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Nameteculía

por António Tavares, em 30.04.17

Namutaqueliua

Os perto de 2 anos que passei em Nampula até nem foram maus de todos. Tinha um grupo de amigos, todos alferes, que fazíamos por passar o tempo o melhor possível. Jogávamos futebol às 5ªs feiras, à noite íamos jantar muitas vezes aos cafés e restaurantes da cidade. Aos fins-de-semana passeávamos.

Para albergar os oficiais superiores que não tinham direito a ter moradia (ou flat = apartamento) por sua conta, o exército comprou um hotel: hotel Portugal. E quando alguém se lembrou que lá para o norte, a comandar um pelotão de infantaria, estava um alferes miliciano com curso de cozinha tirado na Suíça, outro alguém ordenou:

- Ele que venha para Nampula.

E veio. Foi transferido para ser chefe de cozinha do hotel Portugal. Para além dos cozinhados que fazia para os oficiais superiores também fazia os petiscos para nós. Lagosta suada…

Certa noite, acabados de jantar espetadas, fomos passear até à Nameteculía. Um bairro de palhotas de má fama, no caminho para o aeroporto. O nome oficial é Namutequeliua. Nós chamávamos Nameteculía para ser mais fácil. Havia bares para beber cervejas, prostitutas negras, vadiagem. Íamos sempre em grupo para nos protegermos e evitar confusões.

Os soldados iam mais para se divertir e fazer a sua acção psicológica, “psico”, como dizia o Cancioneiro do Niassa (reprodução de memória):

Bem vindo checa

P’ra esta guerra

Que cá te espera

Não estejas triste

Que a guerra é linda

Só fazes cera

Vais ter saudades

De mulheres brancas

Ai que tormentos

Aqui há pretas

Mas tem cuidado

Com seus lamentos

Checa danado

Que vieste cá fazer?

Vieste p’ra me render

Vais lerpar muito

Mas com o aumento

Vais ficar rico

Dá-o às pretas

Pois assim fazes a tua “psico”

O bairro era percorrido constantemente pelos jeeps da polícia militar. Para evitar desacatos e prender os mais atrevidos. Porque eram essencialmente os militares que ocupavam as ruas para se divertir. Depois de várias cervejas havia sempre barulho. Não havia iluminação pública. Apenas as luzes das diversas palhotas e dos bares.

Nós tínhamos acabado de jantar espetadas num dos restaurantes da cidade. Eu, por piada, tinha levado comigo o espeto para recordação. Um arame afiado com cerca de 20 centímetros e uma argola na ponta. Meti o dedo médio na argola e ia girando no ar para descontrair.

Já em pleno bairro de palhotas dei por mim com aquilo na mão e pensei que alguém podia interpretar mal. Em vez de o atirar fora escondi-o ao longo do braço, debaixo da manga. E aconteceu mesmo. Não é que uma negra se abeirou de nós, agarrou-me na mão e detectou o arame. Fugiu aos gritos:

- Tem ferro… tem ferro!

Fugimos todos rapidamente para evitar confusão.

As casas das prostitutas brancas ficavam todas fora da cidade. Embora a prostituição fosse proibida, em África era tolerada. A casa mais conhecida era a da Paula. Ficava a uns 3 ou 4 quilómetros, na picada para a barragem. Uma casa “séria”. Com bar, música e espectáculos (por vezes). Havia mesmo prostitutas da Rodésia e Sul-Africanas. Só falavam inglês. Conta-se mesmo a história de capitães de companhia (milicianos) que iam à Beira ou a Nampula e contratavam 2 ou 3 prostitutas, para irem passar uns dias aos acampamentos militares, lá para o norte, para aviarem quem necessitasse. Ou o caso de um soldado que, chegado a uma destas casas, encontra alguém conhecido e diz:

- Ó tia, está aqui?

Era mesmo a sua tia.

Não havia transportes públicos. Para ir até estas casas tinha que se ir de táxi ou no carro de um amigo. Havia muitos militares que, estando na cidade, levavam o carro de cá ou compravam lá um, usado, para se divertirem.

Havia um capitão miliciano que tinha levado para lá o seu MGB/GT. Um alferes, amigo comum, pede-lho emprestado para ir passar o fim-de-semana à Ilha de Moçambique. Não chegou lá. A estrada era de terra batida, mas larga e com grandes rectas. Numa curva para lá do Monapo, espalhou-se. Lá ficou e o carro teve que ser apanhado peça a peça. Parece que o conta-quilómetros marcava 240.

Usando das facilidades que a tropa oferecia, tirei lá a carta de condução. Seguia no jeep com o meu condutor e já fora da cidade dizia-lhe.

- Para aí. Passas para aqui que agora conduzo eu.

E aprendi assim. Pelas picadas, entre as palhotas. Uma vez o condutor disse-me:

- Ó sr Alferes, olhe que o jeep não passa aí entre essas duas palhotas!

Passar passou, só que arrastou os paus do telhado de colmo que estavam baixos de mais e eu não me apercebi disso. Quando dei por ela só vi um negro deitado numa enxerga, porque o telhado tinha arrastado uma das paredes da palhota.

O Alferes que me fez o exame de condução era meu colega e amigo. Fomos de jeep. Saímos do quartel por uma porta e entrámos pela outra.

- Podes ir!

Já tinha a carta. Mas uma coisa que eu achei que foi bem feita: ter feito todos os testes psicotécnicos e de aptidão, de visão e de audição, que nem eu sabia que se faziam e que era usual fazer a todos os militares que iam tirar a carta de condução. Passei a todos.

De vez em quando pegava no jeep, mesmo aos fins-de-semana e saía por aí fora. Ía com amigos até à barragem, cheguei mesmo ai até Nacala e à Ilha de Moçambique. Corria imensos riscos. Para além de poder ter um acidente, para se sair com uma viatura militar tinha que se ter autorização e plano de viagem. E podia sempre aparecer a Polícia Militar.

Felizmente sempre correu tudo bem.

Bar barragem.jpg

Nas escadas para o bar da barragem de Nampula

De jeep.jpg

Regresso do aeroporto. Bairro da Nameteculía em frente. Os morros sempre presentes.

Na barragem.jpg

Na barragem

Nameteculia.jpg

Bairro da Nameteculía.

Picada para a Ilha.jpg

 Esrtrada de terra para a Ilha de Moçambique, logo após Monapo.

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publicado às 20:52


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