Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


5 dias no inferno

por António Tavares, em 16.05.17

5 dias no inferno

A etapa entre Porto Amélia a Mueda foi a minha única experiência de guerra. Foram cinco dias no inferno.

Até Montepuez foi uma simples coluna militar, com vários camiões. Picada boa.

Montepuez era a última povoação grande antes da zona de Guerra de cabo Delgado. Era a cidade sede do Regimento de Comandos. Largas avenidas com casas térreas. Muitos comerciantes portugueses e indianos. Aqui nos juntamos à coluna de reabastecimento que vinha de Nampula. Ao todo mais de 70 camiões. A maioria deles civis. Tudo o que era necessário lá em cima ia de camião. Alimentos, armas, material de construção, etc.

Como o exército não tinha camiões suficientes, fazia contratos com camionistas civis que viviam da ida (2 vezes por mês, mais ao menos) a Mueda. Carregavam tudo. Tinham pago seguro de vida e da viatura. Se a mesma fosse minada ou acidentada, ou era reparada nas oficias do BMM - Batalhão de Manutenção de Material, ou recebiam uma nova igual. Um achado: havia militares (incluído generais) que tinham por sua conta uma verdadeira frota de camiões.

Como a nossa companhia não tinha experiência de guerra, toda a coluna era protegida por um pelotão de 30 homens, comandado por um alferes. Era a este que estavam incumbidas todas as operações de protecção e segurança, da coluna de viaturas. De mais de 7 quilómetros, entre a primeira e a última.

Saindo de Montepuez embrenhamo-nos na zona de guerra. Esta começava oficialmente na zona dos morros, uns 100 quilómetros acima. Uma zona de picada estreita entre 2 morros enormes. O comandante da minha companhia seguia, com um grupo de militares, na viatura atrás da nossa. Passada a curva dos morros deixei de ver a sua viatura. De repente ouço rajadas e rajadas de tiros. Pensei:

- Foram emboscados e estão a ser atacados, lá atrás.

Dei ordem ao pessoal que ia comigo para saltar da viatura, para se protegerem debaixo da mesma e esperar. Sempre preocupado com as minas.

Mais à frente o pelotão de segurança saltou das viaturas, meteu-se mato fora para tentar cercar o inimigo atrás dos morros.

Passado algum tempo parou o tiroteio. Vejo a viatura do capitão a vir em nossa direcção e ele mesmo a acenar com a mão: podem seguir.

Acagaçado com os morros, ele tinha dado ordem aos seus soldados para esvaziar cada um, um carregador de G3 sobre os morros. Sem nada combinado com o pessoal da segurança que ia mais à frente. Com possibilidade de serem apanhados pelo seu fogo cruzado.

O alferes que comandava a segurança chamou-lhe depois a atenção:

- Quando chegar a Mueda vou participar de si…

Um dos soldados que seguia na minha viatura era casado e levava aliança no dedo. Ao saltar da viatura a aliança ficou presa nalguma peça metálica e descarnou-lhe o dedo quase até à ponta. Foi até Mueda com o dedo entrapado.

Numa das viaturas seguia uma escavadora de lagartas. Nunca se sabia quando é que as chuvas abriam valas na picada. E aconteceu mesmo. Algures ali para Nairoto foi preciso abrir outra picada mais ao lado, para a coluna passar.

Sobre o ri Mesalo a ponte era de madeira, com perto de uma centena de metros. Foi decidido passar ali uma das noites. Havia água para nos lavarmos, o espaço era amplo e seguro. Para evitar ataques de crocodilos tinham sido espetados troncos, em fiada, uns metros acima e outros uns metros abaixo da ponte. Foi o primeiro mergulho em águas correntes, mesmo barrentas.

Na coluna seguiam 3 camiões militares novos, marca mercedes 4x4, enormes, tamanho que eu nunca vira. Iam os 3 seguidos. Um deles ficou em cima da ponte e os outros 2 na rampa a descer para a ponte. Sem ninguém saber porquê (estariam mal travados?) um deles deslizou e levou os outros 2 de rojo. Dois deles ficaram com o radiador roto. Solução: mandar vir por helicóptero 2 radiadores novos. Não havia. Era um modelo novo e não havia peças sobresselentes.

Nova solução: esvaziar 2 bidons de gasóleo para dentro dos depósitos das viaturas. Colocar cada um dos bidons vazios em cima de cada uma das viaturas avariadas. Desfazer sabão e com ele bloquear as zonas rotas dos radiadores. Ligar uma mangueira de cada bidão a cada radiador avariado. Sempre que o nível de água fosse baixo era necessário encontrar mais água para encher os dois bidons.

A tropa manda desenrascar. E assim lá chegamos, famintos, 5 dias depois a Mueda. Depois de passar a célebre curva das bananeiras. Pelo caminho ficaram vários postos com presença de militares, como Nairoto, Chaca ou Nacatar.

Eu não conseguia comer as rações de combate. Só bebia os sumos. As latas de conserva dava-as aos rapazes. Sempre que o camião parava eu saltava e ia arrancar raízes de mandioca. Descascava-as e roía-as.

Diz o cancioneiro do Niassa (de memória):

Que culpa tem o soldado

De ter raiva à sua sorte

Se chega um filho da puta

Que o mete numa farda

E o manda para a morte

Ou:

Se há um jovem que tomba outro se levanta

Se há um jovem que chora há outro que canta

Anda ver meu amigo os que riem do perigo

Frente à morte na luta pela vida

Picada para Mueda.jpg

Descida do Nairoto para o rio Mesalo. Imagem tirada da NET

 

Nampula.jpg

 Numa avenida de Nampula. Uma berliet carregada a aguradar a próxima viagem a Mueda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:31

Partida para Moçambique

por António Tavares, em 06.05.17

Partida para Moçambique

Durante a especialidade em Mafra, preparei-me para fazer a admissão ao ISE. Em Julho de 1971 pedi licença para ir fazer os exames a Lisboa. Fui e fui admitido. Mas já era tarde de mais. Já não podia pedir adiamento de incorporação.

Pedi ao Mário que me arranjasse os livros pelos quais a Ana estudava (andava no ISE) para eu ir lendo em Moçambique. Arranjou-me o Pereira de Moura (era a bíblia) mais alguns livros e algumas sebentas. Foram todos roubados em Mueda.

Havia em Torres Novas um alferes que devia pesar perto de 150 quilos. Pensa-se que foi o seu peso que evitou que fosse mobilizado para o ultramar. Tinha um Fiat 600 e um gosto especial por petiscos. Quem ia com ele tinha que ocupar os bancos de trás do Fiat. A frente era só para ele.

Íamos com frequência beber uns copos a uma taberna nas Terras Negras. Com a sua bonomia era uma pessoa muito bem-disposta. Dizia que tinha por hábito fechar os olhos quando guiava a direito e que os abria sempre antes da próxima curva.

Certo dia, vínhamos das Terras Negras, abriu os olhos tarde de mais e só parámos dentro de um campo de couves. Os quatro conseguimos por o Fiat na estrada. O pior foi quando chegamos à cidade e quisemos ir meter gasolina. Saímos todos para nos limpar e quando fomos embora deixamos a bomba de gasolina cheia de terra. É que tinha chovido e, quer nós quer o Fiat, pingávamos lama por todo o lado. O homem da bomba de gasolina ainda lá deve estar a fazer barulho, neste momento…

Finda a instrução, em Março de 1972, deu-se início à preparação para embarcar para Moçambique. Todos em tronco nu, sentados num banco corrido, uma perna para cada lado, passava o enfermeiro com uma seringa enorme e dava uma espetadela em cada um. Era a chamada dose cavalar.

Era autorizado aos militares deixar cá, na metrópole, cerca de 60% do ordenado. Ia ganhar cerca de 10.000$00. Decidi deixar cá 6.500$00. Informei-me sobre que companhia de seguros fazia seguros de vida de militares que iam para o ultramar, que cobrissem o risco de morte. Só havia uma: a francesa La National Vie. Contratei um seguro, já não me lembro de que valor. O beneficiário, em caso da minha morte era o meu pai. Paguei a primeira anuidade e avisei a minha irmã Helena (era a mais velha) que tinha dado o nome dela para ficar a receber todos os meses os meus 6 contos e quinhentos e pedi-lhe para os depositar na minha conta no banco. E ela pagaria desse valor as restantes anuidades do meu seguro de vida.

Não sei como nem porquê o meu pai veio a saber que tinha dado o nome dela para ficar a receber o dinheiro. A helena disse-me que o pai não tinha ficado nada contente. Mais uma vez não me disse nada a mim. Mas para evitar confusões troquei o nome dela pelo do meu pai. Mas disse à Lena que lhe mandaria todos os anos o valor necessário para pagar a anuidade dos seguros. E mandei sempre.

Quando escrevia à mãe dizia-lhe:

- Ó mãe, olhe que o dinheiro que vocês aí recebem é do meu ordenado. Guardem-me algum para eu reiniciar a minha vida quando aí chegar.

A mãe respondia que sim. O certo é que quando cá cheguei nem um tostão tinham guardado. Quando regressei para o despachante, em pleno período PREC, entramos em autogestão. Recebi, passados uns meses uma autopromoção com retroactivos que me permitiram comprar, a pronto, um Fiat 128. Mas não tinha dinheiro para o seguro, já na altura obrigatório. Pedi à minha mãe que ao menos me ajudasse a pagar o seguro. Afinal tinham recebido 6 contos e quinhentos do meu ordenado durante 2 anos.

A mãe respondeu que o dinheiro tido ajudado este e aquele… (disse-me os nomes!), que não tinha o que lhe pedia, mas mandava o possível.

Sabes Lúcia… lembras-te de quando ias ter comigo à Marconi, ao pé da Feira Popular, a pedir que também tinha que contribuir para comprar uma televisão para os pais no Casalinho e eu dizia que não podia? Não te quis dizer, na altura, que já tinha ajudado a todos vocês o suficiente, com o meu ordenado, durante dois anos. Afinal eu fui, de todos, o que mais ajudou os pais e não só. Eu sei que o pai pensava que o dinheiro que recebia era um subsídio do estado por ter um filho na tropa. Mas não era. Era o meu ordenado. E eu disse-lhes, por carta, muitas vezes. E muito me custou, com a ajuda de pessoas que não me eram nada, conseguir ir para a tropa como oficial a ganhar mais de 10 contos por mês… em 1971…

Voltando a Torres Novas…

Comprei a revista Crónica Feminina. Publiquei um anúncio: “Alferes miliciano deseja corresponder-se com raparigas …. SPM XXXX”. Era usual os militares colocarem estes anúncios em revistas femininas, para terem amigas com quem se corresponder. Eu tinha pedido às minhas namoradas platónicas para se corresponderem comigo. Da Graça não consegui nada. A Nônô ainda me escreveu algumas vezes.

Devido às peripécias da minha chegada a Moçambique (Beira, Porto Amélia, Mueda, Hospital), só 2 ou 3 meses depois recebi as primeiras cartas. E a primeira entrega (ainda no hospital) foi um saco bem recheado de cartas. Algumas até do Brasil: Vitória, Piauí.

Não podia responder a todas. Fiz uma selecção: melhores palavras, melhores letras, melhores localizações, etc. Mesmo assim ainda respondi a algumas durante algum tempo. Depois foi a selecção natural. A cativação pelos diálogos escritos e a assiduidade. Ficou a Fernandinha (sempre lhe chamei assim), a mãe dos meus filhos e minha companheira à 42 anos.

Voltando novamente a Torres Novas…

Na véspera de embarcar para Moçambique fui ao Quartel do Entroncamento buscar um soldado que estava preso (nunca soube porquê) e que tinha sido castigado com a mobilização forçada. Partimos no dia seguinte em camiões para o aeroporto militar de Lisboa.

Fomos das primeiras companhias a embarcar nos 2 novos Boing 707 brancos da Força Aérea e não nos velhos Paquetes Vera Cruz e Funchal. Cada avião levava uma companhia inteira, mais de 300 homens.

Dos 4 Alferes que faziam parte da nossa companhia, um não compareceu ao embarque. Tinha dado baixa ao Hospital Militar Central de Lisboa. Nunca mais o vi.

Eram 10 horas da manhã. 12 horas depois estávamos no aeroporto de Luanda. Já era noite, saímos e senti, pela primeira vez, o bafo do calor de África. Umas horas depois embarcamos de novo com destino à Beira.

Depois de uns dias de descanso, de ter sido levado pela 2oposição” e pela “contra-espionagem” a fazer o tirocínio pelos bares da cidade, de ouvir e cantar o cancioneiro do Niassa várias vezes, aí vamos nós de avião (agora da DETA, companhia moçambicana) rumo a Porto Amélia.

A partir daqui iríamos embrenharmo-nos na guerra…

T Novas 3.jpg

 Eu, os meus Furriéis e os meus cabos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:42

De Mueda ao hospital...

por António Tavares, em 06.02.17

De Mueda ao hospital

Mueda era uma vila no alto dum planalto. Composta essencialmente por uma longa avenida que partia da pista de aterragem, separava de um lado as tabancas dos nativos e do outro as estruturas militares e se prolongava pelo mato fora através da picada para Mocímboa do Rovuma.

No final da avenida ficavam, um de cada lado, os 2 únicos estabelecimentos comerciais: o Santos e o China. Ponto de paragem obrigatória para qualquer militar que por aqui passasse. Serviam bifanas e pregos. Vendiam um pouco de tudo que encomendavam em Nampula e lhes era enviado através das longas colunas militares que com alguma regularidade iam até Mueda para reabastecimento.

Também esses 2 estabelecimentos ficarem imortalizados nos versos do Cancioneiro do Niassa:

Mueda terra de guerra

Vou cantar-te este meu fado

Que compus ainda há pouco…

Mueda que és uma mina

Para o Santos e p’ró China

E para os tipos experientes

E para os que têm por sina

Venderem Água das Pedras

Mais cara que a gasolina…

Chegamos a Mueda num sábado à noite. Depois de tentar comer qualquer coisa no bar e não conseguir, depois de chegar ao quarto e de ver que me tinham roubado tudo, consegui dormir um pouco. Acordei no domingo de manhã. Estava sol. Levantei-me azamboado e com a mesma roupa que trazia de véspera e que nem tinha despido, fui passear por aquela longa avenida.

A dada altura aparece-me um senhor negro com uma menina pela mão. Não tinha mais de 12 ou 13 anos. “O senhô qué fazê máquina?” disse-me. Não percebi o que queria. Segui o meu caminho cada vez mais tonto. Quando mais tarde relatei este facto a alguém, informaram-me que era usual os nativos virem oferecer aos militares as filhas para sexo a troco de dinheiro.

Não devo ter andado muitos mais metros. De tão faminto, fraco e sem forças caí redondo no chão. Dei por mim deitado numa maca na enfermaria. De um lado o soro a entrar na veia. Do outro uma senhora do Movimento Nacional Feminino ia dizendo:  sr Alferes, tem que reagir… os seus soldados estão à espera para seguir com eles… vão partir daqui a pouco… você faz falta junto deles.

Não sei quanto tempo estive assim sem conseguir esboçar qualquer reação, os olhos fitos no teto como que a tentar var mais longe. Não sei se foram horas se foram dias. Ouço tiros e rebentamentos. Não consigo reagir. Volto a ouvir a mesma senhora: não tenha medo. São os nossos. Estão a bombardear o vale para o avião partir. Alguém diz atrás de mim: é melhor aproveitar este avião e mandá-lo para o hospital. Enquanto me preparavam para pôr na maca outro Alferes da mesma companhia que a minha dizia-me baixinho: tu vais agora mas que eu vou lá ter contigo dentro de pouco tempo.

A missão de bombardear o vale de Mueda com murteiros, antes de partir qualquer avião, era rotina. O inimigo já sabia as horas de partida e chegada dos voos dos Nord Atlas. Bastava sentarem-se no fundo do vale com a bazuca ou as espingardas apontadas para o ar. Para evitar isso todo o vale tinha que ser limpo primeiro. Mas como eles não desistiam foi necessário alterar a rotina e fazer com que os aviões partissem ou chegassem em horas aleatórias, de preferência de noite. Os North Atlas eram aviões de reabastecimento e de transporte de pessoal que operavam com regularidade entres as principais bases militares do norte de Moçambique.

Bem, mas lá fui eu de maca amarrada dentro do North Atlas a caminho do hospital militar de Nampula. Só dei por mim a ter alguma reação quando, na aproximação à pista de Nampula o avião descreveu uma curva e eu, mesmo deitado, consegui ver pelas janelas as imagens da cidade. E pensei para mim: isto aqui é muito bonito. Largas avenidas, tudo moradias, algumas com piscina, muita vegetação e flores… Comecei a magicar na minha mente alguma forma de conseguir não voltar para a guerra.

O hospital militar de Nampula era muito recente. A ala dos oficiais tinha quartos individuais, casa de banho privativa, um recanto relvado ajardinado com uma latada de maracujás. Parecia um hotel. Comecei a ser observado pelo médico psiquiatra Dr Coimbra.

Pedi um aerograma para escrever à minha mãe. Em Nampula e em Nacala viviam familiares, primos e tios quer do meu pai quer da minha mãe, alguns mesmo do Casalinho. Donos de machambas enormes, fornecedores do exército em frutas, legumes e hortaliças. Donos de fábricas de cajú e de óleos alimentares. Donos de padarias e das salinas.

Escrevi à minha mãe. Contei o sucedido. Pedi que falasse com alguns dos familiares que por lá viviam, para tentar algum apoio e alguma pressão junto do médico.

Nunca recebi qualquer visita de nenhum. Acabei por encontrar mais apoio em pessoas que não me eram nada. Gente boa do norte de Portugal. Tive que me safar sozinho.

North Atlas sobre Nampula.jpg

 North Atlas sobre Nampula

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:33

Mueda

por António Tavares, em 19.01.17

MUEDA

Naquele sábado qualquer do mês Abril de 1972, estava o sol quase a desaparecer na vermelhidão do horizonte por cima do planalto, quando o camião em que seguia o pelotão que eu comandava, trepava ruidosamente as últimas centenas de metros da íngreme picada poeirenta,  esburacada e rasgada pelas águas da chuva, que separavam o inferno dos últimos 5 dias de picada entre Porto Amélia e o purgatório que iria ser a nossa breve estada de 2 dias em Mueda. Porque o céu, esse estaria reservado lá muito mais para diante.

No último morro à direita esperava-nos um soldado cuja farda camuflada se confundia com o ocre da terra e que rodava apressadamente a manivela da máquina de filmar feita de cartão e encimada  com a sigla RTP. Era assim que os checas eram recebidos em Mueda.

A coluna de mais de 70 camiões estendia-se por várias dezenas de quilómetros e duraria todo o dia e parte da noite, para passar a curva das bananeiras, transpor o estreito desfiladeiro do fundo do vale e vencer a íngreme subida até ao planalto.

E chamava-se das bananeiras, ou da morte, a tristemente célebre curva. Bananeiras, porque todo o vale, da picada para baixo, era mais largo e estava cheio de bananeiras. De vez em quando vinha um camião de Mueda buscar bananas, sempre escoltado por um grupo de proteção. E antes havia que bombardear toda a zona para saber se estava limpa. É que esse desfiladeiro, mesmo nas barbas dos soldados no alto do morro era uma das principais vias de reabastecimento dos turras, mais a sul.

Muitas vezes esses bombardeamentos do vale incluíam não apenas obuses, canhões e murteiros, mas por vezes também os Fiats e dos velhos T6 da 2ª Guerra Mundial. Acontecia era que as velhas bombas dos T6 muitas vezes não rebentavam e serviam para os próprios turrras enterrarem nas picadas por baixo das minas anticarro.

Sabem meus filhos, naquele dia, para se poder transpor a curva das bananeiras teve que vir de Mueda um grupo de engenharia abrir uma nova picada mais ao lado da curva. O buraco na picada, mais fundo do que um soldado de pé e com o braço esticado, fora feito pelo rebentamento de uma dessas bombas, fez desaparecer uma Berliet, mandou para o céu que nos prometiam os 30 homens que levava em cima e não permitia a passagem dos camiões de reabastecimento.

Mas esse grupo de engenharia tinha também outra missão. É que a ponte sobre o desfiladeiro era derrubada logo no dia imediato a ser reconstruida. Os turras passavam, colocavam os petardos de trotil e aí vai mais outra ponte. A única solução possível foi fazer 2 morros de cimento armado, um de cada lado do desfiladeiro e de cada vez que era necessário transpô-lo o grupo de engenharia trazia 2 potentes barras de ferro, assentava-as sobre o desfiladeiro e depois era preciso acertar com as rodas dos camiões nas 2 barras de ferro. Nem que fosse apenas para vir buscar as bananas ou encher os autotanques de água para levar para o alto do planalto.

Toda a nossa companhia, a CART qualquer coisa, seguia em 4 camiões, um pelotão de trinta homens em cada um. Tinha aquele código por ser uma Companhia de Artilharia.

De facto formamos a companhia em Torres Novas no velho quartel GACA 2. Aí sim havia peças de artilharia contra aeronaves que ainda manuseamos algumas vezes. As peças que levávamos connosco eram apenas as, já na altura, velhas e pesadas (mas fiáveis) G3, ainda hoje usadas.

Mas estava eu aqui me lembrando que embora fossemos uma Companhia de Artilharia não passávamos de Infantes e formávamos, isso sim, uma Companhia de Infantaria. As peças de artilharia, esperava eu deviam estar lá mais para o norte, em Mocímbua do Rovuma, nosso destino final. As aeronaves contra quem iríamos lutar, que viram da Tanzânia, do outro lado do rio Rovuma, essas nunca soube se vieram ou não.

Estou aqui a divagar mas voltando à nossa chegada a Mueda ...

Os camiões foram distribuídos pelos edifícios de destino. A maioria ficaria em Mueda por trazerem todo o tipo de utilidades e mantimentos para a Intendência local: munições, tijolos, cimento, batatas, óleo, gasóleo ... eu seu lá que mais. Uns poucos levariam os mesmos mantimentos e utilidades (a nossa companhia incluída), umas centenas de quilómetros lá mais para cima, para junto da fronteira. Esses ficaram numa outra zona vedada com arame farpado. Os soldados foram alojados nas casernas que lhe estavam destinadas já a noite ia avançada. Uns deitaram-se e adormeceram de imediato. Outros ainda abriram uma ração de combate para comer qualquer coisa antes.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

Após dias de caminho

Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato

Olhei e vi palmeiras

Macacos e bananeiras

Entendi, estava no mato

Eram cerca de 23 horas e 30 minutos quando me sentei na enxerga vazia de qualquer peça de roupa, num quarto com apenas uma prateleira, em que a porta não fechava, que me havia sido atribuída.

Pensei... há 5 dias que não como. Estou cheio de fome. Vou arrumar as minhas coisas nesta prateleira e vou até à Messe de Oficiais comer qualquer coisa.

Arrumei os sacos com roupa, um par de botas, os livros que trazia, alguns cadernos para tentar escrever qualquer coisa. Não havia água para me lavar. Vestido como estava lá me dirigi à Messe de Oficiais.

Sento-me ao balcão do bar e pergunto ao soldado de serviço:

- O que há que se coma?

- A esta hora sr Alferes? A esta hora não há nada.

- Nem fiambre, ou chouriço para fazer uma sandes?

- Não sr Alferes. Acabou tudo. A esta hora só pão.

- Então dá aí um pão e uma bazuca.

Na primeira trincadela que dei no pão senti algo a ranger nos dentes, tirei com a mão e pareceu-me ser um grão de areia. Na segunda trincadela pareceu-me sentir uma coisa mais mole e de gosto duvidoso. Tirei com a mão e já era só metade de um inseto qualquer.

Acabei por comer o pão esfarelando-o com a mão para retirar tudo aquilo que normalmente não entra na composição de pão, coisas que nunca soube o que eram. Valeu-me a cerveja que até estava fresca.

É que eu estava mesmo com fome. Durante os 5 dias de picada de Porto Amélia a Mueda apenas tínhamos direito a abrir uma ração de combate por dia. Mas da ração de combate eu apenas conseguia beber a água e os sumos. Felizmente ia trocando as latas de conserva com os meus soldados e eles davam-me os sumos.

Sempre que os camiões paravam eu embrenhava-me pela mata à procura de mandioca. Havia descoberto que as raízes novas da mandioca eram saborosas, suculentas e até alimentavam.

Já noite fora, tonto, ouvindo o vazio à minha volta, cambaleio até chegar ao quarto. Empurro a porta entreaberta e calçado e vestido como estava, caio na enxerga. De olhos fechados. Mas não consegui dormir. Doí-me a cabeça, estou tonto, abro os olhos e viro a cara para a janela de onde vem uma luz trémula proveniente da iluminação da pista de aterragem ali mesmo ao lado.

Mesmo essa luz me ofusca. Penso: Vou dormir. Amanhã será outro dia.

Viro a cara para o lado e antes de fechar os olhos apenas vejo as mesmas 4 paredes, a porta aberta, a mesma prateleira vazia... Vazia? Isso mesmo. Tinham-me levado tudo. Tinha ficado apenas com o que trazia vestido. Mesmo aqueles cadernos onde queria escrever nem eu sabia o quê. Incapaz de esboçar qualquer reação fiquei ali parado, com a porta aberta, olhos fitos na prateleira vazia a pensar: um dia hei-de escrever esta história. E adormeci ....

 

Notas:

Porto Amélia: Atual Cidade de Pemba. A cidade grande mais ao Norte de Moçambique junto ao mar.

Checas: Soldados acabados de chegar

Turras: Nome que dávamos aos terroristas

G3:       Arma que equipava todo o exército português, fabricada em Portugal sob patente alemã

Berliet: Camião militar de tração a todas as rodas, de origem Francesa, vulgarmente utilizado em todas as campanhas da Guerra Colonal em África

CART: Companhia de Artilharia. Qualquer coisa porque já não me lembro do seu código numérico. Todas as companhias eram numeradas sequencialmente

GACA 2: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2 em Torres Novas. Atual Escola de Formação da Polícia

Bazuca: Cerveja grande de litro e meio

 

Fiats.jpg

Os bombardeiros Fiat fotografados por mim no aeroporto de Nampula que era a sua base operacional para as incursões pelo Norte de Moçambique

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:29


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D