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Últimas lembranças de Cardigos

por António Tavares, em 03.05.17

Últimas lembranças de Cardigos

Nunca tivemos luz nem água canalizada no Casalinho. Quando no verão de 1965 o padre do Seminário veio visitar-me, além de convencer o meu pai a arranjar um quarto só para mim falou em arranjar uma casa de banho. Mas como?

Tinha-mos uma horta no cimo da aldeia, a que chamávamos quintal. Fazíamos culturas de inverno e de sequeiro e árvores de fruto. O meu pai tinha trabalhado a fazer mais fundo o poço do Sr. João Nunes, ali perto, que embora pouca, tinha alguma água. O meu pai convenceu-se a fazer também um poço no nosso quintal, um pouco mais acima. Andámos a fazer de vedor com uma vergôntea verde. Andamos a seguir velhas crenças nalguns tipos de plantas que indiciariam veios de água subterrânea, como fiadas de troviscos. E fizemos o poço.

Cavámos e furamos alguns metros (bastantes). Arrancamos rochas. Trazíamos para cima numa picota. Havia humidade. Água é que nada. O pai desistiu. E como os poços tinham que ser protegidos para evitar acidentes, o pai entendeu atulhá-lo novamente.

Lembrou-se depois que tínhamos um poço no Covão da Pouchana, na encosta de lá do Vergancinho. Estava num ponto mais alto que o quintal. Uns bons 2 quilómetros ou mais de distância. Construiu um tanque em tijolo e cimento. Comprou rolos de mangueira de plástico preto, estendeu-os pelos campos fora, pelo meio do mato. Ferrou a mangueira dentro do poço. Passamos a ter água no quintal, para a horta. Já podíamos cultivar hortaliças no verão, regadas com água a correr pelos próprios meios.

Só que o vale do Vergancinho é muito fundo. Na parte mais baixa a mangueira rebentava com frequência, quer pelo peso da água, quer pelo aquecimento no verão. Tinha que ser constantemente reparada.

A minha avó já tinha falecido e o meu pai pensou então em fazer uma casa de banho no quartito que era o dela. E fez. Ligou mais umas centenas de metros do tanque no quintal atá casa, passando por cima dos muros dos quintais dos vizinhos. A fossa era nas traseiras da casa, num terreno que era do meu padrinho, o Ti Virgílio. Ele tinha autorizado.

Já eu dormia sozinho naquilo que se chamava sala, quando uma noite tive um pesadelo que nunca esqueci. Fazia parte da doutrina dos padres falar do apocalipse, do fim do mundo, da altura de nos irmos juntar todos com Deus, etc. Não tinha sono. O tempo não passava e durante toda a noite fui assoberbado pelos pensamentos mais absurdos. Não ouvia nada. Barrulho nenhum. Só pensava: será que acabou o mundo e eu fiquei sozinho? Tinha 11 anos. Com os nervos até me borrei todo.

Nas férias de verão o meu padrinho perguntava se eu queria ganhar algum dinheiro. Disse que sim. Passei a ser eu a moer-lhe o milho. Ele tinha uma eira onde o juntava a secar. Depois de seco levava-o para dentro da casa da eira e eu, com a moeira, ia-o malhando. Isto demorava uns 2 ou 3 dias. Recebia 20$00 cada dia. Guardava o dinheiro para mim.

O meu pai foi dizer à minha mãe que não achava bem eu ter dinheiro. Se o queria ganhar tinha que o entregar a ele. Ele é que o geria. A mim nunca me disse directamente. Depois a minha mãe veio dizer-me. Passei a dar-lho a ele sempre que o recebia. Mas o gosto de moer o milho já não era o mesmo. Depois o Ti Virgílio comprou uma debulhadora de milho a motor. Só tinha que atirar, com a pá, as maçarocas de milho lá para dentro. Já era mais fácil.

O dinheiro sempre foi pouco. O pouco que havia vinha do trabalho do pai. Que não era regular, porque era necessário também fazer os trabalhos em casa e as sementeiras nas hortas. Também se vendiam os cabritos que houvesse, uns tempos antes do Natal.

Circulavam regularmente por aquelas aldeias pessoas com os mais variados fins: amoladores que punham garfos em vasos e pratos partidos e arranjavam chapéus-de-chuva, latoeiros que faziam, reparavam e vendiam vasilhas e instrumentos de lata, como funis e baldes e bilhas, sapateiros, vendedores disto e daquilo, compradores de peles de coelho e de cabritos, ciganos, etc.

O meu pai evitava servir-se daquela gente, sempre que possível. Ele remenda os sapatos, tão bem como se fosse sapateiro. Remendava os baldes, os alguidares e as tigelas de barro. Punha ele os gatos.

Como o Mário era mais novo que eu, mas mais forte, calçava mais ou menos o mesmo que eu, nos meus 10 anos. Então o pai comprou um para de botas novas para nós, os dois, usarmos ao domingo. Quem se levantasse primeiro é que as calçava. O outro tinha que ir com as botas velhas.

A minha mãe tinha problemas de saúde. Depois de ter tantos filhos tinha-lhe descaído o útero. Queixava-se ao médico em Cardigos (quando ele lá vinha). Aconselharam-na a ir ao Hospital a Abrantes para ser vista. O meu pai andava a juntar dinheiro para a levar lá fazer uns exames. Já tinha 500$00 de lado.

Certo dia passa pelo Casalinho um cigano a vender peças de tecido. A mãe ficou entusiasmada. Tinha alguns filhos a precisar de calças. Com os quinhentos escudos comprou um corte de tecido para calças. À noite ouviu o bom e o bonito do pai.

- Nunca mais te levo ao hospital.

E não levou. Mandou fazer calças para todos os filhos mais velhos. O problema é que depois parecíamos membros de uma fanfarra, todos com calças castanhas às riscas.

E alguns não gostavam.

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publicado às 19:52

EN2 e a Graça era uma gracinha!

por António Tavares, em 03.05.17

Estrada Nacional 2 e

A Graça era uma gracinha!

A história da Estrada Nacional número 2 perde-se no tempo. Teve origem nos diversos trilhos romanos que foram modernizando os ancestrais caminhos rurais. Alguns troços da actual EN2 ainda coincidem com essas estradas romanas.

Mas o plano do Estado Novo, elaborado a partir dos anos de 1930, incluía uma estrada de Faro a Chaves pelo interior do País. O plano juntava antigas estradas e novas ligações.

O troço mais conhecido é o que atravessa a serra algarvia de Faro a Almodôvar. Porque foi feito de novo e ainda mantem os traços daquele tempo. E naquele tempo havia, de tantos em tantos quilómetros, as casas dos cantoneiros. Cada grupo deles tinha por missão manter um centro número de quilómetros em bom estado: limpavam, cortavam o mato, arranjavam as bermas, faziam pequenos remendos.

Essas casas tinham quartos, sala, cozinha, um pequeno terraço e churrasqueira. Eram de arquitectura simples e típica do estado novo. Estão todas ao abandono e para muitas há planos de recuperação e colocação ao serviço doturismo. Fossemos nós um país rico… Este troço foi mesmo classificado como de interesse público. Existem associações (incluindo de municípios) que querem levar por diante estes planos.

Vem isto a propósito do percurso desta estrada em território de Cardigos. Nesses longínquos anos 30 Cardigos era uma vila com algum poder, mesmo político e fizeram-se várias incursões a Lisboa para forçar que o seu traçado atravessasse mesmo a vila. Andava eu na escola primária e ainda se apontavam a dedo os prédios marcados para serem derrubados para ela passar. Mas Vila de Rei ainda era mais importante tinha o Centro Geodésico de Portugal, na Serra da Melriça. Ora se a EN2 era para atravessar Portugal de norte a sul, pelo centro do país, tinha que passar por ali. E hoje passa mesmo. Sobe mesmo a serra e passa a poucos metros do ponto mais alto. O picoto da Melriça.

Para calar o pessoal de Cardigos foi-lhes prometido fazer depois uma estrada de igual perfil a ligar a EN2 de Vila de Rei a Cardigos. Foi começada. Lembro-me dela desde que fui com o meu pai, de carroça, pela primeira vez, trocar os presuntos por mantas de toucinho ao Vale da Urra. Piso nunca terminado, rugoso, cheio de buracos até para uma carroça. Terminava abruptamente contra uma encosta, logo depois do cruzamento para vale da Urra, depois de cruzar a ribeira da Chaveira e antes da ribeira da Isna e de São João do Peso.

Foi finalmente acabado já depois da revolução. Mas em vez de ir ligar a Vila de Rei foi prolongada mais para cima e vai desembocar perto da Vila da Sertã. Este troço passou a integrar a EN244 que terminava em Cardigos e que assim foi prolongada até à Sertã.

Entre os 15 e os 17 anos, durante as férias de verão, passei a ser o ajudante do padre na missa. Eu até andava a estudar para ser padre. Ia aprendendo. Uma espécie de sacristão. Vinha cedo abrir a Igreja e tocar o sino ao nascer do sol.

Ajudava na missa. E reparava na Maria da Graça. A Maria da Graça era uma gracinha! Bonitinha, cabelo negro escorrido. Foi o meu primeiro amor platónico. Mais nova que eu, teria uns 12 anos. Na missa, ao segurar a bandeja que se colocava debaixo do queixo na altura da comunhão, tocava-lhe com a bandeja no queixo. Não sei se ela alguma vez reparou nisso, ou não. Aos domingos seguia-a no meio da população sem ela dar por isso. Pecava em sonhos. Pecados que nem sabia como eram e daqueles que nem ao padre confessava.

A Graça era da Roda. Tinha pelo menos mais 2 irmãs mais novas. Estudava em Castelo Branco, como o Mário. Nas férias grandes, eu passava as tardes de domingo com os rapazes e raparigas da Roda. A Graça fazia parte do grupo. Divertíamo-nos em passeios pelo campo. Íamos comer fruta à horta de uns e de outros. Havia sempre alguém que tocava gaita-de-beiços. Fazíamos bailes na eira. Chegava-mos a ir tomar banho a tanques de regar as hortas. Eu apenas olhava para a Maria da Graça. E sonhava em silêncio. Eu até era quase padre.

Depois de vir para Lisboa pedi ao Mário que me desse a morada dela. Escrevi-lhe algumas cartas. Ela respondeu-me durante uns tempos. Chegou a mandar-me uma fotografia. Dizia-lhe que gostava de estar com ela quando fosse a Cardigos, para conversarmos. Respondia a dizer que sim.

O problema é que Lisboa, naquele tempo, era muito longe. E trabalhava-se no sábado de manhã. Mesmo quando se deixou de trabalhar aos sábados, apanhar todos os transportes para Cardigos, era para chegar sábado às 14 horas. E no domingo tinha que apanhar a carreira das 2 da tarde.

Esperava por ela aos domingos de manhã na praça para a ver. Ela vinha para a missa das 11. Passava na praça acompanhada da família e fingia que não me via. Ou não me via mesmo.

E assim acabou o meu primeiro amor platónico…

Antes de partir para Moçambique ainda insisti. Queria que fosse minha Madrinha de Guerra. Que me escrevesse.

Não consegui.

Ainda a vi uma vez a subir as escadas do metro nos restauradores…

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publicado às 19:47

O galo do carnaval e a matança do porco

por António Tavares, em 29.04.17

O galo do carnaval e a matança do porco

Na escola de Cardigos era usual os alunos da 4ª classe oferecerem, pelo Carnaval, um galo vivo à professora em sinal de agradecimento. Na minha quarta classe coube-me a mim ser o organizador.

O objectivo era percorrer as aldeias, escolher o galo mais vistoso e mais bonito e depois convencer a sua dona a vendê-lo. O que nem sempre era fácil. Descobrimos um lindo na Roda. A senhora compreendeu a nossa situação e lá fez o preço que entendeu.

Competia-me a mim ir recolhendo de cada um o dinheiro que cada um conseguia até ter o valor total.

No dia combinado fomos todos nós buscar o galo. Preso pelas patas e pelas asas, metido dentro de um açafate de verga, todo engalanado, lá o fomos entregar à professora.

Também era na quarta classe que a professora arranjava normalmente um passeio, em género de viagem de finalistas. Nem todos podiam pagar e não iam. A professora insistiu com o meu pai: que eu era bom aluno, que ia continuar a estudar. E lá fui.

De carreira, um dia inteiro até bem de noite. Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré. Foi a minha primeira vez a ver o mar. Na praia, com um copo na mão, tentava a todo o custo enchê-lo de água do mar. Corria para as ondas mas logo que elas se aproximavam eu recuava com medo. Quando ia enterrar o copo na água só apanhava areia. Até que a professora disse:

- Dá cá.

E encheu-me o copo de água. Tinha aprendido que era salgada. Provei e era mesmo.

As carreiras que serviam Cardigos eram as do Claras com sede em Torres Novas. As que chegavam à noite dormiam em Cardigos e partiam de lá às 7 horas da manhã. Outras passavam por ali e iam dormir às Corgas (perto de Proença-a-Nova, porque o motorista era de lá). Nas manhãs húmidas e frias de inverno a carreira por vezes não pegava. O motorista já tinha o cuidado de a deixar numa descida para ele a deixar embalar e pegar em andamento.

Uma vez, ia eu para o seminário de Fátima e o motorista não conseguiu, mesmo descendo toda encosta até para lá do Azinhal (cerca de 4 quilómetros) que ela pegasse. Ali começava a subida. Então mandou toda a gente sair. Aquilo podia explodir. Abriu a capot do motor, abriu o carburador, pôs lá para dentro uma substância qualquer e aquilo pegou mesmo.

A matança do porco no Casalinho era um dia de festa. Era marcado o dia com antecedência para que nesse dia toda a gente pudesse estar disponível. Nós matávamos 2 porcos normalmente.

Uns dias antes começavam os preparativos para que cada família pudesse ter tudo disponível, carquejas secas para o chamuscar, facas de vários tipos, alguidares, tripas secas, etc.

Começava-se cedo no cimo da aldeia. Deitado numa mesa própria o porco era morto com uma facada directa ao coração. Só fazia isso quem sabia. O sangue era aparado para um alguidar.

Punha-se o porco no chão e aquela família ficava a chamuscá-lo. Com uma faca afiada fazia-se-lhe depois a barba bem feita para não ficarem pelos.

Enquanto isso os homens seguiam com a mesa para a família seguinte e assim até ao fundo da aldeia.

Morto o último voltava-se a levar a mesa para o cimo da aldeia. Voltava o porco para cima da mesa. Patas para o ar. Era aberto de alto abaixo. Esventrado. As tripas para um alguidar, as miudezas para outro. Depois de limpo era carregado pelos homens para a “loja”. Nós chamávamos loja à espécie de arrecadação onde se guardava um pouco de tudo. Pendurado pelas patas traseiras, ficava a arrefecer 1 ou 2 dias.

A guerra entre nós era para saber quem comia a primeira febra espetada num pau e grelhada nas brasas de chamuscar o porco.

Antes do almoço as mulheres carregavam as tripas para serem lavadas com muito limão no ribeiro do vergancinho. Viradas e reviradas, esfregadas e bem lavadas. Era para os enchidos. E mesmo assim não chegavam. Tínhamos que comprar tripas secas.

À noite começava-se a cortar as primeiras carnes para os enchidos.

No dia seguinte ou 2 dias depois o porco era desmanchado. Todas as peças separadas. As aparas das carnes iam para os enchidos, separadas consoante os tipos de enchido: morcelas, farinheiras, cacholeiras, chouriços, paios, etc. O resto da carne era salgada na salgadeira para comer todo o ano. As pás das patas da frente eram curtidas e salgadas como se fossem presuntos. Para nós era mesmo presento.

As patas de trás ia o meu pai na carroça trocá-las por mantas de toucinho ao Vale da Urra, já perto de Vila de Rei. Uns 6 ou 7 quilómetros. Cada presunto valia 2 mantas de toucinho. Ficávamos com muito toucinho, gordura que alimentava todas as refeições durante o ano. Mais uma vez eu tinha que ir com ele. Fui várias vezes com ele ao Vale da Urra na carroça.

Ainda hoje Mação é o concelho autodenominado capital do presunto. É neste concelho que é produzida a maioria do presunto que se consome em Portugal. Aminha mãe costumava fazer um conjunto de chouriços pequenos, para dar um a cada um de nós. Era uma ansiedade a espera para que eles ficassem curados.

Depois no início de Janeiro, aos domingos, vinha um senhor a Cardigos com uma camioneta cheia de porcos pequenos para vender. Lá vínhamos nós depois com eles presos com uma corda estrada fora, no domingo à noite.

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publicado às 14:47

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

por António Tavares, em 26.04.17

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

Mantive-me na pensão da Rua de Stª Marta até à ida para a tropa. Entretanto o Manel também tinha vindo para Lisboa tirar um curso de Offset. Como tínhamos familiares no Ministério da Educação ele conseguiu depois lá um lugar na reprografia. A Lena e a Lúcia também tinham vindo para Lisboa para empregadas internas na casa de uma senhora da sociedade, irmã do Sr Visconde. Tinha sido o primo Manel de Moura que dera um toque ao Sr Visconde. Estiveram lá pouco tempo. A Lúcia foi para uma casa de freiras e a Lena acabou por ir trabalhar também para o Ministério da Educação e alugou uma parte de casa no Bairro Alto.

Estava na tropa em Mafra e vinha a Lisboa aos fins-de-semana. Costumava ficar com ela.

Nessa altura tinha um amigo da Roda, mais velho, que também fora seminarista, o Tonito. Ele tinha uma amiga que conhecera dos seus tempos de tropa na Amadora. Essa amiga tinha mais 2 irmãs. Eram oriundas de Elvas e moravam com os pais na Amadora. Parece que ainda eram conhecidas daquele que cantava “Ó Elvas, Ó Elvas, Badajoz à vista...". Essas raparigas eram interessantes porque a mãe era chinesa de Macau. O pai delas fora lá sargento do exército. E aquela mistura de português e chinês dei-lhes um traço característico.

Sempre que vinha a Lisboa, eu o Tonito tínhamos companhia para o fim-de-semana. Ele com a mais velha e eu com a do meio. Íamos à praia a Carcavelos e ao Estoril, percorríamos os cafés da Reboleira e Amadora, íamos dançar e beber uns copos para uma boite que abria as portas aos domingos à tarde para a malta mais nova e que ficava na Rua Filipa de Vilhena. O Tonito chegou a namorar com a mais velha. Acabou por casar com uma rapariga lá da terra. Eu tentei alguma aproximação à irmã do meio. Foi o meu segundo amor platónico. Ainda hei-de falar do primeiro. Mas sempre que lhe puxava pela conversa ela dizia que tinha um namorado que era piloto da Força Aérea. Nunca o vi. O certo é que passávamos muitos fins-de-semana juntos. Mas fiquei-me apenas pelo amor platónico pela minha chinesinha Nônô…

Quando fui para Moçambique levei o seu contacto. Ainda escrevemos algumas cartas. Nunca existiu empatia e acabou.

Quando regressei da guerra e fui estudar para o ISE estava ela a acabar o curso. Apenas nos cumprimentávamos. Depois encontrava-a regularmente na Rua da Prata. Ela vinha de comboio da Amadora e apanhava o eléctrico para o Arco do Cego. Trabalhava na Casa da Moeda.

Como eu e alguns dos meus irmãos já estávamos em Lisboa foi por sugestão do Tonito que começamos a procurar casa para alugar para todos. Um dia fui com ele a Queluz ver uma casa disponível. Levei lá a Lena e ficamos com ela. Tinha 5 assoalhadas. 2 quartos para os rapazes e 2 para as raparigas.

Atrás de nós vieram os outros todos. Até que ficaram apenas os pais em Cardigos. Eu estava na tropa. E eles lá foram arranjando emprego, a maioria deles no Ministério da Educação. O certo é que a vinda para Lisboa abriu os olhos a eles todos. A maioria acabou por estudar à noite, acabaram por tirar cursos superiores e arranjar empregos melhores.

O Mário também deu as suas voltas na vida. Foi tirar a escola primária a Canha, perto de Setúbal, a casa de familiares da parte da minha mãe. Quando vinha a casa nas férias do Natal trazia de lá laranjas. Eram as maiores laranjas que já vira. Enormes. Tão grandes eram que a minha mãe descascava-as e dava a cada um apenas um ou 2 gomos. Mesmo assim havia guerra pelas cascas. Para comer a parte interior da casca. Estas laranjas serviam para fazer óculos: eu cortava 2 lascas da casca em lados opostos. Depois cortava uma tira da casca entre as duas lascas sem a separar. Por fim tinha que meter a faca por dentro da casca e separar toda a casca do miolo. Enfiava a tira debaixo do chapéu e afastava os dois buracos para os lados, ficando um em cada olho. Era assim que eu brincava.

Depois o Mário esteve no seminário de Poiares. Tentou e não se deu bem. Acabou por ir tirar o liceu a Castelo Branco. Usava a barba grande e os cabelos enormes. Cada vez que vinha ao Casalinho havia sempre discussão com o pai. Quase chegavam por vezes a vias de facto. Ele não queria aquelas guedelhas. Ele veio depois para Lisboa tirar Medicina. Teve ligações esquerdistas. Constou-me, depois de eu vir de Moçambique, que uns dias antes do 25 de Abril alguém ligado à PIDE batera à porta da casa de Queluz a perguntar por ele.

Depois do 25 de Abril as suas ligações esquerdistas levaram-no a participar em actividades de apoio local em locais mais desprotegidos. Num bairro de barracas da Amadora participou na construção de um espaço para apoio social e escolar.

A casa de Queluz serviu para todos nós. Até para receber o pai depois de adoecer e a Mãe quando ficou viúva. Foi lá que faleceu o pai e mais tarde a mãe.

Foi para lá que fui morar quando vim de Moçambique. Foi de lá que saí para ir casar. Lá faleceu o João, vítima de um ataque epiléptico nocturno. De lá saíram os meus irmãos todos menos o Abílio e o Alberto. Quando o senhorio vendeu o andar, o Abílio comprou a parte dele e a parte do Alberto. O Alberto foi depois comprar uma para ele para os lados de Sintra.

A dada altura a minha mãe chamou os filhos todos. O Manel já tinha falecido. Veio a viúva. Havia feito lotes dos terrenos todos como ela entendeu. Escreveu os nomes em papelinhos e enrolou-os. A começar pelos mais velhos cada um tirou um papel. Para mim ficou o Covão do Rocinho e parte do Cabril, entre o estradão e o lado direito da barragem. A casa ficava para todos. Assim evitou a guerra de partilhas e faleceu em paz.

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publicado às 12:11

A santa roubada e que partiu um braço

por António Tavares, em 25.04.17

A santa roubada e que partiu um braço

Cardigos é uma vila muito antiga. Anterior à nacionalidade. Foi terra de templários. Teve foral de D. Manuel. Foi sede de comarca no tempo dos Filipes.

Nos anos de 1950 tinha no largo principal um chafariz, o pelourinho, um poço, mas já não tinha o velho eucalipto. Foi cortado e queimado na praça na fogueira de Natal. Porque com ele ali não havia espaço para se fazer a queima do madeiro. Passou a fazer-se todos os anos a fogueira de Natal que tinha que arder até ao ano novo.

O fontenário era a único ponto público de abastecimento de água, até esta ser canalizada para as casas, após construção da barragem do vergancinho. Parte dos terrenos onde foi construída esta barragem era dos meus pais. Com as partilhas coube-me a mim a faixa de terreno entre o estradão que sobre do lado direito e o lençol de água.

O pelourinho ainda lá está. O Fontanário também, mas perdeu uma das torneiras e a cercadura de mármore em volta.

Cardigos tinha uma velha igreja no lugar onde hoje está a actual. Essa velha igreja ardeu em tempos muito antigos. Ainda me lembro, nos anos 50, das suas ruinas queimadas, envoltas em silvas e heras. Nós subíamos por cima das paredes, para ver os restos queimados do altar. No início do século XX o povo juntou-se para angariar dinheiro para construir uma nova.

Foi escolhido o melhor local, foi feito um projecto em planta cruciforme e foi iniciada a construção. Esta igreja era o “ai Jesus” do povo, porque foi feita pelo povo. As pessoas vinham à missa (não sei onde era ministrada) ao domingo e cada um trazia o que podia oferecer para a construção: uma telha, um tijolo, 2 tábuas, etc. E foi o povo com as suas mãos que a construiu. Dimensões grandiosas. Nunca chegou a ser bem acabada. A torre era enorme, mas internamente não estava sequer rebocada. Devia ter levado 4 sinos, mas apenas se conseguiu dinheiro para um. Bem grande e valioso.

O Manel chegou a ser sacristão. Mais tarde coube-me a mim, nas férias de verão, abrir a igreja muito cedo e tocar o sino ao nascer do sol.

Mas como a construção era de cariz popular e não sofreu obras de manutenção, no início dos anos 70 já tinha acentuados sinais de degradação. O pároco na altura meteu mãos à obra para a construção da actual, estilo moderno, no lugar da que antigamente tinha ardido. O povo não quis. Queria obras na SUA igreja.

O padre levou a dele avante e começaram as obras. Gerou-se um movimento popular que na altura chegou a ter alguma expressão. Vendeu o sino de bronze para custear as obras e quando vieram para o buscar a população fechou o padre na igreja para o linchar. Foi salvo pela GNR. Mesmo assim, numa noite, alguém subiu à torre e empurrou o sino para a rua. Partiu-se todo. Mas como o que importava era o valor do bronze. Foi levado. Nunca mais se ouviu o sino grande de Cardigos. Passou a ouvir-se a “sineta” da moderna igreja, comandada electronicamente.

A indignação atingiu tais proporções que chegaram a ir de comboio de Lisboa muitos naturais de Cardigos para ajudarem nas revoltas locais. Parece que o padre comandou mesmo uma contra-revolta que fazia esperas ao comboio e atiravam com pedras. Foram mesmo publicados panfletos em verso para tentar desmascarar o padre.

Das pedradas ao comboio

Lá perto do Entroncamento…

São os 2 únicos versos de que me lembro. Porque entretanto fui para a tropa e para Moçambique, soube que em 1972 a nova igreja foi mesmo inaugurada com pompa e circunstância pelas autoridades civis e militares…

A velha levou entretanto algumas obras, é gerida pela Casa de Misericórdia como centro de dia e centro social. Mas ninguém lhe tira o seu orgulho. Que as gerações vindouras lhe saibam manter a dignidade altaneira!

Na minha quarta classe (1960) lembro-me de o povo de Cardigos se juntar um dia no largo principal para receber com flores e foguetes um herói que acabara de cumprir 2 anos de prisão em Mação e que chegava na carreira das 2 horas. A professora fechou a escola e fomos todos para a praça esperá-lo.

É que existia naquele tempo uma humilde capela nos limites das freguesias de Amêndoa e de Cardigos, mesmo junto da estrada nacional. Cada freguesia reclamava a capela como sua. E o povo da Amêndoa, para que a capela passasse a ser de vez sua pertença, destruiu-a e reconstruiu-a uma dezena de metros mais adiante.

O povo de Cardigos não se ficou. Arranjou um herói que se dispusesse a ir roubar a santa e coloca-la no lugar da antiga ermida. O objectivo era que de manhã o povo a visse e acreditasse que fora um milagre. Que a santa queria a capela no antigo lugar.

Acontece que o pobre homem para ter essa coragem teve que beber uns copitos. E como já ia meio toldado deixou as pegadas em cima do altar e deixou cair a santa. Partiu-lhe um braço. Aí, pensou ele: ninguém vai acreditar num milagre em que a santa parte um braço pelo caminho. Solução: entrou pelo mato dentro, acabou de escavacar a santa e enterrou-a no meio das estevas.

Veio a GNR, ele foi descoberto e apanhou 2 anos de choça. E a capela já está em terrenos da Amêndoa. Os de Cardigos colocaram então apenas um cruzeiro de ferro (que ainda lá está) no lugar da antiga ermida.

Esta rivalidade entre as duas freguesias sempre existiu. Nas festas de Cardigos quando se ouvia dizer “olha aquele é da Amêndoa” chovia bordoada que fervia. Nunca entravam nos bailaricos.

A festa principal de Cardigos é dia de N. Srª da Assunção: 15 de Agosto. Nesse dia instalava-se um motor gerador fora da vila, instalava-se luz eléctrica nas principais ruas, havia coreto, música, fanfarra, as ruas atapetadas com murta, havia procissão e uma coisa que nunca mais vi: fogo preso. No final da festa havia foguetes e lançamento do balão com uma lanterna acesa lá dentro.

Nesse dia de festa tínhamos por hábito comprar a maior melancia que houvesse no mercado e um garrafão de vinho, ia-mos comê-la para debaixo das oliveiras e dormir a sesta na hora de maior calor.

O balão subia, subia até quase desaparecer no céu. E muitas vezes ao cair gerava incêndios. O lançamento destes balões acabou por ser proibido. E lá pela uma hora da manhã o meu pai pedia a um dos motoristas da serração para nos levar ao Casalinho, na caixa de carga da camioneta.

Mas o que mais me lembro é do fogo preso: figuras animadas que se mexiam com o arder dos rastilhos de pólvora. O rastilho ia ardendo e passava o movimento de uma figura para outra: ciclistas, rodas, palhaços, etc.

Mostro a seguir algumas imagens que retirei do site da Junta de Freguesia de Cardigos. Espero que não levam a mal.

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O poço no centro da praça e o velho eucalipto.

Na rua à esquerda, lá muito ao fundo a igreja (com a sua torre) que o povo construiu.

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O pelourinho. Aqui ainda visíveis os ferros para pendurar os criminosos.

Igeja de Cardigos.jpg

A velha igreja que o povo construiu. Era deste lado que estava o sino grande

Igeja de Cardigos 1.jpg

A nova igreja do padre, no lugar da primitiva que ardeu

Postal de Cardigos 1.jpg

Postal de Cardigos.jpg

Postais de Cardigos (anos 70) que a minha mãe me mandou

O velho chafariz com a cercadura de mármore já perdida.

 

 

 

 

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publicado às 18:20

Aprendi muito com o pai

por António Tavares, em 22.04.17

Aprendi muito com o meu pai

Os cereais que mais semeávamos eram o milho, o trigo e o centeio. Durante o inverno comia-se broa e pão de trigo no verão. Não tínhamos forno. Usávamos o forno do Ti Vergílio. Só se cozia pão uma vez por semana.

Mas para moer os cereais o meu pai tinha que ir na carroça levar os sacos de grão ao moleiro que operava um moinho de vento no alto de um monte, para lá dos Vales, já próximo do Vergão em terras de Proença-a-Nova. Uns bons 10 quilómetros. Ia levar o grão e voltava dias mais tarde para buscar a farinha no dia combinado. Deixava a maquia para pagamento: 1 em 10.

Nos meus 5 ou 6 anos passei a ir com ele, para deixar a mãe e os mais novos em paz. Ao princípio o moinho era de vento. Nas últimas vezes que lá fui já era movido a motor a gasóleo.

Por não ser prático o meu pai convenceu o meu padrinho (Ti Virgílio) a ceder um terreno junto ao ribeiro do vergancinho para construir um moinho para uso comum. Ele acedeu e colaborou na sua construção. Quem o construi foi o meu pai. Eu ia para lá porque gostava de observar a evolução das obras e porque a minha mãe não me podia aturar. Assisti à construção da represa no ribeiro, da levada da água, do arco do rodízio, em pedra, do próprio rodízio talhado em madeira de pinheiro, da tremonha, etc. Fazia perguntas constantes ao meu pai. Tinha que perceber como tudo funcionava. Tinha 5 ou 6 anos e andava por cima dos muros, de um lado para outro. Catrapumba… cai lá em baixo e parti a cabeça, mais uma vez.

As mós eram de granito que não havia na zona. O meu pai foi busca-las na carroça lá muito para o norte. Nem sei onde.

Sempre que começava a chover, fosse de dia ou de noite, lá íamos a correr pôr o moinho a andar e a moer. Porque só podia moer quando no ribeiro corria água.

Ainda hoje são visíveis as ruinas do moinho no final do lençol de água da barragem do vergancinho. Subindo pelo estradão do lado direito da barragem, vêem-se na margem oposta.

Pela mesma altura o meu pai construiu a nova casa do Ti Virgílio. Um prédio! Água encanada dum poço no monte para lá do vale. Casa de banho com torneiras e banheira. Nunca tinha visto nada assim.

O meu pai escavou os alicerces na encosta, até apanhar solo firme. Isso eu percebi. Não percebi é porque é que a base do alicerce era em escada, sendo que os degraus eram mais baixos para o lado onde a encosta subia. E perguntei-lhe. Sempre me explicou tudo:

- Não vez que assim a parede fica a fazer pressão para cima e não desliza pela encosta.

Eu achava o meu pai muito esperto e inteligente. O que aprendi com ele nas obras foi-me muito útil mais tarde aquando da construção da Casa da Praia.

Quando casou, veio para Lisboa trabalhar nas obras. Dizia-me ele que foi colega de pessoas que depois se tornaram afamados construtores como o J Pimenta. Contava-me que a empresa dele alcatroou as ruas do Bairro da Encarnação e construiu as escadas do Bairro da Boavista em Campolide.

Era na altura da II Grande Guerra. Que se lembra de em Lisboa se fazerem simulações de ataques aéreos. Apagavam-se as luzes da cidade e surgiam no ar apenas as sirenes e as luzes dos holofotes pesquisando no ar aviões inimigos.

Mas cada vez que ia a Cardigos aparecia mais um filho. Até que por causa da guerra e da crise, desistiu de Lisboa e foi construir para Cardigos.

Era aos domingos, depois da missa das 11 que se faziam os negócios, durante o circuito das tabernas. Quem precisava de trabalho juntava-se com quem oferecia trabalho. Faziam-se os pagamentos da semana anterior e combinavam-se os trabalhos para a semana (ou semanas) seguintes. Quem recebia pagava uma rodada. Primeiro só vinho. Para o fim do dia já era cortado: meio vinho meia gasosa. Eu queria sempre acompanhar o meu. Só bebia gasosa.

Foi aqui que aprendi a olhar para o chão quando andava na rua. O meu pai ensinou-me a abrir todas as caixas de fósforos que visse no chão. Explicação: os pobres aldeões guardavam os trocos dentro das caixas de fósforos. Assim sempre aparecia, de vez em quando, alguns cruzados ou tostões.

Estava eu no seminário quando o Manel seguiu os passos do meu pai na construção. Havia em Cardigos vários empresários que tinham empresas de construção com alguma dimensão, a operar principalmente em Lisboa. O Manel foi com um deles. Foi trabalhar para alcatroar uma das estradas da Serra da Arrábida. Conduzia um dumper a transportar alcatrão. Ficou mal travado. O dumper deslizou e ele foi apertado contra outra viatura. Foi internado. Teve que ser operado e foi-lhe extraído o baço. Não morreu disso. Morreu dos excessos… penso eu.

Bodas de ouro.jpg

 Bodasde ouro... no Casalinho

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publicado às 14:50

Produzir o que comer

por António Tavares, em 12.04.17

Produzir o que comer

Só se vendia pão em Cardigos. Daquele pão branco, fino e fofo. Papo-secos e pão de quilo. A D Maria, nossa vizinha do lado, gente fina, viúva e mãe da D Alcina, professora primária na Concavada, só comia desse pão. Um de nós ia a Cardigos todos os dias comprar um quilo de pão.

Cada pão pesava sempre menos de 1 quilo. Então o padeiro cortava uma fatia de outro para fazer o quilo certo. Era o contrapeso. Eu oferecia-me sempre para lá ir porque ela dava-me sempre o contrapeso.

Quando a D Alice e o marido vinham passar alguns dias de férias ao Casalinho traziam sempre um saco cheio de papo-secos que distribuíam por nós. Era como se fosse uma guloseima.

O Manel era um perito em apanhar passarinhos. Normalmente durante o verão. Tínhamos algumas centenas de armadilhas de arame (nós chamávamos-lhe costelas). Arranjávamos uma beterraba bem grande, escavávamos por dentro para a fazer oca e arranjamos-lhe uma tampa. Atávamos-lhe um cordel para poder levar ao ombro. Escavávamos os ninhos de uma determinada formiga grande, apanhávamos as formigas de asa e enchíamos a beterraba delas. Elas mantinham-se bem lá dentro por estar fresco e porque iam comendo a beterraba.

Cada formiga de asa era montada numa armadilha de modo a que não se soltasse e que pudesse bater livremente as asas.

Saíamos aos domingos ainda de noite para montar as armadilhas. Tinham que estar montadas antes de o sol nascer e para nos anteciparmos a que outros ocupassem a melhor zona. Havia um acordo tácito: quem chegasse e topasse que na zona já havia armadilhas, seguia para outra zona.

Ao nascer do sol os pássaros saiam para comer, eram atraídos pelo bater das asas da formiga e eram apanhados pelas armadilhas.

Vínhamos a casa dormir um pouco.

Cerca das 11 horas era altura de fazer o mesmo percurso a apanhar as armadilhas e os pássaros presos. O Manel tinha dias de apanhar mais de 100. Normalmente apanhávamos galegos, piscos e felosas. Estes 2 últimos eram os mais saborosos por serem mais gordinhos. Os piscos comiam figos e bagas, as felosas comiam só bagas. Os galegos viviam nos pinhais e comiam insetos. Normalmente eram mais magros. Por vezes apanhávamos carriças e megengras. Estes eram muito pequenos e eram deitados fora. Às vezes as armadilhas desapareciam. Tínhamos que procurar nas redondezas. Quando eles ficavam presos apenas pelas patas arrastavam-nas. A alegria maior era quando ficavam presos pássaros maiores: melros, gaios e até rolas. Mesmos presos conseguiam arrastar as armadilhas para bem longe. Estes normalmente ainda estavam vivos. Tínhamos que lhe apertar o bico até que morressem.

Durante a tarde íamos depená-los. A mãe fitava-os e era um petisco.

Mas quando lá estava a D Alcina de férias eles compravam-nos todos (já depenados) por 5 escudos cada um. Ficávamos sem o petisco.

Quando o Manel deixou de montar as armadilhas comecei eu. Tentei aprender com ele mas não consegui. Apanhava sempre só 1 ou 2. Às vezes ainda os depenava e ia oferecer à D Alcina apenas 1 pássaro. Ela por vergonha não dizia que não e dava-me os 5 escudos.

Semeávamos milho nas hortas onde havia água. Antes de termos o motor para tirar a água dos poços tínhamos que utilizar as picotas. Um instrumento feito com 2 paus. Um pau grande suspenso no ar por outro colocado a meio. Numa das pontas do pau grande estavam presas pedras a fazer peso. Na outra ponta estava uma vara comprida da qual pendia um balde de lata. Tínhamos que fazer força para fazer descer o balde até água. Depois de cheio o peso das pedras fazia-o subir.

Depois a água corria por um rego e era encaminhada cavando com um sacho para as diferentes leiras do milho.

Normalmente o milho era cultivado na horta das macieiras por ser a que tinha melhor terra e mais água.

A mãe ficava em casa, o pai ia trabalhar e nós íamos regar o milho. Certo dia o Manel chamou pelo Mário. Ninguém o tinha visto. Não sabíamos onde estava. Quando nos abeiramos no poço eu tinha caído lá para dentro. Tinha vindo acima e conseguiu agarrar-se às pedras da parede. Estava tão assustado que não conseguia dizer nada.

- Não te mexas. Já vamos tirar-te daí

Mas a água estava uns 2 ou 3 metros abaixo. Lá conseguimos agarrar-nos uns aos outros e o Manel foi descendo pela parede até pegar na mão do Mário e puxá-lo para fora.

Éramos todos miúdos.

Tínhamos hortas dispersas por vários sítios: Cardosa, Horta do Fouto, Cabril, Covão da Pouchana, Covão do Rocinho, Pereiro e mais algumas.

No verão todas tinham que ser regadas pelo mesmo processo. Quando não era através de leiras era com um instrumento da madeira que tinha na ponta uma espécie de bacia. A água era despejada da picota, corria pelo rego para um buraco largo no chão e com esse instrumento era atirada para cima das hortaliças.

A rega tinha que se repetir de 3 em 3 sóis. Isto é, se uma horta era regada segunda-feira de manhã, tinha que voltar a ser regada na quarta-feira de manhã. Já tinha apanhado o sol da tarde de segunda, o sol da manhã de terça e o sol da tarde de terça.

Mais tarde o meu pai comprou uma moto-bomba a petróleo. Aí nós fazíamos o percurso entre as hortas na carroça: tínhamos que levar o motor, as mangueiras e todos os instrumentos necessários.

No regresso sempre se traziam hortaliças, frutas, lenha e sacas de pinhas.

Semeávamos também trigo e centeio.

Os cereais eram levados para a eira. O milho era descamisado à mão. Depois todos os cereais eram malhados com o mangual (nós chamávamos-lhe moueira): instrumento de madeira feito com 2 paus de diferentes tamanhos unidos por 2 ligações de couro. O maior era onde se pegava para bater com o mais pequeno no cereal. O mais pequeno era mais grosso, pesado e mais rijo. Era o que batia no ceral e por isso ter que ser mais duro.

Para ajudar até a mula era passeada largas horas por cima do cereal estendido na eira. Ajudava com as patas a debulhar o trigo.

Quando o meu pai passou a tratar a quinta da D Natividade passou a produzir muito mais milho. Tínhamos a nora puxada pela mula. Tínhamos muito mais água e era mais fácil o seu cultivo. Passávamos um dia inteiro a descamisar o milho e não conseguíamos levá-lo para casa no mesmo dia. Dormíamos em cima do milho enrolados em cobertores para não o deixarmos roubar.

Mais tarde passaram a percorrer as aldeias debulhadoras mecânicas que vinham puxadas com tratores para debulhar o trigo e o centeio. Era um dia de festa porque toda a aldeia se reunia para ajudar. As pessoas iam ceifando e juntando cada família na sua meda, junto da eira. No dia combinado nós íamos esperar a debulhadora à estrada. Porque o caminho daí até à eira era de terra, esburacado, com altos e baixo e nós adorávamos ver as manobras que o trator fazia para levar aquela maquineta tão grande até à eira.

Num dia de trabalho todo os cereais eram todos debulhados. O trator voltava a levar a debulhadora para a aldeia seguinte e o dono dela, numa carrinha, levava a paga: os sacos da maquia. 10 alqueires para o dono do trigo, 1 alqueire para o dono da máquina.

Uma vez numa aldeia próxima, estava já todo o cereal arrumado na eira à espera da debulhadora, aconteceu um incêndio. Toda a aldeia perdeu o pão para esse ano. Moveram-se influências e vieram cereais de ajudas, dizia-se que do estrangeiro. Sei que as pessoas se queixavam que o pão era diferente, que não tinha o mesmo sabor.

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publicado às 12:43

A rifa do carneiro

por António Tavares, em 12.04.17

A rifa do carneiro

Na minha meninice toda a área em volta das aldeias de Cardigos estava completamente tapada por pinhais. Como os pinhais eram fechados o mato quase não crescia por entre eles. E o mato que crescia era cortado todos os anos, quer para a cama dos gados, quer para fazer estrume. Até mesmo as carumas dos pinheiros eram rapadas e apanhadas para o mesmo efeito. Logo quase não havia fogos. E quando havia eram apagados pelo povo de modo fácil.

Nas zonas onde não havia pinhal os terrenos eram depois lavrados para semear trigo e centeio. Ao fim de 2 anos de sementeira arroteava-se mais um bocado de terreno e deixava-se aquele de pousio.

Os pinhais eram uma reserva de valor. Quando se precisava de dinheiro vendiam-se alguns. E havia muitas serrações de madeiras na zona. Algumas tinham mesmo produção de vários artefactos de madeira como paletes e caixa para a fruta.

Para além disso os pinheiros eram sangrados para darem resina. Andávamos pelos campos com bidões às cotas a apanhar a resina dos copos para depois despejar para outros bidões maiores colocados à beira dos caminhos. De longe a longe passava o camião para os recolher. Colocavam-se 2 troncos grandes e os bidões eram rebolados por eles acima.

Na rua do Casalinho cada habitante era “dono” do pedaço de rua que ficava à frente da sua casa. A rua era escavada e rebaixada e era cheia de mato. Com o passar das carroças, com a chuva e com os despejos das águas de lavagem, em pouco tempo o mato passava a estrume e era levado para as hortas. O meu pai chegou mesmo a comprar matos em cabeços bem distantes e ia lá buscá-lo, porque ali ao pé já não havia nada. Chegou até a fazer a mesma “cama” de mato em caminhos dispersos pelos campos fora. Nas noites quentes de Agosto dormíamos por vezes na rua em cima da cama do mato fresco.

Os pinhais eram tão fechados que as aldeias não se viam umas das outras. Agora, quando lá vamos, do alto da serra da Melriça vêem-se todas as aldeias, uma a uma.

Lembro-me uma vez de aparecer uma luz de noite por meio dos pinhais. Aparecia e desaparecia. Tremeluzia. O meu pai brincava connosco dizendo que era uma bruxa. Que não fossemos para lá de noite.

Uma vez desafiei o Manel para irmos por ali fora ver se descobríamos de onde vinha a luz. Quando chegávamos a um ponto alto a luz passava para o monte alto a seguir. Fomos andando até que, ao chegar a um ponto bem alto, verificamos por fim ela vinha de bem longe. De Cernache do Bonjardim a muitas dezenas de quilómetros. Era a luz que iluminava a entrada dos autocarros do Claras. E como estava no cimo dum poste muito alto via-se muito bem de bem longe.

O Manel era o mais velho e eu gostava de o acompanhar quando havia festas no verão. Certo dia fomos a uma festa no Azinhal. A uns 5 ou 6 quilómetros. Por lá andamos até depois da mia noite. Havia rifas para um carneiro. O Manel comprou uma. Lá pela noite dentro veio o Ti Virgílio, meu padrinho, acordar-nos. Que tinham telefonado para casa dele (era o único que tinha telefone na aldeia) a dizer que o carneiro tinha saído ao Manel e que ele tinha que o ir lá buscar.

- Para que é que eu quero agora um carneiro?

Mas lá fomos. Era domingo. Chegados lá diz a Manel para os organizadores:

- Sabem uma coisa? Dou o carneiro para a festa. Amanhã faz-se mais um dia de festa, mata-se carneiro e comemos todos.

E assim foi. Na noite seguinte eu e o Manel fomos os reis da festa.

Mesmo assim ainda me lembro de ver grandes incêndios, mas muito ao longe. Era longe mas de noite o clarão no ar assustava. Umas vezes era para lá da Amêndoa, para os lados de Ferreira do Zêzere, outras para norte para a zona de Oleiros e da Serra do Moradal. Nessas noites nem dormíamos com medo, embora fosse a muitos quilómetros de distância.

De vez em quando ouvíamos rebentamentos. Pareciam bombas. Era quando o fogo chegava aos bidões cheios de resina, junto dos caminhos. Cada vez que rebentavam lá espalhavam mais fogo.

Hoje na zona já não se colhe a resina, não há pinheiros grandes e o mato cobre a maior parte do terreno.

Cortar o mato tinha ainda outra vantagem: quando começava a rebentar aqueles rebentos tenros eram um petisco para as cabras. De tal maneira que a minha mãe lembrava-me sempre para não levar as cabras para aqui, ou para ali, porque as carquejas do Ti Virgílio estavam a rebentar e ele podia ficar chateado.

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publicado às 10:37

72 tangerinas

por António Tavares, em 07.03.17

72 tangerinas

Nas viagens de Cardigos para Vila Nova de Poiares e vice-versa parava sempre algumas horas em Coimbra para fazer o transbordo para outra carreira. Ia-mos em grupo e a partir de Coimbra cada um seguia o seu destino.

Junto à estação de Coimbra B havia uma senhora que vendia bananas dentro dum cesto. Foi lá que comi as minhas primeiras bananas. Comprava sempre só uma. E tenho ainda na lembrança o facto de por vezes gostar muito delas e outras quase que me davam vómitos. Percebi muito mais tarde que as que não gostava eram as que estavam muito maduras. Mas nunca tive coragem (por vergonha) de dizer à senhora que não as queria muito maduras. Ainda hoje só gosto de bananas verdes.

Quando vinha a Cardigos via Sertã, alguém tinha que me ir buscar com a carroça, ao cruzamento junto a Proença-a-Nova, porque eram muitos quilómetros até ao Casalinho. Quando vinha por Cardigos a carreira deixa-me mesmo na vila. Aí eu fazia o caminho a pé até ao Casalinho.

Quando era nas férias de Natal, pelo caminho passava junto aos terrenos que, pertencentes à Dona Natividade, eram cultivados pelo meu pai. E nessa altura havia muitas laranjas e tangerinas. Lembro-me de, um belo dia, me sentar em cima de uma tangerineira e comer tangerinas sem parar. E fui-as contando. Comi 72. E no final ainda enchi os bolsos para comer até casa.

Essa quinta tinha sido em tempos, para além de zona agrícola, uma zona de veraneio e diversão. Tinha ainda alguns vestígios desses tempos áureos, que me encantavam, por nunca ter visto nada assim: um pequeno chalé num ponto alto, no meio da vinha, com churrasco e tudo, as videiras à volta do chalé eram as mais doces (moscatel, penso eu agora), havia uma nora muito grande num poço muito fundo. A nora era puxada pela mula. Deitava água para um tanque muito grande e desse tanque a água irradiava por toda a horta.

Essa quinta foi dada ao meu pai para semear e usufruir podendo ficar com tudo. A dona da quinta apenas vinha buscar tudo o que precisasse para o seu consumo.

Havia algumas árvores interessantes, que não existiam nos nossos terrenos. Uma pereira enorme diferente de todas as que conhecia. Penso hoje que pode ter sido uma pereira de pera rocha. Havia ginjeiras cuja utilidade desconhecia, porque não se podiam comer. Havia muitas romãs à volta do poço da nora. Como eram grandes davam sombra à mula enquanto ela girava à volta da nora. Havia uma nespereira enorme. Havia cerejeiras, algumas delas de cerejas muito grandes.

O meu pai comprometeu-se a limpar a vinha das eras daninhas. Especialmente dos fetos porque crescem muito e abafam as videiras, para além de secar os terrenos, porque desenvolvem raízes subterrâneas enormes. E para erradicar os fetos era necessário arrancar essas raízes todas. Calhou-me a mim esta tarefa. Tinha 10 anos. Vinha da escola a meio da tarde, dirigia-me à quinta, pegava na enxada e cavava os fetos até o sol se pôr. Depressa o meu pai percebeu que era uma luta inglória.

Pais na carroça.jpg

 O Ti Zé Maria e a Dona Delfina (meus pais). Assim vestidos só podiam ir para a missa.

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publicado às 12:05

Comprar o céu ainda neste mundo

por António Tavares, em 27.02.17

Comprar o céu ainda neste mundo  

As pessoas em Cardigos (como em qualquer aldeia portuguesa) viviam a vida da igreja intensamente e tinham por missão comprar um lugar no céu, ainda neste mundo.

A família Tavares de Cardigos era uma das famílias mais rica.

Um Tavares era o presidente da Junta. Tinha sempre à porta um dos poucos automóveis que havia na vila, um Citroen.

Outro era o Regedor. Era o que controlava as licenças de uso de isqueiro. Quando aparecia alguém com um isqueiro mandavam-no logo guardar, pois podia andar por perto o senhor regedor.

O sr José Tavares era dono do lagar de azeite e da maior mercearia que vendia desde panos a alfaias agrícolas, sabão, azeite e manteiga ao quilo. Consta-se que guardava o dinheiro (moedas) em arcas de salgar a carne de porco. Tinha várias cheias. E de vez em quando gostava de contar a sua fortuna. Enchia uma caneca de moedas e contava o seu valor. Depois era só passar de uma arca para outra e ir contando as canecas.

A moagem das azeitonas era um dos nossos maiores acontecimentos anuais. Iam-se apanhando as azeitonas para uma tulha de cimento enterrada no chão à entrada do casalinho. No dia aprazado lá ia-mos nós com toda a azeitona metida em sacas de serapilheira, em cima da carroça, para o lagar. Dava imenso gozo ver todas aquelas engrenagens, prensas, fogueira, azeite a escorrer, provar um pedaço de broa molhado no azeite novo. Era mesmo uma festa. Na altura de medir o azeite era 10 litros para nós, 1 para o lagareiro. O dono do lagar ficava com 10 por cento do azeite. Era o que ele depois vendia. Trazíamos o azeite e o bagaço (restos de azeitonas moídas) que servia ir adicionando na ração dos porcos.

Mas então como é que o sr José queria comprar o céu? Simplesmente fazendo em vida um lote de alminhas (já não me lembro de quantas eram) espalhadas por vários cruzamentos de caminhos da freguesia. Combinou-as com o meu pai para ele as ir fazendo à medida que pudesse. Em tijolo, uma cruz em cima, um nicho com azulejos de Nossa Senhora. Cada vez que fazia uma ele ia receber. Ainda me lembro de ele ter construído umas quantas. Uma ainda está ao lado da escola de Cardigos.

Um irmão era dono da serração de madeiras. Tinha camiões. Fui num desses camiões que fiz a minha primeira viagem a Lisboa para me ir apresentar no meu primeiro emprego. Também tinha uma fábrica de velas de cera. E quando havia festas na Vila o meu pai pedia muitas vezes para que um motorista dele nos fosse lavar todos ao Casalinho em cima da camioneta, já noite alta depois do fogo preso.

Em Cardigos havia muita gente a dedicar-se à apicultura e era nas fábricas de velas que essa gente vinha vender a cera.

Havia uma outra irmã desses Tavares de que já não me recordo o nome (talvez Natividade). Sempre a conheci viúva, a viver com a criada (D Alice). Esta senhora dava trabalho ao meu pai. E como sabia que eu andava a estudar no seminário disse ao meu pai que passava a ser minha madrinha e me pagava os estudos. Queria comprar o céu sendo madrinha de um padre.

E aos domingos queria por força que eu fosse almoçar lá a casa. Não gostava nada mas os meus pais insistiam e eu ia. Não gostava por causa do cheiro que a casa tinha. Não me parecia o cheiro normal de uma casa normal. Pelo menos não era o cheiro da nossa casa. Mas também eu nunca entrei verdadeiramente na casa em si. Entrava pelas escadas de serviço e almoçava na cozinha ao pé da criada.

Era latifundiária, mas as terras só por si não geram dinheiro. Um belo dia vendeu tudo, foi com a criada para Fátima, para estar mais perto da porta do céu. Comprou uma casinha pequena mesmo atrás do seminário onde eu estava. Levou lá o meu pai uns dias para fazer obras e por a casa ao seu jeito. A parte de baixo era dela e o sótão ficou para a criada.

Para se entreter e ir ganhando algum dinheiro para o dia-a-dia comprou uma loja de vender santinhos. Já depois de casado, sempre que íamos a Fátima passava por lá para a visitar. Mais tarde passamos a ver só a criada. Na última vez já a criada estava num lar de freiras e a loja era de outras pessoas.

A casa velhinha ainda lá estava, muito abandonada.

 

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publicado às 11:53


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