Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Produzir o que comer

por António Tavares, em 12.04.17

Produzir o que comer

Só se vendia pão em Cardigos. Daquele pão branco, fino e fofo. Papo-secos e pão de quilo. A D Maria, nossa vizinha do lado, gente fina, viúva e mãe da D Alcina, professora primária na Concavada, só comia desse pão. Um de nós ia a Cardigos todos os dias comprar um quilo de pão.

Cada pão pesava sempre menos de 1 quilo. Então o padeiro cortava uma fatia de outro para fazer o quilo certo. Era o contrapeso. Eu oferecia-me sempre para lá ir porque ela dava-me sempre o contrapeso.

Quando a D Alice e o marido vinham passar alguns dias de férias ao Casalinho traziam sempre um saco cheio de papo-secos que distribuíam por nós. Era como se fosse uma guloseima.

O Manel era um perito em apanhar passarinhos. Normalmente durante o verão. Tínhamos algumas centenas de armadilhas de arame (nós chamávamos-lhe costelas). Arranjávamos uma beterraba bem grande, escavávamos por dentro para a fazer oca e arranjamos-lhe uma tampa. Atávamos-lhe um cordel para poder levar ao ombro. Escavávamos os ninhos de uma determinada formiga grande, apanhávamos as formigas de asa e enchíamos a beterraba delas. Elas mantinham-se bem lá dentro por estar fresco e porque iam comendo a beterraba.

Cada formiga de asa era montada numa armadilha de modo a que não se soltasse e que pudesse bater livremente as asas.

Saíamos aos domingos ainda de noite para montar as armadilhas. Tinham que estar montadas antes de o sol nascer e para nos anteciparmos a que outros ocupassem a melhor zona. Havia um acordo tácito: quem chegasse e topasse que na zona já havia armadilhas, seguia para outra zona.

Ao nascer do sol os pássaros saiam para comer, eram atraídos pelo bater das asas da formiga e eram apanhados pelas armadilhas.

Vínhamos a casa dormir um pouco.

Cerca das 11 horas era altura de fazer o mesmo percurso a apanhar as armadilhas e os pássaros presos. O Manel tinha dias de apanhar mais de 100. Normalmente apanhávamos galegos, piscos e felosas. Estes 2 últimos eram os mais saborosos por serem mais gordinhos. Os piscos comiam figos e bagas, as felosas comiam só bagas. Os galegos viviam nos pinhais e comiam insetos. Normalmente eram mais magros. Por vezes apanhávamos carriças e megengras. Estes eram muito pequenos e eram deitados fora. Às vezes as armadilhas desapareciam. Tínhamos que procurar nas redondezas. Quando eles ficavam presos apenas pelas patas arrastavam-nas. A alegria maior era quando ficavam presos pássaros maiores: melros, gaios e até rolas. Mesmos presos conseguiam arrastar as armadilhas para bem longe. Estes normalmente ainda estavam vivos. Tínhamos que lhe apertar o bico até que morressem.

Durante a tarde íamos depená-los. A mãe fitava-os e era um petisco.

Mas quando lá estava a D Alcina de férias eles compravam-nos todos (já depenados) por 5 escudos cada um. Ficávamos sem o petisco.

Quando o Manel deixou de montar as armadilhas comecei eu. Tentei aprender com ele mas não consegui. Apanhava sempre só 1 ou 2. Às vezes ainda os depenava e ia oferecer à D Alcina apenas 1 pássaro. Ela por vergonha não dizia que não e dava-me os 5 escudos.

Semeávamos milho nas hortas onde havia água. Antes de termos o motor para tirar a água dos poços tínhamos que utilizar as picotas. Um instrumento feito com 2 paus. Um pau grande suspenso no ar por outro colocado a meio. Numa das pontas do pau grande estavam presas pedras a fazer peso. Na outra ponta estava uma vara comprida da qual pendia um balde de lata. Tínhamos que fazer força para fazer descer o balde até água. Depois de cheio o peso das pedras fazia-o subir.

Depois a água corria por um rego e era encaminhada cavando com um sacho para as diferentes leiras do milho.

Normalmente o milho era cultivado na horta das macieiras por ser a que tinha melhor terra e mais água.

A mãe ficava em casa, o pai ia trabalhar e nós íamos regar o milho. Certo dia o Manel chamou pelo Mário. Ninguém o tinha visto. Não sabíamos onde estava. Quando nos abeiramos no poço eu tinha caído lá para dentro. Tinha vindo acima e conseguiu agarrar-se às pedras da parede. Estava tão assustado que não conseguia dizer nada.

- Não te mexas. Já vamos tirar-te daí

Mas a água estava uns 2 ou 3 metros abaixo. Lá conseguimos agarrar-nos uns aos outros e o Manel foi descendo pela parede até pegar na mão do Mário e puxá-lo para fora.

Éramos todos miúdos.

Tínhamos hortas dispersas por vários sítios: Cardosa, Horta do Fouto, Cabril, Covão da Pouchana, Covão do Rocinho, Pereiro e mais algumas.

No verão todas tinham que ser regadas pelo mesmo processo. Quando não era através de leiras era com um instrumento da madeira que tinha na ponta uma espécie de bacia. A água era despejada da picota, corria pelo rego para um buraco largo no chão e com esse instrumento era atirada para cima das hortaliças.

A rega tinha que se repetir de 3 em 3 sóis. Isto é, se uma horta era regada segunda-feira de manhã, tinha que voltar a ser regada na quarta-feira de manhã. Já tinha apanhado o sol da tarde de segunda, o sol da manhã de terça e o sol da tarde de terça.

Mais tarde o meu pai comprou uma moto-bomba a petróleo. Aí nós fazíamos o percurso entre as hortas na carroça: tínhamos que levar o motor, as mangueiras e todos os instrumentos necessários.

No regresso sempre se traziam hortaliças, frutas, lenha e sacas de pinhas.

Semeávamos também trigo e centeio.

Os cereais eram levados para a eira. O milho era descamisado à mão. Depois todos os cereais eram malhados com o mangual (nós chamávamos-lhe moueira): instrumento de madeira feito com 2 paus de diferentes tamanhos unidos por 2 ligações de couro. O maior era onde se pegava para bater com o mais pequeno no cereal. O mais pequeno era mais grosso, pesado e mais rijo. Era o que batia no ceral e por isso ter que ser mais duro.

Para ajudar até a mula era passeada largas horas por cima do cereal estendido na eira. Ajudava com as patas a debulhar o trigo.

Quando o meu pai passou a tratar a quinta da D Natividade passou a produzir muito mais milho. Tínhamos a nora puxada pela mula. Tínhamos muito mais água e era mais fácil o seu cultivo. Passávamos um dia inteiro a descamisar o milho e não conseguíamos levá-lo para casa no mesmo dia. Dormíamos em cima do milho enrolados em cobertores para não o deixarmos roubar.

Mais tarde passaram a percorrer as aldeias debulhadoras mecânicas que vinham puxadas com tratores para debulhar o trigo e o centeio. Era um dia de festa porque toda a aldeia se reunia para ajudar. As pessoas iam ceifando e juntando cada família na sua meda, junto da eira. No dia combinado nós íamos esperar a debulhadora à estrada. Porque o caminho daí até à eira era de terra, esburacado, com altos e baixo e nós adorávamos ver as manobras que o trator fazia para levar aquela maquineta tão grande até à eira.

Num dia de trabalho todo os cereais eram todos debulhados. O trator voltava a levar a debulhadora para a aldeia seguinte e o dono dela, numa carrinha, levava a paga: os sacos da maquia. 10 alqueires para o dono do trigo, 1 alqueire para o dono da máquina.

Uma vez numa aldeia próxima, estava já todo o cereal arrumado na eira à espera da debulhadora, aconteceu um incêndio. Toda a aldeia perdeu o pão para esse ano. Moveram-se influências e vieram cereais de ajudas, dizia-se que do estrangeiro. Sei que as pessoas se queixavam que o pão era diferente, que não tinha o mesmo sabor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:43

A rifa do carneiro

por António Tavares, em 12.04.17

A rifa do carneiro

Na minha meninice toda a área em volta das aldeias de Cardigos estava completamente tapada por pinhais. Como os pinhais eram fechados o mato quase não crescia por entre eles. E o mato que crescia era cortado todos os anos, quer para a cama dos gados, quer para fazer estrume. Até mesmo as carumas dos pinheiros eram rapadas e apanhadas para o mesmo efeito. Logo quase não havia fogos. E quando havia eram apagados pelo povo de modo fácil.

Nas zonas onde não havia pinhal os terrenos eram depois lavrados para semear trigo e centeio. Ao fim de 2 anos de sementeira arroteava-se mais um bocado de terreno e deixava-se aquele de pousio.

Os pinhais eram uma reserva de valor. Quando se precisava de dinheiro vendiam-se alguns. E havia muitas serrações de madeiras na zona. Algumas tinham mesmo produção de vários artefactos de madeira como paletes e caixa para a fruta.

Para além disso os pinheiros eram sangrados para darem resina. Andávamos pelos campos com bidões às cotas a apanhar a resina dos copos para depois despejar para outros bidões maiores colocados à beira dos caminhos. De longe a longe passava o camião para os recolher. Colocavam-se 2 troncos grandes e os bidões eram rebolados por eles acima.

Na rua do Casalinho cada habitante era “dono” do pedaço de rua que ficava à frente da sua casa. A rua era escavada e rebaixada e era cheia de mato. Com o passar das carroças, com a chuva e com os despejos das águas de lavagem, em pouco tempo o mato passava a estrume e era levado para as hortas. O meu pai chegou mesmo a comprar matos em cabeços bem distantes e ia lá buscá-lo, porque ali ao pé já não havia nada. Chegou até a fazer a mesma “cama” de mato em caminhos dispersos pelos campos fora. Nas noites quentes de Agosto dormíamos por vezes na rua em cima da cama do mato fresco.

Os pinhais eram tão fechados que as aldeias não se viam umas das outras. Agora, quando lá vamos, do alto da serra da Melriça vêem-se todas as aldeias, uma a uma.

Lembro-me uma vez de aparecer uma luz de noite por meio dos pinhais. Aparecia e desaparecia. Tremeluzia. O meu pai brincava connosco dizendo que era uma bruxa. Que não fossemos para lá de noite.

Uma vez desafiei o Manel para irmos por ali fora ver se descobríamos de onde vinha a luz. Quando chegávamos a um ponto alto a luz passava para o monte alto a seguir. Fomos andando até que, ao chegar a um ponto bem alto, verificamos por fim ela vinha de bem longe. De Cernache do Bonjardim a muitas dezenas de quilómetros. Era a luz que iluminava a entrada dos autocarros do Claras. E como estava no cimo dum poste muito alto via-se muito bem de bem longe.

O Manel era o mais velho e eu gostava de o acompanhar quando havia festas no verão. Certo dia fomos a uma festa no Azinhal. A uns 5 ou 6 quilómetros. Por lá andamos até depois da mia noite. Havia rifas para um carneiro. O Manel comprou uma. Lá pela noite dentro veio o Ti Virgílio, meu padrinho, acordar-nos. Que tinham telefonado para casa dele (era o único que tinha telefone na aldeia) a dizer que o carneiro tinha saído ao Manel e que ele tinha que o ir lá buscar.

- Para que é que eu quero agora um carneiro?

Mas lá fomos. Era domingo. Chegados lá diz a Manel para os organizadores:

- Sabem uma coisa? Dou o carneiro para a festa. Amanhã faz-se mais um dia de festa, mata-se carneiro e comemos todos.

E assim foi. Na noite seguinte eu e o Manel fomos os reis da festa.

Mesmo assim ainda me lembro de ver grandes incêndios, mas muito ao longe. Era longe mas de noite o clarão no ar assustava. Umas vezes era para lá da Amêndoa, para os lados de Ferreira do Zêzere, outras para norte para a zona de Oleiros e da Serra do Moradal. Nessas noites nem dormíamos com medo, embora fosse a muitos quilómetros de distância.

De vez em quando ouvíamos rebentamentos. Pareciam bombas. Era quando o fogo chegava aos bidões cheios de resina, junto dos caminhos. Cada vez que rebentavam lá espalhavam mais fogo.

Hoje na zona já não se colhe a resina, não há pinheiros grandes e o mato cobre a maior parte do terreno.

Cortar o mato tinha ainda outra vantagem: quando começava a rebentar aqueles rebentos tenros eram um petisco para as cabras. De tal maneira que a minha mãe lembrava-me sempre para não levar as cabras para aqui, ou para ali, porque as carquejas do Ti Virgílio estavam a rebentar e ele podia ficar chateado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:37

Papa Paulo VI e o pijama sujo

por António Tavares, em 11.04.17

Papa Paulo VI e o pijama sujo

Enquanto estava no seminário de Fátima tive conhecimento que o Mário tinha seguido as minhas pisadas e tinha ido para o seminário de Poiares. Mas o internamento no seminário também tinha os seus custos. Não fazia mal: a D Natividade ofereceu-se para ajudar também nas despesas do Mário:

- Já que sou madrinha de um futuro padre, posso ser madrinha de dois.

Mas a sua irrequietude levou-o a deixar o seminário cedo. Conseguiu que o pai o deixasse ir estudar para o Liceu de Castelo Branco. Foi morar para casa de pessoas da família da minha mãe.

A vida no seminário de Fátima deixou-me poucas recordações, mesmo tendo feito lá a transição da juventude (15 ao 17 anos). Cedo me apercebi que não era aquilo que queria. Apercebi-me que os estudos do seminário não eram reconhecidos oficialmente. Logo se me visse embora sem mais nem menos, tinha perdido todo o tempo que lá tinha passado.

Solução? Aguentar até fazer o 2º ciclo (antigo 5º ano) e convencer os padres a deixarem-me ir a Leiria fazer os exames oficiais no Liceu. Eles nunca foram pessoas de cortar os pés a ninguém e tal como eu havia mais rapazes nas mesmas condições.

Os padres levavam-nos em grupos. Lembro-me que fui muitas vezes num DKW de 2 tempos.

Mas não podíamos fazer os exames do 2º ciclo sem fazer antes os do 1º ciclo. Como só me lembrei disto enquanto decorriam as aulas do 5º ano, se fizesse os exames de cada ciclo em anos separados, perdia um ano.

Solução? Pedir oficialmente para fazer os exames dos 2 ciclos no mesmo ano. Fizemos em Junho os exames do 1º ciclo e em Julho os do 2º ciclo, sendo que as notas deste ficavam dependentes da aprovação do primeiro.

1º ciclo: passei a todas as disciplinas. 2º ciclo: negativa a matemática mas aprovação na oral. Já tinha o passaporte para me ir embora.

Mas não é que a vida no seminário fosse má. Não havia pressões nem abusos. Apenas a rotina. E passeava-se muito.

De carreira fomos à Nazaré, Batalha, Alcobaça, Tocha e Mira, Lousã, Aveiro, Tomar, Figueira da Foz, etc. A pé percorremos todas as terras das redondezas. Costumávamos ir para a Serra de Aires passar as tardes mornas de verão. Havia por lá uns redis de cabras abandonados. Pequenas zonas de pinheiros muradas onde os pastores, noutros tempos, guardavam as ovelhas e as cabras.

Por ali ficávamos a ler, conversar e dormitar. Cada um escolhia um canto e acomodava-o à sua moda. Lembro-me de ter feito um muro num canto. Revesti o chão com ervas e palhas, fiz um banco. Era a minha casa. Sempre que lá voltávamos íamos acrescentando alguma coisa.

Havia na zona um buraco no chão entre 2 penedos para onde atirávamos pedras pequenas e ouvíamos elas rolarem durante largos minutos. Era uma das famosas grutas da Serra de Aire. Estas foram depois abertas ao público.

Havia muitas na zona. E um padre mais aventureiro convidou quem quisesse para ir com ele fazer uma exploração de espeleologia. Eu fui. A gruta não tinha acesso embora já tivesse sido explorada. Descia-se um primeiro poço por entre pedras escorregadias, passava-se de lado por uma zona estreita entre pedras, descia-se um segundo poço através de cordas. Daqui não passei. É que o passo seguinte era passar rastejando por uma abertura no fundo do poço, com apenas 30 ou 40 centímetro de altura. Achei que para mim já chegava.

Fomos outra vez a pé até à lagoa de Minde. É uma lagoa que enche com as chuvas de Inverno e alaga campos agrícolas, mas à medida que vem a primavera e o verão a água vai recuando sendo engolida pela serra para sair nas nascentes do rio Alviela. À medida que a água ia recuando ficavam prados de erva fofa onde íamos correr e jogar à bola. Reparamos que andava um coelho aos ziguezagues por meio das videiras. Corremos a envolve-lo e ele deixou-se apanhar. Quando o soltamos ele correu sempre a direito até chocar com um muro de pedras. Percebemos que estava cego. A parvoíce deu-nos para isso: voltar a apanhá-lo e soltá-lo virado para o muro. Tanto bateu com a cabeça que morreu.

Em grupos de 25 de cada vez fomos levados a subir a torre da basílica. Estive por 3 vezes dentro da coroa que encima a torre.

Os jogos eram uma forma de libertarmos tensões e criar empatias. Tínhamos campos de futebol, andebol e basquete. Formávamos equipas e torneios. Fizemos mesmo um torneio olímpico com várias provas de atletismo. E os melhores recebiam medalhas e subiam ao pódio. Fazíamos torneios de futebol contra equipas de outros seminários.

Mesmo sem questões de disciplina e de os padres serem acessíveis e conversadores, eu nunca senti neles amigos para poder confiar problemas de auto-estima ou de personalidade. Tive que ser eu mesmo a moldar-me a mim próprio. Sozinho.

Lembro-me uma vez de acordar todo borracho. Tinha o pijama todo sujo. Sem saber o que fazer levantei-me mais cedo sem fazer barulho, fui à casa de banho, limpei-me e tentei limpar as calças do pijama. Não consegui. Enrolei-o bem enrolado, subi as escadas do sótão e fui metê-lo num canto muito escondido mesmo junto das telhas. Lá ficou muito tempo.

Assisti em 1967 à visita do papa Paulo VI. Tal como em todos os dias 13 de Maio, também nesse fomos todos dormir para o sótão, em cima de colchões de espuma espalhados pelo chão. As nossas camaratas eram alugadas para os peregrinos dormir.

Desta vez lembrei-me das calças do pijama. Lá estavam elas amarrotadas no canto. E duras de tão secas estavam. Levei-as e consegui limpá-las porque a porcaria estava tão seca que caiu.

Calvário Hungaro.jpg

Em Fátima no terraço do Cálvário Hungaro, construido nos anos 60 por católicos fugidos da Hungria depois da invasão comunista da URSS de 1956. Eu, como sempre, no ponto mais alto.

Fátima.jpg

O grupo de colegas de turma, num dos páteos do seminário de Fátima.

Nazaré.jpg

Num dos passeios ao Sítio da Nazaré.

Tocha.jpg

Na lagoa de Tocha. Eu lá em cima.

São Jorge.jpg

Num passeio em São Jorge - campo da batalha de Aljubarrota

Torneio Olimpico.jpg

A minha equipa no Torneio Olímpico. Devemos ter ganho, dada a dimensão do guarda-redes.

Lá atrás o palanque das medalhas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:51

As raparigas da casa das freiras

por António Tavares, em 08.04.17

As raparigas da casa das freiras

Na rua de Santa Marta, mesmo ao lado da pensão onde morava, existia na altura a velha igreja do Sagrado Coração de Jesus. Como estava muito degradada foi decidido construir uma nova, ultramoderna, que se localiza perto, na rua Camilo Castelo Branco. Nos anos 60 e 70 assisti a toda a construção

Mas foi nos cafés da zona (stª Marta, Singapura, etc.) e levado por colegas da pensão (alguns também ex-seminaristas) que acabei por me enturmar com grupos de rapazes e raparigas da zona, alguns dos quais cantavam no coro da velha igreja.

A essa igreja vinham também à missa as raparigas de uma casa de freiras da Rua Alexandre Herculano. Algumas passaram a fazer parte do coro e do nosso grupo de amizades.

Podiam conviver connosco em passeios até Sintra e Algés, em jogos de futebol que fazíamos no colégio dos Maristas e nos campos do seminário no Cacém.

Mas para saírem à noite tinha que um de nós ir em delegação pedir autorização à madre superiora. E mesmo assim tínhamos que entregar as meninas, sãs e salvas, antes das dez da noite.

Foi assim que conseguimos fazer um passeio de dois dias à Serra da Estrela. Alugamos um autocarro, contactamos uma casa de freiras em Castelo Branco para nos garantir que davam alojamento às meninas por uma noite e tivemos que provar isso, por escrito, à madre superiora. Nós, os rapazes, passamos a noite na rua em vadiagem. E dormimos as últimas horas nos bancos do autocarro.

Ainda me encontrei com o Mário num café de Castelo Branco. Ele estudava lá no Liceu. Morava em casa de umas primas da mãe, da Roda.

Castelo Branco.jpg

 Eu e o Mário num café de Catelo Branco

No segundo dia apenas conseguimos ir até aos Piornos porque o motorista disse que não havia tempo para ir mais acima. Mesmo assim chegamos a Lisboa muito depois das dez da noite. E não havia telemóveis. Foi o bom e o bonito com a madre superiora.

Alguns elementos do nosso grupo moravam mesmo longe. O Jorge morava na Reboleira e trabalhava no C. Santos. Os avós dele moravam numa aldeia de Ferreira do Zêzere, junto da barragem do Castelo de Bode. Um dia alugamos os dois um mini e fomos lá passar o fim de semana com a promessa de um mergulho na barragem. Ia morrendo. Vestido com fato de banho corro pela rampa, salto para a plataforma flutuante assente em bidões e mergulho. Habituado a nadar nas praias da linha esqueci-me que era água doce. Devo ter descido imenso. Na subida abro os olhos, vejo luz, penso que estou fora de água, vou para respirar e inspiro água… felizmente estava um barco perto. Agarro-me e estive largos minutos aflito.

Castelo de Bode.jpg

Eu na plataforma flutuante da barragem do Castelo de Bode

Em grupos de 2 ou 3 fomos várias vezes acampar para a arriba da Costa da Caparica. No tempo em que bastava arrastar os pés na areia para encher um saco com 1 ou 2 quilos de cadelinhas. Das verdadeiras. Fazíamos uma fogueira e era o nosso almoço. Também aí apanhei alguns sustos. Com a mania que sabia nadar, fui apanhado algumas vezes pelos agueiros da praia.

O António Carlos morava na mesma rua numas águas furtadas. Em frente à sua janela passavam os 2 fios do telefone de um vizinho. Na altura os fios eram descarnados. Ele arranjou um telefone possivelmente de uma cabine pública. Com uma pinça em cada fio, tínhamos telefone de borla.

Nós, os rapazes, tornamo-nos protectores das meninas. Havia duas irmãs que moravam perto e que nos pediam, de vez em quando, para ir buscar o pai delas, perdido de bêbado numa das tabernas da zona. Lá íamos 2 de nós pegar nele, um de cada lado e levá-lo a casa.

Conseguimos aprovação das freiras para criar um rancho folclórico que treinava e actuava aos domingos no salão dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, na Rua camilo Castelo Branco. Como a maioria de nós era da Beira Baixa, foi nas tradições de lá que nos inspiramos:

Ó Castelo Branco, Castelo Branco

Mirando o cimo da serra, ai mirando o cimo da serra

Quem nasceu lá p’ra Castelo Branco

Não é feliz noutra terra, ai não é feliz noutra terra.

Eu nasci na beira, sou homem pequeno

Sou como o granito, bem rijo e moreno

Quem nasceu na beira, não tem falsidade

Só na sua terra se sente à vontade …

Grupo de Lisboa.jpg

O grupo de amigos da Rua de Sta Marta - 1970

Rancho1.jpg

Exibição do rancho - 1970

Futebol no Cacém.jpg

Jogo de futebol no Cacém - com médico e enfermeiro ...1970

Intervalo do futebol.jpg

No inervalo do futebol

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:16

Tanta religiosidade

por António Tavares, em 07.04.17

 Tanta religiosidade

A D Julieta, secretária do meu patrão, adoptou-me quase como filho. Eu era ex-seminarista, certinho, bem comportado. Mas cedo se virou o feitiço.

Como estava a estudar, na altura dos exames metia uns dias de baixa. E ao fim da tarde lá ia eu de carro para o ISE (hoje ISEG). Certo dia reparo que atrás do meu carro seguia o dela, com o marido ao volante. Quando regressei ao trabalho fui repreendido pelo patrão. Que fora visto na rua estando de baixa. Que não podia.

Mas o patrão tinha essa dualidade de critérios: muito religioso mas castigava os empregados com dias de suspensão sem sequer os ouvir. Bastava uma queixa de uma chefia.

Constava-se que ele tinha bons relacionamentos com os serviços públicos. Chegava a pedir inspecções às finanças e quando os inspectores chegavam ao escritório, a primeira coisa que faziam era pedir aos funcionários os documentos de suporte do Imposto Complementar (antecessor do IRS).

Aconteceu-me a mim. Mostrei os documentos e no fim diz-me o inspector:

- Amanhã traga os documentos dos 2 últimos anos.

Respondi:

- Não trago. O senhor vem aqui para ver os documentos do escritório. Se quiser ver os meus vá a minha casa.

E não os trouxe, nem me incomodou mais.

O senhor Visconde era dono de elevadas posses. Havia comprado o título de Visconde por uma pipa de massa a um brasonado falido. O título incluía a quinta em Santarém. A família provém de um nobre francês que desembarcou em Lisboa no século dezassete e deu origem a um clã imenso que todos os anos se reúne com regularidade da casa mãe da família em Salvaterra de Magos.

Era dono (com outro sócio construtor) de um colégio em Odivelas. Quando o ministério da educação procurou um espaço para abrir um liceu na zona eles venderam. Pois ele doou a parte que recebeu à igreja de Odivelas.

Possuía lá no alto da Serra da Amoreira a quinta do castelo. Era mesmo uma espécie de castelo. Era lá que guardava o arquivo morto dos documentos do escritório. Eramos alguns de nós que lá íamos, de longe em longe, organizá-lo.

Quando em 1972 foi construído o Edifício Aviz na Av Fontes Pereira de Melo, ele e a sua família, compraram 2 andares completos.

Senhor de largos contactos informais com a igreja católica: opus dei, cursos de cristandade, associação cristã da mocidade, etc. Não admira que tenha comprado uma suite no Hotel Pax dos padres, em Fátima.

Nossa Sra da Ascensão é venerada num santuário na Atalaia, Montijo, do tempo da nacionalidade. É também venerada na Igreja da Conceição Velha na Rua da Alfândega, próximo do Campo das Cebolas. O telhado estava degradado? Não faz mal: o sr visconde custeia a sua recuperação.

É que esta santa também é conhecida como Senhora das Alfândegas. Pois o sr visconde custeia a sua festa. Não é feriado, mas o estado autoriza que se feche a alfândega, nesse dia, que se reze uma missa para quem quiser assistir e um almoço na antiga FIL na junqueira.

Mas no escritório do beato sr Visconde, quem não for à missa e ao almoço, tem que ficar a trabalhar no escritório. Não sai para a rua porque os serviços da alfândega estão fechados. Mas fica a pôr os papéis em ordem. Coordenados por quem? Pela D Julieta, sua secretária.

Esta senhora, feia como um trambolho, sonhou um dia casar com um irmão dos patrões. Parece que no dia a seguir ao casamento dele casou com o primeiro que apanhou na rua (era o que se dizia). Mas dizia dele que era a pessoa mais custa que conhecia. Assinava todas as revistas de automóveis que existiam.

Estes senhores sobrevoaram uma vez de helicóptero a zona de Albufeira para fazer um investimento imobiliário. Compraram terrenos na zona da Balaia onde construiram empreendimentos imobiliários. Parece que com a ajuda de um tio que fora presidente da câmara de Oeiras (na altura da criação da clandestina Brandoa). Nesta altura esse tio estava ao serviço de Salazar no SNI - Serviço Nacional de Informação, que funcionava no palácio foz.

Logo após o 25 de Abril o sr visconde mandou uma das filhas e o genro para o Canadá, ou que se dizia para esconder alguns bens valiosos da família. Porque fomos nós que tratamos do despacho alfandegário dos muitos caixotes despachados para navios no porto de Lisboa.

No verão quente de 1975, já o tio havia sido saneado e o sobrinho arranjara-lhe um espaço lá no escritório. Certo dia entraram por ali dentro os fuzileiros e levaram-no preso.

Costumo dizer que não consigo fazer mal a ninguém. Mas essa D Julieta era uma das poucas pessoas a quem seria capaz de fazer mal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:22

Inspecção para a tropa

por António Tavares, em 07.04.17

Inspecção militar

Estava eu já em Lisboa a trabalhar quando o patrão me pediu para entregar o certificado de habilitações do liceu, para poder tirar a cédula de Ajudante de Despachante. Não tinha. Tinha feito os exames no liceu de Leiria mas nunca me tinha passado pela cabeça pedir o certificado.

Nesse ano de 1968 (ano da minha maioridade – 18 anos) tinha arranjado o primeiro emprego e a minha mãe tinha dado o meu nome para a tropa.

Tive que pedir um dia no trabalho para me deslocar a Leiria para pedir o certificado do 5º ano. Apanhei o comboio da linha do Oeste na estação do Rossio e aí vou eu. Cheguei a Leiria já passava das 11 horas. Entre descobrir como chegar ao liceu, andar a pé e apanhar a carreira, cheguei mesmo a tempo antes de fechar para o almoço.

Entreguei o requerimento, paguei e dizem-me assim:

- Agora venha cá daqui a 8 dias buscar o certificado.

Passei-me. Fiz uma birra daquelas. Exigi falar com o director. Recusei-me a abandonar as instalações.

- Oiçam: peço um dia no trabalho em Lisboa, chego aqui a estas horas e ainda me exigem que tenha que pedir novo dia de folga para a semana que vem para cá vir buscar o certificado? Ainda por cima eu sem ele não posso trabalhar porque não me dão a cédula profissional! Não saio daqui  sem levar o certificado.

Sentei-me nas escadas. Quando o director ia a sair para almoçar disse-me:

- Vá lá almoçar e passe às 3 horas para buscar o certificado.

Vitória! Mesmo assim foi à justa que apanhei o último comboio para Lisboa.

Dois anos depois fui chamado para a inspecção militar. Lá tive que pedir um novo dia de folga para ir à inspecção em Abrantes.

Lembro-me dos meus tempos de primária quando os mancebos chegavam a Cardigos em grupos vindos da inspecção militar: os que ficavam apurados compravam um foguete e lançavam-no na praça pública. Toda a gente tinha que ficar a saber da sua saúde e vigor físico. Mesmo sabendo que era a porta aberta para ir parar com os costadas à guerra de África. Os que ficavam excluídos vinham tristes e acabrunhados. Triste ironia.

No meu caso fui sozinho de comboio. Claro que fiquei apurado e só me ficou a recordação do almoço numa tasca do Rossio ao Sul do Tejo: peixinhos do rio fritos com arroz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:18

Pág. 2/2



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D