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Tanta religiosidade

por António Tavares, em 07.04.17

 Tanta religiosidade

A D Julieta, secretária do meu patrão, adoptou-me quase como filho. Eu era ex-seminarista, certinho, bem comportado. Mas cedo se virou o feitiço.

Como estava a estudar, na altura dos exames metia uns dias de baixa. E ao fim da tarde lá ia eu de carro para o ISE (hoje ISEG). Certo dia reparo que atrás do meu carro seguia o dela, com o marido ao volante. Quando regressei ao trabalho fui repreendido pelo patrão. Que fora visto na rua estando de baixa. Que não podia.

Mas o patrão tinha essa dualidade de critérios: muito religioso mas castigava os empregados com dias de suspensão sem sequer os ouvir. Bastava uma queixa de uma chefia.

Constava-se que ele tinha bons relacionamentos com os serviços públicos. Chegava a pedir inspecções às finanças e quando os inspectores chegavam ao escritório, a primeira coisa que faziam era pedir aos funcionários os documentos de suporte do Imposto Complementar (antecessor do IRS).

Aconteceu-me a mim. Mostrei os documentos e no fim diz-me o inspector:

- Amanhã traga os documentos dos 2 últimos anos.

Respondi:

- Não trago. O senhor vem aqui para ver os documentos do escritório. Se quiser ver os meus vá a minha casa.

E não os trouxe, nem me incomodou mais.

O senhor Visconde era dono de elevadas posses. Havia comprado o título de Visconde por uma pipa de massa a um brasonado falido. O título incluía a quinta em Santarém. A família provém de um nobre francês que desembarcou em Lisboa no século dezassete e deu origem a um clã imenso que todos os anos se reúne com regularidade da casa mãe da família em Salvaterra de Magos.

Era dono (com outro sócio construtor) de um colégio em Odivelas. Quando o ministério da educação procurou um espaço para abrir um liceu na zona eles venderam. Pois ele doou a parte que recebeu à igreja de Odivelas.

Possuía lá no alto da Serra da Amoreira a quinta do castelo. Era mesmo uma espécie de castelo. Era lá que guardava o arquivo morto dos documentos do escritório. Eramos alguns de nós que lá íamos, de longe em longe, organizá-lo.

Quando em 1972 foi construído o Edifício Aviz na Av Fontes Pereira de Melo, ele e a sua família, compraram 2 andares completos.

Senhor de largos contactos informais com a igreja católica: opus dei, cursos de cristandade, associação cristã da mocidade, etc. Não admira que tenha comprado uma suite no Hotel Pax dos padres, em Fátima.

Nossa Sra da Ascensão é venerada num santuário na Atalaia, Montijo, do tempo da nacionalidade. É também venerada na Igreja da Conceição Velha na Rua da Alfândega, próximo do Campo das Cebolas. O telhado estava degradado? Não faz mal: o sr visconde custeia a sua recuperação.

É que esta santa também é conhecida como Senhora das Alfândegas. Pois o sr visconde custeia a sua festa. Não é feriado, mas o estado autoriza que se feche a alfândega, nesse dia, que se reze uma missa para quem quiser assistir e um almoço na antiga FIL na junqueira.

Mas no escritório do beato sr Visconde, quem não for à missa e ao almoço, tem que ficar a trabalhar no escritório. Não sai para a rua porque os serviços da alfândega estão fechados. Mas fica a pôr os papéis em ordem. Coordenados por quem? Pela D Julieta, sua secretária.

Esta senhora, feia como um trambolho, sonhou um dia casar com um irmão dos patrões. Parece que no dia a seguir ao casamento dele casou com o primeiro que apanhou na rua (era o que se dizia). Mas dizia dele que era a pessoa mais custa que conhecia. Assinava todas as revistas de automóveis que existiam.

Estes senhores sobrevoaram uma vez de helicóptero a zona de Albufeira para fazer um investimento imobiliário. Compraram terrenos na zona da Balaia onde construiram empreendimentos imobiliários. Parece que com a ajuda de um tio que fora presidente da câmara de Oeiras (na altura da criação da clandestina Brandoa). Nesta altura esse tio estava ao serviço de Salazar no SNI - Serviço Nacional de Informação, que funcionava no palácio foz.

Logo após o 25 de Abril o sr visconde mandou uma das filhas e o genro para o Canadá, ou que se dizia para esconder alguns bens valiosos da família. Porque fomos nós que tratamos do despacho alfandegário dos muitos caixotes despachados para navios no porto de Lisboa.

No verão quente de 1975, já o tio havia sido saneado e o sobrinho arranjara-lhe um espaço lá no escritório. Certo dia entraram por ali dentro os fuzileiros e levaram-no preso.

Costumo dizer que não consigo fazer mal a ninguém. Mas essa D Julieta era uma das poucas pessoas a quem seria capaz de fazer mal.

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publicado às 10:22

Inspecção para a tropa

por António Tavares, em 07.04.17

Inspecção militar

Estava eu já em Lisboa a trabalhar quando o patrão me pediu para entregar o certificado de habilitações do liceu, para poder tirar a cédula de Ajudante de Despachante. Não tinha. Tinha feito os exames no liceu de Leiria mas nunca me tinha passado pela cabeça pedir o certificado.

Nesse ano de 1968 (ano da minha maioridade – 18 anos) tinha arranjado o primeiro emprego e a minha mãe tinha dado o meu nome para a tropa.

Tive que pedir um dia no trabalho para me deslocar a Leiria para pedir o certificado do 5º ano. Apanhei o comboio da linha do Oeste na estação do Rossio e aí vou eu. Cheguei a Leiria já passava das 11 horas. Entre descobrir como chegar ao liceu, andar a pé e apanhar a carreira, cheguei mesmo a tempo antes de fechar para o almoço.

Entreguei o requerimento, paguei e dizem-me assim:

- Agora venha cá daqui a 8 dias buscar o certificado.

Passei-me. Fiz uma birra daquelas. Exigi falar com o director. Recusei-me a abandonar as instalações.

- Oiçam: peço um dia no trabalho em Lisboa, chego aqui a estas horas e ainda me exigem que tenha que pedir novo dia de folga para a semana que vem para cá vir buscar o certificado? Ainda por cima eu sem ele não posso trabalhar porque não me dão a cédula profissional! Não saio daqui  sem levar o certificado.

Sentei-me nas escadas. Quando o director ia a sair para almoçar disse-me:

- Vá lá almoçar e passe às 3 horas para buscar o certificado.

Vitória! Mesmo assim foi à justa que apanhei o último comboio para Lisboa.

Dois anos depois fui chamado para a inspecção militar. Lá tive que pedir um novo dia de folga para ir à inspecção em Abrantes.

Lembro-me dos meus tempos de primária quando os mancebos chegavam a Cardigos em grupos vindos da inspecção militar: os que ficavam apurados compravam um foguete e lançavam-no na praça pública. Toda a gente tinha que ficar a saber da sua saúde e vigor físico. Mesmo sabendo que era a porta aberta para ir parar com os costadas à guerra de África. Os que ficavam excluídos vinham tristes e acabrunhados. Triste ironia.

No meu caso fui sozinho de comboio. Claro que fiquei apurado e só me ficou a recordação do almoço numa tasca do Rossio ao Sul do Tejo: peixinhos do rio fritos com arroz.

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publicado às 10:18


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