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As esposas dos Srs Oficiais

por António Tavares, em 05.06.17

As esposas dos Srs Oficiais

O meu chofer vinha buscar-me a casa de jeep. Andava 100 metros e parava na porta da messe de oficiais (no praça da parte de cima) para eu tomar o pequeno-almoço. Depois dava-mos a volta ao largo e entravamos no quartel, do outro lado da praça.

Certo dia, acabava eu de tomar o pequeno-almoço no bar da messe, pergunto ao militar:

- Quanto é?

- Está pago, sr Alferes, pode ir.

Olhei em volta, espantado. Não vi ninguém conhecido.

Isto repetiu-se durante alguns dias. Até que a minha curiosidade me fez voltar ao bar mais tarde.

- Quem é que me tem pago o pequeno-almoço?

Perguntei ao militar.

- É a esposa do nosso Major Martins que normalmente se senta naquela mesa.

Apontou para um canto da sala. No dia seguinte lá estava ela. Pagou o meu pequeno-almoço e sorriu para mim. Passamos a tomar o pequeno-almoço juntos na mesma. O que ela queria de mim? Apenas me pediu que lhe desse a chave do carro do marido.

O Major Martins era também da segurança, ligado à Pide. Passava meses percorrendo os aquartelamentos de Moçambique de uma ponta à outra. Vinha por vezes à metrópole trazer relatórios e levar instruções. Como conhecia bem a sua esposa, deixava-me o seu Fiat 125 com o pretexto de lhe fazer uma revisão. A razão no entanto era que eu o guardasse e não deixasse a esposa mexer nele.

As esposas dos nossos oficiais superiores tinham por hábito fazer reuniões “secretas” em casa de umas ou de outras. Algumas vezes bem longe da cidade e dos olhares mais indiscretos. E por vezes não havia carros disponíveis. Sempre era mais um.

Vários oficiais faziam o mesmo e deixavam o seu carro comigo. Aproveitava e dava eu uma volta com eles.

Tinha aprendido a conduzir com o militar, condutor do meu jeep. Ia com ele dar passeios pelos bairros de palhotas à volta da cidade. Mal saímos da cidade eu tomava o lugar dele. Ele ia-me indicando como fazer.

Certa vez parei entre e palhotas porque o condutor me disse:

- Ó sr Alferes, olhe que aí não passa.

- Passa, passa…

Disse eu. Passou mas arrastou o telhado de uma das palhotas e o telhado arrastou uma das paredes. Ainda tive tempo de ver um velhote deitado na enxerga. E fugimos dali.

O exame de condução foi feito no Serviço de Transportes do exército, por um colega Alferes que havia feito a recruta comigo em Mafra. Saímos por um portão do quartel e entramos pelo outro.

- Podes ir embora. Estás aprovado.

Mas gostei de fazer o que faziam a todos os militares que tiravam a carta: testes psicológicos e psicotécnicos para analisar o grau de resposta às diversas reacções sensoriais. Tudo nos conformes.

Mas voltando à messe e às senhoras esposas dos oficiais.

A antiga messe dos oficiais tinha na frente um hall grande onde havia um conjunto de cadeiras de verga tipo colonial. Era nessas cadeiras que se viam essas senhoras a apanhar sol. E foram inspiradoras para os cantadores do Cancioneiro do Niassa:

Em frente ao Neutel de Abreu

A quem roubaram a espada

Existe a Gorongosa

Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos

E de outros animais

Costumam apelidá-los

De senhores oficiais

Numas cadeiras de verga

Expostas num grande hall

Lá estão as vacas malhadas

Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos

Que trabalham no quartel

Mal percebem coitadinhos

Qu’ali há putas a granel

Quando cheguei a Nampula a messe de oficiais estava a ser ampliada. Foi construída a nova sala de jantar e um salão de jogos.

A comida não era boa nem má. Era assim… assim… Ao café tínhamos chá gelado muito agradável. Ao almoço e ao jantar havia pescadas fritas congeladas em cada 3 de 4 refeições. Fiquei tão farto de pescadas de rabo na boca, que ainda hoje não sou capaz de comer tal peixe.

O salão de jogos era onde nos entretinha-mos mais. Não havia televisão. Jogávamos king. O jogo começava na sexta-feira à noite e prolongava-se por sábado todo o dia e até ao fim da noite de domingo. Mesmo a 1 centavo o ponto, chegava-mos a domingo à noite com mais de 20 contos em cima da mesa.

A maior parte dos frequentadores deste salão de jogos eram os oficiais milicianos, alguns com as suas famílias. Os oficiais superiores tinham o seu retiro no Hotel Portugal. Nem um nem outro eram espaços convidativos para as senhoras esposas dos oficiais superiores jogarem a sua canasta e beberem o seu chá. Então pediam a reserva do salão de jogos, um fim-de-semana em cada mês, apenas para elas. Era o nosso pior fim-de-semana…

Do grupo destas senhoras faziam parte as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Aquelas eram esposas de altas patentes em Lisboa, que deambulavam pelos aquartelamentos fazendo a sua “psico”. Eu recebia regularmente chamadas telefónicas delas. Ouvi-as calado. No fim dizia que estava tudo bem. Que não precisava de anda. Já só as queria ver caladas.

- Sr Alferes, então como está? Fala a Teresa Supico Pinto do MNF. A sua saúde? Precisa de alguma coisa? Se precisar de alguma coisa pode contar connosco. Estamos cá para vos animar e ajudar a passar o tempo. Blá… blá…

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publicado às 11:46

GACA 2 - Torres Novas

por António Tavares, em 02.05.17

GACA 2 - Torres Novas

O quartel de Torres Novas era uma unidade de Artilharia: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2. Apresentei-me lá para integrar uma Companhia de Infantaria que aí seria formada para seguir para Moçambique.

Eu comandava um pelotão de cerca de 30 homens, a maioria oriundos da Ilha da Madeira. Tinha mais 3 Furriéis. O comandante era Capitão Miliciano.

Dada a escassez de oficiais do quadro para comandar as muitas operações em África, o exército recorreu aos milicianos, como eu, para comandar pelotões. Ao fim de 6 meses de instrução já era Aspirante e ao fim de mais 3 partia para África como Alferes. Os Alferes que queriam, pediam para continuar no exército. Faziam mais uns cursos de gestão operacional, passavam a tenente, formavam companhia e iam para África comandar uma companhia como Capitão. Voltavam de lá, 2 anos mais tarde e passavam a Majores. Ao fim de 6 anos eram Majores.

Ora os oficiais de quadro para atingirem esse posto passavam mais de 10 ou 12 anos.

Quer se queira quer não, este foi um dos factos que estiveram na génese da revolta dos militares que originou o 25 de Abril. O resto é política.

Lá iria eu encontrar em Moçambique o Cancioneiro do Niassa que rezava assim (reprodução de cor):

Um dia fui dar com Deus

Na taberna do Diabo

Entre cristãos e ateus

Fizeram de mim soldado

E eu sem querer fui embarcado

Levei armas e um galão

P’ro outro lado do mar

Quis levar o coração

Não mo deixaram levar

E eu sem querer ia matar

Deram-me uma cruz de guerra

Quando matei meu irmão

E a gente da minha terra

Promoveu-me a capitão

E eu sem querer fiquei papão

Todos me chamam herói

Ninguém me chama Manel

Quem quer uma cruz de guerra

Que eu já não vou p’ro quartel

Os madeirenses do meu pelotão revelavam alguma moleza que me aborrecia. Puxava por eles fisicamente, mas eles não respondiam. À sexta-feira de manhã fazíamos sempre uma marcha de muitos quilómetros, com a promessa de que, quanto mais depressa chegassem ao quartel, mais depressa iam de fim-de-semana. Acontece que eles, como não iam para a Madeira de fim-de-semana (ficavam sempre no quartel), não se importavam com as minhas ameaças.

Os jogadores profissionais de futebol já naquele tempo tinham alguns benefícios. Os mais influentes conseguiam não ser mobilizados para as colónias, para poderem jogar nos clubes aos domingos. Estava comigo em Torres Novas o Furriel Quinito do Belenenses e o guarda-redes Armando do Barreirense. Davam-me muitas vezes boleia para Lisboa. Mas vinham muito cedo à sexta-feira. Aí pelas 11 horas estavam de partida.

Numa certa sexta-feira apertei com os madeirenses e disse-lhes que tinha boleia para Lisboa e tinha que chegar cedo ao quartel. Não ligaram. Nesse dia perdi mesmo a boleia.

- Fizeram-me perder a boleia? Pois agora vamos repetir o mesmo percurso todo. Vão à velocidade que quiserem, pois só quando cá chegarem é que vos dispenso para ir de fim-de-semana.

E fomos. Fiquei para trás e deixei serem eles a orientarem-se. Um deles (o mais atrevido) assumiu a dianteira, puxou pelo grupo e demoraram menos 20 minutos no percurso todo.

- Estão a ver? Afinal fizeram mesmo ronha da primeira vez. Conseguiram na segunda vez, já cansados, demorar menos tempo. Vão agora almoçar e já que eu não vou de fim-de-semana nenhum de vós vai. Ficamos cá todos e vamos fazer aplicação militar para o rio, todo o fim-de-semana.

E fomos. Mergulhar no rio, chapinhar na água, correr todos molhados, fazer ginástica. Mesmo no Inverno. Ficaram tão meus amigos que tiraram fotos e à noite fomos todos beber cervejas e comer bolo de mel madeirense.

Quando íamos fazer patrulhas tinha por hábito levá-los para uns pinhais para os lados da Santa da Ladeira. Uma Santa que queria concorrer com Fátima, mas que a igreja católica nunca reconheceu. Mas criou um santuário, juntou um grupo de seguidores apóstolos e foi apadrinhada pela igreja ortodoxa.

Por vezes mandava-os deitar no pinhal e sornar. Eles levavam G3 mas sem balas. Apenas eu levava bala real. Deitado no mato no meio deles punha-me a fazer pontaria às pinhas. Assim passava o tempo e ao mesmo tempo dava sinal a quem (do quartel) nos andasse a espiar, que estávamos treinando.

No regresso mandava o pessoal formar em linha e atravessava-mos os terrenos da Santa da Ladeira em género de formação de combate.

Certo dia fomos para exercício de tiro em Santa Margarida. Quando íamos para lá já chovia. Mas ao chegar lá a chuva era tão forte que o capitão mandou os camiões de volta e disse-nos:

- Vão a pé e apareçam no quartel.

A chuva era abundante e o vento tão forte que na passagem pela ponte Golegã, sobre o Rio Tejo, tínhamos que nos agarrar às grades para não cair. Ao passar na Golegã e depois de me certificar que não eramos seguidos pelos nossos chefes mandei todo o pelotão entrar para a primeira tasca que apareceu. Era Inverno.

- Pessoal… quem quiser pode beber um bagaço para aquecer, pode beber. Quem não beber bagaço pode beber um copo de vinho ou de água. Eu pago.

A caminho de Torres Novas ainda vimos um camião carregado de fardos de palha tombado de lado. A chuva, tocada a vendo, entranhou-se na palha por um dos lados do camião, aumentou o peso daquele lado de tal modo que tombou. Sem consequências de maior.

Uma das missões do oficial de dia era conferir se as refeições dos militares eram elaboradas segundo as normas estabelecidas. Certo dia, estava de oficial de dia e fui com o furriel, meu ajudante, conferir a confecção do almoço. Era atum com batatas. Pedi ao sargento as normas para aquela refeição. X gramas de atum para cada soldado.

- Preparou almoço para quantos?

- Oitocentos e….

- Mostre-me as latas abertas.

Fiz contas e claro que faltava uma data de latas. Daquelas latas grandes de vários quilos cada.

- Pois fique sabendo que ninguém entra no refeitório enquanto você não me mostrar todas as latas que lhe compete abrir. E apareceram logo de seguida.

Mas aconteciam sempre coisas engraçadas. Numa das minhas visitas pelas cozinhas, enquanto se preparavam as refeições, o chefe de cozinha disse para um ajudante:

- Põe cebola dentro da panela que está ao lume para fazer a sopa.

O novato foi ao saco e apanhou várias mãos cheias de cebola desidratada e meteu-as na panela. Passado pouco tempo a cebola inchou de tal maneira, que era vê-la a sair da panela para fora. Ninguém lhe tinha explicado que era cebola desidratada e quanto se devia pôr na panela.

No dia 11 de Novembro (São Martinho) também estava de oficial de dia. Mandei o Furriel meu ajudante ficar no meu lugar porque ia sair em serviço. E saí. Saí de jeep com o soldado condutor de serviço e fomos beber água-pé à feira da Golegã. A minha tendência para correr riscos. De regresso já vínhamos alegres mas não passou disso.

A dada altura o comandante do quartel foi mudado. Veio um coronel muito alto, forte e com um vozeirão que metia medo.

Na sala de jantar dos oficiais havia uma fiada de cabides à entrada onde cada um pendurava a sua boina. O comandante e os seus adjuntos comiam numa mesa corrida, ao fundo. Nós os oficiais subalternos comíamos em mesas quadradas espalhadas pela sala. Durante o almoço era tal a algazarra que, para nos podermos ouvir tínhamos que elevar a voz. Mas a voz do comandante sobressaía por cima de todas as outras.

A certa altura alguém começa a fazer chiu… chiu… e fazer sinais para irmos baixando a voz. Todas a gente se calou. Só o comandante continuava a falar com aquele vozeirão. Percebeu o toque e daí em diante passou a falar muito mais baixo.

Certa vez o comandante teve que sair mais cedo da sala de jantar e não encontrou a sua boina nos cabides. Chamou o corneteiro e disse-lhe

- Faz o toque a reunir para oficiais.

- Não conheço esse toque.

- Então faz o toque alarme!

Tocou. Mas como ninguém estava à espera de tal coisa, ninguém fez nada de especial, estava todo o pessoal a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer.

Começou aos gritos. Queria todo o pessoal do quartel reunido na parada em formação. Os oficiais na frente. Ao passar revista aos oficiais descobre um alferes com a boina que lhe parecia a sua.

- Porque é que tens a minha boina?

- Ó meu Coronel, não reparei. Estou de oficial de dia e chamaram-me à portaria. Saí e peguei na boina que me pareceu ser a minha. Peço desculpa.

Subiu para o palanque e disse ao microfone:

- De hoje em diante vamos passar a fazer exercícios de simulação com regularidade e a horas incertas. Sempre que eu entender o corneteiro fará os toques que eu entender e quero resposta pronta de a cordo com as normas estabelecidas. Que cada um cumpra as tarefas que tem atribuídas.

Daí em diante, às horas mais estapafúrdias, o corneteiro tocava o que lhe era indicado. O normal era ser o alerta geral. E nessa altura todo o pessoal tinha que simular que o quartel estava a ser atacado. Era pegar nas espingardas e cada um seguia para o seu posto de defesa. As metralhadoras e os canhões antiaéreos eram tirados dos seus abrigos e vinham para a parada ou para os seus lugares de fazer fogo e perscrutar aviões no céu. Na primeira vez ninguém sabia mexer neles. Muitos nem funcionavam. Foram dadas instruções para que fossem oleados e calibrados. Tinham que estar prontas a responder em caso de ataque.

Por fim aquilo já era uma brincadeira…

Hoje o quartel de Torres Novas é o Centro de Instrução da Polícia.

T Novas 1.jpg

O nosso pelotão. Destemidos para ir "ganhar a guerra".

T Novas 2.jpg

Aplicação militar no rio Almonda.

 

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publicado às 14:20

Mueda

por António Tavares, em 19.01.17

MUEDA

Naquele sábado qualquer do mês Abril de 1972, estava o sol quase a desaparecer na vermelhidão do horizonte por cima do planalto, quando o camião em que seguia o pelotão que eu comandava, trepava ruidosamente as últimas centenas de metros da íngreme picada poeirenta,  esburacada e rasgada pelas águas da chuva, que separavam o inferno dos últimos 5 dias de picada entre Porto Amélia e o purgatório que iria ser a nossa breve estada de 2 dias em Mueda. Porque o céu, esse estaria reservado lá muito mais para diante.

No último morro à direita esperava-nos um soldado cuja farda camuflada se confundia com o ocre da terra e que rodava apressadamente a manivela da máquina de filmar feita de cartão e encimada  com a sigla RTP. Era assim que os checas eram recebidos em Mueda.

A coluna de mais de 70 camiões estendia-se por várias dezenas de quilómetros e duraria todo o dia e parte da noite, para passar a curva das bananeiras, transpor o estreito desfiladeiro do fundo do vale e vencer a íngreme subida até ao planalto.

E chamava-se das bananeiras, ou da morte, a tristemente célebre curva. Bananeiras, porque todo o vale, da picada para baixo, era mais largo e estava cheio de bananeiras. De vez em quando vinha um camião de Mueda buscar bananas, sempre escoltado por um grupo de proteção. E antes havia que bombardear toda a zona para saber se estava limpa. É que esse desfiladeiro, mesmo nas barbas dos soldados no alto do morro era uma das principais vias de reabastecimento dos turras, mais a sul.

Muitas vezes esses bombardeamentos do vale incluíam não apenas obuses, canhões e murteiros, mas por vezes também os Fiats e dos velhos T6 da 2ª Guerra Mundial. Acontecia era que as velhas bombas dos T6 muitas vezes não rebentavam e serviam para os próprios turrras enterrarem nas picadas por baixo das minas anticarro.

Sabem meus filhos, naquele dia, para se poder transpor a curva das bananeiras teve que vir de Mueda um grupo de engenharia abrir uma nova picada mais ao lado da curva. O buraco na picada, mais fundo do que um soldado de pé e com o braço esticado, fora feito pelo rebentamento de uma dessas bombas, fez desaparecer uma Berliet, mandou para o céu que nos prometiam os 30 homens que levava em cima e não permitia a passagem dos camiões de reabastecimento.

Mas esse grupo de engenharia tinha também outra missão. É que a ponte sobre o desfiladeiro era derrubada logo no dia imediato a ser reconstruida. Os turras passavam, colocavam os petardos de trotil e aí vai mais outra ponte. A única solução possível foi fazer 2 morros de cimento armado, um de cada lado do desfiladeiro e de cada vez que era necessário transpô-lo o grupo de engenharia trazia 2 potentes barras de ferro, assentava-as sobre o desfiladeiro e depois era preciso acertar com as rodas dos camiões nas 2 barras de ferro. Nem que fosse apenas para vir buscar as bananas ou encher os autotanques de água para levar para o alto do planalto.

Toda a nossa companhia, a CART qualquer coisa, seguia em 4 camiões, um pelotão de trinta homens em cada um. Tinha aquele código por ser uma Companhia de Artilharia.

De facto formamos a companhia em Torres Novas no velho quartel GACA 2. Aí sim havia peças de artilharia contra aeronaves que ainda manuseamos algumas vezes. As peças que levávamos connosco eram apenas as, já na altura, velhas e pesadas (mas fiáveis) G3, ainda hoje usadas.

Mas estava eu aqui me lembrando que embora fossemos uma Companhia de Artilharia não passávamos de Infantes e formávamos, isso sim, uma Companhia de Infantaria. As peças de artilharia, esperava eu deviam estar lá mais para o norte, em Mocímbua do Rovuma, nosso destino final. As aeronaves contra quem iríamos lutar, que viram da Tanzânia, do outro lado do rio Rovuma, essas nunca soube se vieram ou não.

Estou aqui a divagar mas voltando à nossa chegada a Mueda ...

Os camiões foram distribuídos pelos edifícios de destino. A maioria ficaria em Mueda por trazerem todo o tipo de utilidades e mantimentos para a Intendência local: munições, tijolos, cimento, batatas, óleo, gasóleo ... eu seu lá que mais. Uns poucos levariam os mesmos mantimentos e utilidades (a nossa companhia incluída), umas centenas de quilómetros lá mais para cima, para junto da fronteira. Esses ficaram numa outra zona vedada com arame farpado. Os soldados foram alojados nas casernas que lhe estavam destinadas já a noite ia avançada. Uns deitaram-se e adormeceram de imediato. Outros ainda abriram uma ração de combate para comer qualquer coisa antes.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

Após dias de caminho

Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato

Olhei e vi palmeiras

Macacos e bananeiras

Entendi, estava no mato

Eram cerca de 23 horas e 30 minutos quando me sentei na enxerga vazia de qualquer peça de roupa, num quarto com apenas uma prateleira, em que a porta não fechava, que me havia sido atribuída.

Pensei... há 5 dias que não como. Estou cheio de fome. Vou arrumar as minhas coisas nesta prateleira e vou até à Messe de Oficiais comer qualquer coisa.

Arrumei os sacos com roupa, um par de botas, os livros que trazia, alguns cadernos para tentar escrever qualquer coisa. Não havia água para me lavar. Vestido como estava lá me dirigi à Messe de Oficiais.

Sento-me ao balcão do bar e pergunto ao soldado de serviço:

- O que há que se coma?

- A esta hora sr Alferes? A esta hora não há nada.

- Nem fiambre, ou chouriço para fazer uma sandes?

- Não sr Alferes. Acabou tudo. A esta hora só pão.

- Então dá aí um pão e uma bazuca.

Na primeira trincadela que dei no pão senti algo a ranger nos dentes, tirei com a mão e pareceu-me ser um grão de areia. Na segunda trincadela pareceu-me sentir uma coisa mais mole e de gosto duvidoso. Tirei com a mão e já era só metade de um inseto qualquer.

Acabei por comer o pão esfarelando-o com a mão para retirar tudo aquilo que normalmente não entra na composição de pão, coisas que nunca soube o que eram. Valeu-me a cerveja que até estava fresca.

É que eu estava mesmo com fome. Durante os 5 dias de picada de Porto Amélia a Mueda apenas tínhamos direito a abrir uma ração de combate por dia. Mas da ração de combate eu apenas conseguia beber a água e os sumos. Felizmente ia trocando as latas de conserva com os meus soldados e eles davam-me os sumos.

Sempre que os camiões paravam eu embrenhava-me pela mata à procura de mandioca. Havia descoberto que as raízes novas da mandioca eram saborosas, suculentas e até alimentavam.

Já noite fora, tonto, ouvindo o vazio à minha volta, cambaleio até chegar ao quarto. Empurro a porta entreaberta e calçado e vestido como estava, caio na enxerga. De olhos fechados. Mas não consegui dormir. Doí-me a cabeça, estou tonto, abro os olhos e viro a cara para a janela de onde vem uma luz trémula proveniente da iluminação da pista de aterragem ali mesmo ao lado.

Mesmo essa luz me ofusca. Penso: Vou dormir. Amanhã será outro dia.

Viro a cara para o lado e antes de fechar os olhos apenas vejo as mesmas 4 paredes, a porta aberta, a mesma prateleira vazia... Vazia? Isso mesmo. Tinham-me levado tudo. Tinha ficado apenas com o que trazia vestido. Mesmo aqueles cadernos onde queria escrever nem eu sabia o quê. Incapaz de esboçar qualquer reação fiquei ali parado, com a porta aberta, olhos fitos na prateleira vazia a pensar: um dia hei-de escrever esta história. E adormeci ....

 

Notas:

Porto Amélia: Atual Cidade de Pemba. A cidade grande mais ao Norte de Moçambique junto ao mar.

Checas: Soldados acabados de chegar

Turras: Nome que dávamos aos terroristas

G3:       Arma que equipava todo o exército português, fabricada em Portugal sob patente alemã

Berliet: Camião militar de tração a todas as rodas, de origem Francesa, vulgarmente utilizado em todas as campanhas da Guerra Colonal em África

CART: Companhia de Artilharia. Qualquer coisa porque já não me lembro do seu código numérico. Todas as companhias eram numeradas sequencialmente

GACA 2: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2 em Torres Novas. Atual Escola de Formação da Polícia

Bazuca: Cerveja grande de litro e meio

 

Fiats.jpg

Os bombardeiros Fiat fotografados por mim no aeroporto de Nampula que era a sua base operacional para as incursões pelo Norte de Moçambique

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publicado às 10:29


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