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Terrorista do daesh

por António Tavares, em 28.04.17

Terrorista do daesh

A Horta do Fouto era uma terra agrícola que ficava na encosta do Vergancinho, passando o Cabril, para o lado da Chaveira. Era terra boa mas soalheira, quer dizer com pouca água. E no verão o poço rapidamente secava. O meu pai entendeu que devia fazê-lo mais fundo. E fez. Mas reparou que a água não nascia no fundo do poço mas na parede lateral do lado da encosta. Pensou fazer uma mina no fundo do poço, no sentido da encosta.

Para fazer a mina precisava de dinamite. Abria um buraco na rocha, metia o explosivo, acendia o rastilho e fugíamos para longe. Mas o limite da propriedade era poucos metros acima. Ele temia ultrapassá-lo e que o dono do restolho da parte de cima descobrisse. E cada vez que fazia rebentamentos fugíamos e esperávamos umas horas. Não fosse a GNR andar por perto, ouvir os rebentamentos e viesse para descobrir se tínhamos ou não licença. Claro que não tínhamos.

Mas de onde vinham os explosivos? Da Sertã. E quem os ia buscar? Eu. Tinha 12 ou 13 anos. O meu pai combinava com o vendedor da Sertã. Eu ia na carreira de Cardigos a S. João do Peso. Aí apanhava outra para a Sertã. Depois regressava pelo mesmo caminho. O meu pai fazia-me o percurso todo mentalmente.

- Chegas lá, perguntas onde fica a casa do Sr X. Vais ao longo do rio, passas a ponte e a casa fica do outro lado do rio, logo em frente. Ele entrega-te 2 sacos e tu dás-lhe este dinheiro. O saco pequeno metes no bolso de dentro do casaco. Nunca o tiras de lá. O saco maior trazes na mão. Depois voltas pelo mesmo caminho, não te demoras porque a carreira de volta é às x horas. Nunca aproximes um saco do outro. Na carreira vais para o banco do fundo. Colocas o saco maior debaixo do banco e tapas com os pés.

O que tinha o saco maior? Barras de dinamite e cordão detonante. O que tinha o saco mais pequeno? Os detonadores. E aí vinha eu, qual terrorista do daesh. Mas cumpri na risca o combinado. Tinha 12/13 anos. Ainda levava umas sandes para a viagem. Porque durava quase o dia todo.

Para lá da Horta do Fouto havia toda a encosta norte do Vergancinho, cheia de matos e pinhais. E lobos. Logo da parte de cima havia um restolho que ia até alto do monte, que raramente era cultivado de trigo ou centeio. Ficava vários anos de pousio. Por isso tinha muita erva. Enquanto andávamos na horta as cabras subiam, monte acima, a pastar. Certo dia começou toda a gente a gritar e as cabras a fugir. Veio monte abaixo um lobo, abocanhou um cabrito pelo pescoço e desapareceu.

Tinha eu uns 4 ou 5 anos e a minha mãe punha a cesta do Mário (ainda bebé) debaixo da cerejeira e manda-me guardá-la.

- Daqui vês a horta e as cabras. Tomas conta do teu irmão. Vai olhando e vê se vês algum lobo que venha para as cabras ou para o teu irmão.

Naquele dia não vi. Devia estar a comer cerejas com pão sentado num dos ramos da cerejeira. Era o que mais gostava de fazer.

Quando ia guardar as cabras sozinho gostava muito de ir para esta horta. Havia cerejas e figos, quando era o tempo deles. Havia marmelos e maçãs. E havia lameiros onde as cabras ostavam de pastar.

Certo dia uma estava prenha. Quando se começou afazer escuro juntei-as todas mas essa não apareceu. Fui-me embora com as outras. À noite o meu pai deu pela falta pela.

- Não viste onde se meteu? Está-se mesmo a ver que se escondeu para parir e agora, por lá perdida, vai ser pasto dos lobos. Vamos lá!

Fomos todos de noite com candeias procurá-la. Lá estava na Horta do Fouto mas muito escondida no meio no mato, com o cabrito ao lado. O meu pai trouxe o cabrito às costas.

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publicado às 20:52



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