pensei:

- Foram emboscados e estão a ser atacados, lá atrás.

Dei ordem ao pessoal que ia comigo para saltar da viatura, para se protegerem debaixo da mesma e esperar. Sempre preocupado com as minas.

Mais à frente o pelotão de segurança saltou das viaturas, meteu-se mato fora para tentar cercar o inimigo atrás dos morros.

Passado algum tempo parou o tiroteio. Vejo a viatura do capitão a vir em nossa direcção e ele mesmo a acenar com a mão: podem seguir.

Acagaçado com os morros, ele tinha dado ordem aos seus soldados para esvaziar cada um, um carregador de G3 sobre os morros. Sem nada combinado com o pessoal da segurança que ia mais à frente. Com possibilidade de serem apanhados pelo seu fogo cruzado.

O alferes que comandava a segurança chamou-lhe depois a atenção:

- Quando chegar a Mueda vou participar de si…

Um dos soldados que seguia na minha viatura era casado e levava aliança no dedo. Ao saltar da viatura a aliança ficou presa nalguma peça metálica e descarnou-lhe o dedo quase até à ponta. Foi até Mueda com o dedo entrapado.

Numa das viaturas seguia uma escavadora de lagartas. Nunca se sabia quando é que as chuvas abriam valas na picada. E aconteceu mesmo. Algures ali para Nairoto foi preciso abrir outra picada mais ao lado, para a coluna passar.

Sobre o ri Mesalo a ponte era de madeira, com perto de uma centena de metros. Foi decidido passar ali uma das noites. Havia água para nos lavarmos, o espaço era amplo e seguro. Para evitar ataques de crocodilos tinham sido espetados troncos, em fiada, uns metros acima e outros uns metros abaixo da ponte. Foi o primeiro mergulho em águas correntes, mesmo barrentas.

Na coluna seguiam 3 camiões militares novos, marca mercedes 4x4, enormes, tamanho que eu nunca vira. Iam os 3 seguidos. Um deles ficou em cima da ponte e os outros 2 na rampa a descer para a ponte. Sem ninguém saber porquê (estariam mal travados?) um deles deslizou e levou os outros 2 de rojo. Dois deles ficaram com o radiador roto. Solução: mandar vir por helicóptero 2 radiadores novos. Não havia. Era um modelo novo e não havia peças sobresselentes.

Nova solução: esvaziar 2 bidons de gasóleo para dentro dos depósitos das viaturas. Colocar cada um dos bidons vazios em cima de cada uma das viaturas avariadas. Desfazer sabão e com ele bloquear as zonas rotas dos radiadores. Ligar uma mangueira de cada bidão a cada radiador avariado. Sempre que o nível de água fosse baixo era necessário encontrar mais água para encher os dois bidons.

A tropa manda desenrascar. E assim lá chegamos, famintos, 5 dias depois a Mueda. Depois de passar a célebre curva das bananeiras. Pelo caminho ficaram vários postos com presença de militares, como Nairoto, Chaca ou Nacatar.

Eu não conseguia comer as rações de combate. Só bebia os sumos. As latas de conserva dava-as aos rapazes. Sempre que o camião parava eu saltava e ia arrancar raízes de mandioca. Descascava-as e roía-as.

Diz o cancioneiro do Niassa (de memória):

Que culpa tem o soldado

De ter raiva à sua sorte

Se chega um filho da puta

Que o mete numa farda

E o manda para a morte

Ou:

Se há um jovem que tomba outro se levanta

Se há um jovem que chora há outro que canta

Anda ver meu amigo os que riem do perigo

Frente à morte na luta pela vida

Picada para Mueda.jpg

Descida do Nairoto para o rio Mesalo. Imagem tirada da NET

 

Nampula.jpg

 Numa avenida de Nampula. Uma berliet carregada a aguradar a próxima viagem a Mueda.

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publicado às 16:31



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