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Jantar com lacraus e o regresso

por António Tavares, em 24.07.17

Jantar com lacraus

e o regresso

Estava em Nampula um amigo meu, Tenente, que tinha uma carrinha Volkswagen variant vermelha. Demos muitos passeios nela. Eu arranjava a gasolina em jerricans militares e aí íamos nós.

Até António Enes (hoje Angoche), 300 quilómetros abaixo de Nampula. Havia lá um aquartelamento de retaguarda. Não era zona de guerra. Boas praias. De vez quando eramos convidados para uma festa. Caçavam um javali. Espetavam-no no espeto. Brasas por baixo. Arranjava-se um mainato para ir dando à manivela e ir barrando com molho especial. Nós era só espetar o garfo, cortar e comer. E beber cervejas. Fizemos isto várias vezes.

Íamos até à Praia das Chocas. Esta praia fica alguns quilómetros acima da Ilha de Moçambique, seguindo a linha da costa. Por estrada são bem mais de 100. Há que fazer um percurso pelo interior do continente para atravessar braços de mar, pântanos e zonas de salinas, passando pelo  Lumbo e pelo Mossuril. Esta praia Ganhou fama quando a Ilha de Moçambique era a capital e o principal polo comercial. Era a praia de férias de todos os comerciantes da zona. Desde Nampula eram perto de 300 quilómetros.

Quilómetros de praia de areia branca e águas límpidas de cor azul opala. Grandes moradias. Morava numa delas um alemão que, dizia-se, seria refugiado nazi. Tinha por companhia apenas uma cobra gigante. Caçava e criava coelhos para lhe dar. Era a certeza que nunca seria assaltado. A cobra, dizia quem a viu, tinha a cabeça na cozinha, percorria os corredores e saía pela porta para o quintal.

Parece que o sujeito vivia do comércio internacional de conchas. Percorria as praias três dias para cima, três dias para baixo, a apanhar conchas. Depois vendi-as aos seus correspondentes do mundo inteiro.

Teria sido em tempos engenheiro ou arquitecto. Parece que toda a gente que construía casa ali lhe pedia conselhos. Ele conhecia as marés e os ventos. Sabia qual a melhor localização e orientação da casa, no sentido de tirar o melhor partido das condições locais.

Fomos passar um fim-de-semana alongado à praia de Lunga. 200 quilómetros abaixo de Nampula. 100 quilómetros abaixo da Ilha de Moçambique. Logo depois do Monapo, já em plena picada, cheirou a queimado debaixo do banco de trás da carrinha VW variant. Parámos rápido e saímos. Já havia fogo debaixo do banco. A bateria estava a fazer curto-circuito e pegou fogo aos inúmeros papéis que que havia pelo chão. Conseguimos arrancar os bancos e apagar o fogo.

Após a reinstalação de todos os componentes reparamos que a bateria se tinha descarregado e o pneu suplente estava vazio. Voltar para trás. Qual quê! Seguir em frente. Mesmo para o meio da selva, para uma zona onde não havia luz, telefone, rádio…

Felizmente aqui era uma descida e foi fácil. Bastou ir andando engatado, o motor pegou e aí vamos nós.

Embrenhamo-nos numa zona mato e selva. 100 quilómetros em redor da praia de Lunga quase não mora ninguém. As picadas são de areia. Moram leões.

Ao aproximarmo-nos de um regato os bambus de um lado e de outro faziam um túnel, pelo qual tínhamos de passar. Os macacos pequenos, dependurados das canas eram às dezenas. Passamos muito devagar para que o carro não se fosse abaixo.

Finalmente a praia. Linda. Uma concha quase perfeita, que ligava ao mar por um canal estreito que tinha palmeiras de cada lado. Areia branca impecável. Águas límpidas. Alguém construíra uma cabana de colmo em plena areia. Os primeiros arbustos junto da areia tinham umas bagas de aspecto delicioso.

- Podem-se comer. Sabem a maçã. Por isso se chamam maçanicas.

Passaram a fazer parte da nossa dieta. Foi necessário ir apanhar lenha para fazer uma fogueira na praia. Para preparar a comida, para nos aquecermos da friagem da noite e sobretudo para afugentar os leões. Ouviam-se os seus uivos ao longe. E eles têm medo do fogo. Dormimos por ali. Uns dentro da cabana, outros em volta da fogueira enrolados em cobertores. De noite quem acordasse e visse o lume em baixo, tinha que acrescentar mais paus.

No domingo fomos ter com uma família que tinha assentado arraiais num conto da praia, há já muitos anos. Vivia da pesca e das hortas. Negociava com quem aparecesse. Porque não havendo ninguém por perto a localidade tinha posto de régulo e andavam sempre gentios por ali. Tinham um coberto com mesas e bancos que funcionava por vezes como restaurante. Possuíam um gerador.

Prepararam-nos um coelho à caçadora. Uma delícia em plena selva.

O pior foi preparar para regressar. O carro estava numa picada de areia, sem bateria e sem pneu suplente. Os 6 manos lá o empurraram para uma zona mais favorável e viemos embora.

Nos domingos de manhã toda a gente em Nampula passava pela feira de artesanato em pleno adro da Sé. Subia-se à torre, tiram-se fotos e observavam-se os trabalhos, sobretudo de pau-preto. Muitas bancas e uma variedade de trabalhos que me faziam passar horas a pensar como seria possível esculpir, moldar, fazer trabalhos de torno tão bonitos, deixar umas peças encaixadas noutras num abraço tão perfeito. E isto sem grandes ferramentas, numa madeira tão dura. E trabalhos de prata (ou imitação): pulseiras, argolas, cordões. E missangas? Muitas. E chifres de animais? Muitos. E conchas. Ainda por lá andei a comprar algumas coisas para meter no caixote que trouxe de regresso.

No meu último dia de anos em África foi jantar com um grupo de amigos a um restaurante bem afastado da cidade, em plena estrada para Nacala. A particularidade é que ele tinha várias cabanas espalhadas pela selva em redor. Redondas, uma mesa no meio, bancos corridos redondos em volta da mesa. Os tectos eram de colmo. A meio um candeeiro grande. Cada cabana permitia albergar uma dúzia de manos à volta dum petisco qualquer. O nosso voltou a ser coelho à caçador.

A meio da refeição alguém disse:

- Olhem para o tecto!

O tecto era de colmo e não sei se atraídos para luz, se pela frescura do local, nele passeavam vários lacraus de vários tamanhos. Grandes e pequenos. Alguns mesmo bem grandes. Os mais espantadiços levantaram-se e foram chamar o proprietário.

- Não tenham medo. Fazem parte da casa. Andam sempre por aí e também não saem dali. Se não se meterem com eles não fazem mal nenhum a ninguém

Certo é que muito boa gente passou o tempo foi a olhar para o chão.

- Os de cima não fazem mal. Mas se vem algum pelo chão?

No final de 1973 já se aproximava o fim da minha comissão. Comuniquei ao comandante da companhia a minha ansiedade em pensar substitui-me. O mesmo que Mafra me quis dar uma porrada por causa dos distúrbios motivados pela morte dos 4 cadetes. O mesmo que ficou admirado de me ver ali na cidade, sabendo que eu tinha ido para atirador e devia estar em zona de guerra. Disse-me que isso logo se via, mas que tinha gostado do meu trabalho ali. Que me ia passar um louvor na passagem à disponibilidade. Podia ser-me fosse útil na minha futura vida de civil. Descobri depois que era da praxe: todos os militares que passavam à disponibilidade recebiam louvores. A menos que tivessem cadastro. E passou. Quase meia página, publicado na Ordem de Serviço. Guardei uma cópia até há pouco tempo. Queria incluí-lo nestas minhas memórias. Nas limpezas que faço de vez em quando estive com ele na mão. Com medo de o perder guardei-o tão bem que não sei onde o pus. Se o encontrar, ainda o hei-de incluir aqui.

Quando se dá o 25 de Abril eu tinha viagem de regresso marcada para uns dias depois. Fiquei lixado: viagem adiada. Depois de muita pressão sobre o pessoal dos transportes lá marcaram a data do meu regresso para o dia 25 de Maio de 1974.

Chegou finalmente o dia em que ia partir de Nampula rumo a Lisboa. Tinha despachado tudo no caixote. Fiquei só com uma mala de mão. Já não veio ninguém para me substituir. Tinha começado a debandada. O sargento assumiu o lugar de fazer a liquidação dos serviços da secção de viaturas do QG. O meu condutor foi-me levar de jeep ao Aeroporto. Despediu-se com lágrimas:

- Leve-me consigo! Gostei muito se si.

Avião da DETA até à cidade da Beira. Fiquei alojado por uns dias num hotel com 15 andares. Nas deambulações que fiz pela cidade acabei de me encontrar com o pessoal da minha companhia inicial que já estava há algum tempo sediada na Beira, à espera pelo voo de regresso. Aconteceram algumas morte e muitos feridos. Quiseram dizer-me nomes. Já não me lembrava deles, mas não mostraram ressentimentos por os ter “abandonado” logo no início.

- É a vida…

Acabei por embarcar ainda primeiro que eles.

Passei horas desesperado na varanda do aeroporto da Beira esperando ver chegar o Boing 707 branco da Força Aérea. 7 horas até Luanda. Paragem logística no aeroporto para beber as primeiras sagres em 2 anos. Mais 12 horas até Lisboa. Grande parte da viagem feita de noite sobre o mar ao longo da costa a ver as luzes das cidades. Será Dakar? Será…

Chegada prevista para Lisboa às 3 da madrugada.

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 Carrinha VW variant do meu amigo na picada para a Praia das Chocas e descanso no Mossuril.

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Praia de Lunga: canoas rumo ao infinito...

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Praia de Lunga: nascer do sol por de trás da cabana.

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Paria de Lunga: durmir na praia.

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Nampula: Feira de artesanato vista da torre da Sé. à direirta a Sé.

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Nampula: feira de artesanato.

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Nampula: Feira de artesanato - Obras de pau preto

 

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Cidade da Beira: nunca tinha visto prédios tão altos.

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Aeroporto da Beira: ei-lo a chegar, o Boing 707 branco que me ia levar a Lisboa...

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publicado às 12:05

Ilha de Moçambique

por António Tavares, em 22.06.17

Ilha de Moçambique

Os meses em Nampula foram passando, numa rotina previsível.

De vez em quando apareciam cromos como um certo general que, chegado ao aeroporto de Nampula, me liga a pedir um mercedes para o trazer para a cidade. Que, como era general, tinha direito a um mercedes.

- Mas, ó sr. General, não tenho aqui nenhum Mercedes disponível. Quando muito posso ver se há algum Volkswagen…

- Desenrasque-se!

Passado algum tempo (não muito) aparece-me à porta do meu gabinete.

- Então… já arranjou o Mercedes?

Tinha pedido boleia a um militar que passara de jeep no aeroporto. Recusou um Volkswagen para pedir depois boleia de jeep.

Mercedes não havia. Mandei-o falar com as chefias superiores…

Mas tirando isso tudo correu lindamente. Mesmo correndo alguns riscos…

Aos domingos metia-me sozinho no jeep e ia almoçar a Nacala, ou à Ilha de Moçambique. 200 quilómetros para cada lado. E o jeep não dava mais de 90 km por hora. Nas retas a perder de vista puxava o botão do acelerador automático e era só segurar o volante. Era preciso era estar atento aos macacos, não fosse algum atravessar-se à frente. Enxameavam as margens da estrada. Sem autorização de ninguém. E era preciso levar uns jerricans de gasolina suplentes. Por vezes ficava de sábado para domingo. Se era em Nacala ia pedir para dormir na base aérea, sede dos paraquedistas. Se fosse na ilha de Moçambique ia dormir no Lumbo, no antigo quartel dos comandos, entretanto deslocados para Montepuez.

A ilha de Moçambique foi durante algumas centenas de anos a capital de Moçambique. Hoje está muito devastada, mesmo sendo património da humanidade.

Os portugueses estabeleceram-se aqui porque a ilha tinha boas condições de habitabilidade. Ficava numa baía calma, com bons acessos e assim ficavam protegidos dos povos do continente que eram tidos como canibais. E foi com esses povos do continente que se começaram a estabelecer os laços comerciais. Levavam-lhes panos e deles traziam ouro.

Aos poucos os portugueses foram pacificando esses povos e foram-se estabelecendo no continente (Lumbo). E daqui foram construindo as primeiras estradas África dentro, até à zona de Nampula e Niassa. Mais parte era daqui que partia o caminho-de-ferro até Vila Cabral (Niassa). Foi construído um pontão de madeira, mar dentro. Os vagões chegavam e descarregavam diretamente para os navios ancorados ao lado.

Foi aqui no Lumbo que se estabeleceram os primeiros quartéis.

No tempo de maior dinamismo a Ilha de Moçambique tinha uma vida bastante cosmopolita. Atestada pela quantidade de palácios e mesquitas. Tinha mesmo um palácio do Aga Khan.

A ilha é estreita. Tem cerca de 3 quilómetros de comprimento. Na ponta sul existe um ilhéu que funcionou como prisão. Na ponta norte a fortaleza. Famosa pelas suas cantarias de pedras brancas de calcário, trazidas da metrópole para fazerem de lastro nas naus que, iam para lá vazias e vinham de lá cheias das mais variadas riquezas. Era atrás desta fortaleza que eu dava 50$00 a um pretito para ir pelas rochas buscar uma lagosta ao mar. E às vezes trazia uma que pesava perto de 2 quilos.

A primeira grande queda de valor da Ilha de Moçambique foi com a passagem da Capital para a Cidade de Lourenço Marques, situada no extremo sul do país, nos inícios do século XX. Mais ligada aos ingleses da África do Sul, acabou por ter um desenvolvimento comercial mais acelerado.

A segunda (e definitiva) queda de valor da Ilha de Moçambique foi motivada pela guerra colonial. O porto foi mudado para Nacala, mais a Norte, que ficava numa baía profunda e ainda mais abrigada. Tinha melhores condições de navegabilidade. A estrada e o caminho-de-ferro foram desviados, no Monapo, para Nacala. Os quartéis foram todos para Nampula. Os comandos foram para Montepuez.

Os Macuas desta zona eram na altura um povo pacato e acessível. As mulheres andavam permanentemente com a cara pintada com uma maquilhagem branca.

Nem mesmo a construção da ponte de 3 quilómetros a ligar a ilha ao continente, projetada por Edgar Cardoso nos anos 60, conseguiu salvar a ilha. A ponte tem uma única faixa de rodagem. De 100 em 100 metros tem uma reentrância, uma vez para um lado, outra vez para o outro, para permitir as ultrapassagens. Nas imagens que vejo hoje do Google Earth reparo que quem passa nesta ponte paga agora portagem.

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O ilhéu prisão da Ilha de Moçambique

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A igreja do Lumbo, o edifício da Alfândega e o pontão cais

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Vasco da Gama na Ilha de Moçambique, em frente aos edifícios do governo

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Bairro macua da Ilha de Moçambique

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Entrada da fortaleza da Ilha de Moçambique

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Ponte de Edgar Cardoso

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Uma das mesquitas

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publicado às 16:05

Abílio

por António Tavares, em 09.05.17

Abílio

O Abílio sempre teve uma vida muito atribulada. Lembro-me de, no Casalinho, ter espetado um tronco de esteva numa canela. Tinha 4 ou 5 anos. Foi tratado como a mãe foi capaz. Com ajuda do farmacêutico e do médico em Cardigos. Ficou com uma lasca junto ao osso. Gangrenou e chegava mesmo a ver-se o osso. Felizmente dessa curou-se.

O nosso familiar (tio rico), era dono de vários negócios na zona de Nampula/Nacala. Salinas, padarias, descasque de caju, óleo de amendoim, etc. Vinha de férias alguns meses por ano. Ligava para o C. Santos em Lisboa para que tivesse no cais de Alcântara um mercedes no dia e hora que chegasse no paquete Funchal. Passeava 2 meses pela Europa fora e embarcava de volta, deixando o mercedes no cais.

Consta que um dia chegou até Telavive. Gostou e comprou um prédio de rendimento.

Noutra vez encomendou 2 mercedes para África. Um para ele e outro para a esposa. A esposa não tinha carta nem nunca a tirou. Os vidros partiram-se, os pneus furaram-se, as galinhas andavam lá dentro.

A sua casa foi desenhada em Lisboa e os mármores foram de cá já cortados, prontos a serem colocados.

Um dia em que cá estiveram disseram para a minha mãe:

- Como o seu filho não vai poder vir passar as férias cá à metrópole, pode passar as férias lá connosco.

Os seus 2 filhos tinham um andar alugado em Nampula para estudarem no Liceu. Tinha cada um o seu mercedes. No fim-de-semana iam para Nacala. Encontrei-os algumas vezes. Falavam em eu poder ir lá passar uns dias. Nunca concretizaram o pedido.

Uma vez perdi a vergonha. Meti-me no jeep e apareci lá. Ficaram admirados. Almocei com eles no salão de mármore, mas para dormir levaram-me para a cave, para dormir num sofá velho, cheio de teias de aranha, na companhia dos ratos. Deviam ter os 17 quartos da mansão ocupados!

Mas voltando aio Abílio…

Eles disseram à minha mãe que o podiam levar para lá. Que o criavam e que ele os podia ajudar. E foi.

Estava eu no despachante, em Lisboa, quando o Abílio foi atropelado em Santa Apolónia, enquanto esperava pelo embarque no paquete. Foi ao hospital e embarcou com gesso no braço. Acabou por ficar como criado deles, para todo o serviço, nas padarias de Nacala.

Quando eu estava em Nampula fui uma vez visitá-lo. Dormia num anexo destinado aos criados. Passei essa noite lá com ele. Mas pensei para mim: isto não é vida para ele.

Uns tempos mais tarde ligam-me de Nacala para a Messe de Oficiais em Nampula a dizer que o Abílio tinha tido um acidente de mota e precisava de ir para Hospital.

- Mandem-no de ambulância para o hospital de Nampula!

E mandaram. Passadas algumas horas ligam-me do hospital de Nampula a dizer que o meu irmão tinha chegado e que, para ele dar entrada, era necessário um depósito de 60 contos. Era fim-de-semana. Eu não tinha o dinheiro. Mas vali-me dos meus amigos (dos verdadeiros que sempre encontrei) e o dinheiro apareceu e o Abílio foi tratado.

Foi aí que o nosso familiar e vizinho do Casalinho, a viver em Nampula, que produzia e vendia bananas, que tinha o armazém cheio delas a apodrecer, me vendia as bananas já meio podres, ao preço que vendia ao público. Mesmo sabendo que eram para o Abílio que estava no hospital ao fundo da rua. Onde ele nunca fez uma visita. Sempre esperei que ele dissesse: leva lá esse cacho de bananas. Não é nada. Mas nunca disse.

Aí tomei uma decisão e comuniquei-a ao Abílio: vou-te mandar de volta para os pais.

Comprei passagens aéreas e no dia marcado lá estava o Abílio no aeroporto de Nampula, para embarcar para Lisboa. Azar. Diz o oficial da PIDE no aeroporto:

- Não pode embarcar. Como é menor precisa da autorização dos pais.

- Mas com os pais vai ele ter!

- Pois é mas leis são leis.

Pela primeira vez o meu tio me ajudou. Meti-me no jeep e fui-lhe pedir, por favor, que intercedesse a nosso favor. Sabia das suas ligações ao poder local. Levei-o ao aeroporto e lá convenceu o oficial da PIDE a deixá-lo embarcar.

O Abílio veio de Moçambique com a mesma quarta classe que levou de cá. Depois de regressar empregou-se no Ministério da Educação, tirou o Liceu, licenciou-se em gestão, foi inspector das Finanças. Tem um bom grupo de amigos. Fazem caminhadas e corridas. Passeia. Corre. Tem uma boa casa em Queluz (acabou por comprar a casa que alugáramos em 1970), com 5 assoalhadas. Sê feliz meu irmão!

Abílio, falo aqui de ti porque gosto muito de ti e a tua vida de resistente inspira-me. A vida tem-nos separado, mas nunca te esqueço. Desculpa se o que aqui escrevi não condiz a 100% com a realidade. Mas a esta distância alguma coisa pode não ter sido bem recordada.

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publicado às 15:02

Ar condicionado na palhota

por António Tavares, em 01.05.17

Ar condicionado na palhota

Estava eu já colocado na Secção de Viaturas da CCS/QG de Nampula, quando o capitão, comandante da companhia foi substituído. Quem haveria de vir para o seu lugar: o Capitão Ferro que havia sido comandante da minha companhia de instrução, em Mafra.

A companhia formou na parada para prestar honras de chegada ao novo comandante e ele, ao ver-me, diz-me:

- Então estás aqui? Não eras atirador de infantaria?

- Era. Mas, sabe, a vida dá muitas voltas…

Não mais se referiu ao que se passou em Mafra.

Uma das minhas tarefas era fazer as honras militares aos soldados locais, mortos em combate. Quando isso acontecia, juntava um grupo de 8 a 10 militares e seguia com eles de jeep para fazer os disparos de salva antes da urna descer à terra. Fui algumas vezes a localidades bem distantes, selva adentro.

Mas tinha que treinar a formação dos soldados e os disparos de salva. Agrupava-os nas traseiras da oficina, distribuía 2 balsas de salva a cada um e fazia aí os treinos e os disparos.

Certa vez estava eu a acabar o treino quando veio ter comigo o alferes que trabalhava com o Major Lisboa, oficial de segurança da cidade, com ligações à PIDE. Diz-me:

- O nosso Major exige saber quem anda aos tiros na cidade e porquê. Quer que vás lá explicar-te.

- Diz ao nosso Major que só recebo ordens do meu comandante. Ele que faça o pedido oficialmente.

O Major Lisboa era aquele que apanhava os alferes desprevenidos sem boina, ou soldados desmazelados ou com um copito a mais e os levava para admoestação. E que jurara que ia pôr o trânsito da cidade na ordem. Com o jeep que lhe estava distribuído e com o seu motorista, chegava a fazer patrulhas pelas ruas como se fosse polícia de trânsito.

O seu Gabinete de segurança funcionava numa moradia fora do quartel, numa rua adjacente. O Major Lisboa era o mesmo que em Mafra (na altura capitão) me interrogara depois do incidente da morte dos 4 cadetes.

Ele telefonou ao Capitão Ferro e este ligou para mim:

- O Major Lisboa quer que vás a sua presença.

E fui. Logo que cheguei teve para comigo a mesma reacção que tivera o Capitão Ferro quando me viu na cidade:

- Estás aqui na cidade? Tu eras atirador! Não tinhas ido com uma companhia lá para cima para o Rovuma?

- São as voltas da vida.

Respondi.

Depois de lhe explicar o porquê dos tiros, só me disse:

- Está tudo certo. Mas é preciso pedir autorização para fazer essas manobras, mesmo dentro do quartel. Eu tenho que ser informado previamente para não haver alarme na cidade.

Disse-lhe que sim e fui-me embora. Passei a fazer os treinos da formação sem fazer os disparos.

Como a guerrilha da Frelimo se vinha aproximando cada vez mais da cidade de Nampula, (contava-se que já havia escaramuças na zona do rio Lúrio) o nosso Major lembrou-se, a dada altura, de fazer treinos militares mesmo com a população civil, em jeito de exercício de simulação. Ainda fui nomeado para colaborar com ele no que tocasse à simulação na zona do QG. Cheguei a ter uma pistola Walter atribuída para esse fim. Felizmente nunca se chegou a realizar por falta de colaboração das autoridades civis que temiam o alarido que isso iria gerar na cidade.

Relatavam-se mesmo casos de guerrilheiros que eram presos lá no mato e que ao serem presos se viravam para o alferes:

- Eu conheço o senhor alferes. Lembro-me de o ver na messe de Nampula.

Eles conseguiam mesmo colocar guerrilheiros a servir na messe dos oficiais, para obterem informações.

Um sargento meu amigo, natural da cidade, tinha a mulher a passar férias na foz do rio Lúrio, que era uma espécie de estância balnear. Boas praias! Quando surgiu esse boato de que a guerrilha já se aproximava do rio ficou preocupado e quis ir lá buscá-la. Era sábado. Mas tinha medo de ir sozinho e de noite e de levar o seu Toyota pelas picadas fora.

Fomos no meu jeep. Levava atrás uns jerricans de gasóleo. A dada altura apareceu-nos um volto no meio da picada. Mesmo com a luz dos faróis não se distinguia o que era. Entre parar e seguir ele decidiu acelerar. O jeep deu um salto, passou por cima de algo e parámos. Era um javali. Morreu com o embate. Carregámo-lo no jeep e no domingo seguinte, depois do regresso, tivemos javali assado. Espetado num ferro grande, por cima de um monte de brasas, um negro ia rodando o espeto dando à manivela, outro ia pincelando com molho. Beberam-se umas cervejas. Espetava-se o garfo numa zona já assada e cortava-se com a faca. 

Eu costumava ir com aquele sargento à caça aos domingos. Ele cedia a arma e os cartuxos. Eu arranjava o gasóleo. Havia na zona de Meconta (a 150 quilómetros, mais ou menos a meio caminho entre Nampula e Nacala) uma pista de aviação de terra batida. Crescia o capim. E para que os pequenos aviões pudessem aterrar em segurança era preciso cortar regularmente o capim. Dois dias depois do corte o capim começava a rebentar, viçoso. Colocávamos holofotes fortes no jeep e de noite íamos, com os faróis apagados colocarmo-nos no início da pista. Acendia-mos os holofotes e os coelhos eram às centenas. Arrancávamos pista fora e era só disparar. Depois voltávamos para trás para apanhar os 10 ou 20 coelhos que tínhamos apanhado.

Os militares faziam muita acção psicológica (psico como diz o cancioneiro do Niassa) sobre as populações locais, normalmente sobre os régulos e chefes de aldeia. Estavam sempre a oferecer-lhes prendas. Era importante porque, como não havia recenseamento das populações, quando era na altura das incorporações os militares iam pedir a cada régulo que arregimentasse 10, 20 ou 30 mancebos. E lá vinham eles de tanga para a tropa, aprenderem a ser soldados.

Contava-se mesmo o caso do General Chefe do exército que fora, certo dia, com a esposa, visitar um régulo famoso e importante da zona de António Eanes (hoje Angoche). E no final da visita a esposa do senhor General dirige-se à esposa do régulo:

- A amiga peça alguma coisa que lhe faça falta, que nos arranjamos.

- O que eu queria mesmo era ter aqui ar condicionado. Está sempre tanto calor!

Foi então construída um alinha de cabos eléctricos de alguns quilómetros para levar luz e ar condicionado à palhota do soba daquela aldeia. E como a palhota não tinha condições para ter ar condicionado, foi feita uma casa de alvenaria. E já agora foram instalados postos de luz na praça central….

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 Era neste canto que ensaiava os honras fúnebres

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publicado às 12:31

De Mueda ao hospital...

por António Tavares, em 06.02.17

De Mueda ao hospital

Mueda era uma vila no alto dum planalto. Composta essencialmente por uma longa avenida que partia da pista de aterragem, separava de um lado as tabancas dos nativos e do outro as estruturas militares e se prolongava pelo mato fora através da picada para Mocímboa do Rovuma.

No final da avenida ficavam, um de cada lado, os 2 únicos estabelecimentos comerciais: o Santos e o China. Ponto de paragem obrigatória para qualquer militar que por aqui passasse. Serviam bifanas e pregos. Vendiam um pouco de tudo que encomendavam em Nampula e lhes era enviado através das longas colunas militares que com alguma regularidade iam até Mueda para reabastecimento.

Também esses 2 estabelecimentos ficarem imortalizados nos versos do Cancioneiro do Niassa:

Mueda terra de guerra

Vou cantar-te este meu fado

Que compus ainda há pouco…

Mueda que és uma mina

Para o Santos e p’ró China

E para os tipos experientes

E para os que têm por sina

Venderem Água das Pedras

Mais cara que a gasolina…

Chegamos a Mueda num sábado à noite. Depois de tentar comer qualquer coisa no bar e não conseguir, depois de chegar ao quarto e de ver que me tinham roubado tudo, consegui dormir um pouco. Acordei no domingo de manhã. Estava sol. Levantei-me azamboado e com a mesma roupa que trazia de véspera e que nem tinha despido, fui passear por aquela longa avenida.

A dada altura aparece-me um senhor negro com uma menina pela mão. Não tinha mais de 12 ou 13 anos. “O senhô qué fazê máquina?” disse-me. Não percebi o que queria. Segui o meu caminho cada vez mais tonto. Quando mais tarde relatei este facto a alguém, informaram-me que era usual os nativos virem oferecer aos militares as filhas para sexo a troco de dinheiro.

Não devo ter andado muitos mais metros. De tão faminto, fraco e sem forças caí redondo no chão. Dei por mim deitado numa maca na enfermaria. De um lado o soro a entrar na veia. Do outro uma senhora do Movimento Nacional Feminino ia dizendo:  sr Alferes, tem que reagir… os seus soldados estão à espera para seguir com eles… vão partir daqui a pouco… você faz falta junto deles.

Não sei quanto tempo estive assim sem conseguir esboçar qualquer reação, os olhos fitos no teto como que a tentar var mais longe. Não sei se foram horas se foram dias. Ouço tiros e rebentamentos. Não consigo reagir. Volto a ouvir a mesma senhora: não tenha medo. São os nossos. Estão a bombardear o vale para o avião partir. Alguém diz atrás de mim: é melhor aproveitar este avião e mandá-lo para o hospital. Enquanto me preparavam para pôr na maca outro Alferes da mesma companhia que a minha dizia-me baixinho: tu vais agora mas que eu vou lá ter contigo dentro de pouco tempo.

A missão de bombardear o vale de Mueda com murteiros, antes de partir qualquer avião, era rotina. O inimigo já sabia as horas de partida e chegada dos voos dos Nord Atlas. Bastava sentarem-se no fundo do vale com a bazuca ou as espingardas apontadas para o ar. Para evitar isso todo o vale tinha que ser limpo primeiro. Mas como eles não desistiam foi necessário alterar a rotina e fazer com que os aviões partissem ou chegassem em horas aleatórias, de preferência de noite. Os North Atlas eram aviões de reabastecimento e de transporte de pessoal que operavam com regularidade entres as principais bases militares do norte de Moçambique.

Bem, mas lá fui eu de maca amarrada dentro do North Atlas a caminho do hospital militar de Nampula. Só dei por mim a ter alguma reação quando, na aproximação à pista de Nampula o avião descreveu uma curva e eu, mesmo deitado, consegui ver pelas janelas as imagens da cidade. E pensei para mim: isto aqui é muito bonito. Largas avenidas, tudo moradias, algumas com piscina, muita vegetação e flores… Comecei a magicar na minha mente alguma forma de conseguir não voltar para a guerra.

O hospital militar de Nampula era muito recente. A ala dos oficiais tinha quartos individuais, casa de banho privativa, um recanto relvado ajardinado com uma latada de maracujás. Parecia um hotel. Comecei a ser observado pelo médico psiquiatra Dr Coimbra.

Pedi um aerograma para escrever à minha mãe. Em Nampula e em Nacala viviam familiares, primos e tios quer do meu pai quer da minha mãe, alguns mesmo do Casalinho. Donos de machambas enormes, fornecedores do exército em frutas, legumes e hortaliças. Donos de fábricas de cajú e de óleos alimentares. Donos de padarias e das salinas.

Escrevi à minha mãe. Contei o sucedido. Pedi que falasse com alguns dos familiares que por lá viviam, para tentar algum apoio e alguma pressão junto do médico.

Nunca recebi qualquer visita de nenhum. Acabei por encontrar mais apoio em pessoas que não me eram nada. Gente boa do norte de Portugal. Tive que me safar sozinho.

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publicado às 12:33


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