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Mueda

por António Tavares, em 19.01.17

MUEDA

Naquele sábado qualquer do mês Abril de 1972, estava o sol quase a desaparecer na vermelhidão do horizonte por cima do planalto, quando o camião em que seguia o pelotão que eu comandava, trepava ruidosamente as últimas centenas de metros da íngreme picada poeirenta,  esburacada e rasgada pelas águas da chuva, que separavam o inferno dos últimos 5 dias de picada entre Porto Amélia e o purgatório que iria ser a nossa breve estada de 2 dias em Mueda. Porque o céu, esse estaria reservado lá muito mais para diante.

No último morro à direita esperava-nos um soldado cuja farda camuflada se confundia com o ocre da terra e que rodava apressadamente a manivela da máquina de filmar feita de cartão e encimada  com a sigla RTP. Era assim que os checas eram recebidos em Mueda.

A coluna de mais de 70 camiões estendia-se por várias dezenas de quilómetros e duraria todo o dia e parte da noite, para passar a curva das bananeiras, transpor o estreito desfiladeiro do fundo do vale e vencer a íngreme subida até ao planalto.

E chamava-se das bananeiras, ou da morte, a tristemente célebre curva. Bananeiras, porque todo o vale, da picada para baixo, era mais largo e estava cheio de bananeiras. De vez em quando vinha um camião de Mueda buscar bananas, sempre escoltado por um grupo de proteção. E antes havia que bombardear toda a zona para saber se estava limpa. É que esse desfiladeiro, mesmo nas barbas dos soldados no alto do morro era uma das principais vias de reabastecimento dos turras, mais a sul.

Muitas vezes esses bombardeamentos do vale incluíam não apenas obuses, canhões e murteiros, mas por vezes também os Fiats e dos velhos T6 da 2ª Guerra Mundial. Acontecia era que as velhas bombas dos T6 muitas vezes não rebentavam e serviam para os próprios turrras enterrarem nas picadas por baixo das minas anticarro.

Sabem meus filhos, naquele dia, para se poder transpor a curva das bananeiras teve que vir de Mueda um grupo de engenharia abrir uma nova picada mais ao lado da curva. O buraco na picada, mais fundo do que um soldado de pé e com o braço esticado, fora feito pelo rebentamento de uma dessas bombas, fez desaparecer uma Berliet, mandou para o céu que nos prometiam os 30 homens que levava em cima e não permitia a passagem dos camiões de reabastecimento.

Mas esse grupo de engenharia tinha também outra missão. É que a ponte sobre o desfiladeiro era derrubada logo no dia imediato a ser reconstruida. Os turras passavam, colocavam os petardos de trotil e aí vai mais outra ponte. A única solução possível foi fazer 2 morros de cimento armado, um de cada lado do desfiladeiro e de cada vez que era necessário transpô-lo o grupo de engenharia trazia 2 potentes barras de ferro, assentava-as sobre o desfiladeiro e depois era preciso acertar com as rodas dos camiões nas 2 barras de ferro. Nem que fosse apenas para vir buscar as bananas ou encher os autotanques de água para levar para o alto do planalto.

Toda a nossa companhia, a CART qualquer coisa, seguia em 4 camiões, um pelotão de trinta homens em cada um. Tinha aquele código por ser uma Companhia de Artilharia.

De facto formamos a companhia em Torres Novas no velho quartel GACA 2. Aí sim havia peças de artilharia contra aeronaves que ainda manuseamos algumas vezes. As peças que levávamos connosco eram apenas as, já na altura, velhas e pesadas (mas fiáveis) G3, ainda hoje usadas.

Mas estava eu aqui me lembrando que embora fossemos uma Companhia de Artilharia não passávamos de Infantes e formávamos, isso sim, uma Companhia de Infantaria. As peças de artilharia, esperava eu deviam estar lá mais para o norte, em Mocímbua do Rovuma, nosso destino final. As aeronaves contra quem iríamos lutar, que viram da Tanzânia, do outro lado do rio Rovuma, essas nunca soube se vieram ou não.

Estou aqui a divagar mas voltando à nossa chegada a Mueda ...

Os camiões foram distribuídos pelos edifícios de destino. A maioria ficaria em Mueda por trazerem todo o tipo de utilidades e mantimentos para a Intendência local: munições, tijolos, cimento, batatas, óleo, gasóleo ... eu seu lá que mais. Uns poucos levariam os mesmos mantimentos e utilidades (a nossa companhia incluída), umas centenas de quilómetros lá mais para cima, para junto da fronteira. Esses ficaram numa outra zona vedada com arame farpado. Os soldados foram alojados nas casernas que lhe estavam destinadas já a noite ia avançada. Uns deitaram-se e adormeceram de imediato. Outros ainda abriram uma ração de combate para comer qualquer coisa antes.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

Após dias de caminho

Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato

Olhei e vi palmeiras

Macacos e bananeiras

Entendi, estava no mato

Eram cerca de 23 horas e 30 minutos quando me sentei na enxerga vazia de qualquer peça de roupa, num quarto com apenas uma prateleira, em que a porta não fechava, que me havia sido atribuída.

Pensei... há 5 dias que não como. Estou cheio de fome. Vou arrumar as minhas coisas nesta prateleira e vou até à Messe de Oficiais comer qualquer coisa.

Arrumei os sacos com roupa, um par de botas, os livros que trazia, alguns cadernos para tentar escrever qualquer coisa. Não havia água para me lavar. Vestido como estava lá me dirigi à Messe de Oficiais.

Sento-me ao balcão do bar e pergunto ao soldado de serviço:

- O que há que se coma?

- A esta hora sr Alferes? A esta hora não há nada.

- Nem fiambre, ou chouriço para fazer uma sandes?

- Não sr Alferes. Acabou tudo. A esta hora só pão.

- Então dá aí um pão e uma bazuca.

Na primeira trincadela que dei no pão senti algo a ranger nos dentes, tirei com a mão e pareceu-me ser um grão de areia. Na segunda trincadela pareceu-me sentir uma coisa mais mole e de gosto duvidoso. Tirei com a mão e já era só metade de um inseto qualquer.

Acabei por comer o pão esfarelando-o com a mão para retirar tudo aquilo que normalmente não entra na composição de pão, coisas que nunca soube o que eram. Valeu-me a cerveja que até estava fresca.

É que eu estava mesmo com fome. Durante os 5 dias de picada de Porto Amélia a Mueda apenas tínhamos direito a abrir uma ração de combate por dia. Mas da ração de combate eu apenas conseguia beber a água e os sumos. Felizmente ia trocando as latas de conserva com os meus soldados e eles davam-me os sumos.

Sempre que os camiões paravam eu embrenhava-me pela mata à procura de mandioca. Havia descoberto que as raízes novas da mandioca eram saborosas, suculentas e até alimentavam.

Já noite fora, tonto, ouvindo o vazio à minha volta, cambaleio até chegar ao quarto. Empurro a porta entreaberta e calçado e vestido como estava, caio na enxerga. De olhos fechados. Mas não consegui dormir. Doí-me a cabeça, estou tonto, abro os olhos e viro a cara para a janela de onde vem uma luz trémula proveniente da iluminação da pista de aterragem ali mesmo ao lado.

Mesmo essa luz me ofusca. Penso: Vou dormir. Amanhã será outro dia.

Viro a cara para o lado e antes de fechar os olhos apenas vejo as mesmas 4 paredes, a porta aberta, a mesma prateleira vazia... Vazia? Isso mesmo. Tinham-me levado tudo. Tinha ficado apenas com o que trazia vestido. Mesmo aqueles cadernos onde queria escrever nem eu sabia o quê. Incapaz de esboçar qualquer reação fiquei ali parado, com a porta aberta, olhos fitos na prateleira vazia a pensar: um dia hei-de escrever esta história. E adormeci ....

 

Notas:

Porto Amélia: Atual Cidade de Pemba. A cidade grande mais ao Norte de Moçambique junto ao mar.

Checas: Soldados acabados de chegar

Turras: Nome que dávamos aos terroristas

G3:       Arma que equipava todo o exército português, fabricada em Portugal sob patente alemã

Berliet: Camião militar de tração a todas as rodas, de origem Francesa, vulgarmente utilizado em todas as campanhas da Guerra Colonal em África

CART: Companhia de Artilharia. Qualquer coisa porque já não me lembro do seu código numérico. Todas as companhias eram numeradas sequencialmente

GACA 2: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2 em Torres Novas. Atual Escola de Formação da Polícia

Bazuca: Cerveja grande de litro e meio

 

Fiats.jpg

Os bombardeiros Fiat fotografados por mim no aeroporto de Nampula que era a sua base operacional para as incursões pelo Norte de Moçambique

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publicado às 10:29



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