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Seminário de Fátima

por António Tavares, em 15.03.17

Seminário de Fátima

Completados os 2 anos do 1º ciclo (atual 5º e 6º ano) regressei ao Casalinho. Nesse verão de 1965 recebi no Casalinho a visita do padre Dionísio. Era motard e apareceu de mota. Convidou-me para dar um passeio com ele visitando os seminaristas que moravam nas aldeias vizinhas. Era uma maneira de manter os contatos e preparar o regresso em outubro, agora para o seminário de Fátima.

No casalinho convenceu os meus pais a reservar um quarto só para mim. Já que ia ser padre convinha dormir num local mais resguardado. O meu pai arranjou um divã para eu dormir num canto daquilo a que se chamava sala, mas onde eu nunca tinha comido. Aliás a única vez que me lembro de lá ter comido foi quando lá fui com os meus futuros sogros, para a apresentação formal.

Depois fomos na moto visitar um seminarista nas Cimadas Fundeiras, já em Proença-a-Nova e o Manuel Nunes lá para os lados de Cernache do Bonjardim.

No outubro de 1965 lá fui eu apresentar-me no seminário da Consolata, em Fátima.

Era um edifício imponente. As rotinas eram as mesmas. Mais uma vez, nos 3 anos que lá passei, não me lembro de nada que fizesse lembrar os abusos que hoje se relatam, sobre os rapazes.

No entanto foram os anos em que me apercebi que estava a amadurecer como homem. Passei dos 15 aos 17 anos.

Os padres compraram-nos giletes para cortarmos os pelos que iam despontando na cara. Mas nada nos disseram sobre os pelos que também iam aparecer mais abaixo. E se eu cortava os da cara também deveria cortar esses. Pensei. Foi o que passei a fazer às escondidas na casa de banho, na altura do banho. Só que quanto mais os cortava mais fortes eles cresciam. Tive que desistir.

Uma das tarefas que me foram atribuídas foi a de guarda da arrecadação das ferramentas. Na altura das limpezas eu distribuía as vassouras, as pás, a dose de serradura para ser misturada com água e espalhada para agarrar a sujidade antes de varrer. No final da limpeza recebia tudo de volta, limpava e arrumava.

A arrecadação ficava mais baixa que o nível do solo. Desciam-se alguns degraus. No terreno em frente passava com regularidade a rapariga da receção do Hotel PAX que ficava mesmo ao lado do seminário (pertencia aos padres).

Jovem, bonita, pequenina, mini saia a meio da coxa. Era moda na altura. Quando ela passava eu escondia-me no fundo da arrecadação, para não ser visto e para ter um angulo de visão o mais baixo possível.

As cozinheiras do seminário costumavam vir aproveitar o sol para uma zona de ervas atrás das sebes junto da horta que ficava ao lado da arrecadação. Eram bastante mais velhas. Mas sem ser visto lá ia eu espreitar pelas sebes.

Quando se iam embora tinha por hábito passar por lá para ser se tinham perdido alguma coisa. Reparei nuns papéis escritos à mão e rasgados em pedaços pequeninos. Apanhei-os todos e tentei colá-los. Não consegui. Apenas percebi algumas palavras. Tinham a ver com desgosto de namorados.

Foi este o meu despertar…

O hotel PAX era um edifício moderno, foi construído pelos padres, nos 3 anos que lá estive, para rentabilizar os terrenos. Assisti à terraplanagem, ao transporte de camiões e camiões de pedras para os alicerces. Fomos levados a colaborar na construção das fundações, transportando as pedras em carros de mão. Apercebi-me que a parte mais funda tinha uma formação em anfiteatro. Perguntei a um padre para que era aquilo. Reposta: é para fazer um cinema. Depois podemos vir aqui ver filmes. Só podia ser para nos animar a carregar pedras.

Claro que nunca lá entramos. Era apenas a zona de eventos do futuro hotel.

Mais tarde, quando já trabalhava no despachante, vim a saber que o meu patrão, Despachante Oficial, senhor visconde de Fonte Boa, colaborador dos Cursos de Cristandade, tinha uma suite reservada para o seu uso exclusivo neste hotel.

Um dia um dos padres pediu-me para guardar por uns tempos a sua viola na arrecadação. Não sabia tocar viola. Muito menos iria ter dinheiro para comprar uma. Pensei: posso construir uma. Tinha à mão uma velha placa de contraplacado. Tirei o molde da viola do padre. Recortei com uma serra. Nunca passou dali. Por muito que pensasse nunca consegui imaginar como conseguiria fazer as restantes partes da viola e como as iria unir.

Morreu ali mais um sonho…

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Eu na entrada do seminário de Fátima

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Eu com um transistor na mão e mais 3 seminaristas na alameda de entrado do seminário. À direita o edifício da arrecadação. Do seminário apenas se vê um bloco. Ficavam mais dois para a esquerda.

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 Seminário de Fátima à esquerda e Hotel Pax em frente.

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publicado às 09:57



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