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Nampula

por António Tavares, em 23.02.17

Nampula

Nampula era uma cidade elegante. Largas avenidas duplas. Faixas centrais arborizadas. Muitas flores. Grande dinâmica comercial. Soldados a passear por todas as ruas a todas as horas. Todas as pessoas possuíam carros. A maioria dos carros eram Volkswagen porque eram resistentes e não era preciso meter água e Mercedes porque davam status.

Foi lá que também comecei a ver dois carros estranhos que não conhecia Colt e Galant. Só muito mais tarde, já na metrópole, quando foi introduzida no mercado nacional a marca Mitsubishi é que descobri que aqueles eram modelos daquela marca.

Apercebi-me de designações que só lá faziam sentido: flat (para designar apartamento) e turismo (para designar automóvel de passeio, carro de turismo). Influência inglesa bem vincada na condução pela esquerda, tal como nos países vizinhos, Rodésia e África do Sul.

Nos primeiros dias que passei na cidade apenas tinha que me apresentar de manhã ao dito Major da 3ª repartição do QG para saber se já havia colocação para mim. Depois saía. Entretinha-me a passear pelas ruas. Queria ver tudo. Por vezes aventurava-me mesmo pelas picadas fora da cidade. Às vezes com receio.

Num desses passeios, num domingo de manhã, dei de caras com uma rapariga mulata, bem gira. Agarrou-me no braço, inquiriu sobre a minha situação, disse que podíamos ser amigos. Estava alertado para este tipo de pressões. Dei meia volta e começo a regressar para a cidade. Ainda me seguiu agarrada ao meu braço uns largos metros, até que desistiu.

Logo a seguir vejo à minha frente um pretito com um abacaxi enorme a dirigir-se também para a cidade.

- Vais levar para vender?

- Sim

- Queres cinco escudos por ele?

- Quer … quer …

Até parece que ficou contente ou que achou muito a oferta. Lá comi eu abacaxi (e bem maduro e doce) durante alguns dias.

Nampula está num planalto rodeado de morros por todo o lado. Morros não são mais que afloramentos rochosos saídos da terra plana. Alguns com formas características, outros com aparências de coisas que as pessoas imaginam ver neles. Como o morro da preta que podia ser observado de dentro do quartel onde trabalhava.

Como tinha ficado sem fardas e sem botas, fui obrigado a comprar aos poucos o que me faltava. Um dia vinha a sair do Casão Militar com meia dúzia de peças que comprara e ao transpor a porta para a rua fui agarrado pelo braço por um Major que me obrigou a entrar para o seu jipe. Levou-me para o seu gabinete, sentou-se na secretária e mandou-me por em sentido à sua frente.

- Vocês, rapazes novos não se sabem comportar. Não têm aprumo militar. Não sabe que tem que andar aprumado e bem fardado? Onde está a sua boina?

- Ò meu Major, está dentro deste saco. Estava a acabar de a comprar.

Depois de lhe contar as minhas peripécias, mandou-me embora. Ainda teria que me voltar a cruzar com ele várias vezes até ao fim da minha comissão em Nampula. Ele tinha por hábito percorrer os corredores do Casão Militar e espiar os oficiais que faziam compras. Quando via um sem boina esperava-o à saída. E lá ia ele ouvir o sermão do bom comportamento. Ele garantia a toda a gente que havia de pôr os militares de Nampula na ordem.

Um certo dia, no seu gabinete de trabalho, estava na sua frente um Alferes ouvindo o mesmo sermão. O sr Major fita-o com espanto nos pés. Tinha meias encarnadas.

- Maricas…

Retorquiu exasperado. E apontando-lhe o dedo com recriminação:

- Ponha-se daqui para fora. Nunca mais o quero ver.

Um belo dia aparece-me um Alferes a perguntar se eu já estava colocado. Disse-lhe que não.

- Não queres ficar no meu lugar?

Sem saber que lugar era, disse que sim. Preferia antes ter uma ocupação do que continuar a divagar pelas avenidas de Nampula. Trata-se de um Alferes natural de Lourenço Marques que aguardava há muito tempo resposta a um pedido de transferência, para poder estar mais perto de casa. Mandaram-no aguardar até haver alguém que o substituísse.

No dia seguinte fomos os 2 ao Major da 3ª repartição do QG e ele aceitou a minha colocação no seu lugar.

Passados dois dias lá fui eu assumir as minhas funções para o resto da comissão, o comando na Secção de Viaturas da Companhia de Comando e Serviços do Quartel General da Região Militar de Moçambique (SV/CCS/QG/RMM).

Que nome pomposo…

Nampula flores.jpg

Faixa central de uma avenida de Nampula

Morro estrada Nacala.jpg

Morro na estrada de Nampula para Nacala. Fotografia tirada da janela do jeep ao meu serviço.

Morro da preta.jpg

Morro da preta visto da parada do quartel onde estava colocado

 

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publicado às 11:18



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