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A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

por António Tavares, em 26.04.17

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

Mantive-me na pensão da Rua de Stª Marta até à ida para a tropa. Entretanto o Manel também tinha vindo para Lisboa tirar um curso de Offset. Como tínhamos familiares no Ministério da Educação ele conseguiu depois lá um lugar na reprografia. A Lena e a Lúcia também tinham vindo para Lisboa para empregadas internas na casa de uma senhora da sociedade, irmã do Sr Visconde. Tinha sido o primo Manel de Moura que dera um toque ao Sr Visconde. Estiveram lá pouco tempo. A Lúcia foi para uma casa de freiras e a Lena acabou por ir trabalhar também para o Ministério da Educação e alugou uma parte de casa no Bairro Alto.

Estava na tropa em Mafra e vinha a Lisboa aos fins-de-semana. Costumava ficar com ela.

Nessa altura tinha um amigo da Roda, mais velho, que também fora seminarista, o Tonito. Ele tinha uma amiga que conhecera dos seus tempos de tropa na Amadora. Essa amiga tinha mais 2 irmãs. Eram oriundas de Elvas e moravam com os pais na Amadora. Parece que ainda eram conhecidas daquele que cantava “Ó Elvas, Ó Elvas, Badajoz à vista...". Essas raparigas eram interessantes porque a mãe era chinesa de Macau. O pai delas fora lá sargento do exército. E aquela mistura de português e chinês dei-lhes um traço característico.

Sempre que vinha a Lisboa, eu o Tonito tínhamos companhia para o fim-de-semana. Ele com a mais velha e eu com a do meio. Íamos à praia a Carcavelos e ao Estoril, percorríamos os cafés da Reboleira e Amadora, íamos dançar e beber uns copos para uma boite que abria as portas aos domingos à tarde para a malta mais nova e que ficava na Rua Filipa de Vilhena. O Tonito chegou a namorar com a mais velha. Acabou por casar com uma rapariga lá da terra. Eu tentei alguma aproximação à irmã do meio. Foi o meu segundo amor platónico. Ainda hei-de falar do primeiro. Mas sempre que lhe puxava pela conversa ela dizia que tinha um namorado que era piloto da Força Aérea. Nunca o vi. O certo é que passávamos muitos fins-de-semana juntos. Mas fiquei-me apenas pelo amor platónico pela minha chinesinha Nônô…

Quando fui para Moçambique levei o seu contacto. Ainda escrevemos algumas cartas. Nunca existiu empatia e acabou.

Quando regressei da guerra e fui estudar para o ISE estava ela a acabar o curso. Apenas nos cumprimentávamos. Depois encontrava-a regularmente na Rua da Prata. Ela vinha de comboio da Amadora e apanhava o eléctrico para o Arco do Cego. Trabalhava na Casa da Moeda.

Como eu e alguns dos meus irmãos já estávamos em Lisboa foi por sugestão do Tonito que começamos a procurar casa para alugar para todos. Um dia fui com ele a Queluz ver uma casa disponível. Levei lá a Lena e ficamos com ela. Tinha 5 assoalhadas. 2 quartos para os rapazes e 2 para as raparigas.

Atrás de nós vieram os outros todos. Até que ficaram apenas os pais em Cardigos. Eu estava na tropa. E eles lá foram arranjando emprego, a maioria deles no Ministério da Educação. O certo é que a vinda para Lisboa abriu os olhos a eles todos. A maioria acabou por estudar à noite, acabaram por tirar cursos superiores e arranjar empregos melhores.

O Mário também deu as suas voltas na vida. Foi tirar a escola primária a Canha, perto de Setúbal, a casa de familiares da parte da minha mãe. Quando vinha a casa nas férias do Natal trazia de lá laranjas. Eram as maiores laranjas que já vira. Enormes. Tão grandes eram que a minha mãe descascava-as e dava a cada um apenas um ou 2 gomos. Mesmo assim havia guerra pelas cascas. Para comer a parte interior da casca. Estas laranjas serviam para fazer óculos: eu cortava 2 lascas da casca em lados opostos. Depois cortava uma tira da casca entre as duas lascas sem a separar. Por fim tinha que meter a faca por dentro da casca e separar toda a casca do miolo. Enfiava a tira debaixo do chapéu e afastava os dois buracos para os lados, ficando um em cada olho. Era assim que eu brincava.

Depois o Mário esteve no seminário de Poiares. Tentou e não se deu bem. Acabou por ir tirar o liceu a Castelo Branco. Usava a barba grande e os cabelos enormes. Cada vez que vinha ao Casalinho havia sempre discussão com o pai. Quase chegavam por vezes a vias de facto. Ele não queria aquelas guedelhas. Ele veio depois para Lisboa tirar Medicina. Teve ligações esquerdistas. Constou-me, depois de eu vir de Moçambique, que uns dias antes do 25 de Abril alguém ligado à PIDE batera à porta da casa de Queluz a perguntar por ele.

Depois do 25 de Abril as suas ligações esquerdistas levaram-no a participar em actividades de apoio local em locais mais desprotegidos. Num bairro de barracas da Amadora participou na construção de um espaço para apoio social e escolar.

A casa de Queluz serviu para todos nós. Até para receber o pai depois de adoecer e a Mãe quando ficou viúva. Foi lá que faleceu o pai e mais tarde a mãe.

Foi para lá que fui morar quando vim de Moçambique. Foi de lá que saí para ir casar. Lá faleceu o João, vítima de um ataque epiléptico nocturno. De lá saíram os meus irmãos todos menos o Abílio e o Alberto. Quando o senhorio vendeu o andar, o Abílio comprou a parte dele e a parte do Alberto. O Alberto foi depois comprar uma para ele para os lados de Sintra.

A dada altura a minha mãe chamou os filhos todos. O Manel já tinha falecido. Veio a viúva. Havia feito lotes dos terrenos todos como ela entendeu. Escreveu os nomes em papelinhos e enrolou-os. A começar pelos mais velhos cada um tirou um papel. Para mim ficou o Covão do Rocinho e parte do Cabril, entre o estradão e o lado direito da barragem. A casa ficava para todos. Assim evitou a guerra de partilhas e faleceu em paz.

Barragem preta.jpg

 A barragem do Casalinho com água preta, fruto dos incêndios de 2003. A maior parte dela construida em terrenos dos meus pais.

Os terrenos de lá ficaram para um dos meus irmãos. Uma tira que restou do lado de cá ficou para mim.

Covão do rossinho ardido.jpg

O Covão do Rocinho: a horta e os terrenos que me calharam, ardidos em 2003.

À esquerda a Fernanda, a mãe dela (D Palmira) e os meus filhos Bruno e Tiago.

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publicado às 12:11


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