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Exploração e roubo

por António Tavares, em 17.04.17

Exploração e roubo

A minha chegada a Nampula coincidiu ainda com algum rescaldo da célebre operação Nó Górdio. Todo o planalto dos Macondes em Cabo Delgado fora varrido a napalm, um explosivo que já havia sido banido pelas convenções internacionais. Contava-se entre nós que no briefing final os generais apenas lamentavam o material perdido. Porque os homens… a gente pede e eles mandam mais…

Existia em Nampula o BMM Batalhão de Manutenção de Material. Alguns hectares de ferro velho, camiões e unimogues estampados e minados. Todas as viaturas acidentadas, em guerra ou não vinham aqui parar. Mesmo as civis abrangidas pelo seguro de estar ao serviço do exército. Estavam para reparar se tal fosse possível, ou para tirar peças para outras.

Trabalhavam aqui muitos militares, a maioria mecânicos. E também muitos civis, incluindo negros. Estes eram admitidos a ganhar 4 contos de réis. Mas o capitão que tratava dos contratos quando os recebia dizia-lhes:

- Tu vens para ganhar 4 contos. Mas de início, como ainda não tens experiência, recebes só 2 contos. Depois, com o tempo, se fores aprendendo bem e te comportares bem, ganhas experiência a passas a receber mais.

E os coitados dos negros assinavam ou punham o dedo em recibos de 4 contos e só levavam 2.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

E o senhor Brigadeiro

Vive muito consolado

Até comprou uma balança

Para pesar o dinheiro

Que rouba ao pobre soldado

Quando será Deus do Céu

Que um dia haverá verba

Para a gente comer pão

E os chicos erva erva

Para a gente comer pão

E os chicos merda merda

(reprodução de memória)

Todos os oficiais superiores residiam com as famílias em moradias que ficavam mesmo ao lado da messe, em frente ao quartel-general. Assumiam a moradia como sendo sua. Sempre que um deles se vinha embora embrulhava loiças, candeeiros e até carpetes e cortinados. Quando alguém encarregue de conferir, à posteriori, o material à carga fazia o relatório das faltas. E vinha o despacho superior:

- Abata-se por estar incapaz.

- Ao sr alferes Tavares para proceder à destruição.

E lá fazia eu um auto: no dia tal às tantas horas, na minha presença foram destruídos estes e estes bens por se encontrarem na situação de incapazes para o serviço.

O quartel-general havia sido transferido de Lourenço Marques para Nampula pouco depois do início da guerra, alguns anos antes de eu chegar a Nampula. No porto de Nacala um tal caixote caiu ao mar e nunca foi resgatado. O material nele contido foi dado com o perdido.

Passados aqueles anos todos, sempre que se dava por falta de algum artefacto de que se desconhecia o destino, alguém dizia: vinha no caixote que caiu ao mar. E alguém escrevia: proceda-se ao abate…

O conjunto João Paulo foi convidado para fazer uma tournée pelos aquartelamentos militares de Moçambique. A sua exigência (além do pagamento): ter disponíveis à chegada os instrumentos musicais cuja lista entregaram. Incluía bateria, guitarras eléctricas, teclados, etc. Acabaram a tournée e vieram embora. Quando alguém se apercebeu: cadê os instrumentos? Tinham sido encaixotados e embarcados para Lisboa.

Despacho: proceda-se ao abate por incapacidade…

Mesmo nos meios civis havia verdadeira exploração da condição humana. Alguns machambeiros, mesmo familiares, empregavam negros nas suas explorações a quem pagavam um ordenado mas em géneros. Podiam levantar na loja da cidade o arroz, o óleo, os panos e tudo aquilo que precisassem. Eles não tinham condições de verificar se o que levavam era o que era registado e ao valor correto. Ao dia 10 ou 15 já ouviam: acabou, o teu ordenado acabou.

Era assim a loja na cidade de um patrício que fornecia o exército com víveres e frescos. Tinha no pátio em frente um Simca 1100 a cair de podre. Os pneus já estavam todos sem ar. Tinha comprado um mercedes e nunca mais pegara no Simca. Eu tinha tirado a carta de condução e tive a ousadia de lho pedir emprestado para dar umas voltas. Nunca. Sempre recusou.

No quintal das traseiras da loja amontoavam-se cachos de bananas algumas já podres. No quarteirão de baixo ficava o hospital civil onde o Abílio havia sido internado após um acidente de mota. Ele nunca o foi visitar. Eu pedi-lhe umas bananas para levar ao Abílio:

- Leva destas que são mais baratas porque já estão um pouco maduras. São xx escudos!

Em 1973 foi construído o edifício do cinema militar. Mesmo ao lado do ringue onde jogávamos futebol de cinco às quintas-feiras. A plateia era para os soldados: pagavam 12$50. O balcão era para os Sargentos: pagavam 5$00. O balcão superior era para os oficiais: tinham entrada privativa e não pagavam nada.

Também tive algumas dificuldades com alguns negros que trabalhavam na oficina. Na altura dos cajueiros ninguém os fazia vir trabalhar. Apanhavam os cajus, esmagavam as frutas para uma bacia e uns dias depois aquilo fermentava. Era a sua cerveja. Bebiam e passavam os dias deitados bêbados debaixo dos enormes cajueiros. E havia por lá muitos.

Hospital de Nampula.jpg

Hospital civil de Nmapula ao fundo. à esquerda os prédios onde o nosso patrício tinha a loja.

Rua de Nampula.jpg

 Recanto típico da arquitetura colonial de Nampula. À esquerda um cajueiro. Ao centro papaias.

Cinama militar.jpg

 Cinema militar de Nampula

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publicado às 11:59

Secção de viaturas do QG

por António Tavares, em 16.03.17

Secção viaturas QG

Depois de receber oficialmente ordens para assumir o comando da Secção de Viaturas da CCS/QG/RMM lá fui eu, com o alferes que ia substituir, assumir o meu novo posto de trabalho durante mais de um ano e meio.

Sentado na secretária ia recebendo instruções. Eram oitenta e tal jeeps, trinta e tal volkswagens, mais de dez mercedes, alguns camiões berliets e mercedes, mais de 100 condutores, uns quinze mecânicos, uma secção de peças, um armazém com todos os acessórios à carga de cada uma destas viaturas, uma oficina mecânica completa, uma ferramentaria, eu sei lá que mais.

Em 2 dias conferi tudo, assinei o auto de posse do cargo e aí estava eu com responsabilidades que nem eu imaginava.

A primeira ação que tomei foi chamar o sargento mecânico.

- Senhor sargento, a guerra é sua, não é minha, você é que é chico (militar de carreira), eu não quero saber disto para nada. Não me arranje é problemas, porque quando chegar a altura quero-me ir embora descansado. Você ponha e disponha. Eu apenas quero mandar no pessoal. Castigos, promoções, mudanças, etc. isso é comigo. Do resto não quero saber.

- Ainda bem que você me diz isso, meu alferes. Sabe, nós às vezes fazemos aqui umas coisinhas…

- Não quero saber.

Foi um resto de comissão impecável. O sargento era mecânico de formação, tomava conta da oficina, das peças e da ferramentaria. Eu tomava conta do pessoal e da atribuição de viaturas aos diversos serviços.

Para mim reservei o melhor dos jeeps e o condutor mais fiel. Entre o apartamento onde morava, a messe de oficiais onde tomava o pequeno-almoço, e o meu local de trabalho, se fosse a pé não demorava mais de 10 minutos. Mas tinha o meu jeep e o condutor de serviço para me conduzir. Era um senhor.

O meu chofer era filho de machambeiros locais com produções agrícolas importantes na zona de Muecate, a cerca de 100 quilómetros de Nampula e fornecedores do exército. Sempre o protegi e nunca permiti que ele fosse transferido para zonas perigosas. Para me compensar trouxe-me uma vez um cacho de bananas tão grande que foram precisos vários rapazes para o levar para o primeiro andar. Penduramos no teto, envolto em jornais. Houve bananas para todos durante muito tempo.

O sargento comprava por vezes carros estampados no ferro velho, sobretudo volkswagens por serem de mecânica simples. Num canto da oficina punha os mecânicos e bate-chapas a trabalhar. Desmanchava os motores, conseguia retificar cambotas e cilindros. Montava-os e vendia-os.

Aprendi com ele alguns truques de mecânica. Os pisca-piscas eram naquele tempo mecânicos. Quando começavam as piscar demasiado rápido era certo e sabido que iam queimar. Ele conseguir abrir os automáticos e com perícia ajustar a mola interna para piscassem mais lentamente.

A distribuição era também feita através de rotores mecânicos. No centro do distribuidor havia uma mola com um carvão na ponta para passar a energia do rotor para os bornes. Por vezes esse carvão partia-se. Solução? Substitui-lo pelo miolo de uma pilha tipo AA.

Esta minha curiosidade foi-me útil, muitos anos mais tarde. Tinha o Bruno 2 ou 3 anos. Ia na cadeira no banco de trás do Fiat. Ao passar pela ribeira de São Julião na Ericeira, depois de umas chuvas fortes, a ponte tinha desaparecido, passava-se pelas águas. Não quis voltar para trás. Aproximei-me da água, acelerei a fundo e pumba… asneira… o carro parou mesmo dentro da água. Não quis pegar mais.

Estava quase o sol a pôr-se. Pensei: deve haver humidade no distribuidor, pois tinha chapinhado água por todo o lado. Abri-o e com um pano tentei limpá-lo. Pimba… o carvão caiu na água. Parei a pensar e lembrei-me do que vira em Nampula. Estiquei a mola até ela tocar no rotor em baixo. Peguei na “prata” do maço de tabaco (na altura fumava) e fiz um rolo com ela. Meti-a dentro da mola. Montei tudo. Dei à chave e boa… pegou.

Agora arranquei devagar e consegui sair da água. Na próxima tasca que apareceu no caminho comprei uma pilha AA, esmaguei-a para retirar o miolo de carvão e coloquei-o lá. Quando, passados vários anos vendi o carro, ainda lá ia.

Ainda fui útil ao sargento. Vim para a metrópole um Maio de 1974. Um mês depois do 25 de abril já toda a gente pensava em transferir para cá o mais dinheiro possível. Mas as transferências legais já estavam proibidas.

Nós, militares, podíamos trazer todo o dinheiro que lá tínhamos recebido em ordenados. Eu tinha gasto tudo. Fui ter com ele e disse-lhe que podia trazer-lhe cerca de 100 contos, se me desse 10%. Aceitou. Entreguei o dinheiro nos serviços financeiros do exército e levantei-o nos mesmos serviços em Lisboa. Depositei a parte dele na conta que me indicou.

Estava eu depois a trabalhar na alfândega, uns bons meses mais tarde, quando ele por lá passou para desalfandegar os caixotes que ele e a família traziam.

Sem me ter apercebido o sargento alertou-me para um problema que, se não se tem dado o 25 de Abril, me podia ter trazido problemas. Cada viatura (e eram perto de 200), tinham a seu cargo um conjunto de acessórios: chaves das rodas, vários tipos de outras chaves, pneu suplente, manual, pá, etc. E para que não se perdessem estes acessórios estavam guardados, em prateleiras, numa arrecadação. Diz ele que eu deveria ter conferido todas os acessórios e só deveria assinar depois de os listar, viatura a viatura.

Ora eu apenas tinha sido conduzido à porta da arrecadação e disseram-me: e aqui tens as peças e acessórios de cada viatura. Assinei a tomada de posse como se estivesse tudo bem. E não estava. A maior parte das peças e acessórios tinham desaparecido.

E eu tinha ouvido falar de pessoas que foram obrigados a prolongar as missões em África para compensar com o seu trabalho o extravio de bens que tinham a seu cargo.

- Já viu, meu alferes, se a pessoa que depois o vier substituir se lembra de conferir isto tudo? Está tramado.

Mas ele sempre foi meu amigo. Eu chegava sempre tarde. Mesmo morando a 10 minutos, mesmo vindo de jeep. Por vezes havia pessoas à minha espera, até mesmo oficiais superiores.

- Eu já o vi por aí.

Respondia-lhes ele sempre.

Certo dia disse-me:

- Eu vou ajudá-lo. Na maior parte dos meses sobra-me verba dos gastos com a oficina. Vamos aproveitar essas sobras para ir repondo, dentro do possível, as faltas.

Assim foi. Reorganizámos a arrecadação, compramos tábuas grandes, marcamos com etiquetas o espaço de cada viatura, conferimos as peças de cada uma e listamos as faltas.

E todos os meses se ia adquirindo no mercado local, aquilo que era possível.

Posto Trabalho.jpg

Eu no meu posto de trabalho. Na parede o mapa de atribuição de viaturas.

Jeep.jpg

o meu Jeep: MX-23-95 a entrar no quartel.

Oficina.jpg

 A oficina mecânica ao fundo. à direita a prisão e a arrecadação. à esqueda uma das casernas dos soldados.

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publicado às 15:48

A doença negra

por António Tavares, em 08.03.17

A doença negra

Estava eu um dia em Nampula como oficial de dia ao Quartel-General quando fui acometido por umas dores abdominais tão fortes que, para não desmaiar, os soldados carregam-me no jeep e levaram-me para as urgências do Hospital Militar.

Estava de médico de serviço o capitão médico mais conhecido em Nampula. De formação era Otorrinolaringologista. Mas na tropa era pau para toda a colher. A sua barriga devia ter à vontade 2 metros de perímetro. Fumava e bebia que nem um odre. Tinha por hábito trazer uma garrafa de whisky sempre que estava de médico de dia. E muitas vezes a meio do dia mandava um dos soldados de serviço ir a sua casa buscar outra.

Já podem imaginar a minha resposta quando ele, depois de me carregar na barriga, diz:

- É apendicite aguda. Levem-no já para a sala de operações.

- Nem pense nisso. Vou-me já embora.

Tentei levantar-me mas não consegui.

- Pronto, não quer, não quer… Ponham-no a soro para lhe dar a injeção.

Isto acontecia-me com alguma regularidade. Davam-me uma injeção de buscopan. Dormitava um pouco e passava.

Já depois de vir para Lisboa isto acontecia com regularidade. Fui várias vezes a vários médicos e nunca me diagnosticaram nada. Fiz análise a tudo o que era possível. E nada.

Antes de casar o meu futuro sogro pediu-me que fosse a um médico que tinha consultório no prédio onde ele morava. Fui. Não me disse nada de especial.

Mais tarde esse médico foi falar com o meu futuro sogro sua à oficina que ficava na cave do mesmo prédio.

- Sabe senhor Gervásio. O seu futuro genro tem uma doença complicada. Chama-se doença negra. Ele não nasceu ao pé de um rio? Olhe que ele vai ter que levar regularmente transfusões de sangue.

- Só me faltava mais esta! Diz o senhor Gervásio. Sei lá se ele nasceu ao pé de um rio. Eu já lá estive e não vi lá rio nenhum. Tenho a filha ainda a recuperar de um atropelamento que lhe partiu a perna e a fez estar um ano de cama e que ainda tem a cavilha de metal no fémur e agora isto.

Tinha-mos marcado casamento para o dia 11 de Maio de 1975. Quinze dias antes fomos (mais uma vez) almoçar ao Redondel a Vila Franca de Xira. Eu e a Fernanda. No caminho já ia mal disposto. Não comi nada ao almoço. Apenas consegui beber uns goles de Água das Pedras. Consegui guiar lentamente. Quando me vinham as dores fortes tinha que parar o carro.

As dores não eram muito localizadas. Sempre me pareceram no estômago. Por vezes eram tão fortes que quase desmaiava.

De Vila Franca demos a volta (que fazíamos com frequência) por Alverca e subindo a serra por Bucelas. Consegui levar o carro parando amiúde. Debaixo de uma figueira a meio da serra, junto ao rio em Bucelas.

Lá me arrastei até chegar à porta do banco do Hospital de Santa Maria. Parei o Fiat. A Fernanda veio abrir-me a porta para me tentar amparar até entrar no banco. Caí redondo no chão. Vieram-me buscar de maca.

Só me lembro de me terem feito uma picada num dedo e ouvir dizer: é apendicite aguda. Tem que ser operado já.

Aqui não fui capaz de reagir como em Nampula.

A Fernanda deu a morada de casa dela. Era morada da zona do Hospital dos Capuchos. Alguém me levou para lá. Fui operado nesse dia. Disse-me depois o médico que assim que espetou o bisturi o pûs soltou quase até ao teto. Estava já quase a fazer uma peritonite.

Não me lembro de alguma vez ter bebido leite. Não consigo. Mas nos dias seguintes a Fernanda trazia-o e achava graça. Eu bebia-o. Tal era a samarra que tinha na língua.

E nos dias seguintes tive febres tão altas que os médicos começaram a fazer análise com medo que fosse algo parecido com tifo. Não era. Tudo passou.

Felizmente ainda conseguimos adiar o casamento uma semana, para o dia 18 de Maio de 1975. Mas ainda ia bastante combalido.

Aguentei estas dores pelo menos durante 2 anos. Afinal o capitão médico gordo tinha razão. Eu é que tive medo. E quanto a doença negra … estamos conversados.

Fiat.jpg

 O nosso FIAT 128 em Maio de 1975 (lua de mel no Algarve) frente à pedreira de SIENITO (um tipo de granito único no mundo) em Monchique.

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publicado às 11:49

Nampula

por António Tavares, em 23.02.17

Nampula

Nampula era uma cidade elegante. Largas avenidas duplas. Faixas centrais arborizadas. Muitas flores. Grande dinâmica comercial. Soldados a passear por todas as ruas a todas as horas. Todas as pessoas possuíam carros. A maioria dos carros eram Volkswagen porque eram resistentes e não era preciso meter água e Mercedes porque davam status.

Foi lá que também comecei a ver dois carros estranhos que não conhecia Colt e Galant. Só muito mais tarde, já na metrópole, quando foi introduzida no mercado nacional a marca Mitsubishi é que descobri que aqueles eram modelos daquela marca.

Apercebi-me de designações que só lá faziam sentido: flat (para designar apartamento) e turismo (para designar automóvel de passeio, carro de turismo). Influência inglesa bem vincada na condução pela esquerda, tal como nos países vizinhos, Rodésia e África do Sul.

Nos primeiros dias que passei na cidade apenas tinha que me apresentar de manhã ao dito Major da 3ª repartição do QG para saber se já havia colocação para mim. Depois saía. Entretinha-me a passear pelas ruas. Queria ver tudo. Por vezes aventurava-me mesmo pelas picadas fora da cidade. Às vezes com receio.

Num desses passeios, num domingo de manhã, dei de caras com uma rapariga mulata, bem gira. Agarrou-me no braço, inquiriu sobre a minha situação, disse que podíamos ser amigos. Estava alertado para este tipo de pressões. Dei meia volta e começo a regressar para a cidade. Ainda me seguiu agarrada ao meu braço uns largos metros, até que desistiu.

Logo a seguir vejo à minha frente um pretito com um abacaxi enorme a dirigir-se também para a cidade.

- Vais levar para vender?

- Sim

- Queres cinco escudos por ele?

- Quer … quer …

Até parece que ficou contente ou que achou muito a oferta. Lá comi eu abacaxi (e bem maduro e doce) durante alguns dias.

Nampula está num planalto rodeado de morros por todo o lado. Morros não são mais que afloramentos rochosos saídos da terra plana. Alguns com formas características, outros com aparências de coisas que as pessoas imaginam ver neles. Como o morro da preta que podia ser observado de dentro do quartel onde trabalhava.

Como tinha ficado sem fardas e sem botas, fui obrigado a comprar aos poucos o que me faltava. Um dia vinha a sair do Casão Militar com meia dúzia de peças que comprara e ao transpor a porta para a rua fui agarrado pelo braço por um Major que me obrigou a entrar para o seu jipe. Levou-me para o seu gabinete, sentou-se na secretária e mandou-me por em sentido à sua frente.

- Vocês, rapazes novos não se sabem comportar. Não têm aprumo militar. Não sabe que tem que andar aprumado e bem fardado? Onde está a sua boina?

- Ò meu Major, está dentro deste saco. Estava a acabar de a comprar.

Depois de lhe contar as minhas peripécias, mandou-me embora. Ainda teria que me voltar a cruzar com ele várias vezes até ao fim da minha comissão em Nampula. Ele tinha por hábito percorrer os corredores do Casão Militar e espiar os oficiais que faziam compras. Quando via um sem boina esperava-o à saída. E lá ia ele ouvir o sermão do bom comportamento. Ele garantia a toda a gente que havia de pôr os militares de Nampula na ordem.

Um certo dia, no seu gabinete de trabalho, estava na sua frente um Alferes ouvindo o mesmo sermão. O sr Major fita-o com espanto nos pés. Tinha meias encarnadas.

- Maricas…

Retorquiu exasperado. E apontando-lhe o dedo com recriminação:

- Ponha-se daqui para fora. Nunca mais o quero ver.

Um belo dia aparece-me um Alferes a perguntar se eu já estava colocado. Disse-lhe que não.

- Não queres ficar no meu lugar?

Sem saber que lugar era, disse que sim. Preferia antes ter uma ocupação do que continuar a divagar pelas avenidas de Nampula. Trata-se de um Alferes natural de Lourenço Marques que aguardava há muito tempo resposta a um pedido de transferência, para poder estar mais perto de casa. Mandaram-no aguardar até haver alguém que o substituísse.

No dia seguinte fomos os 2 ao Major da 3ª repartição do QG e ele aceitou a minha colocação no seu lugar.

Passados dois dias lá fui eu assumir as minhas funções para o resto da comissão, o comando na Secção de Viaturas da Companhia de Comando e Serviços do Quartel General da Região Militar de Moçambique (SV/CCS/QG/RMM).

Que nome pomposo…

Nampula flores.jpg

Faixa central de uma avenida de Nampula

Morro estrada Nacala.jpg

Morro na estrada de Nampula para Nacala. Fotografia tirada da janela do jeep ao meu serviço.

Morro da preta.jpg

Morro da preta visto da parada do quartel onde estava colocado

 

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publicado às 11:18

De Mueda ao hospital...

por António Tavares, em 06.02.17

De Mueda ao hospital

Mueda era uma vila no alto dum planalto. Composta essencialmente por uma longa avenida que partia da pista de aterragem, separava de um lado as tabancas dos nativos e do outro as estruturas militares e se prolongava pelo mato fora através da picada para Mocímboa do Rovuma.

No final da avenida ficavam, um de cada lado, os 2 únicos estabelecimentos comerciais: o Santos e o China. Ponto de paragem obrigatória para qualquer militar que por aqui passasse. Serviam bifanas e pregos. Vendiam um pouco de tudo que encomendavam em Nampula e lhes era enviado através das longas colunas militares que com alguma regularidade iam até Mueda para reabastecimento.

Também esses 2 estabelecimentos ficarem imortalizados nos versos do Cancioneiro do Niassa:

Mueda terra de guerra

Vou cantar-te este meu fado

Que compus ainda há pouco…

Mueda que és uma mina

Para o Santos e p’ró China

E para os tipos experientes

E para os que têm por sina

Venderem Água das Pedras

Mais cara que a gasolina…

Chegamos a Mueda num sábado à noite. Depois de tentar comer qualquer coisa no bar e não conseguir, depois de chegar ao quarto e de ver que me tinham roubado tudo, consegui dormir um pouco. Acordei no domingo de manhã. Estava sol. Levantei-me azamboado e com a mesma roupa que trazia de véspera e que nem tinha despido, fui passear por aquela longa avenida.

A dada altura aparece-me um senhor negro com uma menina pela mão. Não tinha mais de 12 ou 13 anos. “O senhô qué fazê máquina?” disse-me. Não percebi o que queria. Segui o meu caminho cada vez mais tonto. Quando mais tarde relatei este facto a alguém, informaram-me que era usual os nativos virem oferecer aos militares as filhas para sexo a troco de dinheiro.

Não devo ter andado muitos mais metros. De tão faminto, fraco e sem forças caí redondo no chão. Dei por mim deitado numa maca na enfermaria. De um lado o soro a entrar na veia. Do outro uma senhora do Movimento Nacional Feminino ia dizendo:  sr Alferes, tem que reagir… os seus soldados estão à espera para seguir com eles… vão partir daqui a pouco… você faz falta junto deles.

Não sei quanto tempo estive assim sem conseguir esboçar qualquer reação, os olhos fitos no teto como que a tentar var mais longe. Não sei se foram horas se foram dias. Ouço tiros e rebentamentos. Não consigo reagir. Volto a ouvir a mesma senhora: não tenha medo. São os nossos. Estão a bombardear o vale para o avião partir. Alguém diz atrás de mim: é melhor aproveitar este avião e mandá-lo para o hospital. Enquanto me preparavam para pôr na maca outro Alferes da mesma companhia que a minha dizia-me baixinho: tu vais agora mas que eu vou lá ter contigo dentro de pouco tempo.

A missão de bombardear o vale de Mueda com murteiros, antes de partir qualquer avião, era rotina. O inimigo já sabia as horas de partida e chegada dos voos dos Nord Atlas. Bastava sentarem-se no fundo do vale com a bazuca ou as espingardas apontadas para o ar. Para evitar isso todo o vale tinha que ser limpo primeiro. Mas como eles não desistiam foi necessário alterar a rotina e fazer com que os aviões partissem ou chegassem em horas aleatórias, de preferência de noite. Os North Atlas eram aviões de reabastecimento e de transporte de pessoal que operavam com regularidade entres as principais bases militares do norte de Moçambique.

Bem, mas lá fui eu de maca amarrada dentro do North Atlas a caminho do hospital militar de Nampula. Só dei por mim a ter alguma reação quando, na aproximação à pista de Nampula o avião descreveu uma curva e eu, mesmo deitado, consegui ver pelas janelas as imagens da cidade. E pensei para mim: isto aqui é muito bonito. Largas avenidas, tudo moradias, algumas com piscina, muita vegetação e flores… Comecei a magicar na minha mente alguma forma de conseguir não voltar para a guerra.

O hospital militar de Nampula era muito recente. A ala dos oficiais tinha quartos individuais, casa de banho privativa, um recanto relvado ajardinado com uma latada de maracujás. Parecia um hotel. Comecei a ser observado pelo médico psiquiatra Dr Coimbra.

Pedi um aerograma para escrever à minha mãe. Em Nampula e em Nacala viviam familiares, primos e tios quer do meu pai quer da minha mãe, alguns mesmo do Casalinho. Donos de machambas enormes, fornecedores do exército em frutas, legumes e hortaliças. Donos de fábricas de cajú e de óleos alimentares. Donos de padarias e das salinas.

Escrevi à minha mãe. Contei o sucedido. Pedi que falasse com alguns dos familiares que por lá viviam, para tentar algum apoio e alguma pressão junto do médico.

Nunca recebi qualquer visita de nenhum. Acabei por encontrar mais apoio em pessoas que não me eram nada. Gente boa do norte de Portugal. Tive que me safar sozinho.

North Atlas sobre Nampula.jpg

 North Atlas sobre Nampula

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publicado às 12:33

Apanhadinhos...

por António Tavares, em 01.02.17

Apanhadinhos

Nampula era o centro nevrálgico de todas as operações militares no norte de Moçambique. A população militar era muito numerosa.

Ali chegavam muitos militares checas para iniciar comissões nos mais variados pontos do teatro de operações. Por ali passavam também muitos já no fim da comissão à espera do regresso à metrópole.

Ali ficava o Hospital Militar onde apareciam as situações mais horríveis que se possam imaginar.

O cansaço de muitos meses em situações difíceis levava a comportamentos algos desviantes ou difíceis de interpretar, como aqueles que presenciei por diversas vezes.

Estando eu internado, nos passeios que fazia pelos pátios reparei num soldado muito desmazelado que deambulava para cá e para lá, ar carrancudo, impávido, sem esboçar qualquer reação mesmo para quem se lhe dirigia, com as mãos atrás das costas, com a cabeça baixa a olhar para o chão como que procurando algo perdido. Sempre que via um pedaço de papel, por mais pequeno que fosse pegava-lhe, desdobrava-o, tentava ler alguma coisa mesmo que fosse todo branco e dizia meio sussurrando:

- Não é este …

Já ninguém lhe ligava. Estes gestos repetiram-se, dias e dias durante meses.

Regularmente era chamado ao médico psiquiatra para tentar algum remédio, alguma solução. Sem qualquer efeito.

Até que um dia o médico achou que seria melhor mandá-lo embora dali. Deu-lhe alta e guia de marcha para passar para os serviços auxiliares.

Com o mesmo ar impávido e sereno com que buscava papéis no chão, trouxe os braços para a frente, olhou para o papel que acabara de receber do médico e disse em sussurro:

- Há! É este.

Foi-se embora do hospital. E não mais voltou para a guerra…

No centro da praça entre o quartel-general e a Messe de Oficiais havia uma estátua em bronze de Neutel de Abreu, explorador da zona de Nampula no século dezanove. Estava armado com uma espada em estilo levemente árabe, algo arqueada.

Num certo dia um soldado, talvez cansado do clima, talvez com algum copito a mais, trepa pela estátua acima, arranca a espada e corre com ela na mão, espadanando rua abaixo. Claro que foi apanhado e sofreu as consequências. Mas a piada foi quando o Sargento Mecânico a foi soldar na estátua e a soldou ao contrário, com a curvatura para cima e a ponta para baixo.

Durante algum tempo foi risota geral.

Daí aquela cantiga do Cancioneiro do Nissa que dizia:

         Em frente ao Neutel de Abreu

         A quem roubaram a espada

         Existe a Gorongosa

         Pasto de vacas malhadas

         ……………………………….

Qualquer dia falo-vos deste cancioneiro, da Messe de Oficiais e da Gorongosa.

Encontrei certa vez um alferes a passear pelos átrios, corredores e varandas da Messe de Oficiais. Olhar distante ou olhos postos no chão. Ar pesaroso. Barba de vários dias. Farda gasta e desalinhada. Divisas irreconhecíveis. Para lá e para cá, horas sucessivas. Soube que aguardava a data de embarque de regresso à metrópole.

Uma senhora do MNF, de nome sonante, esposa de um conhecido general, meteu-se na sua frente. O alferes para, fita-a nos olhos com o mesmo ar sombrio e mãos atrás das costas.

- Sabe sr alferes, o pior já passou. Agora vai ter com a sua família, vai esquecer isto tudo. Tem algum problema que eu possa ajudar? Onde é que esteve? Quando é que embarca? Não se esqueça que nós estamos cá para vos ajudar no que for preciso …

Ao fim de largos minutos sem esboçar qualquer reação, com o mesmo ar distante com que a ouviu e perante o espanto de todos os presentes o alferes grita-lhe:

- Ó minha senhora … vá para a p*** que a p****…

Depois deu meia volta e voltou para os seus pensamentos distantes.

QG e Neutel de Abreu.jpg

Quartel General de Nampula e estátua de Neutel de Abreu

Messe Oficiais.jpg

 Messe de Oficiais de Nampula

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publicado às 15:06

Aerogramas especiais

por António Tavares, em 22.01.17

Aerogramas especiais

Uma das minhas incumbências como Oficial da CCS/QG de Nampula era imprimir as ordens de serviço para o dia seguinte.

Havia um soldado encarregue de datilografar sobre stencil de cera as ordens que lhe eram entregues.

No fim do dia o stencil era colocado na máquina rotativa manual. Colocava-se tinta nos tinteiros e vai de dar à manivela.

Com a minha mania de estar sempre a imaginar fazer coisas novas pensei aproveitar a aquela tecnologia para imprimir aerogramas especiais para distribuir pelos soldados.

Com uma caneta especial de ponta de aço desenhava sobre o stencil de cera bordaduras alusivas a dias festivos como Natal e Páscoa. A caneta não fazia mais que rasgar a cera nas zonas por onde passava. Era o mesmo que faziam as teclas da máquina de escrever. Rasgavam a cera. Depois, na rotativa, a tinta passava por essas ranhuras para os aerogramas colocados no alimentador.

Desta maneira cumpri melhor a minha missão de dar apoio aos meus soldados e de lhes proporcionar mais algumas alegrias.

 

CCS/QG: Companhia de Comando e Serviços do Quartel General. Era a companhia que prestava todos os serviços de apoio ao Quartel General

Aerograma1.jpg

 Estes foram desenhados por mim

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publicado às 16:26


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