Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Novo aerograma para a minha neta

por António Tavares, em 09.10.17

Novo aerograma para a minha neta

Maria Clara. Hoje, a poucos dias de completares 9 meses, foste pela primeira vez à escola. Era para teres começado já na semana passada, mas apanhaste uma virose que depois pegaste aos teus pais. Mas tu és valente. Com 39,5 de febre comias e rias-te para nós. Os teus pais, com menos, caíram à cama.

Ficaste pouco tempo. Parece que ainda passaste pelo sono. Mas quando os teus pais chegaram para ver como estavas, já a educadora estava para lhes ligar para dizer que tu não te calavas. Não faz mal. É só o primeiro dia. Mas tens que te habituar porque eles só têm uma semana para te ajudar na ambientação.

Tens que crescer depressa. Não faz sentido ser o teu pai a carregar a tua mochila. Tens que ser tu. E eu estou ansioso para que te reboles comigo no chão a brincar. Riste-me muito para mim. Puxas-me os bigodes, queres arrancar-me os olhos e tentas tirar-me o boné da cabeça.

Tenho muitas histórias para te contar. Vamos ser grandes amigos: tu e o avô bigodes…

Quarto das bonecas.jpg

Olha só o quarto das bonecas que a avó tem na Casa da Praia para tu brincares!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:37

Aerogramas especiais

por António Tavares, em 22.01.17

Aerogramas especiais

Uma das minhas incumbências como Oficial da CCS/QG de Nampula era imprimir as ordens de serviço para o dia seguinte.

Havia um soldado encarregue de datilografar sobre stencil de cera as ordens que lhe eram entregues.

No fim do dia o stencil era colocado na máquina rotativa manual. Colocava-se tinta nos tinteiros e vai de dar à manivela.

Com a minha mania de estar sempre a imaginar fazer coisas novas pensei aproveitar a aquela tecnologia para imprimir aerogramas especiais para distribuir pelos soldados.

Com uma caneta especial de ponta de aço desenhava sobre o stencil de cera bordaduras alusivas a dias festivos como Natal e Páscoa. A caneta não fazia mais que rasgar a cera nas zonas por onde passava. Era o mesmo que faziam as teclas da máquina de escrever. Rasgavam a cera. Depois, na rotativa, a tinta passava por essas ranhuras para os aerogramas colocados no alimentador.

Desta maneira cumpri melhor a minha missão de dar apoio aos meus soldados e de lhes proporcionar mais algumas alegrias.

 

CCS/QG: Companhia de Comando e Serviços do Quartel General. Era a companhia que prestava todos os serviços de apoio ao Quartel General

Aerograma1.jpg

 Estes foram desenhados por mim

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:26

Aerograma para Maria Clara

por António Tavares, em 22.01.17

Aerograma para a Maria Clara

Acabaste de nascer há poucas horas. Sei que a tua vinda a este mundo não foi um mar de rosas. Mas já venceste a tua primeira batalha. És uma lutadora. Sei que vais vencer.

Estou aqui à tua espera porque temos muitas brincadeiras para fazermos juntos. Tenho muitas histórias para te contar.

Daqui a alguns anos quando leres estas linhas vais perceber que o teu avô também foi um lutador. A minha vida também não foi um mar de rosas.

Vou só contar-te agora um episódio das muitas histórias que tenho para te contar. Claro que não me lembro do que aconteceu. Mas vou cantar-te tal como a ouvi contar dezenas de vezes ao meu pai, quando nos juntávamos e ele já tinha bebido um ou dois copitos.

Nasci numa família numerosa na aldeia de Casalinho, freguesia de Cardigos. Era o quarto filho de uma família que chegou a ter 11.

Quando tinha 3 a 4 anos já havia outros mais pequenos. Eu deixei de ser o centro das atenções.

Sempre fui muito rebelde. Possivelmente aquilo a que chamam hoje hiperactivo.

O teu bisavô José Maria era mestre-de-obras. Saía todos os dias com a lancheira às costas para andar a pé 7 quilómetros para ir trabalhar nas obras em Vales. Porque era uma terra de ricos recém regressados do Congo Belga que se tornara independente. Vinham cheios de dinheiro e todos queriam fazer obras.

Nós ficávamos sozinhos em casa com a nossa mãe, onde havia pouca coisa para nos entretermos.

Eu adorava deambular pelos campos e subir às árvores.

Parece que um dia estando sozinho subi a uma oliveira. Em baixo estavam vários troncos de pinheiro ainda com restos de ramos cortados. Caí desamparado em cima dos troncos e espetei um desses ramos na cabeça. Levantei-me a cambalear e corri para a aldeia. A primeira pessoa que encontrei foi a  ti Joaquina sentada na soleira da porta. Atirei-me ensanguentado para o colo dela e desmaiei.

Chamaram o meu pai. Levaram-me de táxi ao médico a Cardigos. Ele viu-me e disse de imediato: é preciso levá-lo para o hospital em Abrantes.

No hospital levaram-me para o piso de cima. O meu pai ficou no piso de baixo e aí se manteve durante 8 dias enquanto eu lutava entre a vida e a morte.

Ao fim de 8 dias, como não havia evolução do meu estado, os médicos desceram para avisar o meu pai que me iam operar. O meu pai disse várias vezes que não queria que eu fosse operado, que me iam matar. Mas os médicos não quiseram ouvir e foram-se preparar.

O meu pai esgueirou-se escadas acima para me olhar para mim mais uma vez.

Quando se chegou à porta do quarto eu estava sentado na cama e disse-lhe: pai, a mãe não está aqui.

O meu pai nem me disse nada. Correu escadas abaixo e disse para o médico: senhor doutor, já não é preciso nada. O meu filho já fala e eu vou levá-lo já.

Embrulhou-me num cobertor, chamou um táxi e aí vamos nós de volta ao Casalinho.

Até hoje.

Parece que a minha madrinha já tinha encomendado a urna e estava a fazer os panos da mortalha.

Como vês também venci esta batalha e muitas mais que quero contar-te. A tua avó Fernanda também venceu algumas batalhas, que um dia te contarei.

Sei que os teus avós da Rapoula também têm muitas histórias. A tua mãe vai contar-tas um dia.

Força.

Estamos todos à tua espera.

Casalinho.jpg

O mais longe que vai a minha memória. A minha mãe e os seus pais há mais de 100 anos. Os primeiros 4 filhos (eu de caracóis). Na eira a descamisar o milho: a mãe no meio, a avó e o avô maternos á direita e o rebanho espalhado.

 Familia anos 60 em Cardigos.jpg

 Familia algures nos anos 60 em Cardigos

Familia na Casa da Praia.jpg

Familia na Casa da Praia anos 80

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:11

Primeiro aerograma

por António Tavares, em 18.01.17

Aerograma

Aerogramas eram aquelas folhas A4 recortadas e prontas a serem escritas. Em cores pastel suave, normalmente amarelo ou então verde ou azul. Bastava dobrar em forma de envelope, lamber a cola, colar e endereçar.

Depois era só meter na caixa do correio mais próxima, que passado mais ou menos tempo chegariam ao destino.

Foram criadas pelo Movimento Nacional Feminino para facilitar a comunicação entre os militares da guerra colonial e os seus familiares. Eram distribuídos gratuitamente, podendo ser utilizados de cá para lá, mas era sobretudo em África que os nossos rapazes sentiam a sua verdadeira importância.

Não era necessário escrever o endereço do militar a que se destinava. Bastava indicar o nome e o seu número do SPM. Cada destacamento militar tinha um número com 4 dígitos que identificava a sua localização exata. Os Serviços Postais Militares lá se encarregavam de fazer chegar o aerograma ao destino.

A chegada do correio aos mais recônditos lugares da África Portuguesa era normalmente altura de grande sobressalto. Todos esperavam ansiosos que os seus nomes fossem chamados. E os momentos seguintes eram sempre ou de muita alegria para uns ou de grande tristeza e desânimo para outros.

Tudo servia para incentivar os contactos com os nossos militares. Nas terras do interior de Portugal pedia-se às raparigas para serem Madrinhas de Guerra e escreverem aos rapazes da terra. Alguns militares já levavam de cá uma lista de madrinhas para se corresponderem. Outros punham anúncios na Crónica Feminina ou nos jornais.

Por vezes o pedaço de papel menor que uma folha A4 (e só de um lado) era muito pouco para escrever todas as saudades, todas as alegrias, tristezas e medos sentidos. Então escrevia-se com letra fina para conseguir escrever mais e prolongavam-se as palavras pelas margens, por fora e por dentro. Todos os cantinhos eram utilizados.

Vou aproveitar os meus momentos de bonança para vos ir escrevendo aerogramas com as minhas recordações, antes que se apaguem da minha memória. Vou escrevendo aos poucos, à medida que as lembranças me forem chegando. O problema é que elas são muitas, misturam-se no tempo e no espaço, entrelaçam-se umas nas outras, confundem-se e confundem-me. Mas se no fim de tudo sobrar uma lembrança, uma recordação, um afeto, já terá valido a pena. Não é possível esquecer. Eu não quero que nem vocês nem ninguém se esqueça. Eu vi! Eu estive lá!

Assim, meus filhos e netos, podem um dia relembrar a vida do vosso avô. E se acharem que ela tem alguma coisa para vos ensinar aproveitem.

É este o livro que vos vou deixando aos poucos.

O livro da minha vida…

Aerograma.jpg

Cartas e aerogramas aos molhos

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:17


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D