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Melancias na praia

por António Tavares, em 02.03.17

De Lisboa a Porto Amélia

Melancias na praia

A nossa companhia foi das primeiras privilegiadas a fazer a viagem para África num dos Boing 707 brancos da Força Aérea. E eram giros esses aviões. Decorados interiormente com imagens de África (gazelas e outros animais) nas paredes. Constou-se uma vez que os militares de uma companhia de comandos, apanhados pela adrenalina do regresso, trataram tão mal (rasgos e riscos) o interior de um dos aviões, que na paragem técnica em Luanda foram enviados novamente para o mato e ficaram em Angola mais uns largos meses.

Os aviões estavam preparados para levarem, cada um, uma companhia completa, cerca de 300 homens. A viagem de Lisboa a Luanda levou 12 horas e de Luanda à cidade da Beira levou mais umas 6 horas.

Fizemos escala de alguns dias na cidade da Beira onde aguardámos a ida para Porto Amélia nos aviões mais pequenos da DETA (companhia moçambicana).

Os oficiais milicianos eram recebidos na Beira por uma autêntica comissão de honra, que nas primeiras noites faziam um tirocínio pelos circuitos paralelos aos da comunicação oficial.

Eram outros oficiais milicianos mais antigos, que estavam colocados na cidade ou aí esperavam voo de regresso, talvez já imbuídos do espírito da revolução que veio a acontecer em 1974. Fomos levados a percorrer os bares da zona do porto, bares de má fama e não só.

Fomos levados a ver o célebre Mira-mortos. Um prédio de vários andares, largo, com um átrio no interior. Os vários apartamentos abriam-se internamente para uma varanda que percorria cada andar de um lado ao outro. Era habitado maioritariamente por prostitutas, cujo estatuto ia subindo consoante se subia na escala dos andares. Das negras nos primeiros, mulatas, indianas e sucessivamente até brancas nos andares superiores. E o nome advinha de o edifício estar paredes meias com o muro do cemitério.

Todos passavam por uma ensaboadela a ouvir o cancioneiro do Niassa e beber umas bazucas. Era uma autêntica lavagem ao cérebro. Percebi mais tarde que toda esta encenação não era gratuita. Era a estrutura clandestina a formatar a mente dos alferes checas.

A erva lá na picada

Pisam-na os guerrilheiros

O coração do soldado

Pisam-no os coronéis

E ajudam os machambeiros

O cancioneiro do Niassa foi gravado no início dos anos 70 por um grupo de milicianos com jeito para tocar viola e adaptar as músicas populares a canções revolucionárias. Entre eles João Maria Pinto e o seu irmão Manuel Carlos. Muitas vezes cantado em tertúlias, muitas vezes reproduzido em cassetes. Sempre quis ter uma cópia. Só em 1999 (25 anos do 25 de Abril e 25 anos da ADFA (Associação de Deficientes das Formas Armadas) foi possível a publicação de um CD com o nome de “Canções Proibidas”. A ADFA tinha feito em pedido o João Maria Pinto. Este conheceu Laurent Filipe (produtor), a Valentim de Carvalho disponibilizou os meios técnicos e o CD aí está.

Todos os milicianos tinham que o ouvir, na primeira tertúlia a que estivessem presentes, mal chegassem a terras moçambicanas.

Tudo o que reproduzi até este momento, relativamente ao Cancioneiro do Niassa, fi-lo reproduzindo diretamente da minha memória. Agora, que encontrei o CD que julgava perdido, vou citá-lo mais vezes.

Machambeiros eram os grandes latifundiários, cujo expoente máximo era o engº Jorge Jardim (patriarca da família Jardim – Cinha Jardim e companhia). Aliás havia um certo mal-estar desta gente contra os militares vindos da metrópole. À volta do Engº Jardim pululava um conjunto de empresários que até tinham relacionamentos com a Frelimo e tentavam que Salazar os autorizasse a promover uma autonomia limitada para Moçambique, sobe a sua égide.

Salazar nunca autorizou. E após a independência o sr engº Jardim refugiou-se no Malawi, a partir de onde moveu as suas influências no sentido de tomar o poder em Moçambique. O que nunca conseguiu.

A cidade da Beira era uma metrópole com muita vida. Ali desembocava o caminho-de-ferro da Beira que trazia as riquezas do interior de África (Rodésia), o carvão moçambicano retirado em Moatize em minas a céu aberto (ainda hoje) e o chá do Gurué. Foi onde vi pela primeira vez prédios com mais de 10 andares. A própria arquitetura era algo diferente e com linhas mais modernas. Veja-se o exemplo da estação do caminho-de-ferro ou o museu etnográfico.

Passados uns dias lá fomos nós de novo de avião até Porto Amélia, a cidade grande mais ao norte de Moçambique.

Acantonados os soldados, logo arranjamos companhia para passeios à noite até ao cais. Aqui a emoção era muito menor. No dia seguinte fomos até à praia. Espanto dos espantos. Havia melancias a crescer pela areia da praia fora. Com frutos e tudo. E podiam-se apanhar e comer. A explicação? Como a melancia é um fruto fresco era usual as pessoas levarem-nas para a praia e deitar os restos (sementes incluídas) na areia.

Passados quinze dias aí estavam as novas melancias prontas a comer.

Beira.jpg

Cidade da Beira: Museu etnogáfico, uma das ruas dos bares na zona do cais, estação ferroviária, cemitério (visto do cimo do prédio Mira-Mortos)

Mira Mortos.jpg

 Interior do prédio Mira-Mortes (Beira)

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publicado às 11:12



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