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Despachante na Alfândega

por António Tavares, em 07.03.17

Despchante na Alfândega

Ser ajudante de despachante alfandegário era, na altura, dos empregos mais bem remunerados, para além da sensação de liberdade.

O despachante oficial era na prática o intermediário entre os importadores (ou exportadores) e o estado. Eles faziam a vistoria à mercadoria, calculavam os diretos e impostos a pagar ao estado, tratavam da documentação e da entrega da mercadoria ao dono ou da sua saída do país. Era uma classe muito fechada e que se auto protegia. Só podiam entrar para despachantes quem já tivesse alguns (muitos) anos de ajudante de despachante. E mesmo assim eram sujeitos a provas rígidas. E mesmo assim era preciso que a Direção Geral das Alfândegas abrisse concurso para isso. Na prática os grandes escritórios de despachantes (alguns com mais de 100 empregados) dominavam até a nomeação de novos despachantes, para manterem a sua posição dominante.

Normalmente os despachantes grandes (como o caso do meu patrão – tinha 85 empregados) tinham ajudantes especializados em cada tipo de transação: importação via marítima, via aérea, exportação, encomendas postais, combustíveis, etc. Eu estive quase sempre nas importações avulsas no Jardim do Tabaco, Alcântara, Xabregas os nas encomendas postais, na Rua da Palma.

Não havia computadores. Os despachos aduaneiros eram tratados em folhas de papel grosso, para aí com 40 por 60 cm, dobradas ao meio. Neste papel eram colados todos os documentos respeitantes à mercadoria. Qualquer pedido para alterar alguma coisa, prolongar prazos, ressalvar qualquer lapso, pedir nomeação de verificadores, etc. era exarado de forma sequencial no despacho e só podia ser assinado pelo próprio despachante oficial.

Mas estavam permanentemente na rua dezenas de ajudantes em várias partes de Lisboa. Era impraticável que sempre que fosse necessário uma rúbrica ele se deslocasse ao sítio ou que o despacho fosse levado ao escritório para ele assinar. A solução: criar uma rúbrica que todos soubessem imitar. E todos os ajudantes assinavam com a rúbrica do sr despachante.

E toda a gente sabia disso. Incluindo os próprios funcionários aduaneiros. Às vezes viam-nos escrever um pedido, sair da sala e voltar em menos de um minuto. Perguntavam:

- Já foste ai escritório para o patrão assinar?

- Não, fui só ali fora. Ele estava ali dentro do carro.

O mesmo acontecia quando o patrão estava de férias. Oficialmente para se ausentar ele teria que pedir primeiro na Alfândega para um dos seus ajudantes o substituir.

Mas ninguém levantava ondas. Os donos das mercadorias queriam era vê-las desalfandegadas mesmo que isso lhes custasse um pouco mais. Então era usual nós darmos 5$00 por cada intervenção de cada funcionário em cada despacho. Havia por exemplo um cuja missão era numerar os despachos. Com um carimbo de metal redondo a que regulava a data, com um cabo alto de madeira de onde saía um botão que ao ser pressionado mudava o número, ia molhando numa almofada e pumba… pumba… pumba… ia martelando em todas as páginas e documentos do despacho, pondo em todas o mesmo número. Esse funcionário ia anotando num cartão que tinha no bolso com riscos, o número de despachos que foi numerando de cada um dos despachantes. No fim do dia vinha ter connosco: foram 8. Lá iam 40$00. E muitas vezes deixavam amontoar de propósito, os despachos a numerar.

- ò sr Joaquim tenho aí um despacho há já algum tempo. Tenho muita pressa.

É que passar um despacho do fundo do monte para o cimo contava a dobrar, eram 10$00.

E cada despacho passava por mais de meia dúzia de funcionários, cada um com a sua missão específica.

Entravamos no escritório do Campo das Cebolas às nove horas. Se havia tarefas a fazer, fazíamos. Normalmente já tinha-mos os despachos para esse dia prontos de véspera. Levantávamos o dinheiro necessário na caixa e aí vamos nós, Lisboa fora. A maior parte dos dias nem vínhamos à hora de almoço.

No fim do dia nós fazíamos a conta a todo o dinheiro gasto. Juntávamos as nossas despesas de transporte e outras. Arredondávamos com uns pozinhos para nós e entregávamos os documentos de despesa.

Naquele tempo quase não havia contentores. As mercadorias vinham a granel amontoadas dentro dos porões dos navios. Uma das mercadorias que despachei dezenas de vezes foi amianto. Vinha em sacos às costas dos estivadores do navio para o armazém e eu tinha que estar ao pé deles para ir contando os sacos entrados.

No fim do dia andávamos a passear por cima de pó de amianto. E tínhamos que o varrer.

Por vezes as mercadorias eram especiais e nós pedíamos uma “descarga direta”. As caixas eram descarregadas diretamente para os meios de transporte e seguiam, acompanhadas com um Guarda Fiscal, para casa do cliente. Nós íamos depois às instalações do cliente fazer o “exame prévio”, verificar se estava tudo certo conforme a fatura. Com o despacho pronto tínhamos que levar lá o verificador aduaneiro.

Era assim com as caixas com peças para a Renault na Guarda onde eram montados os R6. Às vezes eram dezenas de vagões carregados. Ou postes para rede elétrica, dada a sua dimensão. Ou a montagem da fábrica completa de produção de gás de cidade, na zona da Matinha (hoje desativada).

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publicado às 10:00



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