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Viver Lisboa

por António Tavares, em 07.03.17

Viver Lisboa

O meu pai deu-me imensos conselhos quando vim para Lisboa. Disse que havia uma taberna na rua da Atalaia de um compadre da terra onde se comia bem. Cedo me habituei a escolher as melhores tascas na zona da baixa para comer.

Ia com frequência a uma taberna na rua de São José, mesmo ao lado da barbearia do António Variações (onde ainda cheguei a entrar) comer carapaus fritos com arroz de tomate. Era o prato mais barato que encontrei: 8$00.

Inscrevi-me na escola Luis de Camões na Rua da Palma, para tirar o 3º ciclo do Liceu, todo no mesmo ano (10º e 11º anos). Os 1.500$00 que ganhava eram repartidos pelo custo da pensão (500$00), pela escola (500$00) e os restantes 500$00 tinham que dar para comer e vestir durante todo o mês.

E o quarto da pensão era duplo. Então não é que me calhou um companheiro que era tão meu amigo que me levava ao cinema e por vezes a comer fora. Só quando me apercebi que os filmes onde me levava versavam geralmente sobre relações muito pessoais entre homens é que me apercebi das suas intensões. Não é que fossem muito realistas, porque a censura não permitia.

Fomos algumas vezes a um bar em São Mamede (O Luis) onde só havia homens. Achava piada.

Aconteceu também vir a ser amigo de um senhor que tinha um programa da Rádio Renascença das 3 às 6 da manhã. Vim a perceber mais tarde que também esse senhor era meio esquisito, quando me convidou para ir a uma festa onde nunca fui. Parece que os homens apenas podiam levar gravata e as senhoras lenços ao pescoço.

Mesmo assim fui ter com ele e com outros amigos, à Rádio Renascença, no Chiado, algumas vezes, para lhe fazer companhia pela noite fora.

Como o programa só começava às 3 da manhã tinha que ocupar o tempo até lá. Certa vez comprei uma garrafa de Macieira, levava-a embrulhada num jornal, desci a Rua Augusta e fui-me sentar nas escadas do terreiro do paço viradas para o tejo com a garrafa debaixo do braço. Eram 2 horas da manhã.

A certa altura viro-me para trás e estavam 2 polícias a olhar para mim.

- O que é que tem aí? Perguntaram.

Expliquei o melhor que pude a situação, mostrei a garrafa e deixaram-me em paz.

Saía da escola às 11 horas da noite. Subia a pé até ao Campo dos Mártires da Pátria. E até à 1 hora da manhã sentava-me no café Primavera a estudar. Quando estava bom tempo ainda fui muita vez estudar as lições para a relva daquele jardim, debaixo da luz de um candeeiro.

Enturmei-me com um grupo de amigos da zona. Nas noites de verão fomos muitas vezes fazer corridas de caracóis para o topo do parque Eduardo VII. Fazia-mos pistas paralelas com um giz. Só se podia tocar no caracol com um palito para o manter dentro da respetiva pista.

Os exames finais do 7º ano (final do 3º ciclo - atual 11º), fui faze-los ao liceu Pedro Nunes. Chumbei a matemática. Tive que me preparar durante todo o verão para o exame de segunda época em setembro. Ia com o grupo de amigos passar as tardes de domingo para a esplanada do alto do parque Eduardo VII. Enquanto eles bebiam imperais e ouviam os relatos do futebol, eu fazia todos os exercícios de matemática, do Palma Fernandes. Outras vezes íamos para as esplanadas de Algés.

Nesse grupo de amigos havia um que trabalhava nos Bombeiros Voluntário Lisbonenses, na Rua Camilo Castelo Branco. A mascote deles era um cão pastor alemão. Ia quase sempre connosco. Certo dia esse amigo deixou de propósito a trela do cão em cima da mesa. Alertou o empregado para que não lhe mexesse. Mas mostrou-a ao cão. Quando chegamos ao fundo do jardim já próximo da rotunda ele chama o cão, aponta-lhe com o dedo lá para cima e ordena-lhe: Vai buscar a trela! O cão desata a correr por ali a cima, galga por cima das sebes e em poucos minutos aparece, ofegante, com a trela na boca.

Enfim, tive muitas solicitações, mas sempre soube ocupar o meu lugar. O lugar que quis ocupar. Sempre soube dar bom uso aos conselhos do meu pai.

Carnaval.jpg

 Partida da Carnaval num dos quartos da pensão, 47 - 1º andar da Rua de Santa Marta em Lisboa

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publicado às 11:10



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