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Aerograma para meus filhos e neta

por António Tavares, em 10.02.17

Aerograma para meus filhos e neta

Hoje toda a gente tira fotografias. Toda a gente tem telemóveis com máquina fotográfica, internet, facebook, etc. As fotos deixaram de ter a aura de mistério que tinham a 50 ou 60 anos. Em todo o lado se vêm fotografias. Já cansa. Muitas vezes nem se lhes dá valor.

Mas na minha meninice era uma raridade. Sempre fui amigo de guardar recordações dos tempos antigos que vivi. O padre Serafim quando vinha ao Casalinho no seu Mini achava piada a tanta criança pequena que deambulava à volta da minha mãe, que estava sempre a tirar-nos fotografias.

Sempre que ia à vila comprar tabaco para o cachimbo, enchia o carro com quantos de nós lá coubessem. Foi a primeira vez que andei de carro. No Mini do sr padre Serafim. Ele saía de Cardigos, punha a mão na buzina e só parava no Casalinho. Só dizia: não mijem no carro. Quando ele ia de noite, aqueles de nós que não cabia-mos no carro ficavamos à entrada da aldeia a ver quando a luz dos faróis do Mini chegavam ao Casalinho. O Casalinho dista 3 quilómetros de Cardigos. As duas povoações estão situadas em outeiros contíguos. Como não havia iluminação pública, a noite, se não houvesse luar, era muito escura. Logo que o Mini saía de Cardigos a luz dos máximos batia na rua do Casalinho. Lá vêm eles….

No seminário os padres também achavam piada a tirar-nos fotos, quer fosse em jogos quer em passeios. Eu gostava de ficar com a maior parte delas.

Assim que arranjei emprego em Lisboa comprei uma máquina e sempre que podia registei em fotos imagens das  minhas deambulações.

Logo que cheguei a Moçambique comprei uma máquina fotográfica com uma característica interessante: de 1 foto fazia 2. Ou seja, como a matriz do rolo era no formato horizontal, ela compunha 2 na vertical na mesma matriz. Vantagens: de 1 rolo de 12 fotografias eu tirava 24. Mas a maior vantagem era nos diapositivos.

A revelação de fotografias é feita em qualquer fotógrafo e paga à unidade. Mas diapositivos nem todos fazem. Em Moçambique tínhamos que enviar os rolos para a África do Sul. Eu comprava um rolo de 12 diapositivos, eles revelavam e mandavam de volta 24. Claro que eles devolviam junto com uma ordem para pagar mais alguma coisa por causa do custo acrescido de revelarem 24 em vez de 12 diapositivos. Nunca mandei dinheiro nenhum de volta. Até que um dia o último rolo enviado não veio devolvido.

Foi com essa máquina que fotografei o meu namoro com a vossa mãe e avó. Que fotografei os passeios que demos antes e depois de casados. Até que um dia na praia do Sul na Ericeira, em cima de uma rocha, fui recuando, recuando para ter melhor ângulo a fotografar o Bruno na areia e caí na água juntamente com a máquina. Foi a correr à vila ao fotógrafo para a abrir e limpar mas nunca mais funcionou.

Apanhei e guardei todas as fotos antigas que encontrei em casa de meus pais com medo que se perdessem.

Tenho assim algumas centenas (talvez milhares) de fotos e diapositivos. Estes, pedi ao Bruno que os levasse à FNAC para serem passados para suporte digital.

As fotos estão arquivadas em pastas.

Por enquanto ainda consigo olhar para elas e localizá-las no tempo e no espaço. Qualquer dia a minha memória esfuma-se e vocês, meus filhos e neta, ficam com um arquivo de memórias sem conteúdo.

Muito gostaria que o guardassem e lhes dessem o destino que entenderem mas que desse para conservar as minhas memórias, que agora vos vou escrevendo.

Fotos do Padre Serafim.jpg

 Fotos do padre serafim: 1955 e 1957. A da esquerda no forno do pão da Ti Jaoaquina. Só conseguimos calar o Mário para ficar na fotografia dando-lhe um canivete (fechado) para a mão. A da direita nas escadas da nossa casa.

Fotos dos padres.jpg

 As fotos que os padres tiravam durante os passeios. Na lagoa de Tocha 1963 e no castelo de Ourém 1964

Fotos primeira máquina.jpg

 As fotos que tirava com a minha primeira máquina. A mãe em Cardigos. O pai cuidando das sementeiras no Cabril. Estes terrenos estão hoje coberto de água pela barragem.

Fotos de África.jpg

 Algumas das fotos de Moçambique

Mergulho na piscina de Nampula. Subida às papaias do quintal da casa onde morava para colher os frutos

Diapositivos de África.jpg

  Diapositivos de Moçambique. Passeio à Praia das Conchas. Morro de térmitas.

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publicado às 11:00



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