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Aerograma para Maria Clara

por António Tavares, em 22.01.17

Aerograma para a Maria Clara

Acabaste de nascer há poucas horas. Sei que a tua vinda a este mundo não foi um mar de rosas. Mas já venceste a tua primeira batalha. És uma lutadora. Sei que vais vencer.

Estou aqui à tua espera porque temos muitas brincadeiras para fazermos juntos. Tenho muitas histórias para te contar.

Daqui a alguns anos quando leres estas linhas vais perceber que o teu avô também foi um lutador. A minha vida também não foi um mar de rosas.

Vou só contar-te agora um episódio das muitas histórias que tenho para te contar. Claro que não me lembro do que aconteceu. Mas vou cantar-te tal como a ouvi contar dezenas de vezes ao meu pai, quando nos juntávamos e ele já tinha bebido um ou dois copitos.

Nasci numa família numerosa na aldeia de Casalinho, freguesia de Cardigos. Era o quarto filho de uma família que chegou a ter 11.

Quando tinha 3 a 4 anos já havia outros mais pequenos. Eu deixei de ser o centro das atenções.

Sempre fui muito rebelde. Possivelmente aquilo a que chamam hoje hiperactivo.

O teu bisavô José Maria era mestre-de-obras. Saía todos os dias com a lancheira às costas para andar a pé 7 quilómetros para ir trabalhar nas obras em Vales. Porque era uma terra de ricos recém regressados do Congo Belga que se tornara independente. Vinham cheios de dinheiro e todos queriam fazer obras.

Nós ficávamos sozinhos em casa com a nossa mãe, onde havia pouca coisa para nos entretermos.

Eu adorava deambular pelos campos e subir às árvores.

Parece que um dia estando sozinho subi a uma oliveira. Em baixo estavam vários troncos de pinheiro ainda com restos de ramos cortados. Caí desamparado em cima dos troncos e espetei um desses ramos na cabeça. Levantei-me a cambalear e corri para a aldeia. A primeira pessoa que encontrei foi a  ti Joaquina sentada na soleira da porta. Atirei-me ensanguentado para o colo dela e desmaiei.

Chamaram o meu pai. Levaram-me de táxi ao médico a Cardigos. Ele viu-me e disse de imediato: é preciso levá-lo para o hospital em Abrantes.

No hospital levaram-me para o piso de cima. O meu pai ficou no piso de baixo e aí se manteve durante 8 dias enquanto eu lutava entre a vida e a morte.

Ao fim de 8 dias, como não havia evolução do meu estado, os médicos desceram para avisar o meu pai que me iam operar. O meu pai disse várias vezes que não queria que eu fosse operado, que me iam matar. Mas os médicos não quiseram ouvir e foram-se preparar.

O meu pai esgueirou-se escadas acima para me olhar para mim mais uma vez.

Quando se chegou à porta do quarto eu estava sentado na cama e disse-lhe: pai, a mãe não está aqui.

O meu pai nem me disse nada. Correu escadas abaixo e disse para o médico: senhor doutor, já não é preciso nada. O meu filho já fala e eu vou levá-lo já.

Embrulhou-me num cobertor, chamou um táxi e aí vamos nós de volta ao Casalinho.

Até hoje.

Parece que a minha madrinha já tinha encomendado a urna e estava a fazer os panos da mortalha.

Como vês também venci esta batalha e muitas mais que quero contar-te. A tua avó Fernanda também venceu algumas batalhas, que um dia te contarei.

Sei que os teus avós da Rapoula também têm muitas histórias. A tua mãe vai contar-tas um dia.

Força.

Estamos todos à tua espera.

Casalinho.jpg

O mais longe que vai a minha memória. A minha mãe e os seus pais há mais de 100 anos. Os primeiros 4 filhos (eu de caracóis). Na eira a descamisar o milho: a mãe no meio, a avó e o avô maternos á direita e o rebanho espalhado.

 Familia anos 60 em Cardigos.jpg

 Familia algures nos anos 60 em Cardigos

Familia na Casa da Praia.jpg

Familia na Casa da Praia anos 80

 

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publicado às 13:11



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