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Quinta das Camélias

por António Tavares, em 28.02.17

Quinta das Camélias

A vida no seminário de Vila Nova de Poiares nunca foi muito difícil. Não de lembro de violentações ou castigos. Vivia-se a rotina do dia-a-dia.

Trazia da casa dos meus pais a aversão a leite e queijo. E o pequeno-almoço era sempre café com leite. Bebia com repulsa, mas bebia. O pior era quando as natas do leite vinham coalhadas por cima. Por vezes eram tantas que tinha que soprar para ir bebendo aos golos. A maior parte das vezes não bebia, tantos eram os vómitos. Dentro do pão vinha normalmente marmelada. Isso comia. Quando era queijo comia só o pão.

A Quinta das Camélias prolongava-se para o outro lado da estrada nacional nº 2. Havia um grande pinhal onde foi feito um terrapleno que nos servia de campo de jogos e de ginástica. Formávamos equipas e fazíamos torneios entre nós.

Sentavamo-nos debaixo dos pinheiros a ler ou ouvir transístor. Foi aí que ouvimos o Benfica ser campeão europeu em 1962.

Havia um rapaz mais velho, com ar mais girinho de quem todos gostavam de ser amigos. Normalmente sentavamo-nos todos à volta dele para o ouvir ler ou contar histórias. De afeições mais íntimas de que tanto se tem falado em tempos mais recentes, nunca se me constou nada.

As aulas versavam sobre as disciplinas normais do liceu, sobre religião, sobre bons comportamentos e mais nada. Os padres deram a cada um de nós um livrinho de boas maneiras. Aí se ensinava como colocar os talheres na mesa, como se deixavam postos depois de comer e como se comia a sopa inclinando o prato para a frente e não para o nosso lado. Rezava-se muito. Havia missa diária.

Participava-mos nas tarefas diárias de limpeza. Da apanha dos frutos da horta. Todos os dias um grupo tinha que ir para as cozinhas antes do almoço ajudar as cozinheiras a limpar as batatas. Havia uma máquina grande, tipo máquina de lavar com tambor, onde elas eram colocadas. Ao girar a pele das batatas ia sendo cortada. Ficavam redondinhas. Mas nas zonas curvas e com olhos era preciso tirar a pele que aí ficava.

Havia um padre italiano que tinha a missão de confessor. A quem nos podíamos dirigir para falar. Nunca lá fui. Mas uma vez ele chamou-me ao seu gabinete. Tinha 12 anos. Da conversa que tivemos apenas retive uma pergunta que me fez: sabes onde fica o sexo? Não percebi a pergunta. Ri-me para ele sem lhe dizer nada, sem saber o que responder e apontei para a testa. Lembro-me de ter pensado em siso, juízo. E por isso lhe apontei para a testa. Não sei se ele pensou que estava a gozar com ele. Porque sexo não sabia o que era. Mandou-me embora sem me dizer mais nada.

Mas ficaram na memória os longos passeios que dávamos, a maioria a pé, outros de autocarro.

Íamos com frequência até Penacova ao longo da EN2. Parávamos na aldeia de Louredo para ver as pessoas às portas das casas a fazer, à mão, os palitos de madeira de choupo. Passávamos o dia a tomar banho no rio Mondego, numa zona de grande areal. Foi aí que aprendi a nadar. Ao longo desta estrada havia árvores esquisitas, muito altas, que tinham vagens muito grandes. Nunca tal tinha visto. Descobri muito mais tarde que eram alfarrobas. A minha mania de dar atenção às árvores…

Por outra vez fomos até Lorvão visitar o mosteiro. Este mosteiro é muito antigo. Era local de isolamento de princesas com desgostos de amor ou com castigos reais. Na altura que lá fomos já era local de isolamento de doentes mentais. A igreja é muito rica em obras de arte. Lembro-me de termos subido ao zimbório e dar a volta por cima de toda a igreja.

Um sítio onde íamos com frequência era o cerro de São Miguel. Uma zona atravessada pela EN17 (estrada das Beiras), que na zona se chamava estrada real e se dirigia de Coimbra para a Serra da Estrela. Nessa zona existem nascentes de água que as pessoas canalizaram pelas ruas fora para irrigar as hortas. Havia um senhor que tinha grandes pomares de maçãs e que após apanhar os melhores frutos para vender oferecia os outros aos padres do seminário. Lá íamos nós ao rabusco. O padre levava numa carrinha os cestos para nós enchermos. Avisavam-nos para não as comermos ali.

Certa vez fomos até à serra do Carvalho, sobranceira ao rio Mondego, ver o local onde embateram 8 aviões da força aérea em simultâneo. No dia 1 de junho de 1955 vinham 12 bombardeiros F84 Thunderjet em formação, de São Jacinto (Aveiro) para a Ota, para comemorar o aniversário da Força Aérea que havia sido criada 3 anos antes. Estava nevoeiro e eles voavam à vista e sem apoios técnicos. Os 4 primeiros conseguiram ultrapassar o cume da serra. Os 8 restantes embateram na serra e morreram todos os pilotos. Conseguimos ver os buracos que cada avião fez na serra. Passados 7 anos ainda por lá se viam porcas e parafusos espalhados pelo chão.

Nestes passeios mais longos um dos padres levava uma carrinha que esperava por nós nos sítios, com sandes e água para o almoço. Nos passeios maiores íamos de autocarro alugado. Lembro-me de ir até à serra da Lousã ver a zona do castelo, a capela da Senhora da Piedade e a praia do rio Arouce e de ir até à serra do Buçaco e subir toda a via-sacra até à cruz alta.

Fomos até às ruinas de Conimbriga. Mas paramos um pouco antes, em Condeixa para visitar um fabricante de mós, em granito, para moinhos. Havia vários na zona. Fiquei curioso porque me lembrava (tinha eu 5 anos) do meu pai ter construído um moinho de água no Casalinho (onde hoje está a barragem do vergancinho) e de ele ter ido muito longe buscar as mós na carroça da mula. Já na altura achava estranho as mós serem feitas de pedra diferente da que havia na zona. Em Condeixa os fabricantes de mós iam escavando o granito em redondo de modo a formar a mó e depois escavam por trás para a soltar. Vimos algumas já meio feitas, ainda agarradas à rocha mãe.

Há poucos anos passamos por Vila Nova de Poiares e entramos na Quinta das Camélias. É hoje um centro social e lar de idosos.

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 Ò pra ele a fingir que é o Cristiano Ronaldo ... em 1962

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 Num dos passeios em Vila Nova de Poiares

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A Quinta das Camélias hoje: lar de idosos

 

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publicado às 18:39



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