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Não quero ser vegeral

por António Tavares, em 11.09.17

Não quero ser vegetal

Depois de casado sempre vivi em comunhão com os meus sogros. Sem eles não teria nada do que que hoje tenho. Habituado a um certo nível de vida, cedo percebi que não o poderia manter sem a ajuda deles.

Quando o Bruno era pequeno fizemos imensos passeios no Fiat ou no Ford Cortina. Íamos com frequência a uma quinta nas Cardosas (Arruda dos Vinhos) cujo caseiro era cliente deles. A quinta era muito antiga, tinha pertencido ao Intendente Pina Manique. Ninguém lá morava. Tinha capela e tudo. O caseiro era o guardião. Varejava a fruta para alimentar as cabras. Trazíamos sempre o porta-bagagens cheio de peros e maçãs. Porque diziam que os cornos dão sorte, ele cortou os 2 cornos a um borrego e deu-nos. Ainda hoje nos acompanham.

Mesmo quando morávamos em Odivelas, passávamos muito tempo juntos. No natal fazíamos um presépio grande com fonte, cascata de água e moinho. Mesmo em cima de alcatifa. O Bruno não ligava muito, nem às prendes. Depois de as desembrulhar todas ia buscar 2 tampas de tachos da cozinha e aparecia ao pé nós a bater com elas.

Naquele tempo era usual ter as casas alcatifadas e as paredes revestidas a papel. E papel de veludo. Bom para acumular pó. O Bruno sofria de bronquite. Tomou vacinas semanais importadas de Barcelona até aos 13 anos. Quando era pequeno e já dormia no quarto dele, levantei-me muitas noites mal o ouvia começar a tossir, para pegar nele. Chegados ao átrio era certo e sabido que ia vomitar tudo em cima da alcatifa. Lavei muitas vezes a alcatifa à 1 ou 2 da manhã. A solução acabou por ser eu dormir sentado com ele ao colo para ele encostar a cabeça no meu ombro. E depois eu ia trabalhar e depois eu ia para a faculdade e depois eu ia fazer reuniões de trabalho com os colegas da faculdade e depois a Fernanda não queria que eu fosse para casa deles (preferia fazer o almoço em nossa casa para todos). Eles também se chateavam de vir sempre para nossa casa…

A Fernanda vinha com o Bruno na carreira à quarta-feira para almoçarmos todos em Lisboa em casa dos avós. Depois passamos mesmo a dormir lá em casa. Quando terminámos a Casa da Praia começamos a quase não ir a Odivelas. Estávamos de semana em casa dos pais da Fernanda e ao fim de semana íamos para a Ericeira.

Entretanto nasceu o Tiago. Não tínhamos condições de morar mais em casa os meus sogros. O meu sogro decidiu vender a casa de Odivelas e comprou uma (velhinha) na Rua da Graça. Ainda hoje o Tiago lá vive com a Diana.

Para poder manter o nível de vida que levávamos fui sempre dizendo à Fernanda que me queria reformar cedo. Podíamos dar continuidade ao negócio dos avós e ficávamos com algum tempo mais para aproveitar a Casa da Paria.

Eles vendiam fardamentos e artigos militares em feiras. Por fim apenas na feira da Ladra. A partir de certa altura a saúde deles já não permitia que fizessem a feira, sozinhos. Eu ia (já lá vão muitos anos quando isto começou) às terças e aos sábados, às cinco horas da manhã, ajudar a montar a barraca e depois ao fim do dia ia ajudar a levantar. Depois a Fernanda passou a ir ajudar a fazer a venda aos sábados. Depois passamos nós a ir para a feira apenas os dois.

Ficámos com o armazém que o meu sogro tinha no Beco dos Lóios, que eu tentei “transformar” em loja e onde eu estava nos dias em que não havia Feira da Ladra. Mas como o sítio é muito escondido, cedo percebi que não servia para o efeito. Decidimos então abrir a Loja Promagala na Rua da Verónica. E quando a senhoria do armazém quis aumentar muito a renda, entregámo-lo.

Acompanhei a vida dos meus sogros muito de perto. Foram muito mais que pais, para mim. O meu sogro tinha uma religiosidade muito própria. Não frequentava a igreja mas acreditava que algo nos governava. Quando a Fernanda partiu a perna ofereceu o peso dela em trigo à N. Srª do Socorro (Enxara dos Cavaleiros, perto da terra dele: Milharado). Ainda lá fui com ele entregar o saco de trigo.

Acreditava no além e não queria, por nada ir para debaixo da terra. Construiu no cemitério do Milharado um jazigo para a família. Oito assoalhadas. Queria garantir lugar para todos até aos netos e suas companheiras. Está lá ele e sua esposa.

Depois de ele falecer a D Palmira veio viver para nossa casa. Como era relativamente saudável e trabalhadora, ainda nos foi muito útil antes da doença a deitar abaixo. Levantava-se noite. Um dia partiu a cabeça ao cair da cama. Fomos obrigados a dormir (eu e a Fernanda) aos bocados num cadeirão ao lado dela, para a segurar. Teve uma embolia pulmonar. Esteve internada na CUF quase 15 dias entre a vida e a morte. Durou mais uns 10 anos.

Eu ia para a loja. Aos sábados e terças-feiras ia para a Feira da Ladra. Por fim já não conseguimos ninguém que ficasse em casa com ela. Eu tinha que estar em casa de manhã, ao meio dia e à noite, para a levantar, sentar na cadeira e ajudar a Fernanda na higiene e na alimentação. Nos últimos cinco anos esteve como um vegetal. Sem falar e sem qualquer reacção.

Entretanto, fui um dia buscar o Torpes a casa dele, como de costume, para passar a tarde connosco na loja. Deu-me um esticão, caí pelas escadas abaixo, parti um pulso e úmero em 3 sítios. Fui operado na CUF. Puseram-me ferros pelo braço abaixo e 8 parafusos. Fiquei com os movimentos do braço reduzidos. Estive mais de 3 meses sem ir para a Feira da Ladra. O fiscal insistia que ou eu ia ou desistia. Os outros feirantes reclamavam.

Fiz contas e desisti.

A Fernanda bem ralhou comigo. Que podia continuar a fazer a feira. Mas como, se eu tinha que ir a casa ao almoço para levantar a avó e ajudar? Que na feira é que se ganhava dinheiro!

Passados 2 ou 3 meses de eu desistir da Feira da Ladra a avó chegou ao fim dos seus dias. Aguentou até aos 100 anos, 1 mês e 1 dia. E no dia em que faleceu ainda tomou o pequeno-almoço. Lá está, a ocupar o seu espaço, ao lado do Sr Gervásio no jazigo do cemitério do Milharado.

Pois eu espero não dar trabalho a ninguém. Fica aqui escrito: não quer viver vegetal. Se estivar ligado a uma máquina quero que a desliguem. Quero ser cremado. Quero que as minhas cinzas voem com o vento… se possível por cima do mar da Ericeira.

Torpes.jpg

Torpes Freud

É este o malandro do cão, açoreano de uma figa, que me puxou por umas escadas abaixo e me partiu um braço em 4 pedaços...

Mas está desculpado.

 

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publicado às 15:44



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