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Inspecção para a tropa

por António Tavares, em 07.04.17

Inspecção militar

Estava eu já em Lisboa a trabalhar quando o patrão me pediu para entregar o certificado de habilitações do liceu, para poder tirar a cédula de Ajudante de Despachante. Não tinha. Tinha feito os exames no liceu de Leiria mas nunca me tinha passado pela cabeça pedir o certificado.

Nesse ano de 1968 (ano da minha maioridade – 18 anos) tinha arranjado o primeiro emprego e a minha mãe tinha dado o meu nome para a tropa.

Tive que pedir um dia no trabalho para me deslocar a Leiria para pedir o certificado do 5º ano. Apanhei o comboio da linha do Oeste na estação do Rossio e aí vou eu. Cheguei a Leiria já passava das 11 horas. Entre descobrir como chegar ao liceu, andar a pé e apanhar a carreira, cheguei mesmo a tempo antes de fechar para o almoço.

Entreguei o requerimento, paguei e dizem-me assim:

- Agora venha cá daqui a 8 dias buscar o certificado.

Passei-me. Fiz uma birra daquelas. Exigi falar com o director. Recusei-me a abandonar as instalações.

- Oiçam: peço um dia no trabalho em Lisboa, chego aqui a estas horas e ainda me exigem que tenha que pedir novo dia de folga para a semana que vem para cá vir buscar o certificado? Ainda por cima eu sem ele não posso trabalhar porque não me dão a cédula profissional! Não saio daqui  sem levar o certificado.

Sentei-me nas escadas. Quando o director ia a sair para almoçar disse-me:

- Vá lá almoçar e passe às 3 horas para buscar o certificado.

Vitória! Mesmo assim foi à justa que apanhei o último comboio para Lisboa.

Dois anos depois fui chamado para a inspecção militar. Lá tive que pedir um novo dia de folga para ir à inspecção em Abrantes.

Lembro-me dos meus tempos de primária quando os mancebos chegavam a Cardigos em grupos vindos da inspecção militar: os que ficavam apurados compravam um foguete e lançavam-no na praça pública. Toda a gente tinha que ficar a saber da sua saúde e vigor físico. Mesmo sabendo que era a porta aberta para ir parar com os costadas à guerra de África. Os que ficavam excluídos vinham tristes e acabrunhados. Triste ironia.

No meu caso fui sozinho de comboio. Claro que fiquei apurado e só me ficou a recordação do almoço numa tasca do Rossio ao Sul do Tejo: peixinhos do rio fritos com arroz.

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publicado às 10:18



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