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A caminho da escola

por António Tavares, em 10.02.17

A caminho da escola

Ainda fui para a escola de Cardigos juntamente com os meus irmãos mais velhos. Com o Mário, que era mais novo, nunca fui para a escola, porque ele foi enviado para casa duns primos da minha mãe em Canha (Setúbal), durante os 4 anos em que durou a escola primária. Assim as memórias mais vivas que tenho são das minhas idas e vindas, sozinho. Os livros e cadernos num saco de pano. Uma saca de serapilheira para por na cabeça nos dias de chuva. Dobrava-se ao meio, metia-se um dos cantos dentro do outro e protegia mesmo da chuva. No mesmo saco dos livros e cadernos levava a bucha para o almoço.

Muitas vezes a minha mãe não sabia o que enviar. Ò mãe, mande só pão e cebola. Almocei muitas vezes rodelas de cebola dentro do pão.

O caminho da escola era o tempo da minha meditação. O que faço eu aqui? Para onde vou?

Gostava de sair de casa cedo para ter tempo de arranjar qualquer brincadeira, qualquer distração. Até as árvores do caminho eram minhas colegas de brincadeira. Sobretudo se fossem árvores exóticas que me despertassem a atenção.

A um pinheiro bravo novo e esguio consegui dar um nó no tronco. Dobrei-o com cuidado, meti a ponta dentro da dobra, puxei para cima. Sempre que ia de férias ao Casalinho ia vê-lo crescer. E lá cresceu com um nó no tronco.

Logo à saída do casalinho o atalho que seguia pela fonte passava sobre um regato onde a minha mãe nos mandava apanhar poejos e hortelã do rio, quando era o tempo deles. Mais adiante havia 2 azinheiras. No tempo das bolotas gostava de subir pelos matos até elas. Sem ninguém me dizer nada apercebi-me que uma delas dava bolotas razoavelmente doces. Metia-as no bolso e lá ia roendo para a escola.

Numa quinta mais adiante e no meio duma vinha, existiam 2 enormes castanheiros. O meu pai estava sempre a ralhar que não queria que fossemos para a escola por ali. Já sabia que no tempo das castanhas nós pulávamos o muro para ir apanhar castanhas. E o dono já sabia que se aparecesse algo mexido tínhamos que ser nós. Mesmo assim eu insistia. Pulava o muro a correr, enchia os bolsos e fugia.

Mas como não as conseguia comer todas até à escola e não as queria levar para casa, descubri o modo de fazer um celeiro. Debaixo de umas moitas abri um buraco redondo no chão. Enchi de castanhas e tapei com terra. Assim, cada vez que ia para a escola, podia tirar uma ou duas. E descobri depois que com o passar dos dias ficavam melhores, mais moles. A humidade da terra fazia com que elas começassem a grelar e ficavam mais saborosas. Até que um dia cheguei e tinha o celeiro vazio. Algum rato do campo ou um ouriço-cacheiro o cheirou e reabasteceu-se.

Já perto da escola havia outra árvore que me despertava a curiosidade: uma nogueira. Tinha por hábito colher folhas dela para meter no meio das folhas dos livros. Fazia o mesmo com pétalas da flor das estevas. Tornavam os livros mais cheirosos.

Com isto tudo chegava muitas vezes atrasado.

Um dia lembrei-me de limpar de ervas uns palmos de terreno, debaixo de umas silvas. O sol batia em cheio naqueles 2 ou 3 palmos de terra. Espetei um pau na vertical meio. Reparei na sombra que fazia no chão. Com outro pau risquei a terra no local da sombra e pensei: quero ver se amanhã a sombra está no mesmo sítio.

Sem me aperceber tinha feito um relógio de sol. Dali para escola já eram só uns 100 metros. Não podia perder tempo. Se chegasse a horas e se no dia seguinte a sombra ainda estivesse antes do risco, sabia que podia demorar um pouco mais a brincar. O pior foi descobrir que o relógio se atrasava. Quando me descuidei voltei a chegar atrasado.

Tinha menos de 10 anos…

Casalinho visto de Cardigos.jpg

 O Casalinho visto de Cardigos

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publicado às 11:55



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