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Enfim Lisboa

por António Tavares, em 17.02.17

Enfim Lisboa

Fiz a percurso de Cardigos a Lisboa em cima de uma camioneta da serração de madeiras que vinha trazer tábuas para as obras do metropolitano, em agosto de 1968. A camioneta foi levar a madeira à zona do Intendente. Era aí que havia obras na altura, a céu aberto. Não conhecia Lisboa. Disseram-me apenas para estar às 17 horas nas traseiras do cinema Alvalade.

Vinha para me apresentar no escritório de um despachante aduaneiro na esperança de conseguir o meu primeiro emprego.

A minha mãe tinha um primo, o Manuel Valente, conhecido como o Manuel de Moura. A mãe dele era da Roda, o pai era de Moura e foi em Moura que ele cresceu. Ligado à igreja católica, frequentador dos cursos de cristandade para leigos, foi lá que travou conhecimento com o sr visconde.

Figura da sociedade, despachante oficial na alfândega de Lisboa, ligado à opus dei, com escritório no Campo das Cebolas em Lisboa. Acabou por levar o primo Manuel de Moura para seu braço direito.

A pedido da minha mãe, porque tinha vindo do seminário, o primo Manuel de Moura acedeu a que fosse lá ao escritório naquele dia de agosto, para ser apresentado ao patrão.

Lá fui. Vestido de fato e gravata. Aprumadinho. Um pouco cansado e sujo da viagem em cima da camioneta. Fui recebido pela secretária, a dona Julieta. Gostou de mim. Da receção do sr engº não me lembro. Sempre o achei demasiado distante. Da dona Julieta sim. Gostou de mim. Fiz por isso. Bem comportado, educado, ex-seminarista. Tudo o que essa gente aprovava.

Costumo dizer que não desejo a morte a ninguém e que não seria capaz de fazer mal a alguém. Mas há duas pessoas no mundo a quem, se pudesse, seria capaz de fazer mal. Uma é essa tal Julieta. Não sei é morta ou viva, mas que seria capaz de lhe dar uns valentes tabefes, é verdade. Um dia conto-vos.

Mas bom, gostaram de mim. Mandaram-me apresentar no dia 1 de Outubro seguinte para iniciar funções de Praticante de Despachante. Porque ainda não tinha 18 anos. Só em Janeiro seguinte poderia tirar a cédula de Ajudante, já com 18 anos.

Os despachantes eram profissões liberais, tipo advogados. Obedeciam a normas muito rígidas. Eram admitidos por concursos feitos pela Alfândega. Tinham por missão servir de intermediários entre os importadores/exportadores e a alfândega. Inspecionavam as mercadorias, faziam as contas aos direitos aduaneiros, recolhiam os impostos e entregavam-nos ao estado. Movimentavam milhões. Podiam fazer-se representar por ajudantes de despachantes (que tinham que ter 18 anos e o 2º ciclo – 5º ano) ou por praticantes de despachante (menos de 18 anos e apenas o 1º ciclo – 2º ano).

Antes das 17 horas lá estava eu Alvalade, no local combinado. Regressei a Cardigos na mesma camioneta. Mas desta vez na cabine. Uma das pessoas que tinha vindo na cabine ficou em Lisboa. De regresso atravessamos a lezíria da Chamusca por dentro das hortas, junto ao rio Tejo. É o percurso que se fazia para comprar melões e melancias. O motorista levava instruções para no regresso levar um carregamento.

Em Outubro lá me apresentei. Ordenado de 1.500$00. Um dinheirão. Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida. Era das profissões mais bem pagas. Fui hospedar-me numa pensão na rua de Sta Marta, onde também residia um outro primo da minha mãe, que por acaso também abandonara o seminário.

Sou da opinião que se deve mudar várias vezes de emprego para não ganhar vícios, para recolher novas experiências. Foi o que fiz algumas vezes. Já por minha conta e risco. Este foi o único emprego que me arranjaram através de cunha.

Mas … enfim Lisboa

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publicado às 10:12



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