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Novo aerograma para Maria Clara

por António Tavares, em 07.03.17

Hoje, eu e a tua avó de Lisboa, estamos muito felizes.

Tens menos de 2 meses. Os teus pais acabaram de chegar contigo do médico e de nos informar que os problemas que surgiram aquando do teu nascimento estão definitivamente ultrapassados.

Eu sabia que eras uma vencedora.

Estiveste ontem lá em casa pela primeira vez para comemorar os 40 anos do teu pai.

Ficámos muito felizes.

Estamos a contar os dias para te poder levar a passear ao jardim e à Casa da Paria. Vais gostar muito.

Bruno pequenino.jpg

 Olha o teu pai com pouco mais que a tua idade e que ontem acabou de fazer 40 anos!

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publicado às 13:11

72 tangerinas

por António Tavares, em 07.03.17

72 tangerinas

Nas viagens de Cardigos para Vila Nova de Poiares e vice-versa parava sempre algumas horas em Coimbra para fazer o transbordo para outra carreira. Ia-mos em grupo e a partir de Coimbra cada um seguia o seu destino.

Junto à estação de Coimbra B havia uma senhora que vendia bananas dentro dum cesto. Foi lá que comi as minhas primeiras bananas. Comprava sempre só uma. E tenho ainda na lembrança o facto de por vezes gostar muito delas e outras quase que me davam vómitos. Percebi muito mais tarde que as que não gostava eram as que estavam muito maduras. Mas nunca tive coragem (por vergonha) de dizer à senhora que não as queria muito maduras. Ainda hoje só gosto de bananas verdes.

Quando vinha a Cardigos via Sertã, alguém tinha que me ir buscar com a carroça, ao cruzamento junto a Proença-a-Nova, porque eram muitos quilómetros até ao Casalinho. Quando vinha por Cardigos a carreira deixa-me mesmo na vila. Aí eu fazia o caminho a pé até ao Casalinho.

Quando era nas férias de Natal, pelo caminho passava junto aos terrenos que, pertencentes à Dona Natividade, eram cultivados pelo meu pai. E nessa altura havia muitas laranjas e tangerinas. Lembro-me de, um belo dia, me sentar em cima de uma tangerineira e comer tangerinas sem parar. E fui-as contando. Comi 72. E no final ainda enchi os bolsos para comer até casa.

Essa quinta tinha sido em tempos, para além de zona agrícola, uma zona de veraneio e diversão. Tinha ainda alguns vestígios desses tempos áureos, que me encantavam, por nunca ter visto nada assim: um pequeno chalé num ponto alto, no meio da vinha, com churrasco e tudo, as videiras à volta do chalé eram as mais doces (moscatel, penso eu agora), havia uma nora muito grande num poço muito fundo. A nora era puxada pela mula. Deitava água para um tanque muito grande e desse tanque a água irradiava por toda a horta.

Essa quinta foi dada ao meu pai para semear e usufruir podendo ficar com tudo. A dona da quinta apenas vinha buscar tudo o que precisasse para o seu consumo.

Havia algumas árvores interessantes, que não existiam nos nossos terrenos. Uma pereira enorme diferente de todas as que conhecia. Penso hoje que pode ter sido uma pereira de pera rocha. Havia ginjeiras cuja utilidade desconhecia, porque não se podiam comer. Havia muitas romãs à volta do poço da nora. Como eram grandes davam sombra à mula enquanto ela girava à volta da nora. Havia uma nespereira enorme. Havia cerejeiras, algumas delas de cerejas muito grandes.

O meu pai comprometeu-se a limpar a vinha das eras daninhas. Especialmente dos fetos porque crescem muito e abafam as videiras, para além de secar os terrenos, porque desenvolvem raízes subterrâneas enormes. E para erradicar os fetos era necessário arrancar essas raízes todas. Calhou-me a mim esta tarefa. Tinha 10 anos. Vinha da escola a meio da tarde, dirigia-me à quinta, pegava na enxada e cavava os fetos até o sol se pôr. Depressa o meu pai percebeu que era uma luta inglória.

Pais na carroça.jpg

 O Ti Zé Maria e a Dona Delfina (meus pais). Assim vestidos só podiam ir para a missa.

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publicado às 12:05

Viver Lisboa

por António Tavares, em 07.03.17

Viver Lisboa

O meu pai deu-me imensos conselhos quando vim para Lisboa. Disse que havia uma taberna na rua da Atalaia de um compadre da terra onde se comia bem. Cedo me habituei a escolher as melhores tascas na zona da baixa para comer.

Ia com frequência a uma taberna na rua de São José, mesmo ao lado da barbearia do António Variações (onde ainda cheguei a entrar) comer carapaus fritos com arroz de tomate. Era o prato mais barato que encontrei: 8$00.

Inscrevi-me na escola Luis de Camões na Rua da Palma, para tirar o 3º ciclo do Liceu, todo no mesmo ano (10º e 11º anos). Os 1.500$00 que ganhava eram repartidos pelo custo da pensão (500$00), pela escola (500$00) e os restantes 500$00 tinham que dar para comer e vestir durante todo o mês.

E o quarto da pensão era duplo. Então não é que me calhou um companheiro que era tão meu amigo que me levava ao cinema e por vezes a comer fora. Só quando me apercebi que os filmes onde me levava versavam geralmente sobre relações muito pessoais entre homens é que me apercebi das suas intensões. Não é que fossem muito realistas, porque a censura não permitia.

Fomos algumas vezes a um bar em São Mamede (O Luis) onde só havia homens. Achava piada.

Aconteceu também vir a ser amigo de um senhor que tinha um programa da Rádio Renascença das 3 às 6 da manhã. Vim a perceber mais tarde que também esse senhor era meio esquisito, quando me convidou para ir a uma festa onde nunca fui. Parece que os homens apenas podiam levar gravata e as senhoras lenços ao pescoço.

Mesmo assim fui ter com ele e com outros amigos, à Rádio Renascença, no Chiado, algumas vezes, para lhe fazer companhia pela noite fora.

Como o programa só começava às 3 da manhã tinha que ocupar o tempo até lá. Certa vez comprei uma garrafa de Macieira, levava-a embrulhada num jornal, desci a Rua Augusta e fui-me sentar nas escadas do terreiro do paço viradas para o tejo com a garrafa debaixo do braço. Eram 2 horas da manhã.

A certa altura viro-me para trás e estavam 2 polícias a olhar para mim.

- O que é que tem aí? Perguntaram.

Expliquei o melhor que pude a situação, mostrei a garrafa e deixaram-me em paz.

Saía da escola às 11 horas da noite. Subia a pé até ao Campo dos Mártires da Pátria. E até à 1 hora da manhã sentava-me no café Primavera a estudar. Quando estava bom tempo ainda fui muita vez estudar as lições para a relva daquele jardim, debaixo da luz de um candeeiro.

Enturmei-me com um grupo de amigos da zona. Nas noites de verão fomos muitas vezes fazer corridas de caracóis para o topo do parque Eduardo VII. Fazia-mos pistas paralelas com um giz. Só se podia tocar no caracol com um palito para o manter dentro da respetiva pista.

Os exames finais do 7º ano (final do 3º ciclo - atual 11º), fui faze-los ao liceu Pedro Nunes. Chumbei a matemática. Tive que me preparar durante todo o verão para o exame de segunda época em setembro. Ia com o grupo de amigos passar as tardes de domingo para a esplanada do alto do parque Eduardo VII. Enquanto eles bebiam imperais e ouviam os relatos do futebol, eu fazia todos os exercícios de matemática, do Palma Fernandes. Outras vezes íamos para as esplanadas de Algés.

Nesse grupo de amigos havia um que trabalhava nos Bombeiros Voluntário Lisbonenses, na Rua Camilo Castelo Branco. A mascote deles era um cão pastor alemão. Ia quase sempre connosco. Certo dia esse amigo deixou de propósito a trela do cão em cima da mesa. Alertou o empregado para que não lhe mexesse. Mas mostrou-a ao cão. Quando chegamos ao fundo do jardim já próximo da rotunda ele chama o cão, aponta-lhe com o dedo lá para cima e ordena-lhe: Vai buscar a trela! O cão desata a correr por ali a cima, galga por cima das sebes e em poucos minutos aparece, ofegante, com a trela na boca.

Enfim, tive muitas solicitações, mas sempre soube ocupar o meu lugar. O lugar que quis ocupar. Sempre soube dar bom uso aos conselhos do meu pai.

Carnaval.jpg

 Partida da Carnaval num dos quartos da pensão, 47 - 1º andar da Rua de Santa Marta em Lisboa

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publicado às 11:10

Despachante na Alfândega

por António Tavares, em 07.03.17

Despchante na Alfândega

Ser ajudante de despachante alfandegário era, na altura, dos empregos mais bem remunerados, para além da sensação de liberdade.

O despachante oficial era na prática o intermediário entre os importadores (ou exportadores) e o estado. Eles faziam a vistoria à mercadoria, calculavam os diretos e impostos a pagar ao estado, tratavam da documentação e da entrega da mercadoria ao dono ou da sua saída do país. Era uma classe muito fechada e que se auto protegia. Só podiam entrar para despachantes quem já tivesse alguns (muitos) anos de ajudante de despachante. E mesmo assim eram sujeitos a provas rígidas. E mesmo assim era preciso que a Direção Geral das Alfândegas abrisse concurso para isso. Na prática os grandes escritórios de despachantes (alguns com mais de 100 empregados) dominavam até a nomeação de novos despachantes, para manterem a sua posição dominante.

Normalmente os despachantes grandes (como o caso do meu patrão – tinha 85 empregados) tinham ajudantes especializados em cada tipo de transação: importação via marítima, via aérea, exportação, encomendas postais, combustíveis, etc. Eu estive quase sempre nas importações avulsas no Jardim do Tabaco, Alcântara, Xabregas os nas encomendas postais, na Rua da Palma.

Não havia computadores. Os despachos aduaneiros eram tratados em folhas de papel grosso, para aí com 40 por 60 cm, dobradas ao meio. Neste papel eram colados todos os documentos respeitantes à mercadoria. Qualquer pedido para alterar alguma coisa, prolongar prazos, ressalvar qualquer lapso, pedir nomeação de verificadores, etc. era exarado de forma sequencial no despacho e só podia ser assinado pelo próprio despachante oficial.

Mas estavam permanentemente na rua dezenas de ajudantes em várias partes de Lisboa. Era impraticável que sempre que fosse necessário uma rúbrica ele se deslocasse ao sítio ou que o despacho fosse levado ao escritório para ele assinar. A solução: criar uma rúbrica que todos soubessem imitar. E todos os ajudantes assinavam com a rúbrica do sr despachante.

E toda a gente sabia disso. Incluindo os próprios funcionários aduaneiros. Às vezes viam-nos escrever um pedido, sair da sala e voltar em menos de um minuto. Perguntavam:

- Já foste ai escritório para o patrão assinar?

- Não, fui só ali fora. Ele estava ali dentro do carro.

O mesmo acontecia quando o patrão estava de férias. Oficialmente para se ausentar ele teria que pedir primeiro na Alfândega para um dos seus ajudantes o substituir.

Mas ninguém levantava ondas. Os donos das mercadorias queriam era vê-las desalfandegadas mesmo que isso lhes custasse um pouco mais. Então era usual nós darmos 5$00 por cada intervenção de cada funcionário em cada despacho. Havia por exemplo um cuja missão era numerar os despachos. Com um carimbo de metal redondo a que regulava a data, com um cabo alto de madeira de onde saía um botão que ao ser pressionado mudava o número, ia molhando numa almofada e pumba… pumba… pumba… ia martelando em todas as páginas e documentos do despacho, pondo em todas o mesmo número. Esse funcionário ia anotando num cartão que tinha no bolso com riscos, o número de despachos que foi numerando de cada um dos despachantes. No fim do dia vinha ter connosco: foram 8. Lá iam 40$00. E muitas vezes deixavam amontoar de propósito, os despachos a numerar.

- ò sr Joaquim tenho aí um despacho há já algum tempo. Tenho muita pressa.

É que passar um despacho do fundo do monte para o cimo contava a dobrar, eram 10$00.

E cada despacho passava por mais de meia dúzia de funcionários, cada um com a sua missão específica.

Entravamos no escritório do Campo das Cebolas às nove horas. Se havia tarefas a fazer, fazíamos. Normalmente já tinha-mos os despachos para esse dia prontos de véspera. Levantávamos o dinheiro necessário na caixa e aí vamos nós, Lisboa fora. A maior parte dos dias nem vínhamos à hora de almoço.

No fim do dia nós fazíamos a conta a todo o dinheiro gasto. Juntávamos as nossas despesas de transporte e outras. Arredondávamos com uns pozinhos para nós e entregávamos os documentos de despesa.

Naquele tempo quase não havia contentores. As mercadorias vinham a granel amontoadas dentro dos porões dos navios. Uma das mercadorias que despachei dezenas de vezes foi amianto. Vinha em sacos às costas dos estivadores do navio para o armazém e eu tinha que estar ao pé deles para ir contando os sacos entrados.

No fim do dia andávamos a passear por cima de pó de amianto. E tínhamos que o varrer.

Por vezes as mercadorias eram especiais e nós pedíamos uma “descarga direta”. As caixas eram descarregadas diretamente para os meios de transporte e seguiam, acompanhadas com um Guarda Fiscal, para casa do cliente. Nós íamos depois às instalações do cliente fazer o “exame prévio”, verificar se estava tudo certo conforme a fatura. Com o despacho pronto tínhamos que levar lá o verificador aduaneiro.

Era assim com as caixas com peças para a Renault na Guarda onde eram montados os R6. Às vezes eram dezenas de vagões carregados. Ou postes para rede elétrica, dada a sua dimensão. Ou a montagem da fábrica completa de produção de gás de cidade, na zona da Matinha (hoje desativada).

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publicado às 10:00


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