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Últimas lembranças de Cardigos

por António Tavares, em 03.05.17

Últimas lembranças de Cardigos

Nunca tivemos luz nem água canalizada no Casalinho. Quando no verão de 1965 o padre do Seminário veio visitar-me, além de convencer o meu pai a arranjar um quarto só para mim falou em arranjar uma casa de banho. Mas como?

Tinha-mos uma horta no cimo da aldeia, a que chamávamos quintal. Fazíamos culturas de inverno e de sequeiro e árvores de fruto. O meu pai tinha trabalhado a fazer mais fundo o poço do Sr. João Nunes, ali perto, que embora pouca, tinha alguma água. O meu pai convenceu-se a fazer também um poço no nosso quintal, um pouco mais acima. Andámos a fazer de vedor com uma vergôntea verde. Andamos a seguir velhas crenças nalguns tipos de plantas que indiciariam veios de água subterrânea, como fiadas de troviscos. E fizemos o poço.

Cavámos e furamos alguns metros (bastantes). Arrancamos rochas. Trazíamos para cima numa picota. Havia humidade. Água é que nada. O pai desistiu. E como os poços tinham que ser protegidos para evitar acidentes, o pai entendeu atulhá-lo novamente.

Lembrou-se depois que tínhamos um poço no Covão da Pouchana, na encosta de lá do Vergancinho. Estava num ponto mais alto que o quintal. Uns bons 2 quilómetros ou mais de distância. Construiu um tanque em tijolo e cimento. Comprou rolos de mangueira de plástico preto, estendeu-os pelos campos fora, pelo meio do mato. Ferrou a mangueira dentro do poço. Passamos a ter água no quintal, para a horta. Já podíamos cultivar hortaliças no verão, regadas com água a correr pelos próprios meios.

Só que o vale do Vergancinho é muito fundo. Na parte mais baixa a mangueira rebentava com frequência, quer pelo peso da água, quer pelo aquecimento no verão. Tinha que ser constantemente reparada.

A minha avó já tinha falecido e o meu pai pensou então em fazer uma casa de banho no quartito que era o dela. E fez. Ligou mais umas centenas de metros do tanque no quintal atá casa, passando por cima dos muros dos quintais dos vizinhos. A fossa era nas traseiras da casa, num terreno que era do meu padrinho, o Ti Virgílio. Ele tinha autorizado.

Já eu dormia sozinho naquilo que se chamava sala, quando uma noite tive um pesadelo que nunca esqueci. Fazia parte da doutrina dos padres falar do apocalipse, do fim do mundo, da altura de nos irmos juntar todos com Deus, etc. Não tinha sono. O tempo não passava e durante toda a noite fui assoberbado pelos pensamentos mais absurdos. Não ouvia nada. Barrulho nenhum. Só pensava: será que acabou o mundo e eu fiquei sozinho? Tinha 11 anos. Com os nervos até me borrei todo.

Nas férias de verão o meu padrinho perguntava se eu queria ganhar algum dinheiro. Disse que sim. Passei a ser eu a moer-lhe o milho. Ele tinha uma eira onde o juntava a secar. Depois de seco levava-o para dentro da casa da eira e eu, com a moeira, ia-o malhando. Isto demorava uns 2 ou 3 dias. Recebia 20$00 cada dia. Guardava o dinheiro para mim.

O meu pai foi dizer à minha mãe que não achava bem eu ter dinheiro. Se o queria ganhar tinha que o entregar a ele. Ele é que o geria. A mim nunca me disse directamente. Depois a minha mãe veio dizer-me. Passei a dar-lho a ele sempre que o recebia. Mas o gosto de moer o milho já não era o mesmo. Depois o Ti Virgílio comprou uma debulhadora de milho a motor. Só tinha que atirar, com a pá, as maçarocas de milho lá para dentro. Já era mais fácil.

O dinheiro sempre foi pouco. O pouco que havia vinha do trabalho do pai. Que não era regular, porque era necessário também fazer os trabalhos em casa e as sementeiras nas hortas. Também se vendiam os cabritos que houvesse, uns tempos antes do Natal.

Circulavam regularmente por aquelas aldeias pessoas com os mais variados fins: amoladores que punham garfos em vasos e pratos partidos e arranjavam chapéus-de-chuva, latoeiros que faziam, reparavam e vendiam vasilhas e instrumentos de lata, como funis e baldes e bilhas, sapateiros, vendedores disto e daquilo, compradores de peles de coelho e de cabritos, ciganos, etc.

O meu pai evitava servir-se daquela gente, sempre que possível. Ele remenda os sapatos, tão bem como se fosse sapateiro. Remendava os baldes, os alguidares e as tigelas de barro. Punha ele os gatos.

Como o Mário era mais novo que eu, mas mais forte, calçava mais ou menos o mesmo que eu, nos meus 10 anos. Então o pai comprou um para de botas novas para nós, os dois, usarmos ao domingo. Quem se levantasse primeiro é que as calçava. O outro tinha que ir com as botas velhas.

A minha mãe tinha problemas de saúde. Depois de ter tantos filhos tinha-lhe descaído o útero. Queixava-se ao médico em Cardigos (quando ele lá vinha). Aconselharam-na a ir ao Hospital a Abrantes para ser vista. O meu pai andava a juntar dinheiro para a levar lá fazer uns exames. Já tinha 500$00 de lado.

Certo dia passa pelo Casalinho um cigano a vender peças de tecido. A mãe ficou entusiasmada. Tinha alguns filhos a precisar de calças. Com os quinhentos escudos comprou um corte de tecido para calças. À noite ouviu o bom e o bonito do pai.

- Nunca mais te levo ao hospital.

E não levou. Mandou fazer calças para todos os filhos mais velhos. O problema é que depois parecíamos membros de uma fanfarra, todos com calças castanhas às riscas.

E alguns não gostavam.

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publicado às 19:52



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