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Aprendi muito com o pai

por António Tavares, em 22.04.17

Aprendi muito com o meu pai

Os cereais que mais semeávamos eram o milho, o trigo e o centeio. Durante o inverno comia-se broa e pão de trigo no verão. Não tínhamos forno. Usávamos o forno do Ti Vergílio. Só se cozia pão uma vez por semana.

Mas para moer os cereais o meu pai tinha que ir na carroça levar os sacos de grão ao moleiro que operava um moinho de vento no alto de um monte, para lá dos Vales, já próximo do Vergão em terras de Proença-a-Nova. Uns bons 10 quilómetros. Ia levar o grão e voltava dias mais tarde para buscar a farinha no dia combinado. Deixava a maquia para pagamento: 1 em 10.

Nos meus 5 ou 6 anos passei a ir com ele, para deixar a mãe e os mais novos em paz. Ao princípio o moinho era de vento. Nas últimas vezes que lá fui já era movido a motor a gasóleo.

Por não ser prático o meu pai convenceu o meu padrinho (Ti Virgílio) a ceder um terreno junto ao ribeiro do vergancinho para construir um moinho para uso comum. Ele acedeu e colaborou na sua construção. Quem o construi foi o meu pai. Eu ia para lá porque gostava de observar a evolução das obras e porque a minha mãe não me podia aturar. Assisti à construção da represa no ribeiro, da levada da água, do arco do rodízio, em pedra, do próprio rodízio talhado em madeira de pinheiro, da tremonha, etc. Fazia perguntas constantes ao meu pai. Tinha que perceber como tudo funcionava. Tinha 5 ou 6 anos e andava por cima dos muros, de um lado para outro. Catrapumba… cai lá em baixo e parti a cabeça, mais uma vez.

As mós eram de granito que não havia na zona. O meu pai foi busca-las na carroça lá muito para o norte. Nem sei onde.

Sempre que começava a chover, fosse de dia ou de noite, lá íamos a correr pôr o moinho a andar e a moer. Porque só podia moer quando no ribeiro corria água.

Ainda hoje são visíveis as ruinas do moinho no final do lençol de água da barragem do vergancinho. Subindo pelo estradão do lado direito da barragem, vêem-se na margem oposta.

Pela mesma altura o meu pai construiu a nova casa do Ti Virgílio. Um prédio! Água encanada dum poço no monte para lá do vale. Casa de banho com torneiras e banheira. Nunca tinha visto nada assim.

O meu pai escavou os alicerces na encosta, até apanhar solo firme. Isso eu percebi. Não percebi é porque é que a base do alicerce era em escada, sendo que os degraus eram mais baixos para o lado onde a encosta subia. E perguntei-lhe. Sempre me explicou tudo:

- Não vez que assim a parede fica a fazer pressão para cima e não desliza pela encosta.

Eu achava o meu pai muito esperto e inteligente. O que aprendi com ele nas obras foi-me muito útil mais tarde aquando da construção da Casa da Praia.

Quando casou, veio para Lisboa trabalhar nas obras. Dizia-me ele que foi colega de pessoas que depois se tornaram afamados construtores como o J Pimenta. Contava-me que a empresa dele alcatroou as ruas do Bairro da Encarnação e construiu as escadas do Bairro da Boavista em Campolide.

Era na altura da II Grande Guerra. Que se lembra de em Lisboa se fazerem simulações de ataques aéreos. Apagavam-se as luzes da cidade e surgiam no ar apenas as sirenes e as luzes dos holofotes pesquisando no ar aviões inimigos.

Mas cada vez que ia a Cardigos aparecia mais um filho. Até que por causa da guerra e da crise, desistiu de Lisboa e foi construir para Cardigos.

Era aos domingos, depois da missa das 11 que se faziam os negócios, durante o circuito das tabernas. Quem precisava de trabalho juntava-se com quem oferecia trabalho. Faziam-se os pagamentos da semana anterior e combinavam-se os trabalhos para a semana (ou semanas) seguintes. Quem recebia pagava uma rodada. Primeiro só vinho. Para o fim do dia já era cortado: meio vinho meia gasosa. Eu queria sempre acompanhar o meu. Só bebia gasosa.

Foi aqui que aprendi a olhar para o chão quando andava na rua. O meu pai ensinou-me a abrir todas as caixas de fósforos que visse no chão. Explicação: os pobres aldeões guardavam os trocos dentro das caixas de fósforos. Assim sempre aparecia, de vez em quando, alguns cruzados ou tostões.

Estava eu no seminário quando o Manel seguiu os passos do meu pai na construção. Havia em Cardigos vários empresários que tinham empresas de construção com alguma dimensão, a operar principalmente em Lisboa. O Manel foi com um deles. Foi trabalhar para alcatroar uma das estradas da Serra da Arrábida. Conduzia um dumper a transportar alcatrão. Ficou mal travado. O dumper deslizou e ele foi apertado contra outra viatura. Foi internado. Teve que ser operado e foi-lhe extraído o baço. Não morreu disso. Morreu dos excessos… penso eu.

Bodas de ouro.jpg

 Bodasde ouro... no Casalinho

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publicado às 14:50



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