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Infância dificil

por António Tavares, em 14.03.17

Infância difícil

Sei que fui uma criança difícil. Sei que dei muito trabalho aos meus pais. Teria sido aquilo que hoje se chama de criança superativa.

Sempre quis fazer coisas, copiar e reproduzir brincadeiras.

O Carlos (filho do meu padrinho) recebia regularmente presentes caros dos tios ricos. Eu também queria. Ele recebeu um triciclo. Nunca mo emprestou. Decidi construir um carro a pedais.

Já tinha feito vários carros. 3 tábuas, 4 rodas cortadas de toros de madeira, pregos e estava feito. O meu pai fartava-se de ralhar porque lhe fazia desaparecer os pregos todos. Para não o ouvir ralhar arrancava pregos de tábuas velhas, endireitava-os e usava-os. Desta vez decidi substituir a tábua da frente por um ferro dobrado de maneira a poder ser pedalado. A dificuldade consistia em ligar esse ferro às rodas feitas de toros de madeira. Nunca funcionou. Tinha 9 anos.

Brincar com uma aduela de barril empurrada por em ferro curvado era a maior brincadeira que conseguíamos. Mas as aduelas eram curvas para um dos lados. Logo nunca andavam a direito. Um dia encontro um aro feito de ferro redondinho. Suprema felicidade. Era mesmo o que queria. Para que ninguém brincasse com ele nunca o levei para casa. Deixava-o escondido no mato. Ia para lá brincar e depois deixava-o lá. Um dia o aro embala encosta a baixo, galga matos e moitas, corro atrás dele mas não o apanho. Todos os anos quando voltava ao Casalinho lá ia eu percorrer a encosta a ver se o encontrava. Entretanto o mato foi roçado várias vezes. Alguém o deve ter encontrado.

Quando ia pastar as cabras gostava de levar comigo uma enxada e um canivete. Enquanto elas pastavam eu abria caminhos e estradas pelos matos. Quando voltava mais tarde limpava-os novamente e prolongava-os. Simulava curvas e descidas inclinadas. Não tinha carros para passar por elas. Passava eu.

Construía carros e barcos cortando com o canivete as carrascas de pinheiros. Viajava com eles em sonhos.

Normalmente levava para almoçar uma morcela ou farinheira e um naco de pão. Levava fósforos. Acendia uma fogueira entre duas pedras. Assava os enchidos espetados num pau.

Os fósforos deram-me ideia de construir bombas. Passei a levar também um prego. Com ele abria um buraco num tronco seco de oliveira. Descobri que era a madeira mais rija disponível. Logo o estampido deveria ser maior. Enchia o buraco com cabeças de fósforo. Empurrava o prego contra elas e dava uma martelada com uma pedra. Pum … Depois do estrondo punha-me à escuta a ver se aparecia alguém. O meu pai dizia que a GNR andava por ali às vezes.

Quando saía com as cabras para os lados da Cardosa, assim que atravessava a estrada de Cardigos elas já sabiam que iam para o Vergancinho. Largavam-se a correr que nem doidas e só paravam em cimo do morro das heras. Tratava-se de um morro de pedras construído para proteger uma horta e um pomar das eventuais inundações do ribeiro. Para proteger o morro plantaram heras que tomaram conta do morro todo. Para elas era um banquete.

Enquanto comiam sossegadas eu brincava. Descobri por perto um poço abandonado entre silvas. Pensei que estaria mesmo abandonado. À volta do poço estavam, amontoadas, as pedras que foram arrancadas de dentro dele. O que me havia de lembrar: empurra-las de volta para o poço. Adorava vê-las a rolar e catrapumba … ouvi-las cair dentro do poço.

Claro que descobriram que fui eu. O meu pai viu-se obrigado e esvaziar o poço para as retirar. E voltei a fazer o mesmo a um poço do meu padrinho, mesmo perto do Casalinho.

Aos 5 anos, a minha mãe tinha 3 filhos mais novos para criar (Mário e os gémeos Isaura e Abílio) pelo que fui entregue aos meus avós paternos, na Chaveira. Distava 4 ou 5 quilómetro do Casalinho. Por lá me mantive contrariado. Não tinha com quem brincar nem com o que brincar.

Roubei-lhes um canivete para me distrair. Escondi-o num buraco entre duas pedras do palheiro. Apanhei até contar onde estava. Ficava horas debaixo das escadas da casa em frente. Era como se fosse o meu abrigo. A casa estava abandonada e ali os avós viam-me sempre que chegassem à janela. E ainda gostava mais quando chovia. Brincava apenas com os sonhos.

Estava proibido da sair do pé da casa. Muito menos ir para o pé do sapateiro que cozia solas na rua de baixo. Que era para onde gostava de ir ver o homem a espetar a sovela e puxar o fio.

Quando o meu avô dava pela minha falta já sabia onde eu estava. Vinha-se por na curva da rua com o cinto na mão. Na parte de fora da curva. Eu corria para casa e para encurtar caminho cortava a curva por dentro pensando que ele não me apanhava. Apanhava sempre com o cinto.

Fugi várias vezes para casa dos meus pais. Para encurtar caminho, porque a estrada dava muitas curtas, seguia pelas veredas dos montes. Voltavam a levar-me lá.

Certo dia já o sol se estava a por no horizonte e eu a chegar topo do último monte de onde se via já o Casalinho. Vejo uns joelhos no meio das moitas, mesmo ao lado da vereda. Alguém estava ali deitado. Paro. Pensei: o que fazer? Já estava longe demais para voltar para trás. Já via as casas do Casalinho. Seguir? E se ele acorda? Veem-me à memória as descrições dos lobisomens que se espojavam nas noites de lua cheia nos cruzamentos dos caminhos.

Segui, pé ante pé, sem fazer barulho. Passei por ele sem o olhar e corri… corri… até cair extenuado à porta de casa. Nem consegui explicar o que se passou. Desta vez não fui levado de volta.

Passei a ir com o meu pai para as obras, sempre que ele andava por perto.

Arco.jpg

Então não é que vou encontrar em 2017, à venda numa loja chinesa em Ponta Delgada, um aro de brincar, em ferro, precisamente igual ao que havia há mais de 50 anos!

Estive quase para o comprar.

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publicado às 10:26



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