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Jantar com lacraus e o regresso

por António Tavares, em 24.07.17

Jantar com lacraus

e o regresso

Estava em Nampula um amigo meu, Tenente, que tinha uma carrinha Volkswagen variant vermelha. Demos muitos passeios nela. Eu arranjava a gasolina em jerricans militares e aí íamos nós.

Até António Enes (hoje Angoche), 300 quilómetros abaixo de Nampula. Havia lá um aquartelamento de retaguarda. Não era zona de guerra. Boas praias. De vez quando eramos convidados para uma festa. Caçavam um javali. Espetavam-no no espeto. Brasas por baixo. Arranjava-se um mainato para ir dando à manivela e ir barrando com molho especial. Nós era só espetar o garfo, cortar e comer. E beber cervejas. Fizemos isto várias vezes.

Íamos até à Praia das Chocas. Esta praia fica alguns quilómetros acima da Ilha de Moçambique, seguindo a linha da costa. Por estrada são bem mais de 100. Há que fazer um percurso pelo interior do continente para atravessar braços de mar, pântanos e zonas de salinas, passando pelo  Lumbo e pelo Mossuril. Esta praia Ganhou fama quando a Ilha de Moçambique era a capital e o principal polo comercial. Era a praia de férias de todos os comerciantes da zona. Desde Nampula eram perto de 300 quilómetros.

Quilómetros de praia de areia branca e águas límpidas de cor azul opala. Grandes moradias. Morava numa delas um alemão que, dizia-se, seria refugiado nazi. Tinha por companhia apenas uma cobra gigante. Caçava e criava coelhos para lhe dar. Era a certeza que nunca seria assaltado. A cobra, dizia quem a viu, tinha a cabeça na cozinha, percorria os corredores e saía pela porta para o quintal.

Parece que o sujeito vivia do comércio internacional de conchas. Percorria as praias três dias para cima, três dias para baixo, a apanhar conchas. Depois vendi-as aos seus correspondentes do mundo inteiro.

Teria sido em tempos engenheiro ou arquitecto. Parece que toda a gente que construía casa ali lhe pedia conselhos. Ele conhecia as marés e os ventos. Sabia qual a melhor localização e orientação da casa, no sentido de tirar o melhor partido das condições locais.

Fomos passar um fim-de-semana alongado à praia de Lunga. 200 quilómetros abaixo de Nampula. 100 quilómetros abaixo da Ilha de Moçambique. Logo depois do Monapo, já em plena picada, cheirou a queimado debaixo do banco de trás da carrinha VW variant. Parámos rápido e saímos. Já havia fogo debaixo do banco. A bateria estava a fazer curto-circuito e pegou fogo aos inúmeros papéis que que havia pelo chão. Conseguimos arrancar os bancos e apagar o fogo.

Após a reinstalação de todos os componentes reparamos que a bateria se tinha descarregado e o pneu suplente estava vazio. Voltar para trás. Qual quê! Seguir em frente. Mesmo para o meio da selva, para uma zona onde não havia luz, telefone, rádio…

Felizmente aqui era uma descida e foi fácil. Bastou ir andando engatado, o motor pegou e aí vamos nós.

Embrenhamo-nos numa zona mato e selva. 100 quilómetros em redor da praia de Lunga quase não mora ninguém. As picadas são de areia. Moram leões.

Ao aproximarmo-nos de um regato os bambus de um lado e de outro faziam um túnel, pelo qual tínhamos de passar. Os macacos pequenos, dependurados das canas eram às dezenas. Passamos muito devagar para que o carro não se fosse abaixo.

Finalmente a praia. Linda. Uma concha quase perfeita, que ligava ao mar por um canal estreito que tinha palmeiras de cada lado. Areia branca impecável. Águas límpidas. Alguém construíra uma cabana de colmo em plena areia. Os primeiros arbustos junto da areia tinham umas bagas de aspecto delicioso.

- Podem-se comer. Sabem a maçã. Por isso se chamam maçanicas.

Passaram a fazer parte da nossa dieta. Foi necessário ir apanhar lenha para fazer uma fogueira na praia. Para preparar a comida, para nos aquecermos da friagem da noite e sobretudo para afugentar os leões. Ouviam-se os seus uivos ao longe. E eles têm medo do fogo. Dormimos por ali. Uns dentro da cabana, outros em volta da fogueira enrolados em cobertores. De noite quem acordasse e visse o lume em baixo, tinha que acrescentar mais paus.

No domingo fomos ter com uma família que tinha assentado arraiais num conto da praia, há já muitos anos. Vivia da pesca e das hortas. Negociava com quem aparecesse. Porque não havendo ninguém por perto a localidade tinha posto de régulo e andavam sempre gentios por ali. Tinham um coberto com mesas e bancos que funcionava por vezes como restaurante. Possuíam um gerador.

Prepararam-nos um coelho à caçadora. Uma delícia em plena selva.

O pior foi preparar para regressar. O carro estava numa picada de areia, sem bateria e sem pneu suplente. Os 6 manos lá o empurraram para uma zona mais favorável e viemos embora.

Nos domingos de manhã toda a gente em Nampula passava pela feira de artesanato em pleno adro da Sé. Subia-se à torre, tiram-se fotos e observavam-se os trabalhos, sobretudo de pau-preto. Muitas bancas e uma variedade de trabalhos que me faziam passar horas a pensar como seria possível esculpir, moldar, fazer trabalhos de torno tão bonitos, deixar umas peças encaixadas noutras num abraço tão perfeito. E isto sem grandes ferramentas, numa madeira tão dura. E trabalhos de prata (ou imitação): pulseiras, argolas, cordões. E missangas? Muitas. E chifres de animais? Muitos. E conchas. Ainda por lá andei a comprar algumas coisas para meter no caixote que trouxe de regresso.

No meu último dia de anos em África foi jantar com um grupo de amigos a um restaurante bem afastado da cidade, em plena estrada para Nacala. A particularidade é que ele tinha várias cabanas espalhadas pela selva em redor. Redondas, uma mesa no meio, bancos corridos redondos em volta da mesa. Os tectos eram de colmo. A meio um candeeiro grande. Cada cabana permitia albergar uma dúzia de manos à volta dum petisco qualquer. O nosso voltou a ser coelho à caçador.

A meio da refeição alguém disse:

- Olhem para o tecto!

O tecto era de colmo e não sei se atraídos para luz, se pela frescura do local, nele passeavam vários lacraus de vários tamanhos. Grandes e pequenos. Alguns mesmo bem grandes. Os mais espantadiços levantaram-se e foram chamar o proprietário.

- Não tenham medo. Fazem parte da casa. Andam sempre por aí e também não saem dali. Se não se meterem com eles não fazem mal nenhum a ninguém

Certo é que muito boa gente passou o tempo foi a olhar para o chão.

- Os de cima não fazem mal. Mas se vem algum pelo chão?

No final de 1973 já se aproximava o fim da minha comissão. Comuniquei ao comandante da companhia a minha ansiedade em pensar substitui-me. O mesmo que Mafra me quis dar uma porrada por causa dos distúrbios motivados pela morte dos 4 cadetes. O mesmo que ficou admirado de me ver ali na cidade, sabendo que eu tinha ido para atirador e devia estar em zona de guerra. Disse-me que isso logo se via, mas que tinha gostado do meu trabalho ali. Que me ia passar um louvor na passagem à disponibilidade. Podia ser-me fosse útil na minha futura vida de civil. Descobri depois que era da praxe: todos os militares que passavam à disponibilidade recebiam louvores. A menos que tivessem cadastro. E passou. Quase meia página, publicado na Ordem de Serviço. Guardei uma cópia até há pouco tempo. Queria incluí-lo nestas minhas memórias. Nas limpezas que faço de vez em quando estive com ele na mão. Com medo de o perder guardei-o tão bem que não sei onde o pus. Se o encontrar, ainda o hei-de incluir aqui.

Quando se dá o 25 de Abril eu tinha viagem de regresso marcada para uns dias depois. Fiquei lixado: viagem adiada. Depois de muita pressão sobre o pessoal dos transportes lá marcaram a data do meu regresso para o dia 25 de Maio de 1974.

Chegou finalmente o dia em que ia partir de Nampula rumo a Lisboa. Tinha despachado tudo no caixote. Fiquei só com uma mala de mão. Já não veio ninguém para me substituir. Tinha começado a debandada. O sargento assumiu o lugar de fazer a liquidação dos serviços da secção de viaturas do QG. O meu condutor foi-me levar de jeep ao Aeroporto. Despediu-se com lágrimas:

- Leve-me consigo! Gostei muito se si.

Avião da DETA até à cidade da Beira. Fiquei alojado por uns dias num hotel com 15 andares. Nas deambulações que fiz pela cidade acabei de me encontrar com o pessoal da minha companhia inicial que já estava há algum tempo sediada na Beira, à espera pelo voo de regresso. Aconteceram algumas morte e muitos feridos. Quiseram dizer-me nomes. Já não me lembrava deles, mas não mostraram ressentimentos por os ter “abandonado” logo no início.

- É a vida…

Acabei por embarcar ainda primeiro que eles.

Passei horas desesperado na varanda do aeroporto da Beira esperando ver chegar o Boing 707 branco da Força Aérea. 7 horas até Luanda. Paragem logística no aeroporto para beber as primeiras sagres em 2 anos. Mais 12 horas até Lisboa. Grande parte da viagem feita de noite sobre o mar ao longo da costa a ver as luzes das cidades. Será Dakar? Será…

Chegada prevista para Lisboa às 3 da madrugada.

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 Carrinha VW variant do meu amigo na picada para a Praia das Chocas e descanso no Mossuril.

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Praia de Lunga: canoas rumo ao infinito...

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Praia de Lunga: nascer do sol por de trás da cabana.

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Paria de Lunga: durmir na praia.

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Nampula: Feira de artesanato vista da torre da Sé. à direirta a Sé.

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Nampula: feira de artesanato.

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Nampula: Feira de artesanato - Obras de pau preto

 

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Cidade da Beira: nunca tinha visto prédios tão altos.

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Aeroporto da Beira: ei-lo a chegar, o Boing 707 branco que me ia levar a Lisboa...

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publicado às 12:05

Ilha de Moçambique

por António Tavares, em 22.06.17

Ilha de Moçambique

Os meses em Nampula foram passando, numa rotina previsível.

De vez em quando apareciam cromos como um certo general que, chegado ao aeroporto de Nampula, me liga a pedir um mercedes para o trazer para a cidade. Que, como era general, tinha direito a um mercedes.

- Mas, ó sr. General, não tenho aqui nenhum Mercedes disponível. Quando muito posso ver se há algum Volkswagen…

- Desenrasque-se!

Passado algum tempo (não muito) aparece-me à porta do meu gabinete.

- Então… já arranjou o Mercedes?

Tinha pedido boleia a um militar que passara de jeep no aeroporto. Recusou um Volkswagen para pedir depois boleia de jeep.

Mercedes não havia. Mandei-o falar com as chefias superiores…

Mas tirando isso tudo correu lindamente. Mesmo correndo alguns riscos…

Aos domingos metia-me sozinho no jeep e ia almoçar a Nacala, ou à Ilha de Moçambique. 200 quilómetros para cada lado. E o jeep não dava mais de 90 km por hora. Nas retas a perder de vista puxava o botão do acelerador automático e era só segurar o volante. Era preciso era estar atento aos macacos, não fosse algum atravessar-se à frente. Enxameavam as margens da estrada. Sem autorização de ninguém. E era preciso levar uns jerricans de gasolina suplentes. Por vezes ficava de sábado para domingo. Se era em Nacala ia pedir para dormir na base aérea, sede dos paraquedistas. Se fosse na ilha de Moçambique ia dormir no Lumbo, no antigo quartel dos comandos, entretanto deslocados para Montepuez.

A ilha de Moçambique foi durante algumas centenas de anos a capital de Moçambique. Hoje está muito devastada, mesmo sendo património da humanidade.

Os portugueses estabeleceram-se aqui porque a ilha tinha boas condições de habitabilidade. Ficava numa baía calma, com bons acessos e assim ficavam protegidos dos povos do continente que eram tidos como canibais. E foi com esses povos do continente que se começaram a estabelecer os laços comerciais. Levavam-lhes panos e deles traziam ouro.

Aos poucos os portugueses foram pacificando esses povos e foram-se estabelecendo no continente (Lumbo). E daqui foram construindo as primeiras estradas África dentro, até à zona de Nampula e Niassa. Mais parte era daqui que partia o caminho-de-ferro até Vila Cabral (Niassa). Foi construído um pontão de madeira, mar dentro. Os vagões chegavam e descarregavam diretamente para os navios ancorados ao lado.

Foi aqui no Lumbo que se estabeleceram os primeiros quartéis.

No tempo de maior dinamismo a Ilha de Moçambique tinha uma vida bastante cosmopolita. Atestada pela quantidade de palácios e mesquitas. Tinha mesmo um palácio do Aga Khan.

A ilha é estreita. Tem cerca de 3 quilómetros de comprimento. Na ponta sul existe um ilhéu que funcionou como prisão. Na ponta norte a fortaleza. Famosa pelas suas cantarias de pedras brancas de calcário, trazidas da metrópole para fazerem de lastro nas naus que, iam para lá vazias e vinham de lá cheias das mais variadas riquezas. Era atrás desta fortaleza que eu dava 50$00 a um pretito para ir pelas rochas buscar uma lagosta ao mar. E às vezes trazia uma que pesava perto de 2 quilos.

A primeira grande queda de valor da Ilha de Moçambique foi com a passagem da Capital para a Cidade de Lourenço Marques, situada no extremo sul do país, nos inícios do século XX. Mais ligada aos ingleses da África do Sul, acabou por ter um desenvolvimento comercial mais acelerado.

A segunda (e definitiva) queda de valor da Ilha de Moçambique foi motivada pela guerra colonial. O porto foi mudado para Nacala, mais a Norte, que ficava numa baía profunda e ainda mais abrigada. Tinha melhores condições de navegabilidade. A estrada e o caminho-de-ferro foram desviados, no Monapo, para Nacala. Os quartéis foram todos para Nampula. Os comandos foram para Montepuez.

Os Macuas desta zona eram na altura um povo pacato e acessível. As mulheres andavam permanentemente com a cara pintada com uma maquilhagem branca.

Nem mesmo a construção da ponte de 3 quilómetros a ligar a ilha ao continente, projetada por Edgar Cardoso nos anos 60, conseguiu salvar a ilha. A ponte tem uma única faixa de rodagem. De 100 em 100 metros tem uma reentrância, uma vez para um lado, outra vez para o outro, para permitir as ultrapassagens. Nas imagens que vejo hoje do Google Earth reparo que quem passa nesta ponte paga agora portagem.

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O ilhéu prisão da Ilha de Moçambique

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A igreja do Lumbo, o edifício da Alfândega e o pontão cais

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Vasco da Gama na Ilha de Moçambique, em frente aos edifícios do governo

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Bairro macua da Ilha de Moçambique

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Entrada da fortaleza da Ilha de Moçambique

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Ponte de Edgar Cardoso

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Uma das mesquitas

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publicado às 16:05

O uísque que era álcool e tintura de iodo

por António Tavares, em 07.06.17

O uísque que era álcool e tintura de iodo

Morava em Nampula num bairro maioritariamente habitado por indianos. Ismaelitas. Pessoas calmas, ligados ao comércio. A maioria das suas casas era de telhado de zinco. Mesmo tendo dinheiro nunca foram pessoas de grande ostentação.

O prédio era alugado pelo exército para albergar oficiais milicianos. 4 flats (apartamentos) com 3 quartos cada. Em cada quarto dormiam 2 alferes. Um jardim na frente com papaias. Bastava ir à janela do 1º andar para colher papaias. Nas traseiras havia um quintal com 4 garagens. Era aí que os mainatos (pretos que tomavam conta da roupa e da limpeza do apartamento) lavavam a nossa roupa.

A água da torneira era tão barrenta que estávamos muitas vezes à espera que chovesse para irmos tomar banho na rua debaixo da bica que caía do terraço. O telhado do prédio era um terraço. E normalmente a época das chuvas coincidia com a altura de mais calor. Lá vínhamos nós de calções, sabão e toalha na mão, lavarmo-nos à chuva na bica que caía do terraço.

Era nestes apartamentos que nos reuníamos para as nossas “festas privadas”. Ver um filme “caliente” em super 8. Havia quem tivesse a máquina e quem arranjasse clandestinamente um filme vindo da África do Sul ou da Rodésia. Comer sardinhas ou castanhas. Nas alturas próprias sempre lá chegavam. Ou mesmo para ouvir o cancioneiro do Niassa.

O exército importava uísque para vender nos meios militares a preços isentos de impostos. Os oficiais tinham direito a comprar uma garrafa de uísque novo por mês. Para os uísques especiais (velhos ou de malte) havia lista de espera. Eu consegui, ao fim de muito tempo comprar uma garrafa de Old Parr. Trouxe-a e guardei-a muitos anos. Quando nasceu o Bruno fiz uma promessa de só a abrir quando ele casasse.

Como quem casou primeiro foi o Tiago, levei-a para os Açores para abrir na véspera do casamento dele. Não foi oportuno, na altura. Voltou a garrafa para Lisboa. Quando o Bruno casou lá foi a garrafa para a Guarda. E abriu-se, finalmente, ao fim de 40 anos. Não prestava. Tinha perdido toda a força. Era água mal cheirosa. Talvez por estar já mal rolhada.

O meu colega de quarto (alferes Oliveira de V. F de Xira) veio-se embora mais cedo. Devido ao clima quente e húmido eram frequentes as micoses nas virilhas. Os enfermeiros preparavam-nos uma mistura de álcool e tintura de iodo para esfregarmos. O Oliveira tinha uma garrafa com essa mistela na mesa-de-cabeceira.

Quando algum alferes se vinha embora era usual dar ao mainato que tratava das suas roupas, aquilo que já não prestava, nem queriam trazer. Isso aconteceu com o Oliveira. O seu mainato veio receber as coisas que ele não queria trazer e diz-lhe:

- Sr alferes, posso ficar com o resto do uísque?

- Qual uísque?

- Aquele daquela garrafa!

- Mas aquilo não é uísque. É remédio.

- Não faz mal. Fico com ele na mesma. Sabe, eu de vez em quando bebia um gole pequenino…

- Por isso é que eu via o líquido a desaparecer…

E levou mesmo a garrafa com o resto do álcool e da tintura de iodo…

O clima em Nampula era extraordinariamente quente e húmido. As árvores de fruto (bananas e laranjas) davam frutos 2 vezes por ano. Nós fazíamos muitas saladas, sobretudo de tomate. Deitávamos os restos para o quintal. Passados 3 semanas já podíamos colher novos tomates.

O governo tinha um programa que financiava os militares que quisessem fixar-se na zona, após passarem à disponibilidade. Cedia terrenos a custo quase zero. Financiava a compra de máquinas agrícolas.

Era muito conceituado o algodão produzido naquele zona porque a apanha era manual. Assim não se partiam as fibras. Ao contrário da apanha mecanizada praticada em produções largamente extensivas, como o Egito e os EUA.

Era muito comentado o caso do Furriel que aproveitou essas benesses. Arroteou um terreno imenso. Endividou-se. Plantou algodão. A primeira colheita foi ao fim de 2 anos. Na terceira colheita pagou todas as dívidas e veio-se embora com um bom pé-de-meia.

A riqueza de Moçambique não se ficava pela agricultura fácil. Era famoso o chá do Gurué e as minas de carvão a céu aberto de Moatize. Bem como o gás natural de Inhambane e Cabo Delgado. E o parque natural da Gorongosa? E a Ilha de Moçambique? E o turismo? Quirimbas (Ibo) e Bazaruto?

Por isto tudo me faz muita confusão ver hoje imagens frequentes de Moçambique com seca, fome e tanta pobreza. Eu vi um país rico.

Portugal nunca soube tirar partido das riquezas das colónias. Sempre fomos uns mãos rotas. Fomos donos do mundo. Passaram-nos pelas mãos fortunas imensas que deixámos fugir por entre os dedos para a Flandres e para Inglaterra. Ficamos com as pedras dos conventos, mosteiros, igrejas e palácios (Mafra!!!), muitos dos quais hoje em ruínas e que nem sequer temos dinheiro para mandar reconstruir.

Por isso se alugam esses edifícios históricos para os mais variados fins, com o intuito de se arrecadar algum dinheiro que ajude a sua manutenção. Como aconteceu recentemente com o Convento de Cristo em Tomar. Mil pessoas (incluindo figurantes) para rodar um filme. Cortam-se as árvores do claustro. O canteiro das árvores (que antes tinha flores) enche-se de predas brancas roladas. Acende-se uma fogueira no meio do claustro com 20 metros de altura. Para isso carregam-se para lá 20 botijas de gás das grandes. O calor foi tal que pedras com 300 anos partiram. Telhas saltaram e partiram-se.

- Mas estavam lá os bombeiros de prevenção.

- Quantos?

- 2

- E tinham material de prevenção?

- Não. Estavam só eles. Se fosse preciso mandavam vir.

- E se as 20 botijas explodissem?

Possivelmente o claustro iria pelos ares.

Sempre fomos um país de extremos. Aquando do eclodir da guerrilha em Moçambique (1961) fomos capazes de levar 3 ou 4 lanchas da Marinha para o Lago Niassa. Este é um lago enorme (um autêntico mar) que limita a fronteira norte/oeste de Moçambique. Foram carregadas em vagões do caminho-de-ferro em Nacala. A viagem obrigou a desmatamentos e alargamentos. Os últimos quilómetros foram feitos em cima de camiões preparados para o efeito. Foram abertas largas picadas. Foram construídas pontes. Mas ao fim de 2 anos as lanchas chegaram ao lago Niassa para cumprir a sua missão.

O tio dos meus pais era dono de extensas plantações, salinas, fábricas de pão, fábricas de óleo de amendoim e de castanhas de cajú. Até era respeitado pelos seus empregados. Construiu mesmo para eles um bairro ao lado das fábricas de Monapo. Aquando da independência do país foi contactado por funcionários do novo governo.

- Sabe, agora isto é tudo do estado. Não temos nada contra si. O pessoal até parece que gosta de si. Queremos fazer-lhe uma proposta: você fica cá a gerir as fábricas e passa a receber um ordenado do estado.

Ainda tentou e ficou uns meses. Mas a confusão instalada levou a abandonar tudo de vez…

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Casa de indianos

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O andar onde morava: vista para a frente e para trás

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Aqui dormi perto de dois anos

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Em dia de São Martinho

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publicado às 17:05

As esposas dos Srs Oficiais

por António Tavares, em 05.06.17

As esposas dos Srs Oficiais

O meu chofer vinha buscar-me a casa de jeep. Andava 100 metros e parava na porta da messe de oficiais (no praça da parte de cima) para eu tomar o pequeno-almoço. Depois dava-mos a volta ao largo e entravamos no quartel, do outro lado da praça.

Certo dia, acabava eu de tomar o pequeno-almoço no bar da messe, pergunto ao militar:

- Quanto é?

- Está pago, sr Alferes, pode ir.

Olhei em volta, espantado. Não vi ninguém conhecido.

Isto repetiu-se durante alguns dias. Até que a minha curiosidade me fez voltar ao bar mais tarde.

- Quem é que me tem pago o pequeno-almoço?

Perguntei ao militar.

- É a esposa do nosso Major Martins que normalmente se senta naquela mesa.

Apontou para um canto da sala. No dia seguinte lá estava ela. Pagou o meu pequeno-almoço e sorriu para mim. Passamos a tomar o pequeno-almoço juntos na mesma. O que ela queria de mim? Apenas me pediu que lhe desse a chave do carro do marido.

O Major Martins era também da segurança, ligado à Pide. Passava meses percorrendo os aquartelamentos de Moçambique de uma ponta à outra. Vinha por vezes à metrópole trazer relatórios e levar instruções. Como conhecia bem a sua esposa, deixava-me o seu Fiat 125 com o pretexto de lhe fazer uma revisão. A razão no entanto era que eu o guardasse e não deixasse a esposa mexer nele.

As esposas dos nossos oficiais superiores tinham por hábito fazer reuniões “secretas” em casa de umas ou de outras. Algumas vezes bem longe da cidade e dos olhares mais indiscretos. E por vezes não havia carros disponíveis. Sempre era mais um.

Vários oficiais faziam o mesmo e deixavam o seu carro comigo. Aproveitava e dava eu uma volta com eles.

Tinha aprendido a conduzir com o militar, condutor do meu jeep. Ia com ele dar passeios pelos bairros de palhotas à volta da cidade. Mal saímos da cidade eu tomava o lugar dele. Ele ia-me indicando como fazer.

Certa vez parei entre e palhotas porque o condutor me disse:

- Ó sr Alferes, olhe que aí não passa.

- Passa, passa…

Disse eu. Passou mas arrastou o telhado de uma das palhotas e o telhado arrastou uma das paredes. Ainda tive tempo de ver um velhote deitado na enxerga. E fugimos dali.

O exame de condução foi feito no Serviço de Transportes do exército, por um colega Alferes que havia feito a recruta comigo em Mafra. Saímos por um portão do quartel e entramos pelo outro.

- Podes ir embora. Estás aprovado.

Mas gostei de fazer o que faziam a todos os militares que tiravam a carta: testes psicológicos e psicotécnicos para analisar o grau de resposta às diversas reacções sensoriais. Tudo nos conformes.

Mas voltando à messe e às senhoras esposas dos oficiais.

A antiga messe dos oficiais tinha na frente um hall grande onde havia um conjunto de cadeiras de verga tipo colonial. Era nessas cadeiras que se viam essas senhoras a apanhar sol. E foram inspiradoras para os cantadores do Cancioneiro do Niassa:

Em frente ao Neutel de Abreu

A quem roubaram a espada

Existe a Gorongosa

Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos

E de outros animais

Costumam apelidá-los

De senhores oficiais

Numas cadeiras de verga

Expostas num grande hall

Lá estão as vacas malhadas

Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos

Que trabalham no quartel

Mal percebem coitadinhos

Qu’ali há putas a granel

Quando cheguei a Nampula a messe de oficiais estava a ser ampliada. Foi construída a nova sala de jantar e um salão de jogos.

A comida não era boa nem má. Era assim… assim… Ao café tínhamos chá gelado muito agradável. Ao almoço e ao jantar havia pescadas fritas congeladas em cada 3 de 4 refeições. Fiquei tão farto de pescadas de rabo na boca, que ainda hoje não sou capaz de comer tal peixe.

O salão de jogos era onde nos entretinha-mos mais. Não havia televisão. Jogávamos king. O jogo começava na sexta-feira à noite e prolongava-se por sábado todo o dia e até ao fim da noite de domingo. Mesmo a 1 centavo o ponto, chegava-mos a domingo à noite com mais de 20 contos em cima da mesa.

A maior parte dos frequentadores deste salão de jogos eram os oficiais milicianos, alguns com as suas famílias. Os oficiais superiores tinham o seu retiro no Hotel Portugal. Nem um nem outro eram espaços convidativos para as senhoras esposas dos oficiais superiores jogarem a sua canasta e beberem o seu chá. Então pediam a reserva do salão de jogos, um fim-de-semana em cada mês, apenas para elas. Era o nosso pior fim-de-semana…

Do grupo destas senhoras faziam parte as senhoras do Movimento Nacional Feminino. Aquelas eram esposas de altas patentes em Lisboa, que deambulavam pelos aquartelamentos fazendo a sua “psico”. Eu recebia regularmente chamadas telefónicas delas. Ouvi-as calado. No fim dizia que estava tudo bem. Que não precisava de anda. Já só as queria ver caladas.

- Sr Alferes, então como está? Fala a Teresa Supico Pinto do MNF. A sua saúde? Precisa de alguma coisa? Se precisar de alguma coisa pode contar connosco. Estamos cá para vos animar e ajudar a passar o tempo. Blá… blá…

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publicado às 11:46

Exploração e Roubo

por António Tavares, em 18.05.17

Exploração e roubo

A minha chegada a Nampula coincidiu ainda com algum rescaldo da célebre operação Nó Górdio. Todo o planalto dos Macondes em Cabo Delgado fora varrido a napalm, um explosivo que já havia sido banido pelas convenções internacionais. Contava-se entre nós que no briefing final os generais apenas lamentavam o material perdido. Porque os homens… a gente pede e eles mandam mais…

Existia em Nampula o BMM Batalhão de Manutenção de Material. Alguns hectares de ferro velho, camiões e unimogues estampados e minados. Todas as viaturas acidentadas, em guerra ou não vinham aqui parar. Mesmo as civis abrangidas pelo seguro de estar ao serviço do exército. Estavam para reparar se tal fosse possível, ou para tirar peças para outras.

Trabalhavam aqui muitos militares, a maioria mecânicos. E também muitos civis, incluindo negros. Estes eram admitidos a ganhar 4 contos de réis. Mas o capitão que tratava dos contratos quando os recebia dizia-lhes:

- Tu vens para ganhar 4 contos. Mas de início, como ainda não tens experiência, recebes só 2 contos. Depois, com o tempo, se fores aprendendo bem e te comportares bem, ganhas experiência a passas a receber mais.

E os coitados dos negros assinavam ou punham o dedo em recibos de 4 contos e só levavam 2.

Lá dizia o Cancioneiro do Niassa:

E o senhor Brigadeiro

Vive muito consolado

Até comprou uma balança

Para pesar o dinheiro

Que rouba ao pobre soldado

Quando será Deus do Céu

Que um dia haverá verba

Para a gente comer pão

E os chicos erva erva

Para a gente comer pão

E os chicos merda merda

(reprodução de memória)

Todos os oficiais superiores residiam com as famílias em moradias que ficavam mesmo ao lado da messe, em frente ao quartel-general. Assumiam a moradia como sendo sua. Sempre que um deles se vinha embora embrulhava loiças, candeeiros e até carpetes e cortinados. Quando alguém encarregue de conferir, à posteriori, o material à carga fazia o relatório das faltas. E vinha o despacho superior:

- Abata-se por estar incapaz.

- Ao sr alferes Tavares para proceder à destruição.

E lá fazia eu um auto: no dia tal às tantas horas, na minha presença foram destruídos estes e estes bens por se encontrarem na situação de incapazes para o serviço.

O quartel-general havia sido transferido de Lourenço Marques para Nampula pouco depois do início da guerra, alguns anos antes de eu chegar a Nampula. No porto de Nacala um tal caixote caiu ao mar e nunca foi resgatado. O material nele contido foi dado com o perdido.

Passados aqueles anos todos, sempre que se dava por falta de algum artefacto de que se desconhecia o destino, alguém dizia: vinha no caixote que caiu ao mar. E alguém escrevia: proceda-se ao abate…

O conjunto João Paulo foi convidado para fazer uma tournée pelos aquartelamentos militares de Moçambique. A sua exigência (além do pagamento): ter disponíveis à chegada os instrumentos musicais cuja lista entregaram. Incluía bateria, guitarras eléctricas, teclados, etc. Acabaram a tournée e vieram embora. Quando alguém se apercebeu: cadê os instrumentos? Tinham sido encaixotados e embarcados para Lisboa.

Despacho: proceda-se ao abate por incapacidade…

Mesmo nos meios civis havia verdadeira exploração da condição humana. Alguns machambeiros, mesmo familiares, empregavam negros nas suas explorações a quem pagavam um ordenado mas em géneros. Podiam levantar na loja da cidade o arroz, o óleo, os panos e tudo aquilo que precisassem. Eles não tinham condições de verificar se o que levavam era o que era registado e ao valor correto. Ao dia 10 ou 15 já ouviam: acabou, o teu ordenado acabou.

Era assim a loja na cidade de um patrício que fornecia o exército com víveres e frescos. Tinha no pátio em frente um Simca 1100 a cair de podre. Os pneus já estavam todos sem ar. Tinha comprado um mercedes e nunca mais pegara no Simca. Eu tinha tirado a carta de condução e tive a ousadia de lho pedir emprestado para dar umas voltas. Nunca. Sempre recusou.

No quintal das traseiras da loja amontoavam-se cachos de bananas algumas já podres. No quarteirão de baixo ficava o hospital civil onde o Abílio havia sido internado após um acidente de mota. Ele nunca o foi visitar. Eu pedi-lhe umas bananas para levar ao Abílio:

- Leva destas que são mais baratas porque já estão um pouco maduras. São xx escudos!

Em 1973 foi construído o edifício do cinema militar. Mesmo ao lado do ringue onde jogávamos futebol de cinco às quintas-feiras. A plateia era para os soldados: pagavam 12$50. O balcão era para os Sargentos: pagavam 5$00. O balcão superior era para os oficiais: tinham entrada privativa e não pagavam nada.

Também tive algumas dificuldades com alguns negros que trabalhavam na oficina. Na altura dos cajueiros ninguém os fazia vir trabalhar. Apanhavam os cajus, esmagavam as frutas para uma bacia e uns dias depois aquilo fermentava. Era a sua cerveja. Bebiam e passavam os dias deitados bêbados debaixo dos enormes cajueiros. E havia por lá muitos.

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publicado às 11:53

A doença negra

por António Tavares, em 16.05.17

A doença negra

Estava eu um dia em Nampula como oficial de dia ao Quartel-General quando fui acometido por umas dores abdominais tão fortes que, para não desmaiar, os soldados carregam-me no jeep e levaram-me para as urgências do Hospital Militar.

Estava de médico de serviço o capitão médico mais conhecido em Nampula. De formação era Otorrinolaringologista. Mas na tropa era pau para toda a colher. A sua barriga devia ter à vontade 2 metros de perímetro. Fumava e bebia que nem um odre. Tinha por hábito trazer uma garrafa de whisky sempre que estava de médico de dia. E muitas vezes a meio do dia mandava um dos soldados de serviço ir a sua casa buscar outra.

Já podem imaginar a minha resposta quando ele, depois de me carregar na barriga, diz:

- É apendicite aguda. Levem-no já para a sala de operações.

- Nem pense nisso. Vou-me já embora.

Tentei levantar-me mas não consegui.

- Pronto, não quer, não quer… Ponham-no a soro para lhe dar a injeção.

Isto acontecia-me com alguma regularidade. Davam-me uma injeção de buscopan. Dormitava um pouco e passava.

Já depois de vir para Lisboa isto acontecia com regularidade. Fui várias vezes a vários médicos e nunca me diagnosticaram nada. Fiz análise a tudo o que era possível. E nada.

Antes de casar o meu futuro sogro pediu-me que fosse a um médico que tinha consultório no prédio onde ele morava. Fui. Não me disse nada de especial.

Mais tarde esse médico foi falar com o meu futuro sogro sua à oficina que ficava na cave do mesmo prédio.

- Sabe senhor Gervásio. O seu futuro genro tem uma doença complicada. Chama-se doença negra. Ele não nasceu ao pé de um rio? Olhe que ele vai ter que levar regularmente transfusões de sangue.

- Só me faltava mais esta! Diz o senhor Gervásio. Sei lá se ele nasceu ao pé de um rio. Eu já lá estive e não vi lá rio nenhum. Tenho a filha ainda a recuperar de um atropelamento que lhe partiu a perna e a fez estar um ano de cama e que ainda tem a cavilha de metal no fémur e agora isto.

Tinha-mos marcado casamento para o dia 11 de Maio de 1975. Quinze dias antes fomos (mais uma vez) almoçar ao Redondel a Vila Franca de Xira. Eu e a Fernanda. No caminho já ia mal disposto. Não comi nada ao almoço. Apenas consegui beber uns goles de Água das Pedras. Consegui guiar lentamente. Quando me vinham as dores fortes tinha que parar o carro.

As dores não eram muito localizadas. Sempre me pareceram no estômago. Por vezes eram tão fortes que quase desmaiava.

De Vila Franca demos a volta (que fazíamos com frequência) por Alverca e subindo a serra por Bucelas. Consegui levar o carro parando amiúde. Debaixo de uma figueira a meio da serra, junto ao rio em Bucelas.

Lá me arrastei até chegar à porta do banco do Hospital de Santa Maria. Parei o Fiat. A Fernanda veio abrir-me a porta para me tentar amparar até entrar no banco. Caí redondo no chão. Vieram-me buscar de maca.

Só me lembro de me terem feito uma picada num dedo e ouvir dizer: é apendicite aguda. Tem que ser operado já.

Aqui não fui capaz de reagir como em Nampula.

A Fernanda deu a morada de casa dela. Era morada da zona do Hospital dos Capuchos. Alguém me levou para lá. Fui operado nesse dia. Disse-me depois o médico que assim que espetou o bisturi o pûs soltou quase até ao teto. Estava já quase a fazer uma peritonite.

Não me lembro de alguma vez ter bebido leite. Não consigo. Mas nos dias seguintes a Fernanda trazia-o e achava graça. Eu bebia-o. Tal era a samarra que tinha na língua.

E nos dias seguintes tive febres tão altas que os médicos começaram a fazer análise com medo que fosse algo parecido com tifo. Não era. Tudo passou.

Felizmente ainda conseguimos adiar o casamento uma semana, para o dia 18 de Maio de 1975. Mas ainda ia bastante combalido.

Aguentei estas dores pelo menos durante 2 anos. Afinal o capitão médico gordo tinha razão. Eu é que tive medo. E quanto a doença negra … estamos conversados.

Fiat.jpg

 O nosso FIAT 128 em Maio de 1975 (lua de mel no Algarve) frente à pedreira de SIENITO (um tipo de granito único no mundo) em Monchique.

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publicado às 20:25

5 dias no inferno

por António Tavares, em 16.05.17

5 dias no inferno

A etapa entre Porto Amélia a Mueda foi a minha única experiência de guerra. Foram cinco dias no inferno.

Até Montepuez foi uma simples coluna militar, com vários camiões. Picada boa.

Montepuez era a última povoação grande antes da zona de Guerra de cabo Delgado. Era a cidade sede do Regimento de Comandos. Largas avenidas com casas térreas. Muitos comerciantes portugueses e indianos. Aqui nos juntamos à coluna de reabastecimento que vinha de Nampula. Ao todo mais de 70 camiões. A maioria deles civis. Tudo o que era necessário lá em cima ia de camião. Alimentos, armas, material de construção, etc.

Como o exército não tinha camiões suficientes, fazia contratos com camionistas civis que viviam da ida (2 vezes por mês, mais ao menos) a Mueda. Carregavam tudo. Tinham pago seguro de vida e da viatura. Se a mesma fosse minada ou acidentada, ou era reparada nas oficias do BMM - Batalhão de Manutenção de Material, ou recebiam uma nova igual. Um achado: havia militares (incluído generais) que tinham por sua conta uma verdadeira frota de camiões.

Como a nossa companhia não tinha experiência de guerra, toda a coluna era protegida por um pelotão de 30 homens, comandado por um alferes. Era a este que estavam incumbidas todas as operações de protecção e segurança, da coluna de viaturas. De mais de 7 quilómetros, entre a primeira e a última.

Saindo de Montepuez embrenhamo-nos na zona de guerra. Esta começava oficialmente na zona dos morros, uns 100 quilómetros acima. Uma zona de picada estreita entre 2 morros enormes. O comandante da minha companhia seguia, com um grupo de militares, na viatura atrás da nossa. Passada a curva dos morros deixei de ver a sua viatura. De repente ouço rajadas e rajadas de tiros. Pensei:

- Foram emboscados e estão a ser atacados, lá atrás.

Dei ordem ao pessoal que ia comigo para saltar da viatura, para se protegerem debaixo da mesma e esperar. Sempre preocupado com as minas.

Mais à frente o pelotão de segurança saltou das viaturas, meteu-se mato fora para tentar cercar o inimigo atrás dos morros.

Passado algum tempo parou o tiroteio. Vejo a viatura do capitão a vir em nossa direcção e ele mesmo a acenar com a mão: podem seguir.

Acagaçado com os morros, ele tinha dado ordem aos seus soldados para esvaziar cada um, um carregador de G3 sobre os morros. Sem nada combinado com o pessoal da segurança que ia mais à frente. Com possibilidade de serem apanhados pelo seu fogo cruzado.

O alferes que comandava a segurança chamou-lhe depois a atenção:

- Quando chegar a Mueda vou participar de si…

Um dos soldados que seguia na minha viatura era casado e levava aliança no dedo. Ao saltar da viatura a aliança ficou presa nalguma peça metálica e descarnou-lhe o dedo quase até à ponta. Foi até Mueda com o dedo entrapado.

Numa das viaturas seguia uma escavadora de lagartas. Nunca se sabia quando é que as chuvas abriam valas na picada. E aconteceu mesmo. Algures ali para Nairoto foi preciso abrir outra picada mais ao lado, para a coluna passar.

Sobre o ri Mesalo a ponte era de madeira, com perto de uma centena de metros. Foi decidido passar ali uma das noites. Havia água para nos lavarmos, o espaço era amplo e seguro. Para evitar ataques de crocodilos tinham sido espetados troncos, em fiada, uns metros acima e outros uns metros abaixo da ponte. Foi o primeiro mergulho em águas correntes, mesmo barrentas.

Na coluna seguiam 3 camiões militares novos, marca mercedes 4x4, enormes, tamanho que eu nunca vira. Iam os 3 seguidos. Um deles ficou em cima da ponte e os outros 2 na rampa a descer para a ponte. Sem ninguém saber porquê (estariam mal travados?) um deles deslizou e levou os outros 2 de rojo. Dois deles ficaram com o radiador roto. Solução: mandar vir por helicóptero 2 radiadores novos. Não havia. Era um modelo novo e não havia peças sobresselentes.

Nova solução: esvaziar 2 bidons de gasóleo para dentro dos depósitos das viaturas. Colocar cada um dos bidons vazios em cima de cada uma das viaturas avariadas. Desfazer sabão e com ele bloquear as zonas rotas dos radiadores. Ligar uma mangueira de cada bidão a cada radiador avariado. Sempre que o nível de água fosse baixo era necessário encontrar mais água para encher os dois bidons.

A tropa manda desenrascar. E assim lá chegamos, famintos, 5 dias depois a Mueda. Depois de passar a célebre curva das bananeiras. Pelo caminho ficaram vários postos com presença de militares, como Nairoto, Chaca ou Nacatar.

Eu não conseguia comer as rações de combate. Só bebia os sumos. As latas de conserva dava-as aos rapazes. Sempre que o camião parava eu saltava e ia arrancar raízes de mandioca. Descascava-as e roía-as.

Diz o cancioneiro do Niassa (de memória):

Que culpa tem o soldado

De ter raiva à sua sorte

Se chega um filho da puta

Que o mete numa farda

E o manda para a morte

Ou:

Se há um jovem que tomba outro se levanta

Se há um jovem que chora há outro que canta

Anda ver meu amigo os que riem do perigo

Frente à morte na luta pela vida

Picada para Mueda.jpg

Descida do Nairoto para o rio Mesalo. Imagem tirada da NET

 

Nampula.jpg

 Numa avenida de Nampula. Uma berliet carregada a aguradar a próxima viagem a Mueda.

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publicado às 16:31

Abílio

por António Tavares, em 09.05.17

Abílio

O Abílio sempre teve uma vida muito atribulada. Lembro-me de, no Casalinho, ter espetado um tronco de esteva numa canela. Tinha 4 ou 5 anos. Foi tratado como a mãe foi capaz. Com ajuda do farmacêutico e do médico em Cardigos. Ficou com uma lasca junto ao osso. Gangrenou e chegava mesmo a ver-se o osso. Felizmente dessa curou-se.

O nosso familiar (tio rico), era dono de vários negócios na zona de Nampula/Nacala. Salinas, padarias, descasque de caju, óleo de amendoim, etc. Vinha de férias alguns meses por ano. Ligava para o C. Santos em Lisboa para que tivesse no cais de Alcântara um mercedes no dia e hora que chegasse no paquete Funchal. Passeava 2 meses pela Europa fora e embarcava de volta, deixando o mercedes no cais.

Consta que um dia chegou até Telavive. Gostou e comprou um prédio de rendimento.

Noutra vez encomendou 2 mercedes para África. Um para ele e outro para a esposa. A esposa não tinha carta nem nunca a tirou. Os vidros partiram-se, os pneus furaram-se, as galinhas andavam lá dentro.

A sua casa foi desenhada em Lisboa e os mármores foram de cá já cortados, prontos a serem colocados.

Um dia em que cá estiveram disseram para a minha mãe:

- Como o seu filho não vai poder vir passar as férias cá à metrópole, pode passar as férias lá connosco.

Os seus 2 filhos tinham um andar alugado em Nampula para estudarem no Liceu. Tinha cada um o seu mercedes. No fim-de-semana iam para Nacala. Encontrei-os algumas vezes. Falavam em eu poder ir lá passar uns dias. Nunca concretizaram o pedido.

Uma vez perdi a vergonha. Meti-me no jeep e apareci lá. Ficaram admirados. Almocei com eles no salão de mármore, mas para dormir levaram-me para a cave, para dormir num sofá velho, cheio de teias de aranha, na companhia dos ratos. Deviam ter os 17 quartos da mansão ocupados!

Mas voltando aio Abílio…

Eles disseram à minha mãe que o podiam levar para lá. Que o criavam e que ele os podia ajudar. E foi.

Estava eu no despachante, em Lisboa, quando o Abílio foi atropelado em Santa Apolónia, enquanto esperava pelo embarque no paquete. Foi ao hospital e embarcou com gesso no braço. Acabou por ficar como criado deles, para todo o serviço, nas padarias de Nacala.

Quando eu estava em Nampula fui uma vez visitá-lo. Dormia num anexo destinado aos criados. Passei essa noite lá com ele. Mas pensei para mim: isto não é vida para ele.

Uns tempos mais tarde ligam-me de Nacala para a Messe de Oficiais em Nampula a dizer que o Abílio tinha tido um acidente de mota e precisava de ir para Hospital.

- Mandem-no de ambulância para o hospital de Nampula!

E mandaram. Passadas algumas horas ligam-me do hospital de Nampula a dizer que o meu irmão tinha chegado e que, para ele dar entrada, era necessário um depósito de 60 contos. Era fim-de-semana. Eu não tinha o dinheiro. Mas vali-me dos meus amigos (dos verdadeiros que sempre encontrei) e o dinheiro apareceu e o Abílio foi tratado.

Foi aí que o nosso familiar e vizinho do Casalinho, a viver em Nampula, que produzia e vendia bananas, que tinha o armazém cheio delas a apodrecer, me vendia as bananas já meio podres, ao preço que vendia ao público. Mesmo sabendo que eram para o Abílio que estava no hospital ao fundo da rua. Onde ele nunca fez uma visita. Sempre esperei que ele dissesse: leva lá esse cacho de bananas. Não é nada. Mas nunca disse.

Aí tomei uma decisão e comuniquei-a ao Abílio: vou-te mandar de volta para os pais.

Comprei passagens aéreas e no dia marcado lá estava o Abílio no aeroporto de Nampula, para embarcar para Lisboa. Azar. Diz o oficial da PIDE no aeroporto:

- Não pode embarcar. Como é menor precisa da autorização dos pais.

- Mas com os pais vai ele ter!

- Pois é mas leis são leis.

Pela primeira vez o meu tio me ajudou. Meti-me no jeep e fui-lhe pedir, por favor, que intercedesse a nosso favor. Sabia das suas ligações ao poder local. Levei-o ao aeroporto e lá convenceu o oficial da PIDE a deixá-lo embarcar.

O Abílio veio de Moçambique com a mesma quarta classe que levou de cá. Depois de regressar empregou-se no Ministério da Educação, tirou o Liceu, licenciou-se em gestão, foi inspector das Finanças. Tem um bom grupo de amigos. Fazem caminhadas e corridas. Passeia. Corre. Tem uma boa casa em Queluz (acabou por comprar a casa que alugáramos em 1970), com 5 assoalhadas. Sê feliz meu irmão!

Abílio, falo aqui de ti porque gosto muito de ti e a tua vida de resistente inspira-me. A vida tem-nos separado, mas nunca te esqueço. Desculpa se o que aqui escrevi não condiz a 100% com a realidade. Mas a esta distância alguma coisa pode não ter sido bem recordada.

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publicado às 15:02

Ar condicionado na palhota

por António Tavares, em 01.05.17

Ar condicionado na palhota

Estava eu já colocado na Secção de Viaturas da CCS/QG de Nampula, quando o capitão, comandante da companhia foi substituído. Quem haveria de vir para o seu lugar: o Capitão Ferro que havia sido comandante da minha companhia de instrução, em Mafra.

A companhia formou na parada para prestar honras de chegada ao novo comandante e ele, ao ver-me, diz-me:

- Então estás aqui? Não eras atirador de infantaria?

- Era. Mas, sabe, a vida dá muitas voltas…

Não mais se referiu ao que se passou em Mafra.

Uma das minhas tarefas era fazer as honras militares aos soldados locais, mortos em combate. Quando isso acontecia, juntava um grupo de 8 a 10 militares e seguia com eles de jeep para fazer os disparos de salva antes da urna descer à terra. Fui algumas vezes a localidades bem distantes, selva adentro.

Mas tinha que treinar a formação dos soldados e os disparos de salva. Agrupava-os nas traseiras da oficina, distribuía 2 balsas de salva a cada um e fazia aí os treinos e os disparos.

Certa vez estava eu a acabar o treino quando veio ter comigo o alferes que trabalhava com o Major Lisboa, oficial de segurança da cidade, com ligações à PIDE. Diz-me:

- O nosso Major exige saber quem anda aos tiros na cidade e porquê. Quer que vás lá explicar-te.

- Diz ao nosso Major que só recebo ordens do meu comandante. Ele que faça o pedido oficialmente.

O Major Lisboa era aquele que apanhava os alferes desprevenidos sem boina, ou soldados desmazelados ou com um copito a mais e os levava para admoestação. E que jurara que ia pôr o trânsito da cidade na ordem. Com o jeep que lhe estava distribuído e com o seu motorista, chegava a fazer patrulhas pelas ruas como se fosse polícia de trânsito.

O seu Gabinete de segurança funcionava numa moradia fora do quartel, numa rua adjacente. O Major Lisboa era o mesmo que em Mafra (na altura capitão) me interrogara depois do incidente da morte dos 4 cadetes.

Ele telefonou ao Capitão Ferro e este ligou para mim:

- O Major Lisboa quer que vás a sua presença.

E fui. Logo que cheguei teve para comigo a mesma reacção que tivera o Capitão Ferro quando me viu na cidade:

- Estás aqui na cidade? Tu eras atirador! Não tinhas ido com uma companhia lá para cima para o Rovuma?

- São as voltas da vida.

Respondi.

Depois de lhe explicar o porquê dos tiros, só me disse:

- Está tudo certo. Mas é preciso pedir autorização para fazer essas manobras, mesmo dentro do quartel. Eu tenho que ser informado previamente para não haver alarme na cidade.

Disse-lhe que sim e fui-me embora. Passei a fazer os treinos da formação sem fazer os disparos.

Como a guerrilha da Frelimo se vinha aproximando cada vez mais da cidade de Nampula, (contava-se que já havia escaramuças na zona do rio Lúrio) o nosso Major lembrou-se, a dada altura, de fazer treinos militares mesmo com a população civil, em jeito de exercício de simulação. Ainda fui nomeado para colaborar com ele no que tocasse à simulação na zona do QG. Cheguei a ter uma pistola Walter atribuída para esse fim. Felizmente nunca se chegou a realizar por falta de colaboração das autoridades civis que temiam o alarido que isso iria gerar na cidade.

Relatavam-se mesmo casos de guerrilheiros que eram presos lá no mato e que ao serem presos se viravam para o alferes:

- Eu conheço o senhor alferes. Lembro-me de o ver na messe de Nampula.

Eles conseguiam mesmo colocar guerrilheiros a servir na messe dos oficiais, para obterem informações.

Um sargento meu amigo, natural da cidade, tinha a mulher a passar férias na foz do rio Lúrio, que era uma espécie de estância balnear. Boas praias! Quando surgiu esse boato de que a guerrilha já se aproximava do rio ficou preocupado e quis ir lá buscá-la. Era sábado. Mas tinha medo de ir sozinho e de noite e de levar o seu Toyota pelas picadas fora.

Fomos no meu jeep. Levava atrás uns jerricans de gasóleo. A dada altura apareceu-nos um volto no meio da picada. Mesmo com a luz dos faróis não se distinguia o que era. Entre parar e seguir ele decidiu acelerar. O jeep deu um salto, passou por cima de algo e parámos. Era um javali. Morreu com o embate. Carregámo-lo no jeep e no domingo seguinte, depois do regresso, tivemos javali assado. Espetado num ferro grande, por cima de um monte de brasas, um negro ia rodando o espeto dando à manivela, outro ia pincelando com molho. Beberam-se umas cervejas. Espetava-se o garfo numa zona já assada e cortava-se com a faca. 

Eu costumava ir com aquele sargento à caça aos domingos. Ele cedia a arma e os cartuxos. Eu arranjava o gasóleo. Havia na zona de Meconta (a 150 quilómetros, mais ou menos a meio caminho entre Nampula e Nacala) uma pista de aviação de terra batida. Crescia o capim. E para que os pequenos aviões pudessem aterrar em segurança era preciso cortar regularmente o capim. Dois dias depois do corte o capim começava a rebentar, viçoso. Colocávamos holofotes fortes no jeep e de noite íamos, com os faróis apagados colocarmo-nos no início da pista. Acendia-mos os holofotes e os coelhos eram às centenas. Arrancávamos pista fora e era só disparar. Depois voltávamos para trás para apanhar os 10 ou 20 coelhos que tínhamos apanhado.

Os militares faziam muita acção psicológica (psico como diz o cancioneiro do Niassa) sobre as populações locais, normalmente sobre os régulos e chefes de aldeia. Estavam sempre a oferecer-lhes prendas. Era importante porque, como não havia recenseamento das populações, quando era na altura das incorporações os militares iam pedir a cada régulo que arregimentasse 10, 20 ou 30 mancebos. E lá vinham eles de tanga para a tropa, aprenderem a ser soldados.

Contava-se mesmo o caso do General Chefe do exército que fora, certo dia, com a esposa, visitar um régulo famoso e importante da zona de António Eanes (hoje Angoche). E no final da visita a esposa do senhor General dirige-se à esposa do régulo:

- A amiga peça alguma coisa que lhe faça falta, que nos arranjamos.

- O que eu queria mesmo era ter aqui ar condicionado. Está sempre tanto calor!

Foi então construída um alinha de cabos eléctricos de alguns quilómetros para levar luz e ar condicionado à palhota do soba daquela aldeia. E como a palhota não tinha condições para ter ar condicionado, foi feita uma casa de alvenaria. E já agora foram instalados postos de luz na praça central….

Parada do quartel.jpg

 Era neste canto que ensaiava os honras fúnebres

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publicado às 12:31

Nameteculía

por António Tavares, em 30.04.17

Namutaqueliua

Os perto de 2 anos que passei em Nampula até nem foram maus de todos. Tinha um grupo de amigos, todos alferes, que fazíamos por passar o tempo o melhor possível. Jogávamos futebol às 5ªs feiras, à noite íamos jantar muitas vezes aos cafés e restaurantes da cidade. Aos fins-de-semana passeávamos.

Para albergar os oficiais superiores que não tinham direito a ter moradia (ou flat = apartamento) por sua conta, o exército comprou um hotel: hotel Portugal. E quando alguém se lembrou que lá para o norte, a comandar um pelotão de infantaria, estava um alferes miliciano com curso de cozinha tirado na Suíça, outro alguém ordenou:

- Ele que venha para Nampula.

E veio. Foi transferido para ser chefe de cozinha do hotel Portugal. Para além dos cozinhados que fazia para os oficiais superiores também fazia os petiscos para nós. Lagosta suada…

Certa noite, acabados de jantar espetadas, fomos passear até à Nameteculía. Um bairro de palhotas de má fama, no caminho para o aeroporto. O nome oficial é Namutequeliua. Nós chamávamos Nameteculía para ser mais fácil. Havia bares para beber cervejas, prostitutas negras, vadiagem. Íamos sempre em grupo para nos protegermos e evitar confusões.

Os soldados iam mais para se divertir e fazer a sua acção psicológica, “psico”, como dizia o Cancioneiro do Niassa (reprodução de memória):

Bem vindo checa

P’ra esta guerra

Que cá te espera

Não estejas triste

Que a guerra é linda

Só fazes cera

Vais ter saudades

De mulheres brancas

Ai que tormentos

Aqui há pretas

Mas tem cuidado

Com seus lamentos

Checa danado

Que vieste cá fazer?

Vieste p’ra me render

Vais lerpar muito

Mas com o aumento

Vais ficar rico

Dá-o às pretas

Pois assim fazes a tua “psico”

O bairro era percorrido constantemente pelos jeeps da polícia militar. Para evitar desacatos e prender os mais atrevidos. Porque eram essencialmente os militares que ocupavam as ruas para se divertir. Depois de várias cervejas havia sempre barulho. Não havia iluminação pública. Apenas as luzes das diversas palhotas e dos bares.

Nós tínhamos acabado de jantar espetadas num dos restaurantes da cidade. Eu, por piada, tinha levado comigo o espeto para recordação. Um arame afiado com cerca de 20 centímetros e uma argola na ponta. Meti o dedo médio na argola e ia girando no ar para descontrair.

Já em pleno bairro de palhotas dei por mim com aquilo na mão e pensei que alguém podia interpretar mal. Em vez de o atirar fora escondi-o ao longo do braço, debaixo da manga. E aconteceu mesmo. Não é que uma negra se abeirou de nós, agarrou-me na mão e detectou o arame. Fugiu aos gritos:

- Tem ferro… tem ferro!

Fugimos todos rapidamente para evitar confusão.

As casas das prostitutas brancas ficavam todas fora da cidade. Embora a prostituição fosse proibida, em África era tolerada. A casa mais conhecida era a da Paula. Ficava a uns 3 ou 4 quilómetros, na picada para a barragem. Uma casa “séria”. Com bar, música e espectáculos (por vezes). Havia mesmo prostitutas da Rodésia e Sul-Africanas. Só falavam inglês. Conta-se mesmo a história de capitães de companhia (milicianos) que iam à Beira ou a Nampula e contratavam 2 ou 3 prostitutas, para irem passar uns dias aos acampamentos militares, lá para o norte, para aviarem quem necessitasse. Ou o caso de um soldado que, chegado a uma destas casas, encontra alguém conhecido e diz:

- Ó tia, está aqui?

Era mesmo a sua tia.

Não havia transportes públicos. Para ir até estas casas tinha que se ir de táxi ou no carro de um amigo. Havia muitos militares que, estando na cidade, levavam o carro de cá ou compravam lá um, usado, para se divertirem.

Havia um capitão miliciano que tinha levado para lá o seu MGB/GT. Um alferes, amigo comum, pede-lho emprestado para ir passar o fim-de-semana à Ilha de Moçambique. Não chegou lá. A estrada era de terra batida, mas larga e com grandes rectas. Numa curva para lá do Monapo, espalhou-se. Lá ficou e o carro teve que ser apanhado peça a peça. Parece que o conta-quilómetros marcava 240.

Usando das facilidades que a tropa oferecia, tirei lá a carta de condução. Seguia no jeep com o meu condutor e já fora da cidade dizia-lhe.

- Para aí. Passas para aqui que agora conduzo eu.

E aprendi assim. Pelas picadas, entre as palhotas. Uma vez o condutor disse-me:

- Ó sr Alferes, olhe que o jeep não passa aí entre essas duas palhotas!

Passar passou, só que arrastou os paus do telhado de colmo que estavam baixos de mais e eu não me apercebi disso. Quando dei por ela só vi um negro deitado numa enxerga, porque o telhado tinha arrastado uma das paredes da palhota.

O Alferes que me fez o exame de condução era meu colega e amigo. Fomos de jeep. Saímos do quartel por uma porta e entrámos pela outra.

- Podes ir!

Já tinha a carta. Mas uma coisa que eu achei que foi bem feita: ter feito todos os testes psicotécnicos e de aptidão, de visão e de audição, que nem eu sabia que se faziam e que era usual fazer a todos os militares que iam tirar a carta de condução. Passei a todos.

De vez em quando pegava no jeep, mesmo aos fins-de-semana e saía por aí fora. Ía com amigos até à barragem, cheguei mesmo ai até Nacala e à Ilha de Moçambique. Corria imensos riscos. Para além de poder ter um acidente, para se sair com uma viatura militar tinha que se ter autorização e plano de viagem. E podia sempre aparecer a Polícia Militar.

Felizmente sempre correu tudo bem.

Bar barragem.jpg

Nas escadas para o bar da barragem de Nampula

De jeep.jpg

Regresso do aeroporto. Bairro da Nameteculía em frente. Os morros sempre presentes.

Na barragem.jpg

Na barragem

Nameteculia.jpg

Bairro da Nameteculía.

Picada para a Ilha.jpg

 Esrtrada de terra para a Ilha de Moçambique, logo após Monapo.

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