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A rifa do carneiro

por António Tavares, em 12.04.17

A rifa do carneiro

Na minha meninice toda a área em volta das aldeias de Cardigos estava completamente tapada por pinhais. Como os pinhais eram fechados o mato quase não crescia por entre eles. E o mato que crescia era cortado todos os anos, quer para a cama dos gados, quer para fazer estrume. Até mesmo as carumas dos pinheiros eram rapadas e apanhadas para o mesmo efeito. Logo quase não havia fogos. E quando havia eram apagados pelo povo de modo fácil.

Nas zonas onde não havia pinhal os terrenos eram depois lavrados para semear trigo e centeio. Ao fim de 2 anos de sementeira arroteava-se mais um bocado de terreno e deixava-se aquele de pousio.

Os pinhais eram uma reserva de valor. Quando se precisava de dinheiro vendiam-se alguns. E havia muitas serrações de madeiras na zona. Algumas tinham mesmo produção de vários artefactos de madeira como paletes e caixa para a fruta.

Para além disso os pinheiros eram sangrados para darem resina. Andávamos pelos campos com bidões às cotas a apanhar a resina dos copos para depois despejar para outros bidões maiores colocados à beira dos caminhos. De longe a longe passava o camião para os recolher. Colocavam-se 2 troncos grandes e os bidões eram rebolados por eles acima.

Na rua do Casalinho cada habitante era “dono” do pedaço de rua que ficava à frente da sua casa. A rua era escavada e rebaixada e era cheia de mato. Com o passar das carroças, com a chuva e com os despejos das águas de lavagem, em pouco tempo o mato passava a estrume e era levado para as hortas. O meu pai chegou mesmo a comprar matos em cabeços bem distantes e ia lá buscá-lo, porque ali ao pé já não havia nada. Chegou até a fazer a mesma “cama” de mato em caminhos dispersos pelos campos fora. Nas noites quentes de Agosto dormíamos por vezes na rua em cima da cama do mato fresco.

Os pinhais eram tão fechados que as aldeias não se viam umas das outras. Agora, quando lá vamos, do alto da serra da Melriça vêem-se todas as aldeias, uma a uma.

Lembro-me uma vez de aparecer uma luz de noite por meio dos pinhais. Aparecia e desaparecia. Tremeluzia. O meu pai brincava connosco dizendo que era uma bruxa. Que não fossemos para lá de noite.

Uma vez desafiei o Manel para irmos por ali fora ver se descobríamos de onde vinha a luz. Quando chegávamos a um ponto alto a luz passava para o monte alto a seguir. Fomos andando até que, ao chegar a um ponto bem alto, verificamos por fim ela vinha de bem longe. De Cernache do Bonjardim a muitas dezenas de quilómetros. Era a luz que iluminava a entrada dos autocarros do Claras. E como estava no cimo dum poste muito alto via-se muito bem de bem longe.

O Manel era o mais velho e eu gostava de o acompanhar quando havia festas no verão. Certo dia fomos a uma festa no Azinhal. A uns 5 ou 6 quilómetros. Por lá andamos até depois da mia noite. Havia rifas para um carneiro. O Manel comprou uma. Lá pela noite dentro veio o Ti Virgílio, meu padrinho, acordar-nos. Que tinham telefonado para casa dele (era o único que tinha telefone na aldeia) a dizer que o carneiro tinha saído ao Manel e que ele tinha que o ir lá buscar.

- Para que é que eu quero agora um carneiro?

Mas lá fomos. Era domingo. Chegados lá diz a Manel para os organizadores:

- Sabem uma coisa? Dou o carneiro para a festa. Amanhã faz-se mais um dia de festa, mata-se carneiro e comemos todos.

E assim foi. Na noite seguinte eu e o Manel fomos os reis da festa.

Mesmo assim ainda me lembro de ver grandes incêndios, mas muito ao longe. Era longe mas de noite o clarão no ar assustava. Umas vezes era para lá da Amêndoa, para os lados de Ferreira do Zêzere, outras para norte para a zona de Oleiros e da Serra do Moradal. Nessas noites nem dormíamos com medo, embora fosse a muitos quilómetros de distância.

De vez em quando ouvíamos rebentamentos. Pareciam bombas. Era quando o fogo chegava aos bidões cheios de resina, junto dos caminhos. Cada vez que rebentavam lá espalhavam mais fogo.

Hoje na zona já não se colhe a resina, não há pinheiros grandes e o mato cobre a maior parte do terreno.

Cortar o mato tinha ainda outra vantagem: quando começava a rebentar aqueles rebentos tenros eram um petisco para as cabras. De tal maneira que a minha mãe lembrava-me sempre para não levar as cabras para aqui, ou para ali, porque as carquejas do Ti Virgílio estavam a rebentar e ele podia ficar chateado.

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publicado às 10:37



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