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As raparigas da casa das freiras

por António Tavares, em 08.04.17

As raparigas da casa das freiras

Na rua de Santa Marta, mesmo ao lado da pensão onde morava, existia na altura a velha igreja do Sagrado Coração de Jesus. Como estava muito degradada foi decidido construir uma nova, ultramoderna, que se localiza perto, na rua Camilo Castelo Branco. Nos anos 60 e 70 assisti a toda a construção

Mas foi nos cafés da zona (stª Marta, Singapura, etc.) e levado por colegas da pensão (alguns também ex-seminaristas) que acabei por me enturmar com grupos de rapazes e raparigas da zona, alguns dos quais cantavam no coro da velha igreja.

A essa igreja vinham também à missa as raparigas de uma casa de freiras da Rua Alexandre Herculano. Algumas passaram a fazer parte do coro e do nosso grupo de amizades.

Podiam conviver connosco em passeios até Sintra e Algés, em jogos de futebol que fazíamos no colégio dos Maristas e nos campos do seminário no Cacém.

Mas para saírem à noite tinha que um de nós ir em delegação pedir autorização à madre superiora. E mesmo assim tínhamos que entregar as meninas, sãs e salvas, antes das dez da noite.

Foi assim que conseguimos fazer um passeio de dois dias à Serra da Estrela. Alugamos um autocarro, contactamos uma casa de freiras em Castelo Branco para nos garantir que davam alojamento às meninas por uma noite e tivemos que provar isso, por escrito, à madre superiora. Nós, os rapazes, passamos a noite na rua em vadiagem. E dormimos as últimas horas nos bancos do autocarro.

Ainda me encontrei com o Mário num café de Castelo Branco. Ele estudava lá no Liceu. Morava em casa de umas primas da mãe, da Roda.

Castelo Branco.jpg

 Eu e o Mário num café de Catelo Branco

No segundo dia apenas conseguimos ir até aos Piornos porque o motorista disse que não havia tempo para ir mais acima. Mesmo assim chegamos a Lisboa muito depois das dez da noite. E não havia telemóveis. Foi o bom e o bonito com a madre superiora.

Alguns elementos do nosso grupo moravam mesmo longe. O Jorge morava na Reboleira e trabalhava no C. Santos. Os avós dele moravam numa aldeia de Ferreira do Zêzere, junto da barragem do Castelo de Bode. Um dia alugamos os dois um mini e fomos lá passar o fim de semana com a promessa de um mergulho na barragem. Ia morrendo. Vestido com fato de banho corro pela rampa, salto para a plataforma flutuante assente em bidões e mergulho. Habituado a nadar nas praias da linha esqueci-me que era água doce. Devo ter descido imenso. Na subida abro os olhos, vejo luz, penso que estou fora de água, vou para respirar e inspiro água… felizmente estava um barco perto. Agarro-me e estive largos minutos aflito.

Castelo de Bode.jpg

Eu na plataforma flutuante da barragem do Castelo de Bode

Em grupos de 2 ou 3 fomos várias vezes acampar para a arriba da Costa da Caparica. No tempo em que bastava arrastar os pés na areia para encher um saco com 1 ou 2 quilos de cadelinhas. Das verdadeiras. Fazíamos uma fogueira e era o nosso almoço. Também aí apanhei alguns sustos. Com a mania que sabia nadar, fui apanhado algumas vezes pelos agueiros da praia.

O António Carlos morava na mesma rua numas águas furtadas. Em frente à sua janela passavam os 2 fios do telefone de um vizinho. Na altura os fios eram descarnados. Ele arranjou um telefone possivelmente de uma cabine pública. Com uma pinça em cada fio, tínhamos telefone de borla.

Nós, os rapazes, tornamo-nos protectores das meninas. Havia duas irmãs que moravam perto e que nos pediam, de vez em quando, para ir buscar o pai delas, perdido de bêbado numa das tabernas da zona. Lá íamos 2 de nós pegar nele, um de cada lado e levá-lo a casa.

Conseguimos aprovação das freiras para criar um rancho folclórico que treinava e actuava aos domingos no salão dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, na Rua camilo Castelo Branco. Como a maioria de nós era da Beira Baixa, foi nas tradições de lá que nos inspiramos:

Ó Castelo Branco, Castelo Branco

Mirando o cimo da serra, ai mirando o cimo da serra

Quem nasceu lá p’ra Castelo Branco

Não é feliz noutra terra, ai não é feliz noutra terra.

Eu nasci na beira, sou homem pequeno

Sou como o granito, bem rijo e moreno

Quem nasceu na beira, não tem falsidade

Só na sua terra se sente à vontade …

Grupo de Lisboa.jpg

O grupo de amigos da Rua de Sta Marta - 1970

Rancho1.jpg

Exibição do rancho - 1970

Futebol no Cacém.jpg

Jogo de futebol no Cacém - com médico e enfermeiro ...1970

Intervalo do futebol.jpg

No inervalo do futebol

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publicado às 14:16



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