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EN2 e a Graça era uma gracinha!

por António Tavares, em 03.05.17

Estrada Nacional 2 e

A Graça era uma gracinha!

A história da Estrada Nacional número 2 perde-se no tempo. Teve origem nos diversos trilhos romanos que foram modernizando os ancestrais caminhos rurais. Alguns troços da actual EN2 ainda coincidem com essas estradas romanas.

Mas o plano do Estado Novo, elaborado a partir dos anos de 1930, incluía uma estrada de Faro a Chaves pelo interior do País. O plano juntava antigas estradas e novas ligações.

O troço mais conhecido é o que atravessa a serra algarvia de Faro a Almodôvar. Porque foi feito de novo e ainda mantem os traços daquele tempo. E naquele tempo havia, de tantos em tantos quilómetros, as casas dos cantoneiros. Cada grupo deles tinha por missão manter um centro número de quilómetros em bom estado: limpavam, cortavam o mato, arranjavam as bermas, faziam pequenos remendos.

Essas casas tinham quartos, sala, cozinha, um pequeno terraço e churrasqueira. Eram de arquitectura simples e típica do estado novo. Estão todas ao abandono e para muitas há planos de recuperação e colocação ao serviço doturismo. Fossemos nós um país rico… Este troço foi mesmo classificado como de interesse público. Existem associações (incluindo de municípios) que querem levar por diante estes planos.

Vem isto a propósito do percurso desta estrada em território de Cardigos. Nesses longínquos anos 30 Cardigos era uma vila com algum poder, mesmo político e fizeram-se várias incursões a Lisboa para forçar que o seu traçado atravessasse mesmo a vila. Andava eu na escola primária e ainda se apontavam a dedo os prédios marcados para serem derrubados para ela passar. Mas Vila de Rei ainda era mais importante tinha o Centro Geodésico de Portugal, na Serra da Melriça. Ora se a EN2 era para atravessar Portugal de norte a sul, pelo centro do país, tinha que passar por ali. E hoje passa mesmo. Sobe mesmo a serra e passa a poucos metros do ponto mais alto. O picoto da Melriça.

Para calar o pessoal de Cardigos foi-lhes prometido fazer depois uma estrada de igual perfil a ligar a EN2 de Vila de Rei a Cardigos. Foi começada. Lembro-me dela desde que fui com o meu pai, de carroça, pela primeira vez, trocar os presuntos por mantas de toucinho ao Vale da Urra. Piso nunca terminado, rugoso, cheio de buracos até para uma carroça. Terminava abruptamente contra uma encosta, logo depois do cruzamento para vale da Urra, depois de cruzar a ribeira da Chaveira e antes da ribeira da Isna e de São João do Peso.

Foi finalmente acabado já depois da revolução. Mas em vez de ir ligar a Vila de Rei foi prolongada mais para cima e vai desembocar perto da Vila da Sertã. Este troço passou a integrar a EN244 que terminava em Cardigos e que assim foi prolongada até à Sertã.

Entre os 15 e os 17 anos, durante as férias de verão, passei a ser o ajudante do padre na missa. Eu até andava a estudar para ser padre. Ia aprendendo. Uma espécie de sacristão. Vinha cedo abrir a Igreja e tocar o sino ao nascer do sol.

Ajudava na missa. E reparava na Maria da Graça. A Maria da Graça era uma gracinha! Bonitinha, cabelo negro escorrido. Foi o meu primeiro amor platónico. Mais nova que eu, teria uns 12 anos. Na missa, ao segurar a bandeja que se colocava debaixo do queixo na altura da comunhão, tocava-lhe com a bandeja no queixo. Não sei se ela alguma vez reparou nisso, ou não. Aos domingos seguia-a no meio da população sem ela dar por isso. Pecava em sonhos. Pecados que nem sabia como eram e daqueles que nem ao padre confessava.

A Graça era da Roda. Tinha pelo menos mais 2 irmãs mais novas. Estudava em Castelo Branco, como o Mário. Nas férias grandes, eu passava as tardes de domingo com os rapazes e raparigas da Roda. A Graça fazia parte do grupo. Divertíamo-nos em passeios pelo campo. Íamos comer fruta à horta de uns e de outros. Havia sempre alguém que tocava gaita-de-beiços. Fazíamos bailes na eira. Chegava-mos a ir tomar banho a tanques de regar as hortas. Eu apenas olhava para a Maria da Graça. E sonhava em silêncio. Eu até era quase padre.

Depois de vir para Lisboa pedi ao Mário que me desse a morada dela. Escrevi-lhe algumas cartas. Ela respondeu-me durante uns tempos. Chegou a mandar-me uma fotografia. Dizia-lhe que gostava de estar com ela quando fosse a Cardigos, para conversarmos. Respondia a dizer que sim.

O problema é que Lisboa, naquele tempo, era muito longe. E trabalhava-se no sábado de manhã. Mesmo quando se deixou de trabalhar aos sábados, apanhar todos os transportes para Cardigos, era para chegar sábado às 14 horas. E no domingo tinha que apanhar a carreira das 2 da tarde.

Esperava por ela aos domingos de manhã na praça para a ver. Ela vinha para a missa das 11. Passava na praça acompanhada da família e fingia que não me via. Ou não me via mesmo.

E assim acabou o meu primeiro amor platónico…

Antes de partir para Moçambique ainda insisti. Queria que fosse minha Madrinha de Guerra. Que me escrevesse.

Não consegui.

Ainda a vi uma vez a subir as escadas do metro nos restauradores…

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publicado às 19:47

GACA 2 - Torres Novas

por António Tavares, em 02.05.17

GACA 2 - Torres Novas

O quartel de Torres Novas era uma unidade de Artilharia: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2. Apresentei-me lá para integrar uma Companhia de Infantaria que aí seria formada para seguir para Moçambique.

Eu comandava um pelotão de cerca de 30 homens, a maioria oriundos da Ilha da Madeira. Tinha mais 3 Furriéis. O comandante era Capitão Miliciano.

Dada a escassez de oficiais do quadro para comandar as muitas operações em África, o exército recorreu aos milicianos, como eu, para comandar pelotões. Ao fim de 6 meses de instrução já era Aspirante e ao fim de mais 3 partia para África como Alferes. Os Alferes que queriam, pediam para continuar no exército. Faziam mais uns cursos de gestão operacional, passavam a tenente, formavam companhia e iam para África comandar uma companhia como Capitão. Voltavam de lá, 2 anos mais tarde e passavam a Majores. Ao fim de 6 anos eram Majores.

Ora os oficiais de quadro para atingirem esse posto passavam mais de 10 ou 12 anos.

Quer se queira quer não, este foi um dos factos que estiveram na génese da revolta dos militares que originou o 25 de Abril. O resto é política.

Lá iria eu encontrar em Moçambique o Cancioneiro do Niassa que rezava assim (reprodução de cor):

Um dia fui dar com Deus

Na taberna do Diabo

Entre cristãos e ateus

Fizeram de mim soldado

E eu sem querer fui embarcado

Levei armas e um galão

P’ro outro lado do mar

Quis levar o coração

Não mo deixaram levar

E eu sem querer ia matar

Deram-me uma cruz de guerra

Quando matei meu irmão

E a gente da minha terra

Promoveu-me a capitão

E eu sem querer fiquei papão

Todos me chamam herói

Ninguém me chama Manel

Quem quer uma cruz de guerra

Que eu já não vou p’ro quartel

Os madeirenses do meu pelotão revelavam alguma moleza que me aborrecia. Puxava por eles fisicamente, mas eles não respondiam. À sexta-feira de manhã fazíamos sempre uma marcha de muitos quilómetros, com a promessa de que, quanto mais depressa chegassem ao quartel, mais depressa iam de fim-de-semana. Acontece que eles, como não iam para a Madeira de fim-de-semana (ficavam sempre no quartel), não se importavam com as minhas ameaças.

Os jogadores profissionais de futebol já naquele tempo tinham alguns benefícios. Os mais influentes conseguiam não ser mobilizados para as colónias, para poderem jogar nos clubes aos domingos. Estava comigo em Torres Novas o Furriel Quinito do Belenenses e o guarda-redes Armando do Barreirense. Davam-me muitas vezes boleia para Lisboa. Mas vinham muito cedo à sexta-feira. Aí pelas 11 horas estavam de partida.

Numa certa sexta-feira apertei com os madeirenses e disse-lhes que tinha boleia para Lisboa e tinha que chegar cedo ao quartel. Não ligaram. Nesse dia perdi mesmo a boleia.

- Fizeram-me perder a boleia? Pois agora vamos repetir o mesmo percurso todo. Vão à velocidade que quiserem, pois só quando cá chegarem é que vos dispenso para ir de fim-de-semana.

E fomos. Fiquei para trás e deixei serem eles a orientarem-se. Um deles (o mais atrevido) assumiu a dianteira, puxou pelo grupo e demoraram menos 20 minutos no percurso todo.

- Estão a ver? Afinal fizeram mesmo ronha da primeira vez. Conseguiram na segunda vez, já cansados, demorar menos tempo. Vão agora almoçar e já que eu não vou de fim-de-semana nenhum de vós vai. Ficamos cá todos e vamos fazer aplicação militar para o rio, todo o fim-de-semana.

E fomos. Mergulhar no rio, chapinhar na água, correr todos molhados, fazer ginástica. Mesmo no Inverno. Ficaram tão meus amigos que tiraram fotos e à noite fomos todos beber cervejas e comer bolo de mel madeirense.

Quando íamos fazer patrulhas tinha por hábito levá-los para uns pinhais para os lados da Santa da Ladeira. Uma Santa que queria concorrer com Fátima, mas que a igreja católica nunca reconheceu. Mas criou um santuário, juntou um grupo de seguidores apóstolos e foi apadrinhada pela igreja ortodoxa.

Por vezes mandava-os deitar no pinhal e sornar. Eles levavam G3 mas sem balas. Apenas eu levava bala real. Deitado no mato no meio deles punha-me a fazer pontaria às pinhas. Assim passava o tempo e ao mesmo tempo dava sinal a quem (do quartel) nos andasse a espiar, que estávamos treinando.

No regresso mandava o pessoal formar em linha e atravessava-mos os terrenos da Santa da Ladeira em género de formação de combate.

Certo dia fomos para exercício de tiro em Santa Margarida. Quando íamos para lá já chovia. Mas ao chegar lá a chuva era tão forte que o capitão mandou os camiões de volta e disse-nos:

- Vão a pé e apareçam no quartel.

A chuva era abundante e o vento tão forte que na passagem pela ponte Golegã, sobre o Rio Tejo, tínhamos que nos agarrar às grades para não cair. Ao passar na Golegã e depois de me certificar que não eramos seguidos pelos nossos chefes mandei todo o pelotão entrar para a primeira tasca que apareceu. Era Inverno.

- Pessoal… quem quiser pode beber um bagaço para aquecer, pode beber. Quem não beber bagaço pode beber um copo de vinho ou de água. Eu pago.

A caminho de Torres Novas ainda vimos um camião carregado de fardos de palha tombado de lado. A chuva, tocada a vendo, entranhou-se na palha por um dos lados do camião, aumentou o peso daquele lado de tal modo que tombou. Sem consequências de maior.

Uma das missões do oficial de dia era conferir se as refeições dos militares eram elaboradas segundo as normas estabelecidas. Certo dia, estava de oficial de dia e fui com o furriel, meu ajudante, conferir a confecção do almoço. Era atum com batatas. Pedi ao sargento as normas para aquela refeição. X gramas de atum para cada soldado.

- Preparou almoço para quantos?

- Oitocentos e….

- Mostre-me as latas abertas.

Fiz contas e claro que faltava uma data de latas. Daquelas latas grandes de vários quilos cada.

- Pois fique sabendo que ninguém entra no refeitório enquanto você não me mostrar todas as latas que lhe compete abrir. E apareceram logo de seguida.

Mas aconteciam sempre coisas engraçadas. Numa das minhas visitas pelas cozinhas, enquanto se preparavam as refeições, o chefe de cozinha disse para um ajudante:

- Põe cebola dentro da panela que está ao lume para fazer a sopa.

O novato foi ao saco e apanhou várias mãos cheias de cebola desidratada e meteu-as na panela. Passado pouco tempo a cebola inchou de tal maneira, que era vê-la a sair da panela para fora. Ninguém lhe tinha explicado que era cebola desidratada e quanto se devia pôr na panela.

No dia 11 de Novembro (São Martinho) também estava de oficial de dia. Mandei o Furriel meu ajudante ficar no meu lugar porque ia sair em serviço. E saí. Saí de jeep com o soldado condutor de serviço e fomos beber água-pé à feira da Golegã. A minha tendência para correr riscos. De regresso já vínhamos alegres mas não passou disso.

A dada altura o comandante do quartel foi mudado. Veio um coronel muito alto, forte e com um vozeirão que metia medo.

Na sala de jantar dos oficiais havia uma fiada de cabides à entrada onde cada um pendurava a sua boina. O comandante e os seus adjuntos comiam numa mesa corrida, ao fundo. Nós os oficiais subalternos comíamos em mesas quadradas espalhadas pela sala. Durante o almoço era tal a algazarra que, para nos podermos ouvir tínhamos que elevar a voz. Mas a voz do comandante sobressaía por cima de todas as outras.

A certa altura alguém começa a fazer chiu… chiu… e fazer sinais para irmos baixando a voz. Todas a gente se calou. Só o comandante continuava a falar com aquele vozeirão. Percebeu o toque e daí em diante passou a falar muito mais baixo.

Certa vez o comandante teve que sair mais cedo da sala de jantar e não encontrou a sua boina nos cabides. Chamou o corneteiro e disse-lhe

- Faz o toque a reunir para oficiais.

- Não conheço esse toque.

- Então faz o toque alarme!

Tocou. Mas como ninguém estava à espera de tal coisa, ninguém fez nada de especial, estava todo o pessoal a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer.

Começou aos gritos. Queria todo o pessoal do quartel reunido na parada em formação. Os oficiais na frente. Ao passar revista aos oficiais descobre um alferes com a boina que lhe parecia a sua.

- Porque é que tens a minha boina?

- Ó meu Coronel, não reparei. Estou de oficial de dia e chamaram-me à portaria. Saí e peguei na boina que me pareceu ser a minha. Peço desculpa.

Subiu para o palanque e disse ao microfone:

- De hoje em diante vamos passar a fazer exercícios de simulação com regularidade e a horas incertas. Sempre que eu entender o corneteiro fará os toques que eu entender e quero resposta pronta de a cordo com as normas estabelecidas. Que cada um cumpra as tarefas que tem atribuídas.

Daí em diante, às horas mais estapafúrdias, o corneteiro tocava o que lhe era indicado. O normal era ser o alerta geral. E nessa altura todo o pessoal tinha que simular que o quartel estava a ser atacado. Era pegar nas espingardas e cada um seguia para o seu posto de defesa. As metralhadoras e os canhões antiaéreos eram tirados dos seus abrigos e vinham para a parada ou para os seus lugares de fazer fogo e perscrutar aviões no céu. Na primeira vez ninguém sabia mexer neles. Muitos nem funcionavam. Foram dadas instruções para que fossem oleados e calibrados. Tinham que estar prontas a responder em caso de ataque.

Por fim aquilo já era uma brincadeira…

Hoje o quartel de Torres Novas é o Centro de Instrução da Polícia.

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O nosso pelotão. Destemidos para ir "ganhar a guerra".

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Aplicação militar no rio Almonda.

 

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publicado às 14:20

Ar condicionado na palhota

por António Tavares, em 01.05.17

Ar condicionado na palhota

Estava eu já colocado na Secção de Viaturas da CCS/QG de Nampula, quando o capitão, comandante da companhia foi substituído. Quem haveria de vir para o seu lugar: o Capitão Ferro que havia sido comandante da minha companhia de instrução, em Mafra.

A companhia formou na parada para prestar honras de chegada ao novo comandante e ele, ao ver-me, diz-me:

- Então estás aqui? Não eras atirador de infantaria?

- Era. Mas, sabe, a vida dá muitas voltas…

Não mais se referiu ao que se passou em Mafra.

Uma das minhas tarefas era fazer as honras militares aos soldados locais, mortos em combate. Quando isso acontecia, juntava um grupo de 8 a 10 militares e seguia com eles de jeep para fazer os disparos de salva antes da urna descer à terra. Fui algumas vezes a localidades bem distantes, selva adentro.

Mas tinha que treinar a formação dos soldados e os disparos de salva. Agrupava-os nas traseiras da oficina, distribuía 2 balsas de salva a cada um e fazia aí os treinos e os disparos.

Certa vez estava eu a acabar o treino quando veio ter comigo o alferes que trabalhava com o Major Lisboa, oficial de segurança da cidade, com ligações à PIDE. Diz-me:

- O nosso Major exige saber quem anda aos tiros na cidade e porquê. Quer que vás lá explicar-te.

- Diz ao nosso Major que só recebo ordens do meu comandante. Ele que faça o pedido oficialmente.

O Major Lisboa era aquele que apanhava os alferes desprevenidos sem boina, ou soldados desmazelados ou com um copito a mais e os levava para admoestação. E que jurara que ia pôr o trânsito da cidade na ordem. Com o jeep que lhe estava distribuído e com o seu motorista, chegava a fazer patrulhas pelas ruas como se fosse polícia de trânsito.

O seu Gabinete de segurança funcionava numa moradia fora do quartel, numa rua adjacente. O Major Lisboa era o mesmo que em Mafra (na altura capitão) me interrogara depois do incidente da morte dos 4 cadetes.

Ele telefonou ao Capitão Ferro e este ligou para mim:

- O Major Lisboa quer que vás a sua presença.

E fui. Logo que cheguei teve para comigo a mesma reacção que tivera o Capitão Ferro quando me viu na cidade:

- Estás aqui na cidade? Tu eras atirador! Não tinhas ido com uma companhia lá para cima para o Rovuma?

- São as voltas da vida.

Respondi.

Depois de lhe explicar o porquê dos tiros, só me disse:

- Está tudo certo. Mas é preciso pedir autorização para fazer essas manobras, mesmo dentro do quartel. Eu tenho que ser informado previamente para não haver alarme na cidade.

Disse-lhe que sim e fui-me embora. Passei a fazer os treinos da formação sem fazer os disparos.

Como a guerrilha da Frelimo se vinha aproximando cada vez mais da cidade de Nampula, (contava-se que já havia escaramuças na zona do rio Lúrio) o nosso Major lembrou-se, a dada altura, de fazer treinos militares mesmo com a população civil, em jeito de exercício de simulação. Ainda fui nomeado para colaborar com ele no que tocasse à simulação na zona do QG. Cheguei a ter uma pistola Walter atribuída para esse fim. Felizmente nunca se chegou a realizar por falta de colaboração das autoridades civis que temiam o alarido que isso iria gerar na cidade.

Relatavam-se mesmo casos de guerrilheiros que eram presos lá no mato e que ao serem presos se viravam para o alferes:

- Eu conheço o senhor alferes. Lembro-me de o ver na messe de Nampula.

Eles conseguiam mesmo colocar guerrilheiros a servir na messe dos oficiais, para obterem informações.

Um sargento meu amigo, natural da cidade, tinha a mulher a passar férias na foz do rio Lúrio, que era uma espécie de estância balnear. Boas praias! Quando surgiu esse boato de que a guerrilha já se aproximava do rio ficou preocupado e quis ir lá buscá-la. Era sábado. Mas tinha medo de ir sozinho e de noite e de levar o seu Toyota pelas picadas fora.

Fomos no meu jeep. Levava atrás uns jerricans de gasóleo. A dada altura apareceu-nos um volto no meio da picada. Mesmo com a luz dos faróis não se distinguia o que era. Entre parar e seguir ele decidiu acelerar. O jeep deu um salto, passou por cima de algo e parámos. Era um javali. Morreu com o embate. Carregámo-lo no jeep e no domingo seguinte, depois do regresso, tivemos javali assado. Espetado num ferro grande, por cima de um monte de brasas, um negro ia rodando o espeto dando à manivela, outro ia pincelando com molho. Beberam-se umas cervejas. Espetava-se o garfo numa zona já assada e cortava-se com a faca. 

Eu costumava ir com aquele sargento à caça aos domingos. Ele cedia a arma e os cartuxos. Eu arranjava o gasóleo. Havia na zona de Meconta (a 150 quilómetros, mais ou menos a meio caminho entre Nampula e Nacala) uma pista de aviação de terra batida. Crescia o capim. E para que os pequenos aviões pudessem aterrar em segurança era preciso cortar regularmente o capim. Dois dias depois do corte o capim começava a rebentar, viçoso. Colocávamos holofotes fortes no jeep e de noite íamos, com os faróis apagados colocarmo-nos no início da pista. Acendia-mos os holofotes e os coelhos eram às centenas. Arrancávamos pista fora e era só disparar. Depois voltávamos para trás para apanhar os 10 ou 20 coelhos que tínhamos apanhado.

Os militares faziam muita acção psicológica (psico como diz o cancioneiro do Niassa) sobre as populações locais, normalmente sobre os régulos e chefes de aldeia. Estavam sempre a oferecer-lhes prendas. Era importante porque, como não havia recenseamento das populações, quando era na altura das incorporações os militares iam pedir a cada régulo que arregimentasse 10, 20 ou 30 mancebos. E lá vinham eles de tanga para a tropa, aprenderem a ser soldados.

Contava-se mesmo o caso do General Chefe do exército que fora, certo dia, com a esposa, visitar um régulo famoso e importante da zona de António Eanes (hoje Angoche). E no final da visita a esposa do senhor General dirige-se à esposa do régulo:

- A amiga peça alguma coisa que lhe faça falta, que nos arranjamos.

- O que eu queria mesmo era ter aqui ar condicionado. Está sempre tanto calor!

Foi então construída um alinha de cabos eléctricos de alguns quilómetros para levar luz e ar condicionado à palhota do soba daquela aldeia. E como a palhota não tinha condições para ter ar condicionado, foi feita uma casa de alvenaria. E já agora foram instalados postos de luz na praça central….

Parada do quartel.jpg

 Era neste canto que ensaiava os honras fúnebres

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publicado às 12:31

Nameteculía

por António Tavares, em 30.04.17

Namutaqueliua

Os perto de 2 anos que passei em Nampula até nem foram maus de todos. Tinha um grupo de amigos, todos alferes, que fazíamos por passar o tempo o melhor possível. Jogávamos futebol às 5ªs feiras, à noite íamos jantar muitas vezes aos cafés e restaurantes da cidade. Aos fins-de-semana passeávamos.

Para albergar os oficiais superiores que não tinham direito a ter moradia (ou flat = apartamento) por sua conta, o exército comprou um hotel: hotel Portugal. E quando alguém se lembrou que lá para o norte, a comandar um pelotão de infantaria, estava um alferes miliciano com curso de cozinha tirado na Suíça, outro alguém ordenou:

- Ele que venha para Nampula.

E veio. Foi transferido para ser chefe de cozinha do hotel Portugal. Para além dos cozinhados que fazia para os oficiais superiores também fazia os petiscos para nós. Lagosta suada…

Certa noite, acabados de jantar espetadas, fomos passear até à Nameteculía. Um bairro de palhotas de má fama, no caminho para o aeroporto. O nome oficial é Namutequeliua. Nós chamávamos Nameteculía para ser mais fácil. Havia bares para beber cervejas, prostitutas negras, vadiagem. Íamos sempre em grupo para nos protegermos e evitar confusões.

Os soldados iam mais para se divertir e fazer a sua acção psicológica, “psico”, como dizia o Cancioneiro do Niassa (reprodução de memória):

Bem vindo checa

P’ra esta guerra

Que cá te espera

Não estejas triste

Que a guerra é linda

Só fazes cera

Vais ter saudades

De mulheres brancas

Ai que tormentos

Aqui há pretas

Mas tem cuidado

Com seus lamentos

Checa danado

Que vieste cá fazer?

Vieste p’ra me render

Vais lerpar muito

Mas com o aumento

Vais ficar rico

Dá-o às pretas

Pois assim fazes a tua “psico”

O bairro era percorrido constantemente pelos jeeps da polícia militar. Para evitar desacatos e prender os mais atrevidos. Porque eram essencialmente os militares que ocupavam as ruas para se divertir. Depois de várias cervejas havia sempre barulho. Não havia iluminação pública. Apenas as luzes das diversas palhotas e dos bares.

Nós tínhamos acabado de jantar espetadas num dos restaurantes da cidade. Eu, por piada, tinha levado comigo o espeto para recordação. Um arame afiado com cerca de 20 centímetros e uma argola na ponta. Meti o dedo médio na argola e ia girando no ar para descontrair.

Já em pleno bairro de palhotas dei por mim com aquilo na mão e pensei que alguém podia interpretar mal. Em vez de o atirar fora escondi-o ao longo do braço, debaixo da manga. E aconteceu mesmo. Não é que uma negra se abeirou de nós, agarrou-me na mão e detectou o arame. Fugiu aos gritos:

- Tem ferro… tem ferro!

Fugimos todos rapidamente para evitar confusão.

As casas das prostitutas brancas ficavam todas fora da cidade. Embora a prostituição fosse proibida, em África era tolerada. A casa mais conhecida era a da Paula. Ficava a uns 3 ou 4 quilómetros, na picada para a barragem. Uma casa “séria”. Com bar, música e espectáculos (por vezes). Havia mesmo prostitutas da Rodésia e Sul-Africanas. Só falavam inglês. Conta-se mesmo a história de capitães de companhia (milicianos) que iam à Beira ou a Nampula e contratavam 2 ou 3 prostitutas, para irem passar uns dias aos acampamentos militares, lá para o norte, para aviarem quem necessitasse. Ou o caso de um soldado que, chegado a uma destas casas, encontra alguém conhecido e diz:

- Ó tia, está aqui?

Era mesmo a sua tia.

Não havia transportes públicos. Para ir até estas casas tinha que se ir de táxi ou no carro de um amigo. Havia muitos militares que, estando na cidade, levavam o carro de cá ou compravam lá um, usado, para se divertirem.

Havia um capitão miliciano que tinha levado para lá o seu MGB/GT. Um alferes, amigo comum, pede-lho emprestado para ir passar o fim-de-semana à Ilha de Moçambique. Não chegou lá. A estrada era de terra batida, mas larga e com grandes rectas. Numa curva para lá do Monapo, espalhou-se. Lá ficou e o carro teve que ser apanhado peça a peça. Parece que o conta-quilómetros marcava 240.

Usando das facilidades que a tropa oferecia, tirei lá a carta de condução. Seguia no jeep com o meu condutor e já fora da cidade dizia-lhe.

- Para aí. Passas para aqui que agora conduzo eu.

E aprendi assim. Pelas picadas, entre as palhotas. Uma vez o condutor disse-me:

- Ó sr Alferes, olhe que o jeep não passa aí entre essas duas palhotas!

Passar passou, só que arrastou os paus do telhado de colmo que estavam baixos de mais e eu não me apercebi disso. Quando dei por ela só vi um negro deitado numa enxerga, porque o telhado tinha arrastado uma das paredes da palhota.

O Alferes que me fez o exame de condução era meu colega e amigo. Fomos de jeep. Saímos do quartel por uma porta e entrámos pela outra.

- Podes ir!

Já tinha a carta. Mas uma coisa que eu achei que foi bem feita: ter feito todos os testes psicotécnicos e de aptidão, de visão e de audição, que nem eu sabia que se faziam e que era usual fazer a todos os militares que iam tirar a carta de condução. Passei a todos.

De vez em quando pegava no jeep, mesmo aos fins-de-semana e saía por aí fora. Ía com amigos até à barragem, cheguei mesmo ai até Nacala e à Ilha de Moçambique. Corria imensos riscos. Para além de poder ter um acidente, para se sair com uma viatura militar tinha que se ter autorização e plano de viagem. E podia sempre aparecer a Polícia Militar.

Felizmente sempre correu tudo bem.

Bar barragem.jpg

Nas escadas para o bar da barragem de Nampula

De jeep.jpg

Regresso do aeroporto. Bairro da Nameteculía em frente. Os morros sempre presentes.

Na barragem.jpg

Na barragem

Nameteculia.jpg

Bairro da Nameteculía.

Picada para a Ilha.jpg

 Esrtrada de terra para a Ilha de Moçambique, logo após Monapo.

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publicado às 20:52

O galo do carnaval e a matança do porco

por António Tavares, em 29.04.17

O galo do carnaval e a matança do porco

Na escola de Cardigos era usual os alunos da 4ª classe oferecerem, pelo Carnaval, um galo vivo à professora em sinal de agradecimento. Na minha quarta classe coube-me a mim ser o organizador.

O objectivo era percorrer as aldeias, escolher o galo mais vistoso e mais bonito e depois convencer a sua dona a vendê-lo. O que nem sempre era fácil. Descobrimos um lindo na Roda. A senhora compreendeu a nossa situação e lá fez o preço que entendeu.

Competia-me a mim ir recolhendo de cada um o dinheiro que cada um conseguia até ter o valor total.

No dia combinado fomos todos nós buscar o galo. Preso pelas patas e pelas asas, metido dentro de um açafate de verga, todo engalanado, lá o fomos entregar à professora.

Também era na quarta classe que a professora arranjava normalmente um passeio, em género de viagem de finalistas. Nem todos podiam pagar e não iam. A professora insistiu com o meu pai: que eu era bom aluno, que ia continuar a estudar. E lá fui.

De carreira, um dia inteiro até bem de noite. Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré. Foi a minha primeira vez a ver o mar. Na praia, com um copo na mão, tentava a todo o custo enchê-lo de água do mar. Corria para as ondas mas logo que elas se aproximavam eu recuava com medo. Quando ia enterrar o copo na água só apanhava areia. Até que a professora disse:

- Dá cá.

E encheu-me o copo de água. Tinha aprendido que era salgada. Provei e era mesmo.

As carreiras que serviam Cardigos eram as do Claras com sede em Torres Novas. As que chegavam à noite dormiam em Cardigos e partiam de lá às 7 horas da manhã. Outras passavam por ali e iam dormir às Corgas (perto de Proença-a-Nova, porque o motorista era de lá). Nas manhãs húmidas e frias de inverno a carreira por vezes não pegava. O motorista já tinha o cuidado de a deixar numa descida para ele a deixar embalar e pegar em andamento.

Uma vez, ia eu para o seminário de Fátima e o motorista não conseguiu, mesmo descendo toda encosta até para lá do Azinhal (cerca de 4 quilómetros) que ela pegasse. Ali começava a subida. Então mandou toda a gente sair. Aquilo podia explodir. Abriu a capot do motor, abriu o carburador, pôs lá para dentro uma substância qualquer e aquilo pegou mesmo.

A matança do porco no Casalinho era um dia de festa. Era marcado o dia com antecedência para que nesse dia toda a gente pudesse estar disponível. Nós matávamos 2 porcos normalmente.

Uns dias antes começavam os preparativos para que cada família pudesse ter tudo disponível, carquejas secas para o chamuscar, facas de vários tipos, alguidares, tripas secas, etc.

Começava-se cedo no cimo da aldeia. Deitado numa mesa própria o porco era morto com uma facada directa ao coração. Só fazia isso quem sabia. O sangue era aparado para um alguidar.

Punha-se o porco no chão e aquela família ficava a chamuscá-lo. Com uma faca afiada fazia-se-lhe depois a barba bem feita para não ficarem pelos.

Enquanto isso os homens seguiam com a mesa para a família seguinte e assim até ao fundo da aldeia.

Morto o último voltava-se a levar a mesa para o cimo da aldeia. Voltava o porco para cima da mesa. Patas para o ar. Era aberto de alto abaixo. Esventrado. As tripas para um alguidar, as miudezas para outro. Depois de limpo era carregado pelos homens para a “loja”. Nós chamávamos loja à espécie de arrecadação onde se guardava um pouco de tudo. Pendurado pelas patas traseiras, ficava a arrefecer 1 ou 2 dias.

A guerra entre nós era para saber quem comia a primeira febra espetada num pau e grelhada nas brasas de chamuscar o porco.

Antes do almoço as mulheres carregavam as tripas para serem lavadas com muito limão no ribeiro do vergancinho. Viradas e reviradas, esfregadas e bem lavadas. Era para os enchidos. E mesmo assim não chegavam. Tínhamos que comprar tripas secas.

À noite começava-se a cortar as primeiras carnes para os enchidos.

No dia seguinte ou 2 dias depois o porco era desmanchado. Todas as peças separadas. As aparas das carnes iam para os enchidos, separadas consoante os tipos de enchido: morcelas, farinheiras, cacholeiras, chouriços, paios, etc. O resto da carne era salgada na salgadeira para comer todo o ano. As pás das patas da frente eram curtidas e salgadas como se fossem presuntos. Para nós era mesmo presento.

As patas de trás ia o meu pai na carroça trocá-las por mantas de toucinho ao Vale da Urra, já perto de Vila de Rei. Uns 6 ou 7 quilómetros. Cada presunto valia 2 mantas de toucinho. Ficávamos com muito toucinho, gordura que alimentava todas as refeições durante o ano. Mais uma vez eu tinha que ir com ele. Fui várias vezes com ele ao Vale da Urra na carroça.

Ainda hoje Mação é o concelho autodenominado capital do presunto. É neste concelho que é produzida a maioria do presunto que se consome em Portugal. Aminha mãe costumava fazer um conjunto de chouriços pequenos, para dar um a cada um de nós. Era uma ansiedade a espera para que eles ficassem curados.

Depois no início de Janeiro, aos domingos, vinha um senhor a Cardigos com uma camioneta cheia de porcos pequenos para vender. Lá vínhamos nós depois com eles presos com uma corda estrada fora, no domingo à noite.

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publicado às 14:47

Terrorista do daesh

por António Tavares, em 28.04.17

Terrorista do daesh

A Horta do Fouto era uma terra agrícola que ficava na encosta do Vergancinho, passando o Cabril, para o lado da Chaveira. Era terra boa mas soalheira, quer dizer com pouca água. E no verão o poço rapidamente secava. O meu pai entendeu que devia fazê-lo mais fundo. E fez. Mas reparou que a água não nascia no fundo do poço mas na parede lateral do lado da encosta. Pensou fazer uma mina no fundo do poço, no sentido da encosta.

Para fazer a mina precisava de dinamite. Abria um buraco na rocha, metia o explosivo, acendia o rastilho e fugíamos para longe. Mas o limite da propriedade era poucos metros acima. Ele temia ultrapassá-lo e que o dono do restolho da parte de cima descobrisse. E cada vez que fazia rebentamentos fugíamos e esperávamos umas horas. Não fosse a GNR andar por perto, ouvir os rebentamentos e viesse para descobrir se tínhamos ou não licença. Claro que não tínhamos.

Mas de onde vinham os explosivos? Da Sertã. E quem os ia buscar? Eu. Tinha 12 ou 13 anos. O meu pai combinava com o vendedor da Sertã. Eu ia na carreira de Cardigos a S. João do Peso. Aí apanhava outra para a Sertã. Depois regressava pelo mesmo caminho. O meu pai fazia-me o percurso todo mentalmente.

- Chegas lá, perguntas onde fica a casa do Sr X. Vais ao longo do rio, passas a ponte e a casa fica do outro lado do rio, logo em frente. Ele entrega-te 2 sacos e tu dás-lhe este dinheiro. O saco pequeno metes no bolso de dentro do casaco. Nunca o tiras de lá. O saco maior trazes na mão. Depois voltas pelo mesmo caminho, não te demoras porque a carreira de volta é às x horas. Nunca aproximes um saco do outro. Na carreira vais para o banco do fundo. Colocas o saco maior debaixo do banco e tapas com os pés.

O que tinha o saco maior? Barras de dinamite e cordão detonante. O que tinha o saco mais pequeno? Os detonadores. E aí vinha eu, qual terrorista do daesh. Mas cumpri na risca o combinado. Tinha 12/13 anos. Ainda levava umas sandes para a viagem. Porque durava quase o dia todo.

Para lá da Horta do Fouto havia toda a encosta norte do Vergancinho, cheia de matos e pinhais. E lobos. Logo da parte de cima havia um restolho que ia até alto do monte, que raramente era cultivado de trigo ou centeio. Ficava vários anos de pousio. Por isso tinha muita erva. Enquanto andávamos na horta as cabras subiam, monte acima, a pastar. Certo dia começou toda a gente a gritar e as cabras a fugir. Veio monte abaixo um lobo, abocanhou um cabrito pelo pescoço e desapareceu.

Tinha eu uns 4 ou 5 anos e a minha mãe punha a cesta do Mário (ainda bebé) debaixo da cerejeira e manda-me guardá-la.

- Daqui vês a horta e as cabras. Tomas conta do teu irmão. Vai olhando e vê se vês algum lobo que venha para as cabras ou para o teu irmão.

Naquele dia não vi. Devia estar a comer cerejas com pão sentado num dos ramos da cerejeira. Era o que mais gostava de fazer.

Quando ia guardar as cabras sozinho gostava muito de ir para esta horta. Havia cerejas e figos, quando era o tempo deles. Havia marmelos e maçãs. E havia lameiros onde as cabras ostavam de pastar.

Certo dia uma estava prenha. Quando se começou afazer escuro juntei-as todas mas essa não apareceu. Fui-me embora com as outras. À noite o meu pai deu pela falta pela.

- Não viste onde se meteu? Está-se mesmo a ver que se escondeu para parir e agora, por lá perdida, vai ser pasto dos lobos. Vamos lá!

Fomos todos de noite com candeias procurá-la. Lá estava na Horta do Fouto mas muito escondida no meio no mato, com o cabrito ao lado. O meu pai trouxe o cabrito às costas.

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publicado às 20:52

A PIDE em Mafra, a neve na Serra das Meadas e a filha do chefe da estação dos comboios de Lamego

por António Tavares, em 28.04.17

A PIDE em Mafra, a neve na Serra das Meadas e a filha do chefe da estação dos comboios de Lamego

Após a morte dos cadetes a recruta passou a desenrolar-se de forma menos custosa. Exercícios mais leves uns, anulados outros. Menos castigos. Deixamos de ter medo de refilar se tal se mostrasse necessário. A EPI (Escola Prática de Infantaria) estava cheia de pides. Vigiavam qualquer movimento suspeito.

Já no final de Junho, perto do fim da recruta, foram-nos dados diversos temas para cada um de nós elaborar um texto sobre um deles à nossa escolha. Não me lembro de nenhum especial, mas era tipo: a pátria e a família, as províncias ultramarinas, os militares na promoção da sociedade… Claro que era uma armadilha!

Lembro-me de escrever sobre nenhum deles. Sobre o que me veio à cabeça, ainda no rescaldo da morte dos colegas cadetes. Chamei nomes aos militares chicos, que só queriam poder, que só sabiam explorar a miséria humana, que só queriam mandar, etc.

Onde eu me fui meter. No dia seguinte veio ter comigo o alferes e disse-me:

- Sabes o que fizeste? Vou ser teu amigo. Vou rasgar a tua dissertação. Finjo que não a li. Escreves outra com calma, sem dizer disparates e eu substituo-a.

- Não, está escrito, está escrito!

- Estás por tua conta. Ainda vais a tempo. Se não quiseres vou levar isto ao nosso comandante de companhia (Capitão Ferro), porque isto ultrapassa as minhas competências de punição.

O Capitão Ferro disse-me mais ou menos as mesmas coisas. Que eu tinha que ser castigado. Que passava já a soldado raso e que arruinava o resto da minha vida. Mas que também ele não podia decidir. Ia enviar o meu processo para o comandante da unidade.

Uns dias depois sou convocado para me apresentar ao Capitão Lisboa. Soube depois que era o oficial de ligação com a PIDE. As perguntas que me fez eram do género:

- És comunista?

- Não sei o que isso é.

- O teu pai ou alguns dos teus irmãos tem ligação com o Partido Comunista?

- Não sei.

- Estás tramado!

A conversa não passou muito destes temas.

Passados mais uns dias, estava eu a regressar de mais uma manhã de instrução, todo sujo e fui intimado a apresentar-me na sala oval ao comandante do quartel. Nem me deixaram lavar nem almoçar.

Nunca ali tinha entrado. Nem sabia que o quartel tinha uma sala daquelas. Estava até com receio de sujar os mármores do chão com as botas que trazia calçadas. A sala oval era a antiga sala do capítulo dos fardes. Era agora o gabinete do comandante. Uma sala enorme, mármores de várias cores no chão fazendo floreados. Mármores nas paredes, tecto em abóbada, lustres…

Atravessei a sala em direcção à grande mesa de carvalho que, junto de uma parede, servia de secretária. Fiz continência e fiquei aprumado de pé em frente àquela personagem que não conhecia. Era o segundo comandante, coronel Vaz Antunes. Sem lhe dizer nada apenas me disse:

- Estás com sorte. O nosso comandante está para Lisboa. Coube-me a mim receber-te. Eu percebo-te. Tenho filhos da tua idade. Também andam lá pelas faculdades a ouvir essas ideias malucas. Mas olha: vou ser teu amigo. Guardo comigo o que escreveste. Estás aqui indicado para seguir para Lamego para as Operações Especiais, mas não vais. Vais ficar aqui comigo a tirar a especialidade de atirador. Mas fica sabendo: se nos próximos 3 meses meteres o pé na argola, apanhas pelas 2. Podes ir.

Estive quase a ajoelhar-me e beijar-lhe os pés. Para Lamego era para onde ninguém queria ir. Era longe e a instrução era altamente rigorosa. A mania que eu tinha de ser voluntarioso, o primeiro a chegar e a ser o melhor nas provas físicas, deu-me notas altas na vertente de aplicação militar. Se não fosse aquela redacção lá teria ido para a Lamego.

Juramos bandeira e nos três meses seguintes (Julho a Setembro) fiquei em Mafra. Acabada a especialidade fui promovido a Aspirante. Era o primeiro posto de Oficial Miliciano do Exército.

Fomos de férias. E recebi logo instruções para me apresentar no GACA 2 de Torres Novas no início de Outubro. Ia formar companhia para seguir para Moçambique. Enquanto iam chegando os soldados para nós formamos recebi um passaporte para me apresentar nos primeiros dias de Novembro em Lamego. Afinal sempre ia parar a Lamego. Só que agora já era oficial e era apenas por um mês. Fui fazer um tirocínio de um mês em operações especiais e manuseamento de explosivos.

E logo em Dezembro! Lembro-me de ir às 7 da manhã fazer aplicação militar para o campo de futebol com meio metro de neve e nós de calção de ginástica e de T Shirt.

Certa noite fomos fazer um percurso nocturno pela Serra das Meadas. Nevava. Visibilidade zero. Levava 3 pares de meias, 2 pares de calças, 2 camisas, e gorros, sei lá que mais. Mas ia gelado. Em fila indiana íamos seguindo os passos uns dos outros. A dada altura paramos. Sentei-me numa pedra na beira do caminho e adormeci. Sem darem por mim seguiram caminho. Mais adiante diz o que ia na frente:

- Contagem.

E começa: 1, o segundo diz: 2 e assim sucessivamente. No final:

- Falta 1. Vamos regressar pelo mesmo caminho…

Quando chegaram ao pé de mim estava tão enregelado que não me consegui por de pé. Tive que ser ajudado.

Ao menos em Lamego havia umas tascas, mesmo ao lado da messe de oficiais, onde se comiam boas sandes de presunto.

Como não podia ir até Lisboa aos fins-de semana, fiquei por ali o tempo todo. Jogávamos ao King e passeava.

Lamego é uma cidade antiga, já com alguma dimensão e poder sobre as terras vizinhas. Sede de bispado com muita influência. Foi com naturalidade que foi autorizada a construção do caminho-de-ferro da Régua para Lamego. Iniciada nos anos de 20 do século passado, acabou por morrer com a crise dos anos 30. Fizeram-se pontes e viadutos. As pontes têm uma dimensão grandiosa e bastante beleza. A ponte sobre o Douro foi convertida para o percurso automóvel nos anos 40. Ao lado desta a ponte metálica da EN2. Foi abandonada muitos anos. Recentemente foi reconvertida para ponte pedonal. A ponte sobre o rio Varosa é utilizada pelos militares de lamego para exercícios de rapel. Em linha recta não são mais que 5 ou 6 quilómetros. Pela via aberta deviam ser mais de 20, tantas eram as curvas de ir e vir pelas encostas, para superior o desnível entre as duas povoações (hoje cidades).

Um domingo fui sozinho a pé até ao Peso da Régua, cerca de 8 quilómetros, pela EN2. Na volta subi pelo percurso construído para a instalar a via-férrea. Era mais longo mas mais interessante, atravessava pontes, hortas e vinhas. Nunca chegou a levar os carris.

O maior desaforo que ainda hoje se pode lançar a um habitante de Lamego é chegar à cidade e perguntar onde mora a filha do chefe da estação. Tiverem estação mas nunca o comboio nem chefe da estação.

Passado o mês de tirocínio recebo guia de marcha para me apresentar no Quartel de Torres Novas. Fora mobilizado para Moçambique e ia formar companhia no GACA 2 (Grupo de Artilharia conta Aeronaves).

Saí de Lamego dia 17 de Dezembro de 1971. Fazia 21 anos. O passaporte dava para bilhete de primeira classe (porque era oficial) até Torres Novas. Era sexta-feira e tinha que estar em Torres-Novas na segunda-feira. Consegui na CP trocar a primeira pela segunda classe e arranjei bilhete até Queluz. Ainda consegui vir a casa passar o domingo.

Na segunda-feira seguinte recomecei a minha vida militar em Torres novas.

Messe de Lamego.jpg

A messe de oficiais de Lamego, numa foto muito antiga encontrada na net.

Pontes de Lamego.jpg

 As pontes da linha de caminho-de-ferro entre Peso da Régua e Lamego, que nunca chegou a levar carris. Esta última é usada pelos militares de Lamego para exercícios de rapel.

 

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publicado às 12:19

4 cadetes mortos em Mafra

por António Tavares, em 28.04.17

4 cadetes mortos em Mafra

Apresentei-me em Mafra num dos primeiros dias de Abril de 1971. Nunca tinha visto edifício tão imponente. Fui integrado numa companhia de instrução de cadetes, futuros oficiais milicianos. Cerca de 120 cadetes, repartidos por 4 pelotões. E havia mais 4 companhias. Ao todo eramos cerca de 500 instruendos. Comandante de Companhia: Capitão Ferro. Do quadro. Durão!. Os comandantes dos pelotões eram Alferes do quadro, saídos da formação da Academia Militar uns meses antes. Era a segunda incorporação do ano. Havia 4 ao longo do ano: Janeiro, Abril, Julho e Outubro.

Estranhei ser um dos mais novos. Porque a maioria havia pedido adiamento para tirar cursos superiores: havia advogados, médicos, contabilistas, etc. Havia mesmo cadetes que usavam lentes tão grossas que quando os óculos lhe caíam durante a instrução, paravam. Não viam nada. Mas naquele tempo ninguém se safava da tropa.

Pensei para mim que talvez fosse melhor ser esforçado e cumprir o melhor possível. Em qualquer prova era sempre o primeiro. Apenas bloqueei no salto para o galho. Ao princípio conseguia. A dada altura bloqueei mesmo. Era o salto duma plataforma alta para um tronco colocado de pé em frente e muito perto. Quase que se tocava com a mão no galho. Mas aquele pequeno salto no vazio aterrorizava muita gente. Nunca mais fui capaz.

De especial lembro-me das longas caminhadas até à serra de Montejunto, até à Foz do Lizandro, até Torres Vedras. Algumas de noite. Por vezes os agricultores vinham reclamar que tinham destruído uma cultura de morangos ou um pomar de peras. Normalmente o quartel pagava para evitar quezílias.

Certa vez fomos de camião e deixados perto da Cadaval. Tínhamos um percurso de 3 dias traçado no mapa até um certo campo de futebol onde estariam os mesmos camiões para nos levar de volta. Circulava pela mesma zona um oficial de jeep que teríamos que evitar a todo o custo. Em teoria era o inimigo a quem não nos podíamos mostrar. Se ele nos visse disparava e nós teríamos que ripostar.

Na primeira noite ainda dormimos no campo. Na segunda noite passamos por um palheiro e o alferes disse:

- Todos lá para dentro. Vamos dormir aqui na palha e se ouvirem barulhos de noite ninguém responde.

O jeep passou diversas vezes à frente do palheiro. Fez vários disparos mas ninguém reagiu. Nessa noite dormimos num “hotel”.

Numaquinta-feira (penso que entre Maio e Junho de 1971) estava previsto treino de tiro. Estava a chover e não dava para isso. O capitão ordenou aos alferes para levarem os cadetes a fazer aplicação militar na tapada. Aí vamos nós. Botas de lona a correr, pagar 10, rebolar e dar cambalhotas à chuva.

- Em fila indiana… toca a passar para o lado de lá!

O que ia na frente desapareceu nas águas. O segundo também. O terceiro e o quarto foram em seu auxílio e também desapareceram. O alferes atirou-se à água e só não ficou lá porque o agarrámos. Ficaram 4 cadetes enterrados no lodo da lagoa que fica do lado direito da picada que segue do portão da tapada para o paiol.

Tenho pesquisado na net informação sobre este incidente. Já está muito esquecido. Na altura foi bastante camuflado. Há quem diga que foram 2, outros dizem que foram 3. Até há quem diga que havia uma corda.

O que aconteceu foi que o alferes tinha atravessado a pequena lagoa nos exercícios finais da sua formação na Academia Militar. E na altura como não chovia o nível da água era baixo. Desta vez chovia a potes e a lagoa transbordava. Só foram retirados no domingo, depois de os bombeiros esvaziarem a lagoa. Estavam enterrados debaixo de mais de 1 metro de lodo.

Nesse dia fez-se levantamento de rancho. Ninguém almoçou e ninguém jantou. Não saímos das casernas. Todos a pensar numa resposta adequada. Foi decidido que no dia seguinte (sexta-feira) formássemos na parada, todos fardados e prontos para sair, com a boina metida no passador da casaca, em sinal de luto.

Os dirigentes tiveram o bom senso de abrir as portas e deixar o pessoal sair para o de fim-de-semana. Sem passaportes nem nada. Pensaram que segunda-feira regressariam mais calmos.

E é que regressaram. Pelo menos a maioria regressou. Alguns quantos desertaram. Houve até quem levasse com eles a G3. E até quem passasse a enviá-la, peça a peça, de Paris para o quartel de Mafra.

Para além deste incidente lembro-me do soldado a quem uma bala tracejante da metralhadora acoplada ao canhão-sem-recuo lhe entrou pelo sovaco e saiu pela face. É claro que morreu. Tinha-mos ido fazer disparos para a carreira de tiro. A metralhadora serve para disparar previamente uma bala tracejante que vai indicar se o canhão está bem apontado, caso ela acerte no alvo. Ninguém se lembrou de verificar se tinha ficado alguma bala na câmara. E enquanto um soldado limpava com o escovilhão o cano do canhão, outro carregou, sem querer, no gatilho da metralhadora.

Há ainda o caso do cadete que ficou cego dum olho. Ia-mos em marcha em duas filas de arma aperreada, naqueles terrenos sem vegetação ao lado da estrada entre Mafra e a Carapinheira. A fila de um lado apontava as G3 para um lado e a outra fila apontava-as para o outro. Lá muito ao fundo num local mais elevado o alferes ia fazendo tiro de bala real para o espaço entre as e filas. Uma das balas estilhaça um seixo e um dos estilhaços esvazia-lhe um olho.

A última semana da recruta (finais de Junho) foi passada num acampamento num eucaliptal, para lá de Torres Vedras. Depois viemos a pé até Mafra. Todos sujos e rotos, no último dia só queríamos chegar ao quartel para tomarmos banho. Tivemos que esperar largas horas na zona da Paz, porque estava a chegar uma alta patente militar brasileira que vinha para nos ver desfilar na parada em frente ao quartel. Todos sujos e rotos…

E só depois do desfie é que pudemos tomar banho e ir comer alguma coisa.

Cadete em Mafra.jpg

 Eu cadete em Mafra

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publicado às 07:53

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

por António Tavares, em 26.04.17

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

Mantive-me na pensão da Rua de Stª Marta até à ida para a tropa. Entretanto o Manel também tinha vindo para Lisboa tirar um curso de Offset. Como tínhamos familiares no Ministério da Educação ele conseguiu depois lá um lugar na reprografia. A Lena e a Lúcia também tinham vindo para Lisboa para empregadas internas na casa de uma senhora da sociedade, irmã do Sr Visconde. Tinha sido o primo Manel de Moura que dera um toque ao Sr Visconde. Estiveram lá pouco tempo. A Lúcia foi para uma casa de freiras e a Lena acabou por ir trabalhar também para o Ministério da Educação e alugou uma parte de casa no Bairro Alto.

Estava na tropa em Mafra e vinha a Lisboa aos fins-de-semana. Costumava ficar com ela.

Nessa altura tinha um amigo da Roda, mais velho, que também fora seminarista, o Tonito. Ele tinha uma amiga que conhecera dos seus tempos de tropa na Amadora. Essa amiga tinha mais 2 irmãs. Eram oriundas de Elvas e moravam com os pais na Amadora. Parece que ainda eram conhecidas daquele que cantava “Ó Elvas, Ó Elvas, Badajoz à vista...". Essas raparigas eram interessantes porque a mãe era chinesa de Macau. O pai delas fora lá sargento do exército. E aquela mistura de português e chinês dei-lhes um traço característico.

Sempre que vinha a Lisboa, eu o Tonito tínhamos companhia para o fim-de-semana. Ele com a mais velha e eu com a do meio. Íamos à praia a Carcavelos e ao Estoril, percorríamos os cafés da Reboleira e Amadora, íamos dançar e beber uns copos para uma boite que abria as portas aos domingos à tarde para a malta mais nova e que ficava na Rua Filipa de Vilhena. O Tonito chegou a namorar com a mais velha. Acabou por casar com uma rapariga lá da terra. Eu tentei alguma aproximação à irmã do meio. Foi o meu segundo amor platónico. Ainda hei-de falar do primeiro. Mas sempre que lhe puxava pela conversa ela dizia que tinha um namorado que era piloto da Força Aérea. Nunca o vi. O certo é que passávamos muitos fins-de-semana juntos. Mas fiquei-me apenas pelo amor platónico pela minha chinesinha Nônô…

Quando fui para Moçambique levei o seu contacto. Ainda escrevemos algumas cartas. Nunca existiu empatia e acabou.

Quando regressei da guerra e fui estudar para o ISE estava ela a acabar o curso. Apenas nos cumprimentávamos. Depois encontrava-a regularmente na Rua da Prata. Ela vinha de comboio da Amadora e apanhava o eléctrico para o Arco do Cego. Trabalhava na Casa da Moeda.

Como eu e alguns dos meus irmãos já estávamos em Lisboa foi por sugestão do Tonito que começamos a procurar casa para alugar para todos. Um dia fui com ele a Queluz ver uma casa disponível. Levei lá a Lena e ficamos com ela. Tinha 5 assoalhadas. 2 quartos para os rapazes e 2 para as raparigas.

Atrás de nós vieram os outros todos. Até que ficaram apenas os pais em Cardigos. Eu estava na tropa. E eles lá foram arranjando emprego, a maioria deles no Ministério da Educação. O certo é que a vinda para Lisboa abriu os olhos a eles todos. A maioria acabou por estudar à noite, acabaram por tirar cursos superiores e arranjar empregos melhores.

O Mário também deu as suas voltas na vida. Foi tirar a escola primária a Canha, perto de Setúbal, a casa de familiares da parte da minha mãe. Quando vinha a casa nas férias do Natal trazia de lá laranjas. Eram as maiores laranjas que já vira. Enormes. Tão grandes eram que a minha mãe descascava-as e dava a cada um apenas um ou 2 gomos. Mesmo assim havia guerra pelas cascas. Para comer a parte interior da casca. Estas laranjas serviam para fazer óculos: eu cortava 2 lascas da casca em lados opostos. Depois cortava uma tira da casca entre as duas lascas sem a separar. Por fim tinha que meter a faca por dentro da casca e separar toda a casca do miolo. Enfiava a tira debaixo do chapéu e afastava os dois buracos para os lados, ficando um em cada olho. Era assim que eu brincava.

Depois o Mário esteve no seminário de Poiares. Tentou e não se deu bem. Acabou por ir tirar o liceu a Castelo Branco. Usava a barba grande e os cabelos enormes. Cada vez que vinha ao Casalinho havia sempre discussão com o pai. Quase chegavam por vezes a vias de facto. Ele não queria aquelas guedelhas. Ele veio depois para Lisboa tirar Medicina. Teve ligações esquerdistas. Constou-me, depois de eu vir de Moçambique, que uns dias antes do 25 de Abril alguém ligado à PIDE batera à porta da casa de Queluz a perguntar por ele.

Depois do 25 de Abril as suas ligações esquerdistas levaram-no a participar em actividades de apoio local em locais mais desprotegidos. Num bairro de barracas da Amadora participou na construção de um espaço para apoio social e escolar.

A casa de Queluz serviu para todos nós. Até para receber o pai depois de adoecer e a Mãe quando ficou viúva. Foi lá que faleceu o pai e mais tarde a mãe.

Foi para lá que fui morar quando vim de Moçambique. Foi de lá que saí para ir casar. Lá faleceu o João, vítima de um ataque epiléptico nocturno. De lá saíram os meus irmãos todos menos o Abílio e o Alberto. Quando o senhorio vendeu o andar, o Abílio comprou a parte dele e a parte do Alberto. O Alberto foi depois comprar uma para ele para os lados de Sintra.

A dada altura a minha mãe chamou os filhos todos. O Manel já tinha falecido. Veio a viúva. Havia feito lotes dos terrenos todos como ela entendeu. Escreveu os nomes em papelinhos e enrolou-os. A começar pelos mais velhos cada um tirou um papel. Para mim ficou o Covão do Rocinho e parte do Cabril, entre o estradão e o lado direito da barragem. A casa ficava para todos. Assim evitou a guerra de partilhas e faleceu em paz.

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publicado às 12:11

A santa roubada e que partiu um braço

por António Tavares, em 25.04.17

A santa roubada e que partiu um braço

Cardigos é uma vila muito antiga. Anterior à nacionalidade. Foi terra de templários. Teve foral de D. Manuel. Foi sede de comarca no tempo dos Filipes.

Nos anos de 1950 tinha no largo principal um chafariz, o pelourinho, um poço, mas já não tinha o velho eucalipto. Foi cortado e queimado na praça na fogueira de Natal. Porque com ele ali não havia espaço para se fazer a queima do madeiro. Passou a fazer-se todos os anos a fogueira de Natal que tinha que arder até ao ano novo.

O fontenário era a único ponto público de abastecimento de água, até esta ser canalizada para as casas, após construção da barragem do vergancinho. Parte dos terrenos onde foi construída esta barragem era dos meus pais. Com as partilhas coube-me a mim a faixa de terreno entre o estradão que sobre do lado direito e o lençol de água.

O pelourinho ainda lá está. O Fontanário também, mas perdeu uma das torneiras e a cercadura de mármore em volta.

Cardigos tinha uma velha igreja no lugar onde hoje está a actual. Essa velha igreja ardeu em tempos muito antigos. Ainda me lembro, nos anos 50, das suas ruinas queimadas, envoltas em silvas e heras. Nós subíamos por cima das paredes, para ver os restos queimados do altar. No início do século XX o povo juntou-se para angariar dinheiro para construir uma nova.

Foi escolhido o melhor local, foi feito um projecto em planta cruciforme e foi iniciada a construção. Esta igreja era o “ai Jesus” do povo, porque foi feita pelo povo. As pessoas vinham à missa (não sei onde era ministrada) ao domingo e cada um trazia o que podia oferecer para a construção: uma telha, um tijolo, 2 tábuas, etc. E foi o povo com as suas mãos que a construiu. Dimensões grandiosas. Nunca chegou a ser bem acabada. A torre era enorme, mas internamente não estava sequer rebocada. Devia ter levado 4 sinos, mas apenas se conseguiu dinheiro para um. Bem grande e valioso.

O Manel chegou a ser sacristão. Mais tarde coube-me a mim, nas férias de verão, abrir a igreja muito cedo e tocar o sino ao nascer do sol.

Mas como a construção era de cariz popular e não sofreu obras de manutenção, no início dos anos 70 já tinha acentuados sinais de degradação. O pároco na altura meteu mãos à obra para a construção da actual, estilo moderno, no lugar da que antigamente tinha ardido. O povo não quis. Queria obras na SUA igreja.

O padre levou a dele avante e começaram as obras. Gerou-se um movimento popular que na altura chegou a ter alguma expressão. Vendeu o sino de bronze para custear as obras e quando vieram para o buscar a população fechou o padre na igreja para o linchar. Foi salvo pela GNR. Mesmo assim, numa noite, alguém subiu à torre e empurrou o sino para a rua. Partiu-se todo. Mas como o que importava era o valor do bronze. Foi levado. Nunca mais se ouviu o sino grande de Cardigos. Passou a ouvir-se a “sineta” da moderna igreja, comandada electronicamente.

A indignação atingiu tais proporções que chegaram a ir de comboio de Lisboa muitos naturais de Cardigos para ajudarem nas revoltas locais. Parece que o padre comandou mesmo uma contra-revolta que fazia esperas ao comboio e atiravam com pedras. Foram mesmo publicados panfletos em verso para tentar desmascarar o padre.

Das pedradas ao comboio

Lá perto do Entroncamento…

São os 2 únicos versos de que me lembro. Porque entretanto fui para a tropa e para Moçambique, soube que em 1972 a nova igreja foi mesmo inaugurada com pompa e circunstância pelas autoridades civis e militares…

A velha levou entretanto algumas obras, é gerida pela Casa de Misericórdia como centro de dia e centro social. Mas ninguém lhe tira o seu orgulho. Que as gerações vindouras lhe saibam manter a dignidade altaneira!

Na minha quarta classe (1960) lembro-me de o povo de Cardigos se juntar um dia no largo principal para receber com flores e foguetes um herói que acabara de cumprir 2 anos de prisão em Mação e que chegava na carreira das 2 horas. A professora fechou a escola e fomos todos para a praça esperá-lo.

É que existia naquele tempo uma humilde capela nos limites das freguesias de Amêndoa e de Cardigos, mesmo junto da estrada nacional. Cada freguesia reclamava a capela como sua. E o povo da Amêndoa, para que a capela passasse a ser de vez sua pertença, destruiu-a e reconstruiu-a uma dezena de metros mais adiante.

O povo de Cardigos não se ficou. Arranjou um herói que se dispusesse a ir roubar a santa e coloca-la no lugar da antiga ermida. O objectivo era que de manhã o povo a visse e acreditasse que fora um milagre. Que a santa queria a capela no antigo lugar.

Acontece que o pobre homem para ter essa coragem teve que beber uns copitos. E como já ia meio toldado deixou as pegadas em cima do altar e deixou cair a santa. Partiu-lhe um braço. Aí, pensou ele: ninguém vai acreditar num milagre em que a santa parte um braço pelo caminho. Solução: entrou pelo mato dentro, acabou de escavacar a santa e enterrou-a no meio das estevas.

Veio a GNR, ele foi descoberto e apanhou 2 anos de choça. E a capela já está em terrenos da Amêndoa. Os de Cardigos colocaram então apenas um cruzeiro de ferro (que ainda lá está) no lugar da antiga ermida.

Esta rivalidade entre as duas freguesias sempre existiu. Nas festas de Cardigos quando se ouvia dizer “olha aquele é da Amêndoa” chovia bordoada que fervia. Nunca entravam nos bailaricos.

A festa principal de Cardigos é dia de N. Srª da Assunção: 15 de Agosto. Nesse dia instalava-se um motor gerador fora da vila, instalava-se luz eléctrica nas principais ruas, havia coreto, música, fanfarra, as ruas atapetadas com murta, havia procissão e uma coisa que nunca mais vi: fogo preso. No final da festa havia foguetes e lançamento do balão com uma lanterna acesa lá dentro.

Nesse dia de festa tínhamos por hábito comprar a maior melancia que houvesse no mercado e um garrafão de vinho, ia-mos comê-la para debaixo das oliveiras e dormir a sesta na hora de maior calor.

O balão subia, subia até quase desaparecer no céu. E muitas vezes ao cair gerava incêndios. O lançamento destes balões acabou por ser proibido. E lá pela uma hora da manhã o meu pai pedia a um dos motoristas da serração para nos levar ao Casalinho, na caixa de carga da camioneta.

Mas o que mais me lembro é do fogo preso: figuras animadas que se mexiam com o arder dos rastilhos de pólvora. O rastilho ia ardendo e passava o movimento de uma figura para outra: ciclistas, rodas, palhaços, etc.

Mostro a seguir algumas imagens que retirei do site da Junta de Freguesia de Cardigos. Espero que não levam a mal.

Cardigos 1.jpg

O poço no centro da praça e o velho eucalipto.

Na rua à esquerda, lá muito ao fundo a igreja (com a sua torre) que o povo construiu.

pelourinho de Cardigos.jpg

O pelourinho. Aqui ainda visíveis os ferros para pendurar os criminosos.

Igeja de Cardigos.jpg

A velha igreja que o povo construiu. Era deste lado que estava o sino grande

Igeja de Cardigos 1.jpg

A nova igreja do padre, no lugar da primitiva que ardeu

Postal de Cardigos 1.jpg

Postal de Cardigos.jpg

Postais de Cardigos (anos 70) que a minha mãe me mandou

O velho chafariz com a cercadura de mármore já perdida.

 

 

 

 

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publicado às 18:20


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