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Ar condicionado na palhota

por António Tavares, em 01.05.17

Ar condicionado na palhota

Estava eu já colocado na Secção de Viaturas da CCS/QG de Nampula, quando o capitão, comandante da companhia foi substituído. Quem haveria de vir para o seu lugar: o Capitão Ferro que havia sido comandante da minha companhia de instrução, em Mafra.

A companhia formou na parada para prestar honras de chegada ao novo comandante e ele, ao ver-me, diz-me:

- Então estás aqui? Não eras atirador de infantaria?

- Era. Mas, sabe, a vida dá muitas voltas…

Não mais se referiu ao que se passou em Mafra.

Uma das minhas tarefas era fazer as honras militares aos soldados locais, mortos em combate. Quando isso acontecia, juntava um grupo de 8 a 10 militares e seguia com eles de jeep para fazer os disparos de salva antes da urna descer à terra. Fui algumas vezes a localidades bem distantes, selva adentro.

Mas tinha que treinar a formação dos soldados e os disparos de salva. Agrupava-os nas traseiras da oficina, distribuía 2 balsas de salva a cada um e fazia aí os treinos e os disparos.

Certa vez estava eu a acabar o treino quando veio ter comigo o alferes que trabalhava com o Major Lisboa, oficial de segurança da cidade, com ligações à PIDE. Diz-me:

- O nosso Major exige saber quem anda aos tiros na cidade e porquê. Quer que vás lá explicar-te.

- Diz ao nosso Major que só recebo ordens do meu comandante. Ele que faça o pedido oficialmente.

O Major Lisboa era aquele que apanhava os alferes desprevenidos sem boina, ou soldados desmazelados ou com um copito a mais e os levava para admoestação. E que jurara que ia pôr o trânsito da cidade na ordem. Com o jeep que lhe estava distribuído e com o seu motorista, chegava a fazer patrulhas pelas ruas como se fosse polícia de trânsito.

O seu Gabinete de segurança funcionava numa moradia fora do quartel, numa rua adjacente. O Major Lisboa era o mesmo que em Mafra (na altura capitão) me interrogara depois do incidente da morte dos 4 cadetes.

Ele telefonou ao Capitão Ferro e este ligou para mim:

- O Major Lisboa quer que vás a sua presença.

E fui. Logo que cheguei teve para comigo a mesma reacção que tivera o Capitão Ferro quando me viu na cidade:

- Estás aqui na cidade? Tu eras atirador! Não tinhas ido com uma companhia lá para cima para o Rovuma?

- São as voltas da vida.

Respondi.

Depois de lhe explicar o porquê dos tiros, só me disse:

- Está tudo certo. Mas é preciso pedir autorização para fazer essas manobras, mesmo dentro do quartel. Eu tenho que ser informado previamente para não haver alarme na cidade.

Disse-lhe que sim e fui-me embora. Passei a fazer os treinos da formação sem fazer os disparos.

Como a guerrilha da Frelimo se vinha aproximando cada vez mais da cidade de Nampula, (contava-se que já havia escaramuças na zona do rio Lúrio) o nosso Major lembrou-se, a dada altura, de fazer treinos militares mesmo com a população civil, em jeito de exercício de simulação. Ainda fui nomeado para colaborar com ele no que tocasse à simulação na zona do QG. Cheguei a ter uma pistola Walter atribuída para esse fim. Felizmente nunca se chegou a realizar por falta de colaboração das autoridades civis que temiam o alarido que isso iria gerar na cidade.

Relatavam-se mesmo casos de guerrilheiros que eram presos lá no mato e que ao serem presos se viravam para o alferes:

- Eu conheço o senhor alferes. Lembro-me de o ver na messe de Nampula.

Eles conseguiam mesmo colocar guerrilheiros a servir na messe dos oficiais, para obterem informações.

Um sargento meu amigo, natural da cidade, tinha a mulher a passar férias na foz do rio Lúrio, que era uma espécie de estância balnear. Boas praias! Quando surgiu esse boato de que a guerrilha já se aproximava do rio ficou preocupado e quis ir lá buscá-la. Era sábado. Mas tinha medo de ir sozinho e de noite e de levar o seu Toyota pelas picadas fora.

Fomos no meu jeep. Levava atrás uns jerricans de gasóleo. A dada altura apareceu-nos um volto no meio da picada. Mesmo com a luz dos faróis não se distinguia o que era. Entre parar e seguir ele decidiu acelerar. O jeep deu um salto, passou por cima de algo e parámos. Era um javali. Morreu com o embate. Carregámo-lo no jeep e no domingo seguinte, depois do regresso, tivemos javali assado. Espetado num ferro grande, por cima de um monte de brasas, um negro ia rodando o espeto dando à manivela, outro ia pincelando com molho. Beberam-se umas cervejas. Espetava-se o garfo numa zona já assada e cortava-se com a faca. 

Eu costumava ir com aquele sargento à caça aos domingos. Ele cedia a arma e os cartuxos. Eu arranjava o gasóleo. Havia na zona de Meconta (a 150 quilómetros, mais ou menos a meio caminho entre Nampula e Nacala) uma pista de aviação de terra batida. Crescia o capim. E para que os pequenos aviões pudessem aterrar em segurança era preciso cortar regularmente o capim. Dois dias depois do corte o capim começava a rebentar, viçoso. Colocávamos holofotes fortes no jeep e de noite íamos, com os faróis apagados colocarmo-nos no início da pista. Acendia-mos os holofotes e os coelhos eram às centenas. Arrancávamos pista fora e era só disparar. Depois voltávamos para trás para apanhar os 10 ou 20 coelhos que tínhamos apanhado.

Os militares faziam muita acção psicológica (psico como diz o cancioneiro do Niassa) sobre as populações locais, normalmente sobre os régulos e chefes de aldeia. Estavam sempre a oferecer-lhes prendas. Era importante porque, como não havia recenseamento das populações, quando era na altura das incorporações os militares iam pedir a cada régulo que arregimentasse 10, 20 ou 30 mancebos. E lá vinham eles de tanga para a tropa, aprenderem a ser soldados.

Contava-se mesmo o caso do General Chefe do exército que fora, certo dia, com a esposa, visitar um régulo famoso e importante da zona de António Eanes (hoje Angoche). E no final da visita a esposa do senhor General dirige-se à esposa do régulo:

- A amiga peça alguma coisa que lhe faça falta, que nos arranjamos.

- O que eu queria mesmo era ter aqui ar condicionado. Está sempre tanto calor!

Foi então construída um alinha de cabos eléctricos de alguns quilómetros para levar luz e ar condicionado à palhota do soba daquela aldeia. E como a palhota não tinha condições para ter ar condicionado, foi feita uma casa de alvenaria. E já agora foram instalados postos de luz na praça central….

Parada do quartel.jpg

 Era neste canto que ensaiava os honras fúnebres

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publicado às 12:31


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