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A doença negra

por António Tavares, em 16.05.17

A doença negra

Estava eu um dia em Nampula como oficial de dia ao Quartel-General quando fui acometido por umas dores abdominais tão fortes que, para não desmaiar, os soldados carregam-me no jeep e levaram-me para as urgências do Hospital Militar.

Estava de médico de serviço o capitão médico mais conhecido em Nampula. De formação era Otorrinolaringologista. Mas na tropa era pau para toda a colher. A sua barriga devia ter à vontade 2 metros de perímetro. Fumava e bebia que nem um odre. Tinha por hábito trazer uma garrafa de whisky sempre que estava de médico de dia. E muitas vezes a meio do dia mandava um dos soldados de serviço ir a sua casa buscar outra.

Já podem imaginar a minha resposta quando ele, depois de me carregar na barriga, diz:

- É apendicite aguda. Levem-no já para a sala de operações.

- Nem pense nisso. Vou-me já embora.

Tentei levantar-me mas não consegui.

- Pronto, não quer, não quer… Ponham-no a soro para lhe dar a injeção.

Isto acontecia-me com alguma regularidade. Davam-me uma injeção de buscopan. Dormitava um pouco e passava.

Já depois de vir para Lisboa isto acontecia com regularidade. Fui várias vezes a vários médicos e nunca me diagnosticaram nada. Fiz análise a tudo o que era possível. E nada.

Antes de casar o meu futuro sogro pediu-me que fosse a um médico que tinha consultório no prédio onde ele morava. Fui. Não me disse nada de especial.

Mais tarde esse médico foi falar com o meu futuro sogro sua à oficina que ficava na cave do mesmo prédio.

- Sabe senhor Gervásio. O seu futuro genro tem uma doença complicada. Chama-se doença negra. Ele não nasceu ao pé de um rio? Olhe que ele vai ter que levar regularmente transfusões de sangue.

- Só me faltava mais esta! Diz o senhor Gervásio. Sei lá se ele nasceu ao pé de um rio. Eu já lá estive e não vi lá rio nenhum. Tenho a filha ainda a recuperar de um atropelamento que lhe partiu a perna e a fez estar um ano de cama e que ainda tem a cavilha de metal no fémur e agora isto.

Tinha-mos marcado casamento para o dia 11 de Maio de 1975. Quinze dias antes fomos (mais uma vez) almoçar ao Redondel a Vila Franca de Xira. Eu e a Fernanda. No caminho já ia mal disposto. Não comi nada ao almoço. Apenas consegui beber uns goles de Água das Pedras. Consegui guiar lentamente. Quando me vinham as dores fortes tinha que parar o carro.

As dores não eram muito localizadas. Sempre me pareceram no estômago. Por vezes eram tão fortes que quase desmaiava.

De Vila Franca demos a volta (que fazíamos com frequência) por Alverca e subindo a serra por Bucelas. Consegui levar o carro parando amiúde. Debaixo de uma figueira a meio da serra, junto ao rio em Bucelas.

Lá me arrastei até chegar à porta do banco do Hospital de Santa Maria. Parei o Fiat. A Fernanda veio abrir-me a porta para me tentar amparar até entrar no banco. Caí redondo no chão. Vieram-me buscar de maca.

Só me lembro de me terem feito uma picada num dedo e ouvir dizer: é apendicite aguda. Tem que ser operado já.

Aqui não fui capaz de reagir como em Nampula.

A Fernanda deu a morada de casa dela. Era morada da zona do Hospital dos Capuchos. Alguém me levou para lá. Fui operado nesse dia. Disse-me depois o médico que assim que espetou o bisturi o pûs soltou quase até ao teto. Estava já quase a fazer uma peritonite.

Não me lembro de alguma vez ter bebido leite. Não consigo. Mas nos dias seguintes a Fernanda trazia-o e achava graça. Eu bebia-o. Tal era a samarra que tinha na língua.

E nos dias seguintes tive febres tão altas que os médicos começaram a fazer análise com medo que fosse algo parecido com tifo. Não era. Tudo passou.

Felizmente ainda conseguimos adiar o casamento uma semana, para o dia 18 de Maio de 1975. Mas ainda ia bastante combalido.

Aguentei estas dores pelo menos durante 2 anos. Afinal o capitão médico gordo tinha razão. Eu é que tive medo. E quanto a doença negra … estamos conversados.

Fiat.jpg

 O nosso FIAT 128 em Maio de 1975 (lua de mel no Algarve) frente à pedreira de SIENITO (um tipo de granito único no mundo) em Monchique.

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publicado às 20:25

Partida para Moçambique

por António Tavares, em 06.05.17

Partida para Moçambique

Durante a especialidade em Mafra, preparei-me para fazer a admissão ao ISE. Em Julho de 1971 pedi licença para ir fazer os exames a Lisboa. Fui e fui admitido. Mas já era tarde de mais. Já não podia pedir adiamento de incorporação.

Pedi ao Mário que me arranjasse os livros pelos quais a Ana estudava (andava no ISE) para eu ir lendo em Moçambique. Arranjou-me o Pereira de Moura (era a bíblia) mais alguns livros e algumas sebentas. Foram todos roubados em Mueda.

Havia em Torres Novas um alferes que devia pesar perto de 150 quilos. Pensa-se que foi o seu peso que evitou que fosse mobilizado para o ultramar. Tinha um Fiat 600 e um gosto especial por petiscos. Quem ia com ele tinha que ocupar os bancos de trás do Fiat. A frente era só para ele.

Íamos com frequência beber uns copos a uma taberna nas Terras Negras. Com a sua bonomia era uma pessoa muito bem-disposta. Dizia que tinha por hábito fechar os olhos quando guiava a direito e que os abria sempre antes da próxima curva.

Certo dia, vínhamos das Terras Negras, abriu os olhos tarde de mais e só parámos dentro de um campo de couves. Os quatro conseguimos por o Fiat na estrada. O pior foi quando chegamos à cidade e quisemos ir meter gasolina. Saímos todos para nos limpar e quando fomos embora deixamos a bomba de gasolina cheia de terra. É que tinha chovido e, quer nós quer o Fiat, pingávamos lama por todo o lado. O homem da bomba de gasolina ainda lá deve estar a fazer barulho, neste momento…

Finda a instrução, em Março de 1972, deu-se início à preparação para embarcar para Moçambique. Todos em tronco nu, sentados num banco corrido, uma perna para cada lado, passava o enfermeiro com uma seringa enorme e dava uma espetadela em cada um. Era a chamada dose cavalar.

Era autorizado aos militares deixar cá, na metrópole, cerca de 60% do ordenado. Ia ganhar cerca de 10.000$00. Decidi deixar cá 6.500$00. Informei-me sobre que companhia de seguros fazia seguros de vida de militares que iam para o ultramar, que cobrissem o risco de morte. Só havia uma: a francesa La National Vie. Contratei um seguro, já não me lembro de que valor. O beneficiário, em caso da minha morte era o meu pai. Paguei a primeira anuidade e avisei a minha irmã Helena (era a mais velha) que tinha dado o nome dela para ficar a receber todos os meses os meus 6 contos e quinhentos e pedi-lhe para os depositar na minha conta no banco. E ela pagaria desse valor as restantes anuidades do meu seguro de vida.

Não sei como nem porquê o meu pai veio a saber que tinha dado o nome dela para ficar a receber o dinheiro. A helena disse-me que o pai não tinha ficado nada contente. Mais uma vez não me disse nada a mim. Mas para evitar confusões troquei o nome dela pelo do meu pai. Mas disse à Lena que lhe mandaria todos os anos o valor necessário para pagar a anuidade dos seguros. E mandei sempre.

Quando escrevia à mãe dizia-lhe:

- Ó mãe, olhe que o dinheiro que vocês aí recebem é do meu ordenado. Guardem-me algum para eu reiniciar a minha vida quando aí chegar.

A mãe respondia que sim. O certo é que quando cá cheguei nem um tostão tinham guardado. Quando regressei para o despachante, em pleno período PREC, entramos em autogestão. Recebi, passados uns meses uma autopromoção com retroactivos que me permitiram comprar, a pronto, um Fiat 128. Mas não tinha dinheiro para o seguro, já na altura obrigatório. Pedi à minha mãe que ao menos me ajudasse a pagar o seguro. Afinal tinham recebido 6 contos e quinhentos do meu ordenado durante 2 anos.

A mãe respondeu que o dinheiro tido ajudado este e aquele… (disse-me os nomes!), que não tinha o que lhe pedia, mas mandava o possível.

Sabes Lúcia… lembras-te de quando ias ter comigo à Marconi, ao pé da Feira Popular, a pedir que também tinha que contribuir para comprar uma televisão para os pais no Casalinho e eu dizia que não podia? Não te quis dizer, na altura, que já tinha ajudado a todos vocês o suficiente, com o meu ordenado, durante dois anos. Afinal eu fui, de todos, o que mais ajudou os pais e não só. Eu sei que o pai pensava que o dinheiro que recebia era um subsídio do estado por ter um filho na tropa. Mas não era. Era o meu ordenado. E eu disse-lhes, por carta, muitas vezes. E muito me custou, com a ajuda de pessoas que não me eram nada, conseguir ir para a tropa como oficial a ganhar mais de 10 contos por mês… em 1971…

Voltando a Torres Novas…

Comprei a revista Crónica Feminina. Publiquei um anúncio: “Alferes miliciano deseja corresponder-se com raparigas …. SPM XXXX”. Era usual os militares colocarem estes anúncios em revistas femininas, para terem amigas com quem se corresponder. Eu tinha pedido às minhas namoradas platónicas para se corresponderem comigo. Da Graça não consegui nada. A Nônô ainda me escreveu algumas vezes.

Devido às peripécias da minha chegada a Moçambique (Beira, Porto Amélia, Mueda, Hospital), só 2 ou 3 meses depois recebi as primeiras cartas. E a primeira entrega (ainda no hospital) foi um saco bem recheado de cartas. Algumas até do Brasil: Vitória, Piauí.

Não podia responder a todas. Fiz uma selecção: melhores palavras, melhores letras, melhores localizações, etc. Mesmo assim ainda respondi a algumas durante algum tempo. Depois foi a selecção natural. A cativação pelos diálogos escritos e a assiduidade. Ficou a Fernandinha (sempre lhe chamei assim), a mãe dos meus filhos e minha companheira à 42 anos.

Voltando novamente a Torres Novas…

Na véspera de embarcar para Moçambique fui ao Quartel do Entroncamento buscar um soldado que estava preso (nunca soube porquê) e que tinha sido castigado com a mobilização forçada. Partimos no dia seguinte em camiões para o aeroporto militar de Lisboa.

Fomos das primeiras companhias a embarcar nos 2 novos Boing 707 brancos da Força Aérea e não nos velhos Paquetes Vera Cruz e Funchal. Cada avião levava uma companhia inteira, mais de 300 homens.

Dos 4 Alferes que faziam parte da nossa companhia, um não compareceu ao embarque. Tinha dado baixa ao Hospital Militar Central de Lisboa. Nunca mais o vi.

Eram 10 horas da manhã. 12 horas depois estávamos no aeroporto de Luanda. Já era noite, saímos e senti, pela primeira vez, o bafo do calor de África. Umas horas depois embarcamos de novo com destino à Beira.

Depois de uns dias de descanso, de ter sido levado pela 2oposição” e pela “contra-espionagem” a fazer o tirocínio pelos bares da cidade, de ouvir e cantar o cancioneiro do Niassa várias vezes, aí vamos nós de avião (agora da DETA, companhia moçambicana) rumo a Porto Amélia.

A partir daqui iríamos embrenharmo-nos na guerra…

T Novas 3.jpg

 Eu, os meus Furriéis e os meus cabos.

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publicado às 15:42

A doença negra

por António Tavares, em 08.03.17

A doença negra

Estava eu um dia em Nampula como oficial de dia ao Quartel-General quando fui acometido por umas dores abdominais tão fortes que, para não desmaiar, os soldados carregam-me no jeep e levaram-me para as urgências do Hospital Militar.

Estava de médico de serviço o capitão médico mais conhecido em Nampula. De formação era Otorrinolaringologista. Mas na tropa era pau para toda a colher. A sua barriga devia ter à vontade 2 metros de perímetro. Fumava e bebia que nem um odre. Tinha por hábito trazer uma garrafa de whisky sempre que estava de médico de dia. E muitas vezes a meio do dia mandava um dos soldados de serviço ir a sua casa buscar outra.

Já podem imaginar a minha resposta quando ele, depois de me carregar na barriga, diz:

- É apendicite aguda. Levem-no já para a sala de operações.

- Nem pense nisso. Vou-me já embora.

Tentei levantar-me mas não consegui.

- Pronto, não quer, não quer… Ponham-no a soro para lhe dar a injeção.

Isto acontecia-me com alguma regularidade. Davam-me uma injeção de buscopan. Dormitava um pouco e passava.

Já depois de vir para Lisboa isto acontecia com regularidade. Fui várias vezes a vários médicos e nunca me diagnosticaram nada. Fiz análise a tudo o que era possível. E nada.

Antes de casar o meu futuro sogro pediu-me que fosse a um médico que tinha consultório no prédio onde ele morava. Fui. Não me disse nada de especial.

Mais tarde esse médico foi falar com o meu futuro sogro sua à oficina que ficava na cave do mesmo prédio.

- Sabe senhor Gervásio. O seu futuro genro tem uma doença complicada. Chama-se doença negra. Ele não nasceu ao pé de um rio? Olhe que ele vai ter que levar regularmente transfusões de sangue.

- Só me faltava mais esta! Diz o senhor Gervásio. Sei lá se ele nasceu ao pé de um rio. Eu já lá estive e não vi lá rio nenhum. Tenho a filha ainda a recuperar de um atropelamento que lhe partiu a perna e a fez estar um ano de cama e que ainda tem a cavilha de metal no fémur e agora isto.

Tinha-mos marcado casamento para o dia 11 de Maio de 1975. Quinze dias antes fomos (mais uma vez) almoçar ao Redondel a Vila Franca de Xira. Eu e a Fernanda. No caminho já ia mal disposto. Não comi nada ao almoço. Apenas consegui beber uns goles de Água das Pedras. Consegui guiar lentamente. Quando me vinham as dores fortes tinha que parar o carro.

As dores não eram muito localizadas. Sempre me pareceram no estômago. Por vezes eram tão fortes que quase desmaiava.

De Vila Franca demos a volta (que fazíamos com frequência) por Alverca e subindo a serra por Bucelas. Consegui levar o carro parando amiúde. Debaixo de uma figueira a meio da serra, junto ao rio em Bucelas.

Lá me arrastei até chegar à porta do banco do Hospital de Santa Maria. Parei o Fiat. A Fernanda veio abrir-me a porta para me tentar amparar até entrar no banco. Caí redondo no chão. Vieram-me buscar de maca.

Só me lembro de me terem feito uma picada num dedo e ouvir dizer: é apendicite aguda. Tem que ser operado já.

Aqui não fui capaz de reagir como em Nampula.

A Fernanda deu a morada de casa dela. Era morada da zona do Hospital dos Capuchos. Alguém me levou para lá. Fui operado nesse dia. Disse-me depois o médico que assim que espetou o bisturi o pûs soltou quase até ao teto. Estava já quase a fazer uma peritonite.

Não me lembro de alguma vez ter bebido leite. Não consigo. Mas nos dias seguintes a Fernanda trazia-o e achava graça. Eu bebia-o. Tal era a samarra que tinha na língua.

E nos dias seguintes tive febres tão altas que os médicos começaram a fazer análise com medo que fosse algo parecido com tifo. Não era. Tudo passou.

Felizmente ainda conseguimos adiar o casamento uma semana, para o dia 18 de Maio de 1975. Mas ainda ia bastante combalido.

Aguentei estas dores pelo menos durante 2 anos. Afinal o capitão médico gordo tinha razão. Eu é que tive medo. E quanto a doença negra … estamos conversados.

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 O nosso FIAT 128 em Maio de 1975 (lua de mel no Algarve) frente à pedreira de SIENITO (um tipo de granito único no mundo) em Monchique.

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publicado às 11:49


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