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Exploração e roubo

por António Tavares, em 17.04.17

Exploração e roubo

A minha chegada a Nampula coincidiu ainda com algum rescaldo da célebre operação Nó Górdio. Todo o planalto dos Macondes em Cabo Delgado fora varrido a napalm, um explosivo que já havia sido banido pelas convenções internacionais. Contava-se entre nós que no briefing final os generais apenas lamentavam o material perdido. Porque os homens… a gente pede e eles mandam mais…

Existia em Nampula o BMM Batalhão de Manutenção de Material. Alguns hectares de ferro velho, camiões e unimogues estampados e minados. Todas as viaturas acidentadas, em guerra ou não vinham aqui parar. Mesmo as civis abrangidas pelo seguro de estar ao serviço do exército. Estavam para reparar se tal fosse possível, ou para tirar peças para outras.

Trabalhavam aqui muitos militares, a maioria mecânicos. E também muitos civis, incluindo negros. Estes eram admitidos a ganhar 4 contos de réis. Mas o capitão que tratava dos contratos quando os recebia dizia-lhes:

- Tu vens para ganhar 4 contos. Mas de início, como ainda não tens experiência, recebes só 2 contos. Depois, com o tempo, se fores aprendendo bem e te comportares bem, ganhas experiência a passas a receber mais.

E os coitados dos negros assinavam ou punham o dedo em recibos de 4 contos e só levavam 2.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

E o senhor Brigadeiro

Vive muito consolado

Até comprou uma balança

Para pesar o dinheiro

Que rouba ao pobre soldado

Quando será Deus do Céu

Que um dia haverá verba

Para a gente comer pão

E os chicos erva erva

Para a gente comer pão

E os chicos merda merda

(reprodução de memória)

Todos os oficiais superiores residiam com as famílias em moradias que ficavam mesmo ao lado da messe, em frente ao quartel-general. Assumiam a moradia como sendo sua. Sempre que um deles se vinha embora embrulhava loiças, candeeiros e até carpetes e cortinados. Quando alguém encarregue de conferir, à posteriori, o material à carga fazia o relatório das faltas. E vinha o despacho superior:

- Abata-se por estar incapaz.

- Ao sr alferes Tavares para proceder à destruição.

E lá fazia eu um auto: no dia tal às tantas horas, na minha presença foram destruídos estes e estes bens por se encontrarem na situação de incapazes para o serviço.

O quartel-general havia sido transferido de Lourenço Marques para Nampula pouco depois do início da guerra, alguns anos antes de eu chegar a Nampula. No porto de Nacala um tal caixote caiu ao mar e nunca foi resgatado. O material nele contido foi dado com o perdido.

Passados aqueles anos todos, sempre que se dava por falta de algum artefacto de que se desconhecia o destino, alguém dizia: vinha no caixote que caiu ao mar. E alguém escrevia: proceda-se ao abate…

O conjunto João Paulo foi convidado para fazer uma tournée pelos aquartelamentos militares de Moçambique. A sua exigência (além do pagamento): ter disponíveis à chegada os instrumentos musicais cuja lista entregaram. Incluía bateria, guitarras eléctricas, teclados, etc. Acabaram a tournée e vieram embora. Quando alguém se apercebeu: cadê os instrumentos? Tinham sido encaixotados e embarcados para Lisboa.

Despacho: proceda-se ao abate por incapacidade…

Mesmo nos meios civis havia verdadeira exploração da condição humana. Alguns machambeiros, mesmo familiares, empregavam negros nas suas explorações a quem pagavam um ordenado mas em géneros. Podiam levantar na loja da cidade o arroz, o óleo, os panos e tudo aquilo que precisassem. Eles não tinham condições de verificar se o que levavam era o que era registado e ao valor correto. Ao dia 10 ou 15 já ouviam: acabou, o teu ordenado acabou.

Era assim a loja na cidade de um patrício que fornecia o exército com víveres e frescos. Tinha no pátio em frente um Simca 1100 a cair de podre. Os pneus já estavam todos sem ar. Tinha comprado um mercedes e nunca mais pegara no Simca. Eu tinha tirado a carta de condução e tive a ousadia de lho pedir emprestado para dar umas voltas. Nunca. Sempre recusou.

No quintal das traseiras da loja amontoavam-se cachos de bananas algumas já podres. No quarteirão de baixo ficava o hospital civil onde o Abílio havia sido internado após um acidente de mota. Ele nunca o foi visitar. Eu pedi-lhe umas bananas para levar ao Abílio:

- Leva destas que são mais baratas porque já estão um pouco maduras. São xx escudos!

Em 1973 foi construído o edifício do cinema militar. Mesmo ao lado do ringue onde jogávamos futebol de cinco às quintas-feiras. A plateia era para os soldados: pagavam 12$50. O balcão era para os Sargentos: pagavam 5$00. O balcão superior era para os oficiais: tinham entrada privativa e não pagavam nada.

Também tive algumas dificuldades com alguns negros que trabalhavam na oficina. Na altura dos cajueiros ninguém os fazia vir trabalhar. Apanhavam os cajus, esmagavam as frutas para uma bacia e uns dias depois aquilo fermentava. Era a sua cerveja. Bebiam e passavam os dias deitados bêbados debaixo dos enormes cajueiros. E havia por lá muitos.

Hospital de Nampula.jpg

Hospital civil de Nmapula ao fundo. à esquerda os prédios onde o nosso patrício tinha a loja.

Rua de Nampula.jpg

 Recanto típico da arquitetura colonial de Nampula. À esquerda um cajueiro. Ao centro papaias.

Cinama militar.jpg

 Cinema militar de Nampula

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publicado às 11:59

Cancioneiro do Niassa

por António Tavares, em 13.03.17

Fado do desertor

(Cancioneiro do Niassa)

Reprodução de memória

 

Estava eu na minha terra

Disseram-me vais para a guerra

Toma lá uma espingarda

E um bilhete pró navio

E uma medalha num fio

E uma velha, velha farda

 

Após dias de caminho

Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato

Olhei e vi palmeiras

Macacos e bananeiras

Entendi, estava no mato

 

Veio depois o nosso cabo

Disse que eu era um bom nabo

Por à noite a Deus rezar

Para ele um bom magala

Vai à noite para a Sanzala

Para uma preta arranjar


O Furriel e o Sargento

Chamavam-me fedorento

Se me viam lavar

O Alferes e o Capitão

Diziam que era calão

Se me viam descansar

 

Estava já farto de guerra

Que ao lembrar a minha terra

Fui um dia passear

Numa palhota sozinha

Estava uma preta girinha

Que ao ver-me pôs-se a chorar

 

E dessa moça morena

Eu tive tanta pena

Que fugimos para o mato

Somos um casal feliz

E já temos um petiz

Que por sinal é mulato

 

A referência a “sanzala” sugere que este fado tenha sido escrito em Angola e depois transportado para Moçambique. Aqui o termo era “machamba”.

Esta realidade é verdadeira, porque muitos soldados desertaram mesmo.

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publicado às 11:17

Melancias na praia

por António Tavares, em 02.03.17

De Lisboa a Porto Amélia

Melancias na praia

A nossa companhia foi das primeiras privilegiadas a fazer a viagem para África num dos Boing 707 brancos da Força Aérea. E eram giros esses aviões. Decorados interiormente com imagens de África (gazelas e outros animais) nas paredes. Constou-se uma vez que os militares de uma companhia de comandos, apanhados pela adrenalina do regresso, trataram tão mal (rasgos e riscos) o interior de um dos aviões, que na paragem técnica em Luanda foram enviados novamente para o mato e ficaram em Angola mais uns largos meses.

Os aviões estavam preparados para levarem, cada um, uma companhia completa, cerca de 300 homens. A viagem de Lisboa a Luanda levou 12 horas e de Luanda à cidade da Beira levou mais umas 6 horas.

Fizemos escala de alguns dias na cidade da Beira onde aguardámos a ida para Porto Amélia nos aviões mais pequenos da DETA (companhia moçambicana).

Os oficiais milicianos eram recebidos na Beira por uma autêntica comissão de honra, que nas primeiras noites faziam um tirocínio pelos circuitos paralelos aos da comunicação oficial.

Eram outros oficiais milicianos mais antigos, que estavam colocados na cidade ou aí esperavam voo de regresso, talvez já imbuídos do espírito da revolução que veio a acontecer em 1974. Fomos levados a percorrer os bares da zona do porto, bares de má fama e não só.

Fomos levados a ver o célebre Mira-mortos. Um prédio de vários andares, largo, com um átrio no interior. Os vários apartamentos abriam-se internamente para uma varanda que percorria cada andar de um lado ao outro. Era habitado maioritariamente por prostitutas, cujo estatuto ia subindo consoante se subia na escala dos andares. Das negras nos primeiros, mulatas, indianas e sucessivamente até brancas nos andares superiores. E o nome advinha de o edifício estar paredes meias com o muro do cemitério.

Todos passavam por uma ensaboadela a ouvir o cancioneiro do Niassa e beber umas bazucas. Era uma autêntica lavagem ao cérebro. Percebi mais tarde que toda esta encenação não era gratuita. Era a estrutura clandestina a formatar a mente dos alferes checas.

A erva lá na picada

Pisam-na os guerrilheiros

O coração do soldado

Pisam-no os coronéis

E ajudam os machambeiros

O cancioneiro do Niassa foi gravado no início dos anos 70 por um grupo de milicianos com jeito para tocar viola e adaptar as músicas populares a canções revolucionárias. Entre eles João Maria Pinto e o seu irmão Manuel Carlos. Muitas vezes cantado em tertúlias, muitas vezes reproduzido em cassetes. Sempre quis ter uma cópia. Só em 1999 (25 anos do 25 de Abril e 25 anos da ADFA (Associação de Deficientes das Formas Armadas) foi possível a publicação de um CD com o nome de “Canções Proibidas”. A ADFA tinha feito em pedido o João Maria Pinto. Este conheceu Laurent Filipe (produtor), a Valentim de Carvalho disponibilizou os meios técnicos e o CD aí está.

Todos os milicianos tinham que o ouvir, na primeira tertúlia a que estivessem presentes, mal chegassem a terras moçambicanas.

Tudo o que reproduzi até este momento, relativamente ao Cancioneiro do Niassa, fi-lo reproduzindo diretamente da minha memória. Agora, que encontrei o CD que julgava perdido, vou citá-lo mais vezes.

Machambeiros eram os grandes latifundiários, cujo expoente máximo era o engº Jorge Jardim (patriarca da família Jardim – Cinha Jardim e companhia). Aliás havia um certo mal-estar desta gente contra os militares vindos da metrópole. À volta do Engº Jardim pululava um conjunto de empresários que até tinham relacionamentos com a Frelimo e tentavam que Salazar os autorizasse a promover uma autonomia limitada para Moçambique, sobe a sua égide.

Salazar nunca autorizou. E após a independência o sr engº Jardim refugiou-se no Malawi, a partir de onde moveu as suas influências no sentido de tomar o poder em Moçambique. O que nunca conseguiu.

A cidade da Beira era uma metrópole com muita vida. Ali desembocava o caminho-de-ferro da Beira que trazia as riquezas do interior de África (Rodésia), o carvão moçambicano retirado em Moatize em minas a céu aberto (ainda hoje) e o chá do Gurué. Foi onde vi pela primeira vez prédios com mais de 10 andares. A própria arquitetura era algo diferente e com linhas mais modernas. Veja-se o exemplo da estação do caminho-de-ferro ou o museu etnográfico.

Passados uns dias lá fomos nós de novo de avião até Porto Amélia, a cidade grande mais ao norte de Moçambique.

Acantonados os soldados, logo arranjamos companhia para passeios à noite até ao cais. Aqui a emoção era muito menor. No dia seguinte fomos até à praia. Espanto dos espantos. Havia melancias a crescer pela areia da praia fora. Com frutos e tudo. E podiam-se apanhar e comer. A explicação? Como a melancia é um fruto fresco era usual as pessoas levarem-nas para a praia e deitar os restos (sementes incluídas) na areia.

Passados quinze dias aí estavam as novas melancias prontas a comer.

Beira.jpg

Cidade da Beira: Museu etnogáfico, uma das ruas dos bares na zona do cais, estação ferroviária, cemitério (visto do cimo do prédio Mira-Mortos)

Mira Mortos.jpg

 Interior do prédio Mira-Mortes (Beira)

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publicado às 11:12

De Mueda ao hospital...

por António Tavares, em 06.02.17

De Mueda ao hospital

Mueda era uma vila no alto dum planalto. Composta essencialmente por uma longa avenida que partia da pista de aterragem, separava de um lado as tabancas dos nativos e do outro as estruturas militares e se prolongava pelo mato fora através da picada para Mocímboa do Rovuma.

No final da avenida ficavam, um de cada lado, os 2 únicos estabelecimentos comerciais: o Santos e o China. Ponto de paragem obrigatória para qualquer militar que por aqui passasse. Serviam bifanas e pregos. Vendiam um pouco de tudo que encomendavam em Nampula e lhes era enviado através das longas colunas militares que com alguma regularidade iam até Mueda para reabastecimento.

Também esses 2 estabelecimentos ficarem imortalizados nos versos do Cancioneiro do Niassa:

Mueda terra de guerra

Vou cantar-te este meu fado

Que compus ainda há pouco…

Mueda que és uma mina

Para o Santos e p’ró China

E para os tipos experientes

E para os que têm por sina

Venderem Água das Pedras

Mais cara que a gasolina…

Chegamos a Mueda num sábado à noite. Depois de tentar comer qualquer coisa no bar e não conseguir, depois de chegar ao quarto e de ver que me tinham roubado tudo, consegui dormir um pouco. Acordei no domingo de manhã. Estava sol. Levantei-me azamboado e com a mesma roupa que trazia de véspera e que nem tinha despido, fui passear por aquela longa avenida.

A dada altura aparece-me um senhor negro com uma menina pela mão. Não tinha mais de 12 ou 13 anos. “O senhô qué fazê máquina?” disse-me. Não percebi o que queria. Segui o meu caminho cada vez mais tonto. Quando mais tarde relatei este facto a alguém, informaram-me que era usual os nativos virem oferecer aos militares as filhas para sexo a troco de dinheiro.

Não devo ter andado muitos mais metros. De tão faminto, fraco e sem forças caí redondo no chão. Dei por mim deitado numa maca na enfermaria. De um lado o soro a entrar na veia. Do outro uma senhora do Movimento Nacional Feminino ia dizendo:  sr Alferes, tem que reagir… os seus soldados estão à espera para seguir com eles… vão partir daqui a pouco… você faz falta junto deles.

Não sei quanto tempo estive assim sem conseguir esboçar qualquer reação, os olhos fitos no teto como que a tentar var mais longe. Não sei se foram horas se foram dias. Ouço tiros e rebentamentos. Não consigo reagir. Volto a ouvir a mesma senhora: não tenha medo. São os nossos. Estão a bombardear o vale para o avião partir. Alguém diz atrás de mim: é melhor aproveitar este avião e mandá-lo para o hospital. Enquanto me preparavam para pôr na maca outro Alferes da mesma companhia que a minha dizia-me baixinho: tu vais agora mas que eu vou lá ter contigo dentro de pouco tempo.

A missão de bombardear o vale de Mueda com murteiros, antes de partir qualquer avião, era rotina. O inimigo já sabia as horas de partida e chegada dos voos dos Nord Atlas. Bastava sentarem-se no fundo do vale com a bazuca ou as espingardas apontadas para o ar. Para evitar isso todo o vale tinha que ser limpo primeiro. Mas como eles não desistiam foi necessário alterar a rotina e fazer com que os aviões partissem ou chegassem em horas aleatórias, de preferência de noite. Os North Atlas eram aviões de reabastecimento e de transporte de pessoal que operavam com regularidade entres as principais bases militares do norte de Moçambique.

Bem, mas lá fui eu de maca amarrada dentro do North Atlas a caminho do hospital militar de Nampula. Só dei por mim a ter alguma reação quando, na aproximação à pista de Nampula o avião descreveu uma curva e eu, mesmo deitado, consegui ver pelas janelas as imagens da cidade. E pensei para mim: isto aqui é muito bonito. Largas avenidas, tudo moradias, algumas com piscina, muita vegetação e flores… Comecei a magicar na minha mente alguma forma de conseguir não voltar para a guerra.

O hospital militar de Nampula era muito recente. A ala dos oficiais tinha quartos individuais, casa de banho privativa, um recanto relvado ajardinado com uma latada de maracujás. Parecia um hotel. Comecei a ser observado pelo médico psiquiatra Dr Coimbra.

Pedi um aerograma para escrever à minha mãe. Em Nampula e em Nacala viviam familiares, primos e tios quer do meu pai quer da minha mãe, alguns mesmo do Casalinho. Donos de machambas enormes, fornecedores do exército em frutas, legumes e hortaliças. Donos de fábricas de cajú e de óleos alimentares. Donos de padarias e das salinas.

Escrevi à minha mãe. Contei o sucedido. Pedi que falasse com alguns dos familiares que por lá viviam, para tentar algum apoio e alguma pressão junto do médico.

Nunca recebi qualquer visita de nenhum. Acabei por encontrar mais apoio em pessoas que não me eram nada. Gente boa do norte de Portugal. Tive que me safar sozinho.

North Atlas sobre Nampula.jpg

 North Atlas sobre Nampula

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publicado às 12:33


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