Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


O uísque que era álcool e tintura de iodo

por António Tavares, em 07.06.17

O uísque que era álcool e tintura de iodo

Morava em Nampula num bairro maioritariamente habitado por indianos. Ismaelitas. Pessoas calmas, ligados ao comércio. A maioria das suas casas era de telhado de zinco. Mesmo tendo dinheiro nunca foram pessoas de grande ostentação.

O prédio era alugado pelo exército para albergar oficiais milicianos. 4 flats (apartamentos) com 3 quartos cada. Em cada quarto dormiam 2 alferes. Um jardim na frente com papaias. Bastava ir à janela do 1º andar para colher papaias. Nas traseiras havia um quintal com 4 garagens. Era aí que os mainatos (pretos que tomavam conta da roupa e da limpeza do apartamento) lavavam a nossa roupa.

A água da torneira era tão barrenta que estávamos muitas vezes à espera que chovesse para irmos tomar banho na rua debaixo da bica que caía do terraço. O telhado do prédio era um terraço. E normalmente a época das chuvas coincidia com a altura de mais calor. Lá vínhamos nós de calções, sabão e toalha na mão, lavarmo-nos à chuva na bica que caía do terraço.

Era nestes apartamentos que nos reuníamos para as nossas “festas privadas”. Ver um filme “caliente” em super 8. Havia quem tivesse a máquina e quem arranjasse clandestinamente um filme vindo da África do Sul ou da Rodésia. Comer sardinhas ou castanhas. Nas alturas próprias sempre lá chegavam. Ou mesmo para ouvir o cancioneiro do Niassa.

O exército importava uísque para vender nos meios militares a preços isentos de impostos. Os oficiais tinham direito a comprar uma garrafa de uísque novo por mês. Para os uísques especiais (velhos ou de malte) havia lista de espera. Eu consegui, ao fim de muito tempo comprar uma garrafa de Old Parr. Trouxe-a e guardei-a muitos anos. Quando nasceu o Bruno fiz uma promessa de só a abrir quando ele casasse.

Como quem casou primeiro foi o Tiago, levei-a para os Açores para abrir na véspera do casamento dele. Não foi oportuno, na altura. Voltou a garrafa para Lisboa. Quando o Bruno casou lá foi a garrafa para a Guarda. E abriu-se, finalmente, ao fim de 40 anos. Não prestava. Tinha perdido toda a força. Era água mal cheirosa. Talvez por estar já mal rolhada.

O meu colega de quarto (alferes Oliveira de V. F de Xira) veio-se embora mais cedo. Devido ao clima quente e húmido eram frequentes as micoses nas virilhas. Os enfermeiros preparavam-nos uma mistura de álcool e tintura de iodo para esfregarmos. O Oliveira tinha uma garrafa com essa mistela na mesa-de-cabeceira.

Quando algum alferes se vinha embora era usual dar ao mainato que tratava das suas roupas, aquilo que já não prestava, nem queriam trazer. Isso aconteceu com o Oliveira. O seu mainato veio receber as coisas que ele não queria trazer e diz-lhe:

- Sr alferes, posso ficar com o resto do uísque?

- Qual uísque?

- Aquele daquela garrafa!

- Mas aquilo não é uísque. É remédio.

- Não faz mal. Fico com ele na mesma. Sabe, eu de vez em quando bebia um gole pequenino…

- Por isso é que eu via o líquido a desaparecer…

E levou mesmo a garrafa com o resto do álcool e da tintura de iodo…

O clima em Nampula era extraordinariamente quente e húmido. As árvores de fruto (bananas e laranjas) davam frutos 2 vezes por ano. Nós fazíamos muitas saladas, sobretudo de tomate. Deitávamos os restos para o quintal. Passados 3 semanas já podíamos colher novos tomates.

O governo tinha um programa que financiava os militares que quisessem fixar-se na zona, após passarem à disponibilidade. Cedia terrenos a custo quase zero. Financiava a compra de máquinas agrícolas.

Era muito conceituado o algodão produzido naquele zona porque a apanha era manual. Assim não se partiam as fibras. Ao contrário da apanha mecanizada praticada em produções largamente extensivas, como o Egito e os EUA.

Era muito comentado o caso do Furriel que aproveitou essas benesses. Arroteou um terreno imenso. Endividou-se. Plantou algodão. A primeira colheita foi ao fim de 2 anos. Na terceira colheita pagou todas as dívidas e veio-se embora com um bom pé-de-meia.

A riqueza de Moçambique não se ficava pela agricultura fácil. Era famoso o chá do Gurué e as minas de carvão a céu aberto de Moatize. Bem como o gás natural de Inhambane e Cabo Delgado. E o parque natural da Gorongosa? E a Ilha de Moçambique? E o turismo? Quirimbas (Ibo) e Bazaruto?

Por isto tudo me faz muita confusão ver hoje imagens frequentes de Moçambique com seca, fome e tanta pobreza. Eu vi um país rico.

Portugal nunca soube tirar partido das riquezas das colónias. Sempre fomos uns mãos rotas. Fomos donos do mundo. Passaram-nos pelas mãos fortunas imensas que deixámos fugir por entre os dedos para a Flandres e para Inglaterra. Ficamos com as pedras dos conventos, mosteiros, igrejas e palácios (Mafra!!!), muitos dos quais hoje em ruínas e que nem sequer temos dinheiro para mandar reconstruir.

Por isso se alugam esses edifícios históricos para os mais variados fins, com o intuito de se arrecadar algum dinheiro que ajude a sua manutenção. Como aconteceu recentemente com o Convento de Cristo em Tomar. Mil pessoas (incluindo figurantes) para rodar um filme. Cortam-se as árvores do claustro. O canteiro das árvores (que antes tinha flores) enche-se de predas brancas roladas. Acende-se uma fogueira no meio do claustro com 20 metros de altura. Para isso carregam-se para lá 20 botijas de gás das grandes. O calor foi tal que pedras com 300 anos partiram. Telhas saltaram e partiram-se.

- Mas estavam lá os bombeiros de prevenção.

- Quantos?

- 2

- E tinham material de prevenção?

- Não. Estavam só eles. Se fosse preciso mandavam vir.

- E se as 20 botijas explodissem?

Possivelmente o claustro iria pelos ares.

Sempre fomos um país de extremos. Aquando do eclodir da guerrilha em Moçambique (1961) fomos capazes de levar 3 ou 4 lanchas da Marinha para o Lago Niassa. Este é um lago enorme (um autêntico mar) que limita a fronteira norte/oeste de Moçambique. Foram carregadas em vagões do caminho-de-ferro em Nacala. A viagem obrigou a desmatamentos e alargamentos. Os últimos quilómetros foram feitos em cima de camiões preparados para o efeito. Foram abertas largas picadas. Foram construídas pontes. Mas ao fim de 2 anos as lanchas chegaram ao lago Niassa para cumprir a sua missão.

O tio dos meus pais era dono de extensas plantações, salinas, fábricas de pão, fábricas de óleo de amendoim e de castanhas de cajú. Até era respeitado pelos seus empregados. Construiu mesmo para eles um bairro ao lado das fábricas de Monapo. Aquando da independência do país foi contactado por funcionários do novo governo.

- Sabe, agora isto é tudo do estado. Não temos nada contra si. O pessoal até parece que gosta de si. Queremos fazer-lhe uma proposta: você fica cá a gerir as fábricas e passa a receber um ordenado do estado.

Ainda tentou e ficou uns meses. Mas a confusão instalada levou a abandonar tudo de vez…

Casa indianos.jpg

Casa de indianos

Casa Nampula.jpg

O andar onde morava: vista para a frente e para trás

Cama.jpg

Aqui dormi perto de dois anos

Castanhas.jpg

Em dia de São Martinho

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:05

GACA 2 - Torres Novas

por António Tavares, em 02.05.17

GACA 2 - Torres Novas

O quartel de Torres Novas era uma unidade de Artilharia: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2. Apresentei-me lá para integrar uma Companhia de Infantaria que aí seria formada para seguir para Moçambique.

Eu comandava um pelotão de cerca de 30 homens, a maioria oriundos da Ilha da Madeira. Tinha mais 3 Furriéis. O comandante era Capitão Miliciano.

Dada a escassez de oficiais do quadro para comandar as muitas operações em África, o exército recorreu aos milicianos, como eu, para comandar pelotões. Ao fim de 6 meses de instrução já era Aspirante e ao fim de mais 3 partia para África como Alferes. Os Alferes que queriam, pediam para continuar no exército. Faziam mais uns cursos de gestão operacional, passavam a tenente, formavam companhia e iam para África comandar uma companhia como Capitão. Voltavam de lá, 2 anos mais tarde e passavam a Majores. Ao fim de 6 anos eram Majores.

Ora os oficiais de quadro para atingirem esse posto passavam mais de 10 ou 12 anos.

Quer se queira quer não, este foi um dos factos que estiveram na génese da revolta dos militares que originou o 25 de Abril. O resto é política.

Lá iria eu encontrar em Moçambique o Cancioneiro do Niassa que rezava assim (reprodução de cor):

Um dia fui dar com Deus

Na taberna do Diabo

Entre cristãos e ateus

Fizeram de mim soldado

E eu sem querer fui embarcado

Levei armas e um galão

P’ro outro lado do mar

Quis levar o coração

Não mo deixaram levar

E eu sem querer ia matar

Deram-me uma cruz de guerra

Quando matei meu irmão

E a gente da minha terra

Promoveu-me a capitão

E eu sem querer fiquei papão

Todos me chamam herói

Ninguém me chama Manel

Quem quer uma cruz de guerra

Que eu já não vou p’ro quartel

Os madeirenses do meu pelotão revelavam alguma moleza que me aborrecia. Puxava por eles fisicamente, mas eles não respondiam. À sexta-feira de manhã fazíamos sempre uma marcha de muitos quilómetros, com a promessa de que, quanto mais depressa chegassem ao quartel, mais depressa iam de fim-de-semana. Acontece que eles, como não iam para a Madeira de fim-de-semana (ficavam sempre no quartel), não se importavam com as minhas ameaças.

Os jogadores profissionais de futebol já naquele tempo tinham alguns benefícios. Os mais influentes conseguiam não ser mobilizados para as colónias, para poderem jogar nos clubes aos domingos. Estava comigo em Torres Novas o Furriel Quinito do Belenenses e o guarda-redes Armando do Barreirense. Davam-me muitas vezes boleia para Lisboa. Mas vinham muito cedo à sexta-feira. Aí pelas 11 horas estavam de partida.

Numa certa sexta-feira apertei com os madeirenses e disse-lhes que tinha boleia para Lisboa e tinha que chegar cedo ao quartel. Não ligaram. Nesse dia perdi mesmo a boleia.

- Fizeram-me perder a boleia? Pois agora vamos repetir o mesmo percurso todo. Vão à velocidade que quiserem, pois só quando cá chegarem é que vos dispenso para ir de fim-de-semana.

E fomos. Fiquei para trás e deixei serem eles a orientarem-se. Um deles (o mais atrevido) assumiu a dianteira, puxou pelo grupo e demoraram menos 20 minutos no percurso todo.

- Estão a ver? Afinal fizeram mesmo ronha da primeira vez. Conseguiram na segunda vez, já cansados, demorar menos tempo. Vão agora almoçar e já que eu não vou de fim-de-semana nenhum de vós vai. Ficamos cá todos e vamos fazer aplicação militar para o rio, todo o fim-de-semana.

E fomos. Mergulhar no rio, chapinhar na água, correr todos molhados, fazer ginástica. Mesmo no Inverno. Ficaram tão meus amigos que tiraram fotos e à noite fomos todos beber cervejas e comer bolo de mel madeirense.

Quando íamos fazer patrulhas tinha por hábito levá-los para uns pinhais para os lados da Santa da Ladeira. Uma Santa que queria concorrer com Fátima, mas que a igreja católica nunca reconheceu. Mas criou um santuário, juntou um grupo de seguidores apóstolos e foi apadrinhada pela igreja ortodoxa.

Por vezes mandava-os deitar no pinhal e sornar. Eles levavam G3 mas sem balas. Apenas eu levava bala real. Deitado no mato no meio deles punha-me a fazer pontaria às pinhas. Assim passava o tempo e ao mesmo tempo dava sinal a quem (do quartel) nos andasse a espiar, que estávamos treinando.

No regresso mandava o pessoal formar em linha e atravessava-mos os terrenos da Santa da Ladeira em género de formação de combate.

Certo dia fomos para exercício de tiro em Santa Margarida. Quando íamos para lá já chovia. Mas ao chegar lá a chuva era tão forte que o capitão mandou os camiões de volta e disse-nos:

- Vão a pé e apareçam no quartel.

A chuva era abundante e o vento tão forte que na passagem pela ponte Golegã, sobre o Rio Tejo, tínhamos que nos agarrar às grades para não cair. Ao passar na Golegã e depois de me certificar que não eramos seguidos pelos nossos chefes mandei todo o pelotão entrar para a primeira tasca que apareceu. Era Inverno.

- Pessoal… quem quiser pode beber um bagaço para aquecer, pode beber. Quem não beber bagaço pode beber um copo de vinho ou de água. Eu pago.

A caminho de Torres Novas ainda vimos um camião carregado de fardos de palha tombado de lado. A chuva, tocada a vendo, entranhou-se na palha por um dos lados do camião, aumentou o peso daquele lado de tal modo que tombou. Sem consequências de maior.

Uma das missões do oficial de dia era conferir se as refeições dos militares eram elaboradas segundo as normas estabelecidas. Certo dia, estava de oficial de dia e fui com o furriel, meu ajudante, conferir a confecção do almoço. Era atum com batatas. Pedi ao sargento as normas para aquela refeição. X gramas de atum para cada soldado.

- Preparou almoço para quantos?

- Oitocentos e….

- Mostre-me as latas abertas.

Fiz contas e claro que faltava uma data de latas. Daquelas latas grandes de vários quilos cada.

- Pois fique sabendo que ninguém entra no refeitório enquanto você não me mostrar todas as latas que lhe compete abrir. E apareceram logo de seguida.

Mas aconteciam sempre coisas engraçadas. Numa das minhas visitas pelas cozinhas, enquanto se preparavam as refeições, o chefe de cozinha disse para um ajudante:

- Põe cebola dentro da panela que está ao lume para fazer a sopa.

O novato foi ao saco e apanhou várias mãos cheias de cebola desidratada e meteu-as na panela. Passado pouco tempo a cebola inchou de tal maneira, que era vê-la a sair da panela para fora. Ninguém lhe tinha explicado que era cebola desidratada e quanto se devia pôr na panela.

No dia 11 de Novembro (São Martinho) também estava de oficial de dia. Mandei o Furriel meu ajudante ficar no meu lugar porque ia sair em serviço. E saí. Saí de jeep com o soldado condutor de serviço e fomos beber água-pé à feira da Golegã. A minha tendência para correr riscos. De regresso já vínhamos alegres mas não passou disso.

A dada altura o comandante do quartel foi mudado. Veio um coronel muito alto, forte e com um vozeirão que metia medo.

Na sala de jantar dos oficiais havia uma fiada de cabides à entrada onde cada um pendurava a sua boina. O comandante e os seus adjuntos comiam numa mesa corrida, ao fundo. Nós os oficiais subalternos comíamos em mesas quadradas espalhadas pela sala. Durante o almoço era tal a algazarra que, para nos podermos ouvir tínhamos que elevar a voz. Mas a voz do comandante sobressaía por cima de todas as outras.

A certa altura alguém começa a fazer chiu… chiu… e fazer sinais para irmos baixando a voz. Todas a gente se calou. Só o comandante continuava a falar com aquele vozeirão. Percebeu o toque e daí em diante passou a falar muito mais baixo.

Certa vez o comandante teve que sair mais cedo da sala de jantar e não encontrou a sua boina nos cabides. Chamou o corneteiro e disse-lhe

- Faz o toque a reunir para oficiais.

- Não conheço esse toque.

- Então faz o toque alarme!

Tocou. Mas como ninguém estava à espera de tal coisa, ninguém fez nada de especial, estava todo o pessoal a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer.

Começou aos gritos. Queria todo o pessoal do quartel reunido na parada em formação. Os oficiais na frente. Ao passar revista aos oficiais descobre um alferes com a boina que lhe parecia a sua.

- Porque é que tens a minha boina?

- Ó meu Coronel, não reparei. Estou de oficial de dia e chamaram-me à portaria. Saí e peguei na boina que me pareceu ser a minha. Peço desculpa.

Subiu para o palanque e disse ao microfone:

- De hoje em diante vamos passar a fazer exercícios de simulação com regularidade e a horas incertas. Sempre que eu entender o corneteiro fará os toques que eu entender e quero resposta pronta de a cordo com as normas estabelecidas. Que cada um cumpra as tarefas que tem atribuídas.

Daí em diante, às horas mais estapafúrdias, o corneteiro tocava o que lhe era indicado. O normal era ser o alerta geral. E nessa altura todo o pessoal tinha que simular que o quartel estava a ser atacado. Era pegar nas espingardas e cada um seguia para o seu posto de defesa. As metralhadoras e os canhões antiaéreos eram tirados dos seus abrigos e vinham para a parada ou para os seus lugares de fazer fogo e perscrutar aviões no céu. Na primeira vez ninguém sabia mexer neles. Muitos nem funcionavam. Foram dadas instruções para que fossem oleados e calibrados. Tinham que estar prontas a responder em caso de ataque.

Por fim aquilo já era uma brincadeira…

Hoje o quartel de Torres Novas é o Centro de Instrução da Polícia.

T Novas 1.jpg

O nosso pelotão. Destemidos para ir "ganhar a guerra".

T Novas 2.jpg

Aplicação militar no rio Almonda.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:20


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D