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Secção de viaturas do QG

por António Tavares, em 16.03.17

Secção viaturas QG

Depois de receber oficialmente ordens para assumir o comando da Secção de Viaturas da CCS/QG/RMM lá fui eu, com o alferes que ia substituir, assumir o meu novo posto de trabalho durante mais de um ano e meio.

Sentado na secretária ia recebendo instruções. Eram oitenta e tal jeeps, trinta e tal volkswagens, mais de dez mercedes, alguns camiões berliets e mercedes, mais de 100 condutores, uns quinze mecânicos, uma secção de peças, um armazém com todos os acessórios à carga de cada uma destas viaturas, uma oficina mecânica completa, uma ferramentaria, eu sei lá que mais.

Em 2 dias conferi tudo, assinei o auto de posse do cargo e aí estava eu com responsabilidades que nem eu imaginava.

A primeira ação que tomei foi chamar o sargento mecânico.

- Senhor sargento, a guerra é sua, não é minha, você é que é chico (militar de carreira), eu não quero saber disto para nada. Não me arranje é problemas, porque quando chegar a altura quero-me ir embora descansado. Você ponha e disponha. Eu apenas quero mandar no pessoal. Castigos, promoções, mudanças, etc. isso é comigo. Do resto não quero saber.

- Ainda bem que você me diz isso, meu alferes. Sabe, nós às vezes fazemos aqui umas coisinhas…

- Não quero saber.

Foi um resto de comissão impecável. O sargento era mecânico de formação, tomava conta da oficina, das peças e da ferramentaria. Eu tomava conta do pessoal e da atribuição de viaturas aos diversos serviços.

Para mim reservei o melhor dos jeeps e o condutor mais fiel. Entre o apartamento onde morava, a messe de oficiais onde tomava o pequeno-almoço, e o meu local de trabalho, se fosse a pé não demorava mais de 10 minutos. Mas tinha o meu jeep e o condutor de serviço para me conduzir. Era um senhor.

O meu chofer era filho de machambeiros locais com produções agrícolas importantes na zona de Muecate, a cerca de 100 quilómetros de Nampula e fornecedores do exército. Sempre o protegi e nunca permiti que ele fosse transferido para zonas perigosas. Para me compensar trouxe-me uma vez um cacho de bananas tão grande que foram precisos vários rapazes para o levar para o primeiro andar. Penduramos no teto, envolto em jornais. Houve bananas para todos durante muito tempo.

O sargento comprava por vezes carros estampados no ferro velho, sobretudo volkswagens por serem de mecânica simples. Num canto da oficina punha os mecânicos e bate-chapas a trabalhar. Desmanchava os motores, conseguia retificar cambotas e cilindros. Montava-os e vendia-os.

Aprendi com ele alguns truques de mecânica. Os pisca-piscas eram naquele tempo mecânicos. Quando começavam as piscar demasiado rápido era certo e sabido que iam queimar. Ele conseguir abrir os automáticos e com perícia ajustar a mola interna para piscassem mais lentamente.

A distribuição era também feita através de rotores mecânicos. No centro do distribuidor havia uma mola com um carvão na ponta para passar a energia do rotor para os bornes. Por vezes esse carvão partia-se. Solução? Substitui-lo pelo miolo de uma pilha tipo AA.

Esta minha curiosidade foi-me útil, muitos anos mais tarde. Tinha o Bruno 2 ou 3 anos. Ia na cadeira no banco de trás do Fiat. Ao passar pela ribeira de São Julião na Ericeira, depois de umas chuvas fortes, a ponte tinha desaparecido, passava-se pelas águas. Não quis voltar para trás. Aproximei-me da água, acelerei a fundo e pumba… asneira… o carro parou mesmo dentro da água. Não quis pegar mais.

Estava quase o sol a pôr-se. Pensei: deve haver humidade no distribuidor, pois tinha chapinhado água por todo o lado. Abri-o e com um pano tentei limpá-lo. Pimba… o carvão caiu na água. Parei a pensar e lembrei-me do que vira em Nampula. Estiquei a mola até ela tocar no rotor em baixo. Peguei na “prata” do maço de tabaco (na altura fumava) e fiz um rolo com ela. Meti-a dentro da mola. Montei tudo. Dei à chave e boa… pegou.

Agora arranquei devagar e consegui sair da água. Na próxima tasca que apareceu no caminho comprei uma pilha AA, esmaguei-a para retirar o miolo de carvão e coloquei-o lá. Quando, passados vários anos vendi o carro, ainda lá ia.

Ainda fui útil ao sargento. Vim para a metrópole um Maio de 1974. Um mês depois do 25 de abril já toda a gente pensava em transferir para cá o mais dinheiro possível. Mas as transferências legais já estavam proibidas.

Nós, militares, podíamos trazer todo o dinheiro que lá tínhamos recebido em ordenados. Eu tinha gasto tudo. Fui ter com ele e disse-lhe que podia trazer-lhe cerca de 100 contos, se me desse 10%. Aceitou. Entreguei o dinheiro nos serviços financeiros do exército e levantei-o nos mesmos serviços em Lisboa. Depositei a parte dele na conta que me indicou.

Estava eu depois a trabalhar na alfândega, uns bons meses mais tarde, quando ele por lá passou para desalfandegar os caixotes que ele e a família traziam.

Sem me ter apercebido o sargento alertou-me para um problema que, se não se tem dado o 25 de Abril, me podia ter trazido problemas. Cada viatura (e eram perto de 200), tinham a seu cargo um conjunto de acessórios: chaves das rodas, vários tipos de outras chaves, pneu suplente, manual, pá, etc. E para que não se perdessem estes acessórios estavam guardados, em prateleiras, numa arrecadação. Diz ele que eu deveria ter conferido todas os acessórios e só deveria assinar depois de os listar, viatura a viatura.

Ora eu apenas tinha sido conduzido à porta da arrecadação e disseram-me: e aqui tens as peças e acessórios de cada viatura. Assinei a tomada de posse como se estivesse tudo bem. E não estava. A maior parte das peças e acessórios tinham desaparecido.

E eu tinha ouvido falar de pessoas que foram obrigados a prolongar as missões em África para compensar com o seu trabalho o extravio de bens que tinham a seu cargo.

- Já viu, meu alferes, se a pessoa que depois o vier substituir se lembra de conferir isto tudo? Está tramado.

Mas ele sempre foi meu amigo. Eu chegava sempre tarde. Mesmo morando a 10 minutos, mesmo vindo de jeep. Por vezes havia pessoas à minha espera, até mesmo oficiais superiores.

- Eu já o vi por aí.

Respondia-lhes ele sempre.

Certo dia disse-me:

- Eu vou ajudá-lo. Na maior parte dos meses sobra-me verba dos gastos com a oficina. Vamos aproveitar essas sobras para ir repondo, dentro do possível, as faltas.

Assim foi. Reorganizámos a arrecadação, compramos tábuas grandes, marcamos com etiquetas o espaço de cada viatura, conferimos as peças de cada uma e listamos as faltas.

E todos os meses se ia adquirindo no mercado local, aquilo que era possível.

Posto Trabalho.jpg

Eu no meu posto de trabalho. Na parede o mapa de atribuição de viaturas.

Jeep.jpg

o meu Jeep: MX-23-95 a entrar no quartel.

Oficina.jpg

 A oficina mecânica ao fundo. à direita a prisão e a arrecadação. à esqueda uma das casernas dos soldados.

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publicado às 15:48



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