Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Partida para Moçambique

por António Tavares, em 06.05.17

Partida para Moçambique

Durante a especialidade em Mafra, preparei-me para fazer a admissão ao ISE. Em Julho de 1971 pedi licença para ir fazer os exames a Lisboa. Fui e fui admitido. Mas já era tarde de mais. Já não podia pedir adiamento de incorporação.

Pedi ao Mário que me arranjasse os livros pelos quais a Ana estudava (andava no ISE) para eu ir lendo em Moçambique. Arranjou-me o Pereira de Moura (era a bíblia) mais alguns livros e algumas sebentas. Foram todos roubados em Mueda.

Havia em Torres Novas um alferes que devia pesar perto de 150 quilos. Pensa-se que foi o seu peso que evitou que fosse mobilizado para o ultramar. Tinha um Fiat 600 e um gosto especial por petiscos. Quem ia com ele tinha que ocupar os bancos de trás do Fiat. A frente era só para ele.

Íamos com frequência beber uns copos a uma taberna nas Terras Negras. Com a sua bonomia era uma pessoa muito bem-disposta. Dizia que tinha por hábito fechar os olhos quando guiava a direito e que os abria sempre antes da próxima curva.

Certo dia, vínhamos das Terras Negras, abriu os olhos tarde de mais e só parámos dentro de um campo de couves. Os quatro conseguimos por o Fiat na estrada. O pior foi quando chegamos à cidade e quisemos ir meter gasolina. Saímos todos para nos limpar e quando fomos embora deixamos a bomba de gasolina cheia de terra. É que tinha chovido e, quer nós quer o Fiat, pingávamos lama por todo o lado. O homem da bomba de gasolina ainda lá deve estar a fazer barulho, neste momento…

Finda a instrução, em Março de 1972, deu-se início à preparação para embarcar para Moçambique. Todos em tronco nu, sentados num banco corrido, uma perna para cada lado, passava o enfermeiro com uma seringa enorme e dava uma espetadela em cada um. Era a chamada dose cavalar.

Era autorizado aos militares deixar cá, na metrópole, cerca de 60% do ordenado. Ia ganhar cerca de 10.000$00. Decidi deixar cá 6.500$00. Informei-me sobre que companhia de seguros fazia seguros de vida de militares que iam para o ultramar, que cobrissem o risco de morte. Só havia uma: a francesa La National Vie. Contratei um seguro, já não me lembro de que valor. O beneficiário, em caso da minha morte era o meu pai. Paguei a primeira anuidade e avisei a minha irmã Helena (era a mais velha) que tinha dado o nome dela para ficar a receber todos os meses os meus 6 contos e quinhentos e pedi-lhe para os depositar na minha conta no banco. E ela pagaria desse valor as restantes anuidades do meu seguro de vida.

Não sei como nem porquê o meu pai veio a saber que tinha dado o nome dela para ficar a receber o dinheiro. A helena disse-me que o pai não tinha ficado nada contente. Mais uma vez não me disse nada a mim. Mas para evitar confusões troquei o nome dela pelo do meu pai. Mas disse à Lena que lhe mandaria todos os anos o valor necessário para pagar a anuidade dos seguros. E mandei sempre.

Quando escrevia à mãe dizia-lhe:

- Ó mãe, olhe que o dinheiro que vocês aí recebem é do meu ordenado. Guardem-me algum para eu reiniciar a minha vida quando aí chegar.

A mãe respondia que sim. O certo é que quando cá cheguei nem um tostão tinham guardado. Quando regressei para o despachante, em pleno período PREC, entramos em autogestão. Recebi, passados uns meses uma autopromoção com retroactivos que me permitiram comprar, a pronto, um Fiat 128. Mas não tinha dinheiro para o seguro, já na altura obrigatório. Pedi à minha mãe que ao menos me ajudasse a pagar o seguro. Afinal tinham recebido 6 contos e quinhentos do meu ordenado durante 2 anos.

A mãe respondeu que o dinheiro tido ajudado este e aquele… (disse-me os nomes!), que não tinha o que lhe pedia, mas mandava o possível.

Sabes Lúcia… lembras-te de quando ias ter comigo à Marconi, ao pé da Feira Popular, a pedir que também tinha que contribuir para comprar uma televisão para os pais no Casalinho e eu dizia que não podia? Não te quis dizer, na altura, que já tinha ajudado a todos vocês o suficiente, com o meu ordenado, durante dois anos. Afinal eu fui, de todos, o que mais ajudou os pais e não só. Eu sei que o pai pensava que o dinheiro que recebia era um subsídio do estado por ter um filho na tropa. Mas não era. Era o meu ordenado. E eu disse-lhes, por carta, muitas vezes. E muito me custou, com a ajuda de pessoas que não me eram nada, conseguir ir para a tropa como oficial a ganhar mais de 10 contos por mês… em 1971…

Voltando a Torres Novas…

Comprei a revista Crónica Feminina. Publiquei um anúncio: “Alferes miliciano deseja corresponder-se com raparigas …. SPM XXXX”. Era usual os militares colocarem estes anúncios em revistas femininas, para terem amigas com quem se corresponder. Eu tinha pedido às minhas namoradas platónicas para se corresponderem comigo. Da Graça não consegui nada. A Nônô ainda me escreveu algumas vezes.

Devido às peripécias da minha chegada a Moçambique (Beira, Porto Amélia, Mueda, Hospital), só 2 ou 3 meses depois recebi as primeiras cartas. E a primeira entrega (ainda no hospital) foi um saco bem recheado de cartas. Algumas até do Brasil: Vitória, Piauí.

Não podia responder a todas. Fiz uma selecção: melhores palavras, melhores letras, melhores localizações, etc. Mesmo assim ainda respondi a algumas durante algum tempo. Depois foi a selecção natural. A cativação pelos diálogos escritos e a assiduidade. Ficou a Fernandinha (sempre lhe chamei assim), a mãe dos meus filhos e minha companheira à 42 anos.

Voltando novamente a Torres Novas…

Na véspera de embarcar para Moçambique fui ao Quartel do Entroncamento buscar um soldado que estava preso (nunca soube porquê) e que tinha sido castigado com a mobilização forçada. Partimos no dia seguinte em camiões para o aeroporto militar de Lisboa.

Fomos das primeiras companhias a embarcar nos 2 novos Boing 707 brancos da Força Aérea e não nos velhos Paquetes Vera Cruz e Funchal. Cada avião levava uma companhia inteira, mais de 300 homens.

Dos 4 Alferes que faziam parte da nossa companhia, um não compareceu ao embarque. Tinha dado baixa ao Hospital Militar Central de Lisboa. Nunca mais o vi.

Eram 10 horas da manhã. 12 horas depois estávamos no aeroporto de Luanda. Já era noite, saímos e senti, pela primeira vez, o bafo do calor de África. Umas horas depois embarcamos de novo com destino à Beira.

Depois de uns dias de descanso, de ter sido levado pela 2oposição” e pela “contra-espionagem” a fazer o tirocínio pelos bares da cidade, de ouvir e cantar o cancioneiro do Niassa várias vezes, aí vamos nós de avião (agora da DETA, companhia moçambicana) rumo a Porto Amélia.

A partir daqui iríamos embrenharmo-nos na guerra…

T Novas 3.jpg

 Eu, os meus Furriéis e os meus cabos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:42

De Mueda ao hospital...

por António Tavares, em 06.02.17

De Mueda ao hospital

Mueda era uma vila no alto dum planalto. Composta essencialmente por uma longa avenida que partia da pista de aterragem, separava de um lado as tabancas dos nativos e do outro as estruturas militares e se prolongava pelo mato fora através da picada para Mocímboa do Rovuma.

No final da avenida ficavam, um de cada lado, os 2 únicos estabelecimentos comerciais: o Santos e o China. Ponto de paragem obrigatória para qualquer militar que por aqui passasse. Serviam bifanas e pregos. Vendiam um pouco de tudo que encomendavam em Nampula e lhes era enviado através das longas colunas militares que com alguma regularidade iam até Mueda para reabastecimento.

Também esses 2 estabelecimentos ficarem imortalizados nos versos do Cancioneiro do Niassa:

Mueda terra de guerra

Vou cantar-te este meu fado

Que compus ainda há pouco…

Mueda que és uma mina

Para o Santos e p’ró China

E para os tipos experientes

E para os que têm por sina

Venderem Água das Pedras

Mais cara que a gasolina…

Chegamos a Mueda num sábado à noite. Depois de tentar comer qualquer coisa no bar e não conseguir, depois de chegar ao quarto e de ver que me tinham roubado tudo, consegui dormir um pouco. Acordei no domingo de manhã. Estava sol. Levantei-me azamboado e com a mesma roupa que trazia de véspera e que nem tinha despido, fui passear por aquela longa avenida.

A dada altura aparece-me um senhor negro com uma menina pela mão. Não tinha mais de 12 ou 13 anos. “O senhô qué fazê máquina?” disse-me. Não percebi o que queria. Segui o meu caminho cada vez mais tonto. Quando mais tarde relatei este facto a alguém, informaram-me que era usual os nativos virem oferecer aos militares as filhas para sexo a troco de dinheiro.

Não devo ter andado muitos mais metros. De tão faminto, fraco e sem forças caí redondo no chão. Dei por mim deitado numa maca na enfermaria. De um lado o soro a entrar na veia. Do outro uma senhora do Movimento Nacional Feminino ia dizendo:  sr Alferes, tem que reagir… os seus soldados estão à espera para seguir com eles… vão partir daqui a pouco… você faz falta junto deles.

Não sei quanto tempo estive assim sem conseguir esboçar qualquer reação, os olhos fitos no teto como que a tentar var mais longe. Não sei se foram horas se foram dias. Ouço tiros e rebentamentos. Não consigo reagir. Volto a ouvir a mesma senhora: não tenha medo. São os nossos. Estão a bombardear o vale para o avião partir. Alguém diz atrás de mim: é melhor aproveitar este avião e mandá-lo para o hospital. Enquanto me preparavam para pôr na maca outro Alferes da mesma companhia que a minha dizia-me baixinho: tu vais agora mas que eu vou lá ter contigo dentro de pouco tempo.

A missão de bombardear o vale de Mueda com murteiros, antes de partir qualquer avião, era rotina. O inimigo já sabia as horas de partida e chegada dos voos dos Nord Atlas. Bastava sentarem-se no fundo do vale com a bazuca ou as espingardas apontadas para o ar. Para evitar isso todo o vale tinha que ser limpo primeiro. Mas como eles não desistiam foi necessário alterar a rotina e fazer com que os aviões partissem ou chegassem em horas aleatórias, de preferência de noite. Os North Atlas eram aviões de reabastecimento e de transporte de pessoal que operavam com regularidade entres as principais bases militares do norte de Moçambique.

Bem, mas lá fui eu de maca amarrada dentro do North Atlas a caminho do hospital militar de Nampula. Só dei por mim a ter alguma reação quando, na aproximação à pista de Nampula o avião descreveu uma curva e eu, mesmo deitado, consegui ver pelas janelas as imagens da cidade. E pensei para mim: isto aqui é muito bonito. Largas avenidas, tudo moradias, algumas com piscina, muita vegetação e flores… Comecei a magicar na minha mente alguma forma de conseguir não voltar para a guerra.

O hospital militar de Nampula era muito recente. A ala dos oficiais tinha quartos individuais, casa de banho privativa, um recanto relvado ajardinado com uma latada de maracujás. Parecia um hotel. Comecei a ser observado pelo médico psiquiatra Dr Coimbra.

Pedi um aerograma para escrever à minha mãe. Em Nampula e em Nacala viviam familiares, primos e tios quer do meu pai quer da minha mãe, alguns mesmo do Casalinho. Donos de machambas enormes, fornecedores do exército em frutas, legumes e hortaliças. Donos de fábricas de cajú e de óleos alimentares. Donos de padarias e das salinas.

Escrevi à minha mãe. Contei o sucedido. Pedi que falasse com alguns dos familiares que por lá viviam, para tentar algum apoio e alguma pressão junto do médico.

Nunca recebi qualquer visita de nenhum. Acabei por encontrar mais apoio em pessoas que não me eram nada. Gente boa do norte de Portugal. Tive que me safar sozinho.

North Atlas sobre Nampula.jpg

 North Atlas sobre Nampula

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:33

Apanhadinhos...

por António Tavares, em 01.02.17

Apanhadinhos

Nampula era o centro nevrálgico de todas as operações militares no norte de Moçambique. A população militar era muito numerosa.

Ali chegavam muitos militares checas para iniciar comissões nos mais variados pontos do teatro de operações. Por ali passavam também muitos já no fim da comissão à espera do regresso à metrópole.

Ali ficava o Hospital Militar onde apareciam as situações mais horríveis que se possam imaginar.

O cansaço de muitos meses em situações difíceis levava a comportamentos algos desviantes ou difíceis de interpretar, como aqueles que presenciei por diversas vezes.

Estando eu internado, nos passeios que fazia pelos pátios reparei num soldado muito desmazelado que deambulava para cá e para lá, ar carrancudo, impávido, sem esboçar qualquer reação mesmo para quem se lhe dirigia, com as mãos atrás das costas, com a cabeça baixa a olhar para o chão como que procurando algo perdido. Sempre que via um pedaço de papel, por mais pequeno que fosse pegava-lhe, desdobrava-o, tentava ler alguma coisa mesmo que fosse todo branco e dizia meio sussurrando:

- Não é este …

Já ninguém lhe ligava. Estes gestos repetiram-se, dias e dias durante meses.

Regularmente era chamado ao médico psiquiatra para tentar algum remédio, alguma solução. Sem qualquer efeito.

Até que um dia o médico achou que seria melhor mandá-lo embora dali. Deu-lhe alta e guia de marcha para passar para os serviços auxiliares.

Com o mesmo ar impávido e sereno com que buscava papéis no chão, trouxe os braços para a frente, olhou para o papel que acabara de receber do médico e disse em sussurro:

- Há! É este.

Foi-se embora do hospital. E não mais voltou para a guerra…

No centro da praça entre o quartel-general e a Messe de Oficiais havia uma estátua em bronze de Neutel de Abreu, explorador da zona de Nampula no século dezanove. Estava armado com uma espada em estilo levemente árabe, algo arqueada.

Num certo dia um soldado, talvez cansado do clima, talvez com algum copito a mais, trepa pela estátua acima, arranca a espada e corre com ela na mão, espadanando rua abaixo. Claro que foi apanhado e sofreu as consequências. Mas a piada foi quando o Sargento Mecânico a foi soldar na estátua e a soldou ao contrário, com a curvatura para cima e a ponta para baixo.

Durante algum tempo foi risota geral.

Daí aquela cantiga do Cancioneiro do Nissa que dizia:

         Em frente ao Neutel de Abreu

         A quem roubaram a espada

         Existe a Gorongosa

         Pasto de vacas malhadas

         ……………………………….

Qualquer dia falo-vos deste cancioneiro, da Messe de Oficiais e da Gorongosa.

Encontrei certa vez um alferes a passear pelos átrios, corredores e varandas da Messe de Oficiais. Olhar distante ou olhos postos no chão. Ar pesaroso. Barba de vários dias. Farda gasta e desalinhada. Divisas irreconhecíveis. Para lá e para cá, horas sucessivas. Soube que aguardava a data de embarque de regresso à metrópole.

Uma senhora do MNF, de nome sonante, esposa de um conhecido general, meteu-se na sua frente. O alferes para, fita-a nos olhos com o mesmo ar sombrio e mãos atrás das costas.

- Sabe sr alferes, o pior já passou. Agora vai ter com a sua família, vai esquecer isto tudo. Tem algum problema que eu possa ajudar? Onde é que esteve? Quando é que embarca? Não se esqueça que nós estamos cá para vos ajudar no que for preciso …

Ao fim de largos minutos sem esboçar qualquer reação, com o mesmo ar distante com que a ouviu e perante o espanto de todos os presentes o alferes grita-lhe:

- Ó minha senhora … vá para a p*** que a p****…

Depois deu meia volta e voltou para os seus pensamentos distantes.

QG e Neutel de Abreu.jpg

Quartel General de Nampula e estátua de Neutel de Abreu

Messe Oficiais.jpg

 Messe de Oficiais de Nampula

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:06


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D