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Comprar o céu ainda neste mundo

por António Tavares, em 27.02.17

Comprar o céu ainda neste mundo  

As pessoas em Cardigos (como em qualquer aldeia portuguesa) viviam a vida da igreja intensamente e tinham por missão comprar um lugar no céu, ainda neste mundo.

A família Tavares de Cardigos era uma das famílias mais rica.

Um Tavares era o presidente da Junta. Tinha sempre à porta um dos poucos automóveis que havia na vila, um Citroen.

Outro era o Regedor. Era o que controlava as licenças de uso de isqueiro. Quando aparecia alguém com um isqueiro mandavam-no logo guardar, pois podia andar por perto o senhor regedor.

O sr José Tavares era dono do lagar de azeite e da maior mercearia que vendia desde panos a alfaias agrícolas, sabão, azeite e manteiga ao quilo. Consta-se que guardava o dinheiro (moedas) em arcas de salgar a carne de porco. Tinha várias cheias. E de vez em quando gostava de contar a sua fortuna. Enchia uma caneca de moedas e contava o seu valor. Depois era só passar de uma arca para outra e ir contando as canecas.

A moagem das azeitonas era um dos nossos maiores acontecimentos anuais. Iam-se apanhando as azeitonas para uma tulha de cimento enterrada no chão à entrada do casalinho. No dia aprazado lá ia-mos nós com toda a azeitona metida em sacas de serapilheira, em cima da carroça, para o lagar. Dava imenso gozo ver todas aquelas engrenagens, prensas, fogueira, azeite a escorrer, provar um pedaço de broa molhado no azeite novo. Era mesmo uma festa. Na altura de medir o azeite era 10 litros para nós, 1 para o lagareiro. O dono do lagar ficava com 10 por cento do azeite. Era o que ele depois vendia. Trazíamos o azeite e o bagaço (restos de azeitonas moídas) que servia ir adicionando na ração dos porcos.

Mas então como é que o sr José queria comprar o céu? Simplesmente fazendo em vida um lote de alminhas (já não me lembro de quantas eram) espalhadas por vários cruzamentos de caminhos da freguesia. Combinou-as com o meu pai para ele as ir fazendo à medida que pudesse. Em tijolo, uma cruz em cima, um nicho com azulejos de Nossa Senhora. Cada vez que fazia uma ele ia receber. Ainda me lembro de ele ter construído umas quantas. Uma ainda está ao lado da escola de Cardigos.

Um irmão era dono da serração de madeiras. Tinha camiões. Fui num desses camiões que fiz a minha primeira viagem a Lisboa para me ir apresentar no meu primeiro emprego. Também tinha uma fábrica de velas de cera. E quando havia festas na Vila o meu pai pedia muitas vezes para que um motorista dele nos fosse lavar todos ao Casalinho em cima da camioneta, já noite alta depois do fogo preso.

Em Cardigos havia muita gente a dedicar-se à apicultura e era nas fábricas de velas que essa gente vinha vender a cera.

Havia uma outra irmã desses Tavares de que já não me recordo o nome (talvez Natividade). Sempre a conheci viúva, a viver com a criada (D Alice). Esta senhora dava trabalho ao meu pai. E como sabia que eu andava a estudar no seminário disse ao meu pai que passava a ser minha madrinha e me pagava os estudos. Queria comprar o céu sendo madrinha de um padre.

E aos domingos queria por força que eu fosse almoçar lá a casa. Não gostava nada mas os meus pais insistiam e eu ia. Não gostava por causa do cheiro que a casa tinha. Não me parecia o cheiro normal de uma casa normal. Pelo menos não era o cheiro da nossa casa. Mas também eu nunca entrei verdadeiramente na casa em si. Entrava pelas escadas de serviço e almoçava na cozinha ao pé da criada.

Era latifundiária, mas as terras só por si não geram dinheiro. Um belo dia vendeu tudo, foi com a criada para Fátima, para estar mais perto da porta do céu. Comprou uma casinha pequena mesmo atrás do seminário onde eu estava. Levou lá o meu pai uns dias para fazer obras e por a casa ao seu jeito. A parte de baixo era dela e o sótão ficou para a criada.

Para se entreter e ir ganhando algum dinheiro para o dia-a-dia comprou uma loja de vender santinhos. Já depois de casado, sempre que íamos a Fátima passava por lá para a visitar. Mais tarde passamos a ver só a criada. Na última vez já a criada estava num lar de freiras e a loja era de outras pessoas.

A casa velhinha ainda lá estava, muito abandonada.

 

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publicado às 11:53

Casalinho

por António Tavares, em 01.02.17

Casalinho

O Casalinho é uma pequena aldeia da freguesia de Cardigos.

Hoje praticamente desabitada, tinha na minha meninice cerca de 8 a 9 famílias repartidas por 3 núcleos: o do cimo da aldeia, o do meio e o do fundo.

Cada núcleo juntava famílias com ligações estreitas e familiares entre si, que quase viviam em comunidade.

O apelido dos dois primeiros núcleos já não me lembro. Os de baixo eram os Tavares.

As ligações dentro de cada grupo eram tão fortes que partilhavam determinados bens como o forno do pão por exemplo.

Uma única rua ligava o cimo e o fundo da aldeia.

Os Tavares ligavam-se bem com os do cimo da aldeia, mas sempre houve uma animosidade com o núcleo do meio que nunca entendi.

O meu pai proibia-nos por exemplo de passar pela rua principal para não atravessar a zona do meio. Para irmos ao nosso quintal que ficava no cimo da aldeia seguíamos sempre por carreiros que ladeavam a aldeia por trás das casas. Mesmo com a carroça da mula seguíamos por esses carreiros. De tal modo que certa vez, era a mula ainda nova, difícil de ser domada, arrastou a carroça para o lado, uma roda subiu um muro e virou-se de rodas para o ar. Só a Lúcia vinha em cima da carroça. Felizmente não passou de uns simples arranhões.

O certo é que todos os terrenos em volta do Casalinho eram propriedade das famílias dos Tavares e das famílias do núcleo de cima. As terras das famílias do meio eram todas muito longe da povoação.

Curiosamente, estava o Bruno para nascer na clínica de São Miguel em Lisboa, quando nos apareceu no quarto uma senhora que me reconheceu e eu reconheci como sendo a Maria das Neves que pertencia ao núcleo familiar do meio. Nunca nos tínhamos falado. Era empregada da clínica e até nos emprestou uma televisão para a Fernanda ter no quarto. E levava-lhe fruta. Ironias do destino.

Não havia luz elétrica, nem casas de banho e nem água canalizada.

A luz era de candeeiros a petróleo e de lanternas de azeite. A água vinha do poço a que chamávamos fonte, que ficava a meio da encosta. Todos os dias tínhamos que ir lá várias vezes buscar água em bilhas de barro. Em casa despejávamos as bilhas para os 2 cântaros na cantareira. Tínhamos que repetir a ida há fonte até os cântaros estarem cheios. A casa de banho para as necessidades era nos pinhais atrás das casas. Quando conseguia-mos um pedaço de papel ou de jornal era uma alegria. Porque normalmente o papel higiénico era uma pedra. Há noite tínhamos bacios nos quartos. De manhã ia-mos despeja-los aos pinheiros. Lavar a cara era em bacias na rua, mesmo à porta de casa. Nas manhãs de inverno tínhamos que tirar primeiro o gelo que se formara de noite.

Mal o dia nascia abria-mos a porta do galinheiro e as galinhas iam todas de enfiada rua fora para os pinhais comer insetos. Quando as chamávamos elas vinham a correr para comer a ração feita de couves migadas, farelos e ossos esmigalhados. Depois seguiam novamente para os pinhais. De vez em quando alguém tinha que dar por lá uma volta para espantar possíveis raposas.

Mal o sol baixava no horizonte era vê-las em fila a caminho da aldeia, a entrarem nas respetivas capoeiras e a pularem para o poleiro.

Antes de se fechar a porta da capoeira, para evitar as raposas de noite, eram contadas. E de vez em quando lá vinha a mulher do tio Zé:

- Ó ti Delfina, veja lá se não está por aí a minha pedrês?

Casalinho1.jpg

O meu pai à entrada do Casalinho, o Tio Zé e a mulher à porta de casa. O meu pai e a minha mãe na carroça da mula.

Casalinho2.jpg

O burro do ti Zé e a capela do casalinho.

Casalinho3.jpg

 Esta é uma foto de parte da nossa casa. A mãe na porta com 3 das filhas.

Os homens do casalinho.jpg

Os homens do Casalinho: Joaquim Nunes do núcleo cimeiro e as 3 famílias no núcleo fundeiro: Ti Zé Maria (meu pai), Ti Zé Tavares, o seu irmão Tio Virgílio (meu padrinho) com o filho Carlos ao lado. 

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publicado às 14:38


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