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Ilha de Moçambique

por António Tavares, em 22.06.17

Ilha de Moçambique

Os meses em Nampula foram passando, numa rotina previsível.

De vez em quando apareciam cromos como um certo general que, chegado ao aeroporto de Nampula, me liga a pedir um mercedes para o trazer para a cidade. Que, como era general, tinha direito a um mercedes.

- Mas, ó sr. General, não tenho aqui nenhum Mercedes disponível. Quando muito posso ver se há algum Volkswagen…

- Desenrasque-se!

Passado algum tempo (não muito) aparece-me à porta do meu gabinete.

- Então… já arranjou o Mercedes?

Tinha pedido boleia a um militar que passara de jeep no aeroporto. Recusou um Volkswagen para pedir depois boleia de jeep.

Mercedes não havia. Mandei-o falar com as chefias superiores…

Mas tirando isso tudo correu lindamente. Mesmo correndo alguns riscos…

Aos domingos metia-me sozinho no jeep e ia almoçar a Nacala, ou à Ilha de Moçambique. 200 quilómetros para cada lado. E o jeep não dava mais de 90 km por hora. Nas retas a perder de vista puxava o botão do acelerador automático e era só segurar o volante. Era preciso era estar atento aos macacos, não fosse algum atravessar-se à frente. Enxameavam as margens da estrada. Sem autorização de ninguém. E era preciso levar uns jerricans de gasolina suplentes. Por vezes ficava de sábado para domingo. Se era em Nacala ia pedir para dormir na base aérea, sede dos paraquedistas. Se fosse na ilha de Moçambique ia dormir no Lumbo, no antigo quartel dos comandos, entretanto deslocados para Montepuez.

A ilha de Moçambique foi durante algumas centenas de anos a capital de Moçambique. Hoje está muito devastada, mesmo sendo património da humanidade.

Os portugueses estabeleceram-se aqui porque a ilha tinha boas condições de habitabilidade. Ficava numa baía calma, com bons acessos e assim ficavam protegidos dos povos do continente que eram tidos como canibais. E foi com esses povos do continente que se começaram a estabelecer os laços comerciais. Levavam-lhes panos e deles traziam ouro.

Aos poucos os portugueses foram pacificando esses povos e foram-se estabelecendo no continente (Lumbo). E daqui foram construindo as primeiras estradas África dentro, até à zona de Nampula e Niassa. Mais parte era daqui que partia o caminho-de-ferro até Vila Cabral (Niassa). Foi construído um pontão de madeira, mar dentro. Os vagões chegavam e descarregavam diretamente para os navios ancorados ao lado.

Foi aqui no Lumbo que se estabeleceram os primeiros quartéis.

No tempo de maior dinamismo a Ilha de Moçambique tinha uma vida bastante cosmopolita. Atestada pela quantidade de palácios e mesquitas. Tinha mesmo um palácio do Aga Khan.

A ilha é estreita. Tem cerca de 3 quilómetros de comprimento. Na ponta sul existe um ilhéu que funcionou como prisão. Na ponta norte a fortaleza. Famosa pelas suas cantarias de pedras brancas de calcário, trazidas da metrópole para fazerem de lastro nas naus que, iam para lá vazias e vinham de lá cheias das mais variadas riquezas. Era atrás desta fortaleza que eu dava 50$00 a um pretito para ir pelas rochas buscar uma lagosta ao mar. E às vezes trazia uma que pesava perto de 2 quilos.

A primeira grande queda de valor da Ilha de Moçambique foi com a passagem da Capital para a Cidade de Lourenço Marques, situada no extremo sul do país, nos inícios do século XX. Mais ligada aos ingleses da África do Sul, acabou por ter um desenvolvimento comercial mais acelerado.

A segunda (e definitiva) queda de valor da Ilha de Moçambique foi motivada pela guerra colonial. O porto foi mudado para Nacala, mais a Norte, que ficava numa baía profunda e ainda mais abrigada. Tinha melhores condições de navegabilidade. A estrada e o caminho-de-ferro foram desviados, no Monapo, para Nacala. Os quartéis foram todos para Nampula. Os comandos foram para Montepuez.

Os Macuas desta zona eram na altura um povo pacato e acessível. As mulheres andavam permanentemente com a cara pintada com uma maquilhagem branca.

Nem mesmo a construção da ponte de 3 quilómetros a ligar a ilha ao continente, projetada por Edgar Cardoso nos anos 60, conseguiu salvar a ilha. A ponte tem uma única faixa de rodagem. De 100 em 100 metros tem uma reentrância, uma vez para um lado, outra vez para o outro, para permitir as ultrapassagens. Nas imagens que vejo hoje do Google Earth reparo que quem passa nesta ponte paga agora portagem.

Ilhéu Prisão.jpg

O ilhéu prisão da Ilha de Moçambique

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A igreja do Lumbo, o edifício da Alfândega e o pontão cais

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Vasco da Gama na Ilha de Moçambique, em frente aos edifícios do governo

Bairro Macua.jpg

Bairro macua da Ilha de Moçambique

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Entrada da fortaleza da Ilha de Moçambique

Ponte.jpg

Ponte de Edgar Cardoso

Uma das mesquitas.jpg

Uma das mesquitas

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publicado às 16:05

As esposas dos Srs Oficiais

por António Tavares, em 05.06.17

As esposas dos Srs Oficiais

O meu chofer vinha buscar-me a casa de jeep. Andava 100 metros e parava na porta da messe de oficiais (no praça da parte de cima) para eu tomar o pequeno-almoço. Depois dava-mos a volta ao largo e entravamos no quartel, do outro lado da praça.

Certo dia, acabava eu de tomar o pequeno-almoço no bar da messe, pergunto ao militar:

- Quanto é?

- Está pago, sr Alferes, pode ir.

Olhei em volta, espantado. Não vi ninguém conhecido.

Isto repetiu-se durante alguns dias. Até que a minha curiosidade me fez voltar ao bar mais tarde.

- Quem é que me tem pago o pequeno-almoço?

Perguntei ao militar.

- É a esposa do nosso Major Martins que normalmente se senta naquela mesa.

Apontou para um canto da sala. No dia seguinte lá estava ela. Pagou o meu pequeno-almoço e sorriu para mim. Passamos a tomar o pequeno-almoço juntos na mesma. O que ela queria de mim? Apenas me pediu que lhe desse a chave do carro do marido.

O Major Martins era também da segurança, ligado à Pide. Passava meses percorrendo os aquartelamentos de Moçambique de uma ponta à outra. Vinha por vezes à metrópole trazer relatórios e levar instruções. Como conhecia bem a sua esposa, deixava-me o seu Fiat 125 com o pretexto de lhe fazer uma revisão. A razão no entanto era que eu o guardasse e não deixasse a esposa mexer nele.

As esposas dos nossos oficiais superiores tinham por hábito fazer reuniões “secretas” em casa de umas ou de outras. Algumas vezes bem longe da cidade e dos olhares mais indiscretos. E por vezes não havia carros disponíveis. Sempre era mais um.

Vários oficiais faziam o mesmo e deixavam o seu carro comigo. Aproveitava e dava eu uma volta com eles.

Tinha aprendido a conduzir com o militar, condutor do meu jeep. Ia com ele dar passeios pelos bairros de palhotas à volta da cidade. Mal saímos da cidade eu tomava o lugar dele. Ele ia-me indicando como fazer.

Certa vez parei entre e palhotas porque o condutor me disse:

- Ó sr Alferes, olhe que aí não passa.

- Passa, passa…

Disse eu. Passou mas arrastou o telhado de uma das palhotas e o telhado arrastou uma das paredes. Ainda tive tempo de ver um velhote deitado na enxerga. E fugimos dali.

O exame de condução foi feito no Serviço de Transportes do exército, por um colega Alferes que havia feito a recruta comigo em Mafra. Saímos por um portão do quartel e entramos pelo outro.

- Podes ir embora. Estás aprovado.

Mas gostei de fazer o que faziam a todos os militares que tiravam a carta: testes psicológicos e psicotécnicos para analisar o grau de resposta às diversas reacções sensoriais. Tudo nos conformes.

Mas voltando à messe e às senhoras esposas dos oficiais.

A antiga messe dos oficiais tinha na frente um hall grande onde havia um conjunto de cadeiras de verga tipo colonial. Era nessas cadeiras que se viam essas senhoras a apanhar sol. E foram inspiradoras para os cantadores do Cancioneiro do Niassa:

Em frente ao Neutel de Abreu

A quem roubaram a espada

Existe a Gorongosa

Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos

E de outros animais

Costumam apelidá-los

De senhores oficiais

Numas cadeiras de verga

Expostas num grande hall

Lá estão as vacas malhadas

Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos

Que trabalham no quartel

Mal percebem coitadinhos

Qu’ali há putas a granel

Quando cheguei a Nampula a messe de oficiais estava a ser ampliada. Foi construída a nova sala de jantar e um salão de jogos.

A comida não era boa nem má. Era assim… assim… Ao café tínhamos chá gelado muito agradável. Ao almoço e ao jantar havia pescadas fritas congeladas em cada 3 de 4 refeições. Fiquei tão farto de pescadas de rabo na boca, que ainda hoje não sou capaz de comer tal peixe.

O salão de jogos era onde nos entretinha-mos mais. Não havia televisão. Jogávamos king. O jogo começava na sexta-feira à noite e prolongava-se por sábado todo o dia e até ao fim da noite de domingo. Mesmo a 1 centavo o ponto, chegava-mos a domingo à noite com mais de 20 contos em cima da mesa.

A maior parte dos frequentadores deste salão de jogos eram os oficiais milicianos, alguns com as suas famílias. Os oficiais superiores tinham o seu retiro no Hotel Portugal. Nem um nem outro eram espaços convidativos para as senhoras esposas dos oficiais superiores jogarem a sua canasta e beberem o seu chá. Então pediam a reserva do salão de jogos, um fim-de-semana em cada mês, apenas para elas. Era o nosso pior fim-de-semana…

Do grupo destas senhoras faziam parte as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Aquelas eram esposas de altas patentes em Lisboa, que deambulavam pelos aquartelamentos fazendo a sua “psico”. Eu recebia regularmente chamadas telefónicas delas. Ouvi-as calado. No fim dizia que estava tudo bem. Que não precisava de anda. Já só as queria ver caladas.

- Sr Alferes, então como está? Fala a Teresa Supico Pinto do MNF. A sua saúde? Precisa de alguma coisa? Se precisar de alguma coisa pode contar connosco. Estamos cá para vos animar e ajudar a passar o tempo. Blá… blá…

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publicado às 11:46

Nameteculía

por António Tavares, em 30.04.17

Namutaqueliua

Os perto de 2 anos que passei em Nampula até nem foram maus de todos. Tinha um grupo de amigos, todos alferes, que fazíamos por passar o tempo o melhor possível. Jogávamos futebol às 5ªs feiras, à noite íamos jantar muitas vezes aos cafés e restaurantes da cidade. Aos fins-de-semana passeávamos.

Para albergar os oficiais superiores que não tinham direito a ter moradia (ou flat = apartamento) por sua conta, o exército comprou um hotel: hotel Portugal. E quando alguém se lembrou que lá para o norte, a comandar um pelotão de infantaria, estava um alferes miliciano com curso de cozinha tirado na Suíça, outro alguém ordenou:

- Ele que venha para Nampula.

E veio. Foi transferido para ser chefe de cozinha do hotel Portugal. Para além dos cozinhados que fazia para os oficiais superiores também fazia os petiscos para nós. Lagosta suada…

Certa noite, acabados de jantar espetadas, fomos passear até à Nameteculía. Um bairro de palhotas de má fama, no caminho para o aeroporto. O nome oficial é Namutequeliua. Nós chamávamos Nameteculía para ser mais fácil. Havia bares para beber cervejas, prostitutas negras, vadiagem. Íamos sempre em grupo para nos protegermos e evitar confusões.

Os soldados iam mais para se divertir e fazer a sua acção psicológica, “psico”, como dizia o Cancioneiro do Niassa (reprodução de memória):

Bem vindo checa

P’ra esta guerra

Que cá te espera

Não estejas triste

Que a guerra é linda

Só fazes cera

Vais ter saudades

De mulheres brancas

Ai que tormentos

Aqui há pretas

Mas tem cuidado

Com seus lamentos

Checa danado

Que vieste cá fazer?

Vieste p’ra me render

Vais lerpar muito

Mas com o aumento

Vais ficar rico

Dá-o às pretas

Pois assim fazes a tua “psico”

O bairro era percorrido constantemente pelos jeeps da polícia militar. Para evitar desacatos e prender os mais atrevidos. Porque eram essencialmente os militares que ocupavam as ruas para se divertir. Depois de várias cervejas havia sempre barulho. Não havia iluminação pública. Apenas as luzes das diversas palhotas e dos bares.

Nós tínhamos acabado de jantar espetadas num dos restaurantes da cidade. Eu, por piada, tinha levado comigo o espeto para recordação. Um arame afiado com cerca de 20 centímetros e uma argola na ponta. Meti o dedo médio na argola e ia girando no ar para descontrair.

Já em pleno bairro de palhotas dei por mim com aquilo na mão e pensei que alguém podia interpretar mal. Em vez de o atirar fora escondi-o ao longo do braço, debaixo da manga. E aconteceu mesmo. Não é que uma negra se abeirou de nós, agarrou-me na mão e detectou o arame. Fugiu aos gritos:

- Tem ferro… tem ferro!

Fugimos todos rapidamente para evitar confusão.

As casas das prostitutas brancas ficavam todas fora da cidade. Embora a prostituição fosse proibida, em África era tolerada. A casa mais conhecida era a da Paula. Ficava a uns 3 ou 4 quilómetros, na picada para a barragem. Uma casa “séria”. Com bar, música e espectáculos (por vezes). Havia mesmo prostitutas da Rodésia e Sul-Africanas. Só falavam inglês. Conta-se mesmo a história de capitães de companhia (milicianos) que iam à Beira ou a Nampula e contratavam 2 ou 3 prostitutas, para irem passar uns dias aos acampamentos militares, lá para o norte, para aviarem quem necessitasse. Ou o caso de um soldado que, chegado a uma destas casas, encontra alguém conhecido e diz:

- Ó tia, está aqui?

Era mesmo a sua tia.

Não havia transportes públicos. Para ir até estas casas tinha que se ir de táxi ou no carro de um amigo. Havia muitos militares que, estando na cidade, levavam o carro de cá ou compravam lá um, usado, para se divertirem.

Havia um capitão miliciano que tinha levado para lá o seu MGB/GT. Um alferes, amigo comum, pede-lho emprestado para ir passar o fim-de-semana à Ilha de Moçambique. Não chegou lá. A estrada era de terra batida, mas larga e com grandes rectas. Numa curva para lá do Monapo, espalhou-se. Lá ficou e o carro teve que ser apanhado peça a peça. Parece que o conta-quilómetros marcava 240.

Usando das facilidades que a tropa oferecia, tirei lá a carta de condução. Seguia no jeep com o meu condutor e já fora da cidade dizia-lhe.

- Para aí. Passas para aqui que agora conduzo eu.

E aprendi assim. Pelas picadas, entre as palhotas. Uma vez o condutor disse-me:

- Ó sr Alferes, olhe que o jeep não passa aí entre essas duas palhotas!

Passar passou, só que arrastou os paus do telhado de colmo que estavam baixos de mais e eu não me apercebi disso. Quando dei por ela só vi um negro deitado numa enxerga, porque o telhado tinha arrastado uma das paredes da palhota.

O Alferes que me fez o exame de condução era meu colega e amigo. Fomos de jeep. Saímos do quartel por uma porta e entrámos pela outra.

- Podes ir!

Já tinha a carta. Mas uma coisa que eu achei que foi bem feita: ter feito todos os testes psicotécnicos e de aptidão, de visão e de audição, que nem eu sabia que se faziam e que era usual fazer a todos os militares que iam tirar a carta de condução. Passei a todos.

De vez em quando pegava no jeep, mesmo aos fins-de-semana e saía por aí fora. Ía com amigos até à barragem, cheguei mesmo ai até Nacala e à Ilha de Moçambique. Corria imensos riscos. Para além de poder ter um acidente, para se sair com uma viatura militar tinha que se ter autorização e plano de viagem. E podia sempre aparecer a Polícia Militar.

Felizmente sempre correu tudo bem.

Bar barragem.jpg

Nas escadas para o bar da barragem de Nampula

De jeep.jpg

Regresso do aeroporto. Bairro da Nameteculía em frente. Os morros sempre presentes.

Na barragem.jpg

Na barragem

Nameteculia.jpg

Bairro da Nameteculía.

Picada para a Ilha.jpg

 Esrtrada de terra para a Ilha de Moçambique, logo após Monapo.

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publicado às 20:52


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