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25 de Abril

por António Tavares, em 07.06.17

25 de Abril

Tinha viagem de regresso à metrópole num dos últimos dias de Abril de 1974. No dia 25 ao chegar, pelas 10H00 ao quartel diz-me o Sargento:

- Ó sr Alferes, parece que em Lisboa já está o Spínola no poder.

Não percebi o que ele quis dizer, tão alheado estava das questões políticas. Só me queria mesmo vir embora.

- Parece que houve por lá uma revolução…

Sem entender nada, voltei à messe de oficiais. Estavam a reunir-se todos os milicianos. Queriam perceber o que se passava. Ligou-se um rádio para ouvir a Emissora Nacional. Rapidamente chegaram os oficiais de ligação com o movimento em Lisboa. E só então se perceberam alguns sinais da véspera, como por exemplo o facto de o General Diogo Neto (oficial da força aérea, de ligação local ao MFA) ter dormido no aeroporto, com pistola na cintura e com um helicóptero abastecido e preparado, na pista, para arrancar. Depois de dadas instruções locais ele foi dos primeiros a partir de avião para Lisboa.

Como disse atrás, um dos motivos que despoletou o 25 de Abril, foi a “guerrilha” entre oficiais do quadro e oficiais milicianos. Os primeiros julgavam-se “donos” do exército e encaravam mal o facto dos segundos atingirem postos elevados, em menos tempo. Embora nunca passassem de major. Os da Academia ainda podiam aspirar a chegar a general, tal como parodiava, com um certo sentido de humor fino, o Cancioneiro do Niassa:

Ser miliciano foi meu sonho

Mas não foi esse o meu fado

Deus deu-me outra fantasia

A de entrar para a Academia

E ser Oficial do Quadro.

Abandonei os civis

Ai deixei a honestidade

Passei a ser calaceiro

Sabujo do mundo inteiro

Deixei de falar verdade.

Hei-de ir p’ro Estado-Maior

Cagar postas de pescada

Dedicar-me àquele estudo

Eles é que sabem tudo

Os outros não sabem nada.

Não chorem pelo meu fado

E de mil não digam mal

Se eu aldrabar um bocado

Se eu aldrabar um bocado

Ainda chego a general…

 

Passada a fase de euforia pós 25 de Abril, cada um puxava para o seu aldo. Cada um se queria vir embora o mais cedo possível. Tratei da transferência do dinheiro do sargento, para ficar com os 10% em Lisboa. Fui encomendar um caixote grande para trazer todos os meus pertences. Enchi-o de tudo o que pude. Ainda fui comprar louças e roupas chinesas e artesanato de pau-preto e despachei-o nos serviços de transportes para Lisboa.

Fui tratar da viagem via aérea. Consegui viagem para o dia 25 de Maio. Escrevi para os meus irmãos em Queluz a avisar da minha chegada.

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publicado às 15:18


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