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O regresso

por António Tavares, em 16.08.17

O regresso

A minha partida para África não foi da maneira mais comumente publicitada: de barco, milhares de familiares no cais acenando com lenços brancos… não. Saímos de Torres Novas em camiões directamente para o aeroporto militar de Figo Maduro (Portela). Ninguém a despedir-se de nós. Num fim de tarde de Abril de 1972. Num dos 2 Boing 707 brancos da Força Aérea.

Como em Moçambique me separei da minha companhia, acabei por vir de regresso naquilo que se chamava “rendição individual”. Como vinha sozinho (não integrado em nenhuma companhia) o exército não providenciava o meu transporte para além do aeroporto de Lisboa.

Sabendo disso escrevi para os meus irmãos em Queluz avisando da minha chegada. 25 de Maio de 1974. Esperava que me viessem buscar.

Tal como na partida, não havia barco nem familiares no cais acenando. Aterramos na Portela pelas 3 horas da manhã. Ao fim de 2 anos de ausência ninguém me esperava. Vi-me sozinho, com uma mala de mão em pleno aeroporto militar de Figo Maduro. Sem uma única moeda no bolso. Solução? Peguei um táxi e disse ao motorista que acabava de chegar de Moçambique, não tinha dinheiro, que me levasse a Queluz, que algum dos meus irmãos teria dinheiro para lhe pagar. Assim foi.

Recebido sem euforia. Como se fosse um estranho.

Os dias seguintes foram passados a tratar das burocracias: apresentação no quartel de Adidos na Ajuda para receber a carta de passagem à disponibilidade e ida aos serviços financeiros do exército levantar os tais cento e tal contos do sargento. Depositei-os na conta dele no Totta e retive os meus 10%. Foi este o primeiro dinheiro que tive depois de 3 anos de tropa como oficial miliciano, posto este que muito me custou a conseguir, ajudado apenas por quem não me era nada, eram apenas meus amigos.

E ir ter com a Fernanda…

Apresentei-me uns dias depois no escritório do despachante. Podia ter gozado um mês de férias mas não quis. Para quê ir de férias? Disse que precisava de trabalhar já, porque não tinha dinheiro. Concordaram em que começasse de imediato, pois até começava a haver mais movimento no cais com a previsão de chegada dos retornados. E até me deram um ordenado a mais (relativo ao mês de férias que não gozei). Os mesmos 5 contos por mês que já ganhava dois anos antes, antes de ir para a tropa.

Os tempos seguintes foram vividos na euforia do pós 25 de Abril. As barricadas, o PREC, os SUV (Soldados Unidos Vencerão), da reforma agrária, das nacionalizações. De vez em quando aviões e helicópteros no ar. O sr despachante tinha arranjado uma sala para o seu tio trabalhar. Havia sido saneado do SNI (Secretariado Nacional de Informação = propaganda). Numa certa segunda-feira fomos surpreendidos pela entrada dos fuzileiros. Vieram prendê-lo.

Trabalhavam no escritório mais de 80 pessoas. Fez-se uma RGT (reunião geral de trabalhadores), foi eleita uma CT (comissão de trabalhadores), o Manel Lopes ficou como presidente, foi eleita uma Comissão de Gestão, conseguimos que o primo Manel de Moura ficasse do nosso lado. Ele era o mais antigo, amigo e braço direito do patrão, seu comparsa na Opus Dei e nos Cursos de Cristandade.

Os familiares diretos do patrão (filhas e genros) fugiram para o Canadá. Dizia-se que levavam nos caixotes que despachámos no cais, as baixelas e as pratas.

Quando, passados os tempos do PREC, tudo voltou ao normal, o patrão não mais perdoou ao primo Manel de Moura a traição de se ter posto do nosso lado.

Passamos a controlar as contas. Havia muito dinheiro disponível. Foi decidido fazer-se todos os anos a distribuição de lucros igualitária (igual para todos), foi decidido um aumento extraordinário de ordenado. Eu passei de 5.000$00 para 12.500$00. E com retroactivos desde o dia do meu regresso. O suficiente para comprar o meu primeiro carro, um Fiat 128. E a pronto. Logo no dia a seguir a ter recebido o dinheiro, entrei no stand da Fiat na Rua de Santa Marta (mesmo ao lado da pensão onde morava) e comprei o único quer estava disponível: verde.

Já na altura o seguro era obrigatório. Não tinha dinheiro para ele. Escrevi uma carta à minha mãe a contar que precisava de pagar o seguro do carro, para que me mandasse algum do que tinham recebido do meu ordenado durante 2 anos.

Mandou qualquer coisa que nem para metade do seguro chegava. Que tinha sido gasto com este e com aquele e com aquela (meus irmãos). Que mandava o que podia. Ainda hoje eles não percebem que estiveram a gastar durante 2 anos parte do meu ordenado. Sempre pensaram lá em casa que aquele dinheiro era uma compensação do Estado por eu estar na guerra.

Quem me ajudou a pagar o resto do seguro foi o meu futuro sogro (Sr Gervásio Cardoso) a pedido da minha namorada, Fernanda.

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publicado às 15:01



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